NOPHAIE


Coleco Zane Grey - 19


 ZANE GREY


Agncia Portuguesa de Revistas


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Este Livro foi digitalizado para
ser lido por Deficientes Visuais


Lembravam muralhas de colunas rolantes, como as nuvens que flutuavam mansamente no cu. Nophaie olhava para elas, perdido numa contemplao muda e pasmada. De todos os dons da vida, o dom de ver era o mais alto. Mas os olhos do esprito podiam adivinhar o infinito... E, enquanto ele olhava para a altura, a luz do sol continuou a realizar o milagre das suas transfiguraes. Vida da cor - alma subtil dos tons - smbolo de tudo o que  belo e efmero! O encantamento daquele instante era como um sorriso da natureza.
Nophaie criou no seu esprito a paisagem que poderia ser vista das alturas; imaginou-se dispondo dos olhos penetrantes da guia. Sob o seu olhar agudo estendiam-se os desfiladeiros escuros, as colinas vermelhas, as muralhas doiradas, um mundo quebrado de rochas partidas, nuas e ondulantes. Sobre uma das arredondadas colinas de rocha erguia-se o vulto isolado de um homem - o ndio Nophaie - estranho, lamentavelmente pequeno, um tomo apenas entre os grandiosos monumentos da natureza imvel. Ele era o mistrio da vida lanado no meio daquele cenrio das Idades da terra. Como um marinheiro naufragado, de p sobre a ponte do barco que sob ele se afunda, o ndio olhava em pasmo para as montanhas eternas e gigantescas. Face de pedra rebrilhante de luz! Silenciosa muralha feita de mil muralhas!


TTULO ORIGINAL The VANISHING AMERICAN


Traduo do ingls de RAUL CORREIA


Edio de Aguiar & Dias, Lda.


Agncia Portuguesa de Revistas


Lisboa


I.


Ao nascer do sol, Nophaie conduziu para fora o seu rebanho de ovelhas e de cabras, na direco do deserto, levando-o para os declives cobertos de mato rasteiro. O ar de Abril era leve, e fino, impregnado do cheiro seco das terras altas. "Taddy" e "Tinny", os seus dois ces de gado, tinham atentos os olhos e prontos os ladridos de aviso para os descuidados transfugas do rebanho. Vultos magros e cinzentos de lobos e silhuetas amarelo-escuras de gatos selvagens moviam-se furtivamente entre o mato, como sombras.
Nophaie olhou para leste, onde, sobre a grande muralha abrupta de pedra avermelhada, o cu mudando de um tom de rosa para um tom de oiro, e um esplendor de luz parecia prestes a invadir toda a terra. O instinto de Nophaie dizia-lhe que ficasse ali durante um momento, a olhar, numa espera vazia de pensamentos. As portas de todas as cabanas da sua aldeia abriam-se na direco do sol nascente. A sua gente adorava o sol, os elementos, tudo o que havia na natureza.
Ficou parado, imvel. Era um pequeno ndio de sete anos, alto e delgado. A sua face escura voltava-se para leste, os seus escuros olhos fitando com grave solenidade aquele ponto do cu de onde sempre vinha toda a luz e todo o calor. Uma das suas mos esguias, de pele acastanhada, segurava a manta em volta dos seus ombros, enquanto a outra empunhava o arco e as flechas.
o redil paterno, atento em cada instante aos animais de presa que espreitavam o gado.
Ele parecia fazer parte daquela terra deserta, daquela terra de tons purpurinos e vermelhos. Tinha nascido sob a sombra da muralha gigantesca, da montanha maravilhosa que se prolongava em linhas sinuosas, de leste para oeste, atravs da imensa vastido do deserto infindvel. Nessa muralha, as aberturas eram desfiladeiros, extensas gargantas sombrias; as rochas isoladas eram obeliscos e monumentos, grandes agulhas de pedra vermelha que subiam para o cu, ousadas, feitas de uma s pea, poderosas, esculpidas pelo vento, pela areia, pela geada. Entre essas muralhas e monumentos estendia-se o terreno arenoso do deserto, manchado de cinzento pelo mato rasteiro, com tons de verde-cinza marcando as superfcies onde crescia a erva - e a que a distncia emprestava tonalidades de prpura.
Naquela Primavera os cordeiros tinham nascido cedo - demasiado cedo para o frio ainda mordente e vivo das madrugadas. Alguns deles tinham morrido. Muitos, pequeninas criaturas brancas e rosadas, haviam sido carinhosamente envolvidos na manta de Nophaie e aquecidos, cuidados at que o calor do sol deixasse que, sem perigo, pudessem ser restitudos s mes. Os cordeiros e as ovelhinhas tinham agora j alguns dias de idade; pequenos vultos j cobertos de l crespa e bastante crescidos para brincarem entre o mato. Alguns eram de um negro intenso, muitos outros completamente brancos, e outros ainda tinham lindas manchas, pontos de negro sobre branco, quatro patas pretas, duas negras orelhitas espertas. Um era totalmente branco, s com a cabea de um preto retinto; outro era todo negro, com uma pequena cauda to branca como a neve. O silncio morto da madrugada no deserto era muitas vezes cortado pelo balido agudo e meigo dos cordeiros. Nophaie ia com eles, sentando-se de longe em
longe sobre uma pedra lisa, sempre alerta, sempre de ouvido atento, sentindo a natureza. A sua tarefa era isolada e solitria, mas ele no dava conta disso.
O rebanho ia avanando lentamente, massa ponteada de branco que se movia sobre a terra cinzenta, mordendo o mato, tasquinhando a erva. "Taddy" e "Tinny" corriam de c para l, e raras vezes se ouvia o seu ladrar de aviso. Nophaie seguia vagarosamente atrs, calado, pensativo. Uma guia desprendeu voo do seu ninho alcandorado nas alturas de pedra vermelha e desceu como um raio sobre o rebanho at que viu o pequeno ndio vigilante; ento subiu de novo, cada vez mais alto, as asas longas livres e abertas, e seguiu o seu caminho pelos cus, um escuro vulto em arco a recortar-se sobre o fundo azul. Um "coyote" soltou o seu uivo de fome, agudo e desolado. Nas penedias o vento passava atravs dos desfiladeiros entoando uma espcie de estranha cano, doce e selvagem.
O sol subia, sempre mais alto. A orla doirada da luz que marcava os cumes da muralha e os planaltos, alargava-se de rocha em rocha ao longo das vertentes, absorvendo as sombras. As arestas geladas da madrugada amoleciam e fundiam-se sob o calor do dia. E de novo o deserto ia mudando. Sombra, e cor, e frescura pareciam derreter-se sob uma luz violenta, intensa e absorvente.
Nophaie no era diferente dos outros rapazes ndios, a no ser pelo facto de que os traos dominantes da sua tribo e da sua raa pareciam nele mais marcados e mais ntidos. A sua herana era a de um chefe. Sua me tinha morrido quando ele nascera, murmurando estranhas e msticas profecias. O velho feiticeiro e os homens sbios da tribo tinham-se reunido  sua volta durante a nica doena da sua infncia, e haviam espalhado as suas pinturas de areia sobre uma rocha lisa,

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e tinham-se maravilhado ante a sua rpida cura, predizendo para ele grandes e desconhecidas faanhas. Chamaram-no Nophaie, "O Guerreiro".
Atravs de canes, e de histrias, e de danas, as tradies da sua tribo ficaram para sempre gravadas na sua mente sensvel. A coragem dos bravos, a fora dos ndios na guerra, eram memrias do passado. Mas o esprito conservava-se intacto. Ensinaram o rapaz a compreender a natureza de um guerreiro, e a venerar seu pai e a longa linhagem de chefes dos quais ele descendia. Mesmo antes de aprender a andar, Nophaie tinha sido iniciado nos segredos da vida nos grandes espaos abertos e livres. Pssaros, lagartos, escorpies, cobras, ces da plancie e coeLhos - esses e todas as pequenas criaturas selvagens do deserto, tinham-lhe sido trazidos para que ele os domesticasse, para que brincasse com eles, para que os estudasse e aprendesse a am-los. Assim, muito cedo, a cor brilhante e intensa da vida do deserto ficou gravada no seu pequenino crebro. O amor da beleza natural, que nele era inato, bem cedo teve oportunidade de evoluir e desenvolver-se. Os hbitos e as maneiras de viver de todas as criaturas do deserto tornaram-se parte integrante do aprendizado da sua infncia. Da mesma forma a verde cobertura da terra, em toda a sua beleza e significado, cedo ocupou lugar de suprema importncia no seu entendimento - as relvas, verdes na Primavera, pesadas e pendentes no fim do Vero, de um branco amarelado no Outono; os matos, permanentemente cinzentos, com o seu cheiro agridoce e penetrante; os cactos, venenosos, ainda que carregados de frutos, com as suas cores de vermelho e rosa vivo; os arbustos rasteiros e carminados; as ervas do deserto, todas com a sua utilizao e o seu valor; as flores nos fundos dos desfiladeiros; os musgos que cresciam sobre as pedras hmidas no sop ensombrado das penedias;

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os lquenes e as vegetaes miudinhas que se desenvolvem por detrs das folhas dos arbustos; os cedros de bagas cor de prpura e os pinheiros selvagens que brotam nas terras altas; e, nas montanhas, os altos e majestosos pinheiros abertos, castanhos, de grande e nobre porte, dominando as alturas. Depois, Nophaie comeou a aprender a necessidade, a excitao e o encanto da caa. Mais tarde as suas prprias proezas como caador permitir-lhe-iam sobreviver. As pistas, os rastos, os sons e os cheiros de todas as criaturas do deserto que o rodeava, tornaram-se-lhe to familiares como as coisas que existiam na sua cabana.
Nophaie caminhava com o seu rebanho, atravs do mato e da areia, sob o silncio das poderosas torres de pedra vermelha. Sentia-se feliz, de um modo inexprimvel e quase inconsciente, porque vagamente compreendia que estava em harmonia perfeita com a realidade e o esprito da natureza da qual fazia parte. Vagueava por uma encantada regio de mistrio, sobre a qual o Grande Esprito lanava o seu olhar benevolente e luminoso. No tinha cuidados, nem necessidades, nem egosmo. Apenas de um modo vago ouvira falar na ameaa dos homens brancos que se iam espalhando sobre as terras dos ndios. Poucas eram as criaturas dessa raa que ele tinha at ento podido ver.
Assim Nophaie seguia com o seu rebanho atravs das veredas do mato, contente e meditativo, observando, ouvindo, sentindo, a sua mente cheia de sonhos e de esperanas, de canes e de lendas, de toda a infinita beleza e poesia da sua vida simples.
Como era isolada aquela vasta extenso de terra coberta pelo mato, cor de prpura, que se abria a partir das escarpas enormes de rocha vermelha! Como eram silenciosas,

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de um silncio de morte, as muralhas to altas que o sol iluminava! Como era solene, austero e grave o prprio dia! Mas Nophaie nunca se sentia isolado. A solido era uma palavra vazia de sentido. O ar macio e doce que ele respirava estava cheio de murmrios de espritos. Acima da muralha vermelha, para oeste, erguia-se uma cpula branca e preta - o pncaro de um monte, coberto de neve, orlado de pinheiros - e alm era Nothsis Ahn, o lar de Utsay, deus dos ndios. Ali ele vivia com Utsay Asthon, sua mulher, e ambos tinham, com uma bola de fogo, feito o sol - como tinham feito tudo quanto existia. Uisay era o Grande Esprito, e muitas vezes, atravs das pinturas de areia que eles espalhavam sobre rochas lisas, Utsay comunicava com os feiticeiros das tribos. Naquela manh, quando, ao nascer do sol, tinha olhado para a cpula branca e negra da montanha, Nophaie murmurava uma orao para o seu Grande Esprito.

"Grande Chefe da montanha branca e resplandecente,
conta-me os teus segredos para que sempre o Bem
possa ir onde eu vou, seguindo  minha frente.
Dize que atrs de mim h-de ficar tambm
um Bem igual; e que abaixo de mim esse Bem esteja.
Dize que sobre mim o mesmo Bem amigo me acompanhe - e que eu por toda a parte o veja.
Dize-me que o Eterno e Todo-Poderoso
ser misericordioso comigo.
Tu, que s o Chefe de tudo o que  bom e permanente, dize-me que o Bem vive a meu lado nesta hora e que o deus da sabedoria me deixar falar sensatamente.
Dize-me que tudo  bom agora, que tudo  bom agora,
que tudo  bom agora, que tudo  bom agora..."

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E Nophaie acreditava que em volta dele s havia o bem, que o bem estava com ele prprio, que a sua orao tinha sido ouvida e respondida. Os rumores do mato eram uma voz; o brando roar do vento frio na sua face era o beijo de um esprito invisvel e bom, que velava por ele; a rocha subtil e amiga, que vinha do deserto em seu redor. Quando um falco voou baixo sobre a sua cabea, ele ouviu o rudo das asas - que eram tambm movidas pela Fora em que ele tinha f. A luz, envolvendo tudo, era o sorriso de Utsay, contente com o seu povo. Nophaie deu um passo de lado para no pisar uma flor silvestre que desabrochava entre o mato sombrio. Atravs das largas ptalas brancas ele via os olhos dos seus parentes mortos que por ele vigiavam, atentos, l do alto - l onde se alongavam os campos das Caadas Felizes. Andaria ele, direito? Falaria ele direito? O amor dos seus mortos continuava a viver, e era eterno. Para Nophaie e para a sua gente os espritos no morriam. No havia maldade seno nos pensamentos de cada qual, e pensar mal de si mesmo, ou dos outros, era um pecado. Pensar o mal - fazia acontecer
o mal.
Assim Nophaie caminhava ao longo das veredas do mato, orgulhoso e altivo como uma guia nova, livre e estranho, sonhando os sonhos que tinham sido construdos pelos homens sabedores da sua tribo. Aos sete anos de idade ele havia comeado a compreender o que significava ser um chefe, a entender que um chefe deveria ser, algum dia, o salvador do seu povo. De nada ele gostava mais do que de estar s, no deserto, escutando os sons reais do espao livre e os silenciosos murmrios da sua alma.  sombra das cabanas, entre os rapazes e as raparigas que viviam perto dele, ele era simplesmente Nophaie. Os outros invejavam-no. Contrariava-os a sua importncia. Mas no deserto, durante as frias e rseas madrugadas, o calor pesado e solene do meio-dia e os poentes

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doirados quando o crepsculo descia mansamente e as estrelas brancas sorriam para ele no azul aveludado do cu - ento Nophaie podia ser ele prprio, podia ouvir, e sentir, e saber como os quatro ventos do paraso sussurravam palavras sobre o seu futuro, e como ele mesmo encontraria o remdio para salvar o seu povo.
Nophaie no ia s. Espritos inumerveis acompanhavam passo a passo os seus passitos leves. O mato era um tapete de prpura, perfumado e doce, atravs do qual perpassava o suspiro baixo e macio do vento. As correntes de gua, pouco profundas, murmurando e serpenteando sobre a areia vermelha dos seus leitos, sublinhadas de branco ao longo das suas margens, falavam a Nophaie das neves do Inverno, que comeam agora a derreter-se nas alturas, da gua que o rebanho havia de beber durante o Vero, da benevolncia infinita de Utsay. Para oeste, para leste e para o sul erguiam-se os deuses de pedra vermelha que pareciam mover-se quando ele se movia, debruar-se sobre ele e dar-lhe sombra quando ele parava, observ-lo com as suas faces de rocha, impassveis e calmas. Apesar de distantes, eles pareciam estar perto. Nas suas secretas cavidades de pedra acolhiam-se as almas dos ndios - to numerosas como os pequenos seixos brancos ao longo da corrente. O rpido passar de um pssaro branco, na sombra de uma garganta da rocha, era uma mensagem para Nophaie. O brilho das agulhas de gelo que se fundira, brancas e puras, eram as lgrimas choradas por sua me que para sempre pairava perto dele, caminhando em esprito com ele ao longo das veredas do mato, seguindo-lhe os passos. O sol, a lua, as rochas suspensas que faziam pensar em faces humanas, o triste crocitar do corvo negro, o rastejar das cobras, a aranha que tecia sobre ele a sua teia escura, o pssaro que cantava  luz do sol - todos estabeleciam uma estranha comunho com nophaie. todos eram seus mensageiros. E em redor dele, sobre ele,

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no grande silncio, entre as gigantescas muralhas de pedra, no imenso claro da intensa luz do sol, parecia haver uma vida em harmonia com a dele, uma vida eterna e sem voz, que ele sentia mas no podia ver.
Perto do pr do sol, Nophaie estava bastante longe no deserto e havia inumerveis agulhas, e planaltos, e massas de arestas de rocha entre ele e o esplendor doirado e purpurino do oeste. Voltando com o rebanho em direco  sua aldeia, Nophaie tinha olhos atentos para o panorama colorido do poente, l onde o sol parecia descer sobre um leito de nuvens que resplandeciam transfiguradas. Um cenrio, que de algum modo condizia com as suas vises, coroava a cpula do velho Nothsis Ahn e descia para alm, brilhando por detrs das flechas e pilares de rocha que rasgavam a luz do horizonte. O sol mergulhava atravs de montanhas de nuvens, brancas e prateadas onde a luz as tocava, doiradas no centro do poente e com tonalidades de prpura onde os rolos de vapor se adensavam em ondas acasteladas, pesados e lentos, roando a linha azul do ocaso distante.
Enquanto Nophaie olhava num xtase do seu corao imaginativo e sonhador, deu-se, num momento, uma transformao maravilhosa. O sol mergulhou a parte inferior do seu disco numa nuvem franjada de branco, enchendo todo o esplendoroso panorama com um claro de fogo onde havia tons de rosa, tons de opala e tons de oiro. Uma luz, que fazia pensar num imenso farol do universo, brilhou atravs do cu, de oeste a leste onde os reflexos violetas e lilses tomaram uma viva cor doirada. Sobre a maravilhosa irradiao do poente destacaram-se as agulhas de rocha vermelha, recortadas pelo brilho polido da luz, escuras e ntidas, irreais como enormes deuses de pedra, imveis mas vivos.
O ladrido de aviso de um dos seus ces atraiu a ateno de Nophaie, distraindo-o da sua contemplao do poente.

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Um grupo de homens lhbrancos, a cavalo, vinha perto dele. Alguns desses homens lanaram as montadas a galope e cortaram o caminho do rapaz. Os outros aproximaram-se. Dispunham de cavalos de muda, animais selvagens cobertos de poeira e de espuma, e traziam mulas de carga pesadamente carregadas. Todos, homens e animais, pareciam esgotados.
Nophaie tinha visto at ento poucos homens brancos.. Nenhum dos que conhecera o havia maltratado. Mas, naquele momento, reconheceu por instinto que aqueles homens eram perigosos para ele.
- Precisamos arranjar carne!... - disse um homem de face escura.
- Bem, temos de encontrar a "squaw" a quem pertence o rebanho, e comprar o que precisamos... - sugeriu outro.
- Moze, tu sabes tudo... - resmungou um terceiro. - Porque h-de ser uma "squaw"?
- Porque as "squaws" so sempre as donas das ovelhas... - explicou o segundo que falara.
Aqueles homens do deserto estavam cansados e esfomeados, e talvez tambm no fossem gente honesta, a julgar pelos cavalos de muda, j selados e prontos, que conduziam com eles. Mais de uma vez olharam furtivamente para leste, atravs do mato. Nas caras deles havia uma expresso impaciente e maligna.
--No temos tempo para isso... - disse o da face escura.
Os ndios no vm atrs de ns. Eu digo que mais vale perder algum tempo e comprar a carne.
- Sim, e no tardas a dizer para darmos tambm de comer aos cavalos... - comentou o homem chamado Moze. - D-se com uma coisa na cabea do mido, apanham-se uns tantos cordeiros e pomo-nos a andar! Isto  o que eu acho!
A opinio de Moze pareceu ser bem recebida por alguns dos homens do grupo.

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A ideia dominante era andar
depressa.
Nophaie no podia entender a lngua deles, mas percebeu que corria perigo. Num movimento sbito esgueirou-se entre os cavalos e, rpido como um gamo, embrenhou-se no mato.
- Eh! Apanhem o garoto!... - gritou uma voz autoritria.
Um dos homens esporeou o cavalo e, galopando sobre Nophaie, estendeu uma larga mo e agarrou-o, atravessando-o na sela  sua frente. Nophaie ficou pendurado, quieto.
- Bill!... - disse o chefe. - No tem nenhum jeito fazer mal ao petiz! Esperem, todos vocs!
Era um homem alto, delgado, seco e de cabelos grisalhos, com olhos de falco. Atravessou o mato e foi at os pilares de pedra. No havia ndios nem cabanas  vista. Ento falou de novo:
- Bill, toma conta do garoto! Alguns de vocs conduzam o rebanho para a frente! H gua a adiante, em qualquer lado. Havemos de encontr-la e a acamparemos!...
- Hum!... - resmungou o homem chamado Bill, com uma expresso de contrariedade. - Para falar com acerto que ideia  essa de levar este mido com a gente? Ele pesa, chefe!
- No  decente dar cabo dele sem motivo, e  conveniente impedi-lo de voltar esta noite para casa.
- Est bem, quem manda  voc! Mas que eu coma um punhado de mato seco se os ndios no vierem da mesma maneira atrs de ns!...
- s um tipo esperto, Bill... - respondeu o outro. -Talvez a famlia do garoto encontre amanh a nossa pista, mas eu tenho um palpite que no...
Nophaie seguiu pendurado sobre o cavalo durante vrias milhas,

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antes que o atirassem para o cho como um saco vazio. O bando tinha parado para acampar durante a noite. As mos e os ps de Nophaie foram amarradas com uma corda de lao. Ouviu o balir das ovelhas e o rumor surdo das suas patas quando o rebanho foi conduzido para longe, no deserto. Um dos homens deu-lhe de comer e de beber; outro estendeu sobre ele uma larga manta. O medo de Nophaie diminuiu, mas no seu corao nasceu uma escura herana de dio. No dormiu naquela noite.
Ao romper do dia o bando ps-se a caminho, cavalgando sem repouso em direco ao sul, e Nophaie no teve outro remdio seno ir com eles tambm. Quando pararam de novo a noite vinha prxima. Os homens pareciam agora mais tranquilos e j tinham deixado de olhar para trs, por cima das ondulaes de terreno onde crescia o mato cor de prpura, ou ao longo das veredas que os cedros marginavam. Continuavam a evitar as aldeias dos ndios e afastavam-se sempre dos caminhos batidos. No dia seguinte alguns do bando falaram em deixar Nophaie em liberdade. Mas, uma vez mais, a vontade do chefe ops-se  deles.
- Isto por aqui  demasiadamente isolado e distante de tudo. No quero que o garoto se perca e morra de fome...


* * *

Passou um dia mais. Ento, perto do meio-dia, os homens mandaram embora Nophaie, apontando-lhe uma vereda que conduzia a um distante acampamento ndio. Tinham-no tratado com uma espcie de bondade rude, inconscientes do papel que representavam na marcha do destino. Mas Nophaie nunca chegou s cabanas dos ndios. Um outro grupo de gente branca o encontrou. Eram diferentes dos primeiros, com outro aspecto, outra maneira de falar. Viajaram ,por prazer, percorrendo o Oeste, jornadeando atravs das reservas onde viviam os ndios.

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Tinham carros cobertos e cavalos de sela, que eram cuidados por homens do Oeste, guias e batedores. De novo Nophaie tentou escapar-se, mas um dos cavaleiros apanhou-o- e levou-o  presena de um grupo de mulheres que vinha na caravana.
- Que lindo rapazinho ndio!... - exclamou uma delas.
- Levemo-lo connosco!... - disse outra.
Havia entre elas uma de mais idade, que observou Nophaie durante um momento. Na sua expresso havia mais alguma coisa do que simples curiosidade. Ela tambm sorria de um modo gentil e bondoso. Pensou que tinha tomado uma nobre resoluo.
- Rapazinho ndio, vou levar-te comigo e pr-te numa escola.
Levaram Nophaie com eles,  fora. Levaram-no para longe do deserto, para muito longe, para Leste.
Assim Nophaie viveu e estudou nos colgios e nas Universidades dos homens brancos, durante dezoito anos.


II.


Enquanto o comboio se ia aproximando da cidade do Oeste para onde ela se dirigia, Marian Warner ia pensando que aquela viagem no era um sonho, que em verdade era como o primeiro acto de uma liberdade que ela sempre desejara, o primeiro passo da sua grande aventura. Toda a excitao, e emoo, e sentimento de audcia que tinham vivido latentes dentro dela, pareciam agora avolumar-se, transformar-se numa impresso mais forte, quase de pnico.
Tinham decorrido longos, largos dias de viagem desde que ela entrara no comboio, em Filadlfia. As caras dos amigos,

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a de sua tia - os poucos a quem ela era cara - tiniham-se desvanecido pouco a pouco, como se cada volta das rodas do comboio lhe fosse amortecendo a memria ao mesmo tempo que acrescentava o afastamento e a distncia. Ela mal avaliava at que ponto tinha cortado as suas amarras, at que ponto decidira deixar-se levar pela corrente da vida... Mas tinha guardado o seu segredo at o fim.
Num ponto perdido l para trs, ao longo do caminho, no ponto em que ela havia atravessado a fronteira daquela regio de desertos, comeara a ter conscincia de um reviver dos seus sentimentos largo tempo adormecidos. Teria o seu corao sido acordado pelo primeiro olhar com que ela descobrira a vastido branco-acinzentada do deserto? Ou seria aquela linha de penedias vermelhas e amarelas - ousada barreira de rochedos que pareciam irreais? Tudo despertava nela uma estranha emoo, ao mesmo tempo vaga, profunda e maravilhosa. Corria o ms de Abril. Havia no cu nuvens cinzentas, e na plancie as ervas dobravam-se sob o sopro do vento. Rolos de poeira amarelada erguiam-se da terra e rodopiavam no ar. Aquela era bem uma regio desrtica, primitiva, hostil e dura! A sua imensido enchia-a de espanto e de medo. Milhas e milhas de terreno estril - rochas - plancies cinzentas - montanhas escuras na lonjura - e outra vez aquelas estranhas muralhas de penedia vermelha! Poucos e largamente distantes uns dos outros eram os ranchos que avistava. E as manadas de gado que de longe em longe se viam, pareciam perdidas na vastido da terra. Marian forou os seus olhos cansados, tentando descobrir cavalos ou cavaleiros, ou as manchas vermelhas das mantas dos ndios. Mas nada conseguiu ver.
Ento, como muitas vezes fizera durante a longa jornada, voltou a ler a carta que a decidira a vir para oeste.

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Oljato (Luar sobre a gua) 1 de Fevereiro de 1916.

Querida Marian

As suas cartas e as suas prendas foram benvindas como as flores de Maio. No as recebi pelo Natal porque no fui a Kaidab. O tempo estava ento muito frio, e eu tinha de velar pelo meu nico parente. Ele estava doente nessa altura. Est agora
melhor.
Percorri a cavalo as noventa e muitas milhas de caminho at o posto, entre o nascer e o pr do sol, seguindo por atalhos que s os ndios conhecem. E durante toda a jornada pensei em si, no meu amor por si - que o tempo e a distncia tornam sempre maior. Lembrei-me do seu gosto por cavalos e do seu desejo de conhecer os largos espaos primitivos e isolados. E desejei que estivesse comigo.
Mas, apesar da alegria que me trouxeram as suas lembranas, o meu regresso do posto foi cheio de amargura. Eu fui novamente forado a entrar em contacto com as crescentes dificuldades da minha tribo e com o mundo dos homens brancos, esse mundo a que renunciei.
Marian, o meu povo est agora prspero. A libra de l custa cinquenta cntimos. Cavalos e ovelhas pagam-se por preos to altos que nunca os ndios sonharam sequer. A guerra trouxe com ela valores fictcios, mas a minha gente pensa que isto vai durar sempre. No economizam. Vivem o dia-a-dia e gastam tontamente o seu dinheiro. E, quando vier a reaco, eles ficaro pobres de um dia para o outro, ao mesmo tempo que os preos dos comerciantes, para a comida e para o vesturio, ficaro mais altos do que nunca.

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Estou aqui, agora, h quase um ano, e ainda no encontrei um s ndio que seja realmente cristo. Percorri toda esta parte das reservas onde eles vivem. Os ndios dizem-me que tm passado por l muitos missionrios verdadeiramente bons, entre aqueles que para l tm sido enviados. Homens brancos que so bondosos, que estudam as necessidades dos ndios, que os ajudam com as suas prprias mos; que poderiam, com o correr do tempo, conquistar a confiana deles. Mas, por uma razo ou outra, esses nunca se demoram muito por aqui.
E ns precisamos grandemente de ajuda. Venha para c, Marian, e trabalhe durante um ou dois anos entre a minha gente. Nenhum mal lhe poder vir disso - e pode fazer-lhes infinito bem, a eles. Pode ter um lugar de professora em Mesa, ou numa das outras escolas. Ningum saber que veio por minha causa.
As suas cartas trazem-me palavras de censura. Marian, eu no esqueci um s momento o nosso Vero em Cape May. Eu revivo a cada instante cada um dos encontros que tive consigo. E amo-a bem mais do que a amava ento. Parece-me que sou um velho, agora. A sabedoria veio ter comigo aqui,  minha casa do deserto, sobre a sombra tutelar do velho Nothsis Ahn. Nasci perto destas grandes montanhas. Quando era ainda um rapazito, fui levado do meu lar sobre a muralha de pedra vermelha. Voltei, dezoito anos depois. Queimei as minhas roupas de homem branco e os meus livros - at os registos dos meus jogos desportivos - tudo queimei menos o seu retrato. Vesti-me outra vez como um ndio, sou outra vez um ndio. Raras vezes falo ingls. E o meu nome j no  Lo Blandy, mas sim Nophaie.

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Eu era novo e cheio de vida, nesse Vero, em Cape May. Eu bebia as bebidas fortes dos homens brancos, Marian. Eu era festejado, lisongeado, procurado por todos porque me tinha tornado um atleta famoso - o grande jogador de futebol e de "base-ball", que tantos pontos marcara contra as equipas dos grandes colgios, que tantos triunfos construra. Eu danava e divertia-me da mesma maneira que os estudantes brancos.
Foi ento que a encontrei, Marian. Voc era diferente de quase todas as outras raparigas brancas. Amei-a logo que a vi, e respeitei-a sempre depois de conhec-la. Por sua causa deixei de beber - e para um ndio, deixar de beber "whisky" depois de o ter provado e apreciado, no  coisa de pouca monta. Mas eu amava uma rapariga branca! Eu - lembra-se, Marian? - chamava-lhe "Sob a Rocha", a rapariga branca de olhos azuis. E tenho a certeza de que a sua influncia me livrou da m sorte de muitos famosos atletas ndios - Sockalexis, por exemplo, que num curto ano arruinou a sua sade e a sua carreira.
Mas, quando voltei para o meu povo, fez-se em mim uma grande mudana. No no meu amor por si, mas na minha mocidade. Agora sou um homem, velho com estas colinas cobertas de mato, e aprendi muitas coisas com elas. Para mim era errado, era egosta andar atrs de si, am-la, beij-la - errado, embora esses fossem os momentos mais felizes da minha vida, embora a sua influncia fosse a melhor que se exerceu sobre mim, mas eu sou um ndio. Ento, quando voltei, esqueci todos os loucos sonhos que tinha podido sonhar. Vi que a vida da minha tribo era uma tragdia. A injustia para com os ndios  a mais negra das baixezas dos homens brancos.

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H muitos lados maus na obrigatoriedade de frequncia das escolas para as crianas ndias. Os maus missionrios so os apstolos do dio e da corrupo. As suas maneiras no so as maneiras dos bons missionrios. Eu sou um ndio educado - um chefe da minha tribo. Eu vejo a misria deles, vejo-os desaparecer, definhar-se como raa. No posso casar-me com uma rapariga ndia porque a amo, a si. No posso ter qualquer mulher porque a amo, a si. No posso ter filhos porque a amo, a si. Quando um ndio ama,  para sempre que ele ama. Mas  infinitamente mais fcil um ndio amar uma mulher branca do que ela amar um ndio. E eu no compreendo porqu.
Assim, Marian, aqui estou e j no sou Lo Blandy, mas Nophaie. O meu nome significa "Guerreiro". A areia vermelha que pisam os meus ps  uma parte dos ossos e da carne dos meus antepassados. Eu viverei aqui a minha vida, e os meus ossos juntar-se-o um dia aos deles. Farei pelo meu povo tudo o que eu puder fazer. Mas - ai de mim! - os dezoito anos de educao que os brancos me impuseram, apenas servem para que eu possa ver a misria e a runa inevitvel dos ndios.
Venha para Oljato, Marian - venha ajudar-me por algum tempo, ou venha apenas ver a beleza e a solido do meu lar, para que sempre depois, a sua memria fique cheia de cor, e da msica, e da grandeza, e do perfume desta terra dos ndios.

Nophaie.


Marian ps a carta de lado, e s naquele momento teve conscincia das suas emoes. De cada vez que a lia parecia-Lhe experimentar uma nova sensao de dor, de pesar, de saudade doce, de amor e de encantamento.

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- Nophaie, o Guerreiro... - murmurou ela como num sonho. - O nome fica-lhe bem...
Recordou-se da primeira vez que o tinha visto. Tinha sido em Cape May, onde um grupo de rapazes estudantes organizara jogos de "base-ball" com equipas visitantes, profissionais ou outras. Uma tia de Marian, com quem ela vivia, e muitos dos seus amigos de Filadlfia, vinham sempre passar algumas semanas na praia. E Marian, como todas as raparigas, gostava de assistir aos jogos, de nadar e de danar. Numa tarde de Vero um amigo tinha-a levado ao campo de atletismo e indicara-lhe o famoso atleta ndio. Como ela se havia sentido curiosa! Sentia agora uma estranha impresso dolorosa, ao recordar essa primeira sensao. Os seus olhos observaram um rapaz alto, atltico, de cabea descoberta, delgado mas extremamente forte, cujo corpo gil parecia desenhar um V da cintura aos ombros. Era moreno, de cabelo negro como carvo. Apesar da beleza impressionante do rapaz, no foi apenas a sua aparncia que encantou Marian. Em plena aco, o ndio era simplesmente maravilhoso. Ele havia conquistado a sua celebridade como jogador do futebol americano, e fora escolhido pelos tcnicos, durante trs anos sucessivos, para fazer parte do "team" nacional. Mas, como praticante de "base-balll", no lha era preciso ser to brilhante jogador para que v-lo em aco constitusse um espectculo de pura beleza. Ele jogava numa posio de ponta, e os acasos do jogo fizeram com que a sua interveno se limitasse a pouco mais do que correr. Mas as suas corridas tornavam-se cada vez mais impressionantes para Marian. Como ele se movia facilmente - e que espcie de voo havia na sua passada! Marian percebeu que no era ela a nica a admir-lo. O atleta ndio no necessitava em verdade dos seus aplausos. Perto do fim do jogo, numa ocasio difcil para o seu "team", ele bateu poderosamente uma bola muito para alm do alcance do campo adversrio. A multido gritou de entusiasmo.

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O ndio partiu ento como uma flecha em direco  primeira base; depois, voltando-se, pareceu ganhar ainda maior velocidade em cada passo. Marian sentia bater o corao, invadida por uma onda de prazer, quase de orgulho, ao ver a fantstica proeza fsica do ndio. Ele corria como deviam ter corrido para a vitria, coroados de lh flores, os atletas da clssica e luminosa Grcia. E como parecia voar! Como parecia deslizar cada vez mais depressa, sempre mais depressa; Ento ele voltou-se novamente e avanou para a sua base, gil como um gamo, veloz como um dardo, elegante como um Mercrio em cujos ps palpitassem mitolgicas asas. A multido aplaudia, delirante. O ndio parecia vir direito a Marian, magnfico, veloz, belo como um semi-deus. Antecipou-se ao lanamento e concluiu vitoriosamente o seu percurso, proeza que os espectadores saudaram com desvairado entusiasmo. Marian s ento reparou que ela prpria tinha perdido o domnio dos seus nervos.
Nessa noite, num baile, um dos amigos de Marian tinha-lHe perguntado.
- Conhece Lo?
- Lo? Quem  ele, ou ela?
-  o atleta ndio! Voc viu-o jogar hoje. Chama-se Lo Blandy.
E assim aconteceu Malhrian encontrar-se em frente do ndio cujas proezas havia admirado. No se apercebeu do facto naquele momento, mas a verdade  que se apaixonou por ele assim que o viu. Alguma coisa dentro dela, alguma coisa da sua mais ntima maneira de ser, e de que ela nunca havia suspeitado antes, a impeliu para ele. Lo Blandy tinha feies finas, morenas e firmes, e os seus olhos eram vivos e penetrantes, to negros como o seu cabelo. Havia uma calma nobreza na sua atitude, que talvez viesse da maneira franca e resoluta de erguer a cabea, ou talvez estivesse no seu olhar de guia, tranquilo e dominante.

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- Quer danar comigo?... - perguntou ele. Parecia to  vontade como qualquer dos estudantes brancos.
Marian encontrou-se ento nos braos do ndio, danando - um facto que ento lhe parecera estranho e importante. Era evidente que ele no considerava a arte de danar como uma das cadeiras do seu curso, como outros rapazes faziam. Mas era leve e forte. Conduzia-a sem a apertar contra si como era hbito de muitos danarinos; e assim Marian gostou de danar com ele.
Encontraram-se outra vez na praia, por acaso, e como no havia outras pessoas perto e eles estavam interessados um no outro, conversaram longamente. Depois desse dia Marian no deixou de assistir a um s jogo de "base-ball". E Lo Blandy tornou-se um dos seus numerosos admiradores, o que divertia imenso a tia dela e os amigos.
Mas, para Marian, esses encontros tinham um significado srio. Ela amava o ndio. Lutou contra si mesma - at que se rendeu e deixou de lutar. Ele tinha mais princpios e melhores hbitos do que qualquer dos rapazes brancos que ela conhecia. Assim naquele vero, nas manhs luminosas e cor de mbar da praia; ou nas noites de luar, quando a dana e a msica a embalavam, Marian longamente bebeu o mgico filtro do amor.
Ela: perguntava por vezes a si mesma se a sua natureza seria to firme e verdadeira como a do ndio. Seria ela capaz de amar uma vez e s uma vez? A pergunta era v. Naquele momento amava, e havia nesse amor qualquer coisa de doloroso.
Marian olhou atravs da vidraa do comboio, para o horizonte que parecia deslizar velozmente em sentido contrrio. A topografia da regio tinha mudado. rvores copadas, de um verde escuro, belssimas, apareciam nos declives suaves da terra do deserto, e os espaos entre elas estavam cobertos de relva quase branca. No avistava j as muralhas de pedra. No extremo do horizonte erguiam-se colinas arborizadas.

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Depois as rvores verdes, copadas e baixas, foram dando lugar a outras, maiores, mais separadas umas das outras, de troncos castanhos e ramos que se abriam largamente, coroados de verde. Pinheiros! Ela gostou de v-los. Recebia gratamente qualquer pequena sensao de prazer ou qualquer noo nova, de algum modo tentando convencer-se a si mesma de que a sua ousada viagem para Oeste tinha um aspecto educativo e de mais larga compreenso humana. Marian no se havia envergonhado do seu amor por Lo Blandy. Sentia que poderia alcanar um ponto em que esse amor fosse para ela um ttulo de orgulho. Mas tinha evitado fazer confidncias a sua tia ou aos seus amigos. Ningum adivinhara a verdade do que se tinha passado naquele vero, em Cape May. E agora estava num comboio, j em pleno Oeste, e disposta a utilizar todos os meios de que pudesse dispor para alcanar as reservas dos ndios. Quanto maior distncia ia percorrendo, tanto mais irreal lhe parecia a sua situao. Mas sentia-se contente. Alguma coisa dentro dela a incitava profundamente para estranhos cometimentos. O relaxamento de costumes do meio social em que vivera, servia-lhe de desculpa para a sua irrequieta ousadia. Ela detestava as mulheres que bebiam e fumavam, a imoralidade das maneiras de danar, a falta de cortesia, a inegvel corrupo e o abandono de todos os valores morais da existncia. Tinha recebido com alegria a oportunidade de fugir a essa atmosfera. Alm do seu amor por Lo Blandy e do srio desejo de ajudar o seu povo, tinha havido nela como que um apelo de qualquer sentimento subtil e primitivo, que lhe era natural. A pradaria, a montanha, o mar e o deserto, tudo parecia chamar por ela com imperiosa voz. E ela, seguramente, algum dia os teria de escutar.
"-No tenho nenhuns laos prximos de famlia..." -- dizia ela para si mesma, numa defesa sincera". - Tenho vinte e trs anos e sou dona de mim prpria. Sempre sonhei com um amor honesto

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- um casamento, filhos. Talvez em vo! Minha tia e os meus amigos chamar-me-iam doida. Eles no podem compreender-me. Eu no, estou a estragar a minha vida! Aqui posso praticar o bem. Posso ajud-lo, a ele...Nophaie - que nome estranho e belo!... No sou rica, Mas tenho algum dinheiro e dele me hei-de servir agora alegremente. Deixemos o futuro tomar conta de si mesmo!"
Assim ela acabou com a sua perplexidade, resolveu o seu caso de conscincia e se entregou ao apelo singular dos projectos da sua vida futura. Marian tinha sempre desejado fazer alguma coisa de diferente, de grande, de invulgar. Tinha viajado, ensinara numa escola, tentara o jornalismo e tivera, a certa altura, uma breve paixo pelo teatro. Mas sabia que nada havia ainda realizado at o fim. Agora, em verdade, estava na sua frente a face brilhante da aventura, misteriosa e atraente, combinada com um trabalho que ela podia tornar animador e apaixonante.
Flagerstown, a primeira cidade do Oeste que Marian conheceu, em nada se parecia com a imagem que ela havia criado no seu esprito. As suas impresses do Oeste haviam sido recolhidas em livros e em filmes, meios de expresso que, como ela iria aprender, nem sempre traduziam a verdade da vida.
Era uma pequena cidade florescente, cheia de automveis e atarefada com o seu caminho de ferro, os seus negcios de madeiras e de gado. No havia nela quaisquer indcios das caractersticas cidades da fronteira. O que mais surpreendeu Marian foi o facto de nem o proprietrio do Hotel, nem o gerente do Banco, nem o homem do Correio,] ou o empregado do armazm, ou o negociante de gado a quem ela por acaso falou,

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terem demonstrado qualquer espcie de curiosidade a seu respeito. Quando ela fez perguntas sobre as reservas dos ndios, declarou simplesmente que estava imteressada no povo ndio e se dispunha a escrever alguns artigos no jornal sobre o assunto. Marian teve de confessar a si mesma que aqueles homens do Oeste no pareciam de qualquer modo impressionados pela sua presena. Eram delicados e amveis, mas prestavam-lhe apenas uma ateno relativa. Isso era, para ela, uma novidade. No Leste, a cada momento tinha a noo exacta da sua feminilidade, da sua juventude e da sua beleza. Aqui a vida parecia decorrer numa atmosfera que no estava saturada pela preocupao absorvente do sexo. O Oeste era novo, viril, aberto. E a jovem comeou a sentir-se livre das cadeias que durante muito tempo haviam pesado sobre ela. L de onde vinha, o ideal da maioria das pessoas era a conquista da riqueza, do poder, o gozo dos prazeres e das emoes fortes. As cidades estavam congestionadas. A mocidade abandonava os campos para se concentrar ,como um rebanho nos grandes centros onde se perdia, lutando, no meio da multido. Marian compreendeu a futilidade e o vasio de tal vida - onde o limiar da decadncia havia sido transposto.
Assegurou-se de que um transporte de Correio partia de Flagerstown, duas vezes por semana, para as povoaes das reservas dos ndios - Mesa, Red Sandy e Kaidab. E o empregado dos servios postais foi bastante amvel para arranjar-lhe uma passagem. Na manh seguinte o carregador do Hotel bateu-lhe  porta para levar a bagagem. Marian deparou, pouco depois, com o mais velho e mais arruinado Ford que havia encontrado em toda a sua vida. Todas as partes visveis do carro pareciam seguras com arames ou atadas com cordas. E o veculo ia pesadamente carregado de malas de Correio, caixas e sacos. Havia mesmo uma grade com galinhas que seguia como encomenda postal. Junto ao lugar do motorista tinham deixado um pequeno espao livre, evidentemente destinado a Marian.

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- Meu Deus!... - exclamou a jovem, ao acabar a sua breve inspeco do carro. - Isto no vai desconjuntar-se;? No haver perigo em viajar nele?
- Est visto que no "miss", esse ndio leva-a mesmo l ao seu destino... - respondeu o carregador.
- ndio?! O motorista  um ndio?
- Est visto que . E a ventania pode trazer neve ou areia, que para ele tanto se lhe d.
Marian sentiu vontade de rir, apesar da sua perplexidade. Mas ficou simplesmente a olhar para o carro, com um ar desolado. Nesse momento apareceu um rapaz que envergava um fato escuro, muito usado. Tinha os ps pequenos calados com "mocassins" de pele cortida e botes de prata. A sua cara morena estava quase escondida por um largo chapu preto. A jovem pde ver que ele era muito novo. Observou-lhe as mos que se poisaram no volante - mos escuras, delgadas, nervosas, bem formadas, com msculos alongados e cheios de mobilidade. Ento, ele ajeitou-se melhor no seu lugar e olhou-a tambm. Era ainda um rapaz, realmente. Tinha uma cara fina, lisa como seda, sem a sombra de uma ruga e de um tom escuro de bronze. As sobrancelhas eram dois traos firmes sobre os olhos negros como a noite. E estes tinham agora um brilho inteligente e divertido.
- Estar pronta para ir?... - perguntou num ingls inteligvel.
O tom da voz impressionou Marian. Havia alguma coisa, talvez o timbre, talvez a maneira de falar, quase em surdina, que lhe recordava a voz de Lo Blandy. Era evidente que o rapaz percebera a sua confuso.
- Sim...: acho que sim... - murmurou ela. Poderia realmente confiar naquele carro desconjuntado e no seu motorista ndio, para uma longa jornada atravs do deserto? Os preconceitos que trouxera do Leste no esqueciam facilmente.

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- Ir a Kaidab?... - perguntou o motorista.
- Sim!... - respondeu Marian.
- Eu levar l cinco horas... - volveu ele com um sorriso. Era um sorriso calmo, de compreenso. Ele adivinhara-lhe os pensamentos e queria tranquiliz-la. A nova disposio de esprito de Marian reviveu subitamente dentro dela. Lembrou-se de que tinha definitivamente queimado as suas pontes.
- Vai haver frio?... - perguntou, ao mesmo tempo que subia para o carro.
- Precisar de manta, durante pedaos... - disse ele.
Marian no tinha manta, mas trouxera com ela um casaco pesado que tambm servia para o efeito. Vestiu-o. Depois introduziu-se no pequeno espao livre ao lado do motorista. O sorridente carregador disse "Boa noite!" - uma espcie de despedida duvidosa que de nenhum modo atenuou os ntimos receios de Marian.
O ndio tocou em qualquer coisa que provocou uma breve exploso, ao mesmo tempo que o velho carro arrancava. Marian no conseguiu dominar uma exclamao de susto. Os prdios de fachadas quadradas, com as suas estranhas tabuletas altas, pintadas sobre tbuas, comearam a deslizar para trs, a desaparecer do seu campo de viso. Em frente, o asfalto branco da estrada foi substitudo por um piso de terra escura, e logo apareceu uma longa fila de pinheiros. Um vento fino e frio, mordente, fustigou as faces de Marian. Picava, como agulhas de gelo, mas trazia com ele um perfume seco e estranho. O carro ultrapassou as ltimas casas da cidade.  esquerda erguia-se uma enorme montanha verde e branca, cujos pncaros se escondiam numa rolante massa de nuvens cor de cinza.
- Tempestade!... - disse o ndio. - Ns ir depressa para fugir da neve.
Se alguma coisa fosse ainda necessria para completar a desorientao de Marian,


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essa coisa era decerto a velocidade assustadoramente crescente do carro, que desmentia assim a sua aparncia.
-Oh! Se eles pudessem ver-me agora!... - murmurou ela, encolhendo-se dentro do casaco espesso e espreitando o maravilhoso declive verde da floresta. Pensava naqueles que tinham ficado l para trs, em Filadlfia, e que seguramente censurariam a sua ousadia. Talvez fosse aquele o instante em que ela definitivamente cortava com o passado. Mas, fosse como fosse, para alm da audcia ou dos desanimos de Marian, ela ouvia uma voz ntima, uma voz subtil e alegre que a saudava ao passar.


III.

A estrada sobre a qual o ndio ia levando o carro, conduzia a uma floresta de pinheiros por entre cujos troncos majestosos Marian avistava de relance as montanhas amortalhadas em nuvens.
O vento spero e frio, a crescente tristeza do dia cinzento que pronunciava tempestade, em nada diminuram o entusiasmo de Marian e a alegria que o espao livre fazia vibrar dentro dela. Ela tinha de ver tudo, sentir tudo, experimentar tudo, com todos os seus sentidos alerta. Desde to longe quanto se recordava, havia sempre vivido numa cidade e, no seu corao, o seu grande amor pela natureza tinha estado como que adormecido. At que enfim! Respirou com delcia, profundamente, o ar frio, fino e leve. E o aroma forte dos pinheiros parecia faz-la reviver.
- Que montanhas so aquelas?... - perguntou.
- Spanish Peaks... - respondeu o rapaz.
Fez-lhe outras perguntas, s quais ele deu respostas breves e incompletas. Talvez a sua ateno estivesse exclusivamente concentrada na conduo do carro.

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Alm disso o chocalhar constante de todo o automvel tornava difcil qualquer conversa. Marian parou de perguntar.
A estrada atravessava uma floresta de pinheiros como nunca a jovem vira antes, grandes rvores das quais se desprendia um aroma intenso e maravilhoso que, depois das cidades e da viagem por caminho de ferro, era para Marian quase inebriante. A relva estava seca, esbranquiada, mas o verde dos pinheiros era uma festa para os olhos. O carro percorreu uma dezena de milhas de floresta e entrou num vale aberto de onde se avistavam as altas montanhas, num espectculo de beleza incomparvel. A terra devia ser boa para instalar ranchos de gado e de lavoura, pensou Marian. Depois internaram-se de novo na floresta, com a diferena de que, ali, o cho parecia coberto de cinzas. O automvel galgava ento um declive acentuado, tendo perdido grande parte da sua velocidade.
Do alto do declive os olhos de Marian depararam com uma paisagem estranha e desolada - um enorme vale negro, um barranco de cinza tambm negra, uma torrente de lava petrificada, e para alm pequenas colinas de negra cinza, serpenteando e ondulando como dunas de areia esculpidas pelo vento. Uma fila de pinheiros pontuava o alto de uma colina distante, e sob o trao verde havia uma longa mancha de neve cuja brancura contrastava com o negrume das cinzas. Uma fileira dessas pequenas colinas erguia-se para o sul, progressivamente mais altas e mais arredondadas, estranhos e sinistros monumentos que recordavam a aco destruidora dos vulces em distantes idades. Para alm e para cima dessa fileira subia estranhamente para o cu uma alta montanha de cinza completamente nua de vegetao, maravilhosamente colorida de prpura, de vermelho e de negro.
Marian via tantas coisas naquela regio agreste e desolada, que teve pena de a atravessar to rapidamente. Em breve o motorista ndio alcanou um ponto mais baixo da floresta,

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deixou para trs a zona de cinzas e enTrOu a toda a velocidade num caminho pedregoso e difcil. A Marian recomeou a temer que cada uma das milhas que percorria fosse o fim da jornada.
Pouco a pouco os pinheiros foram-se tornando mais pequenos e mais separados uns dos outros, e Marian pde outra vez avistar o campo aberto. Ento, bruscamente, ultrapassando uma pequena colina rochosa, o carro entrou num terreno onde os pinheiros eram j raros e que se estendia, cinzento e imenso, at os confins do horizonte. O deserto! Marian nem sequer tentou abafar uma exclamao de maravilhado espanto.
Na sua frente alongavam-se muitas milhas de deserto. Desapareceram os pinheiros, substitudos por cedros, e para alm rolavam e ondeavam, por milhas e milhas, as dunas alvacentas da vastido desolada. Apenas duas cores realmente prevaleciam e dominavam-o branco e o negro. Que macieza e que aveludado! S para Oeste havia um limite para o olhar; a uma srie de colinas arredondadas, onde s crescia erva, parecia descer sobre o deserto. As colinas, os cedros e a direco da estrada atraram o olhar de Marian para os limites do horizonte, para o que lhe pareceu ser, vagamente, uma sucesso de degraus gigantescos, de uma cor indefinvel, inatingveis e inverosmeis. Em que ponto a linha do horizonte separava do cu aquela terra distante e de cor prpura? Mas o cu estava escurecido, e em toda a largura do horizonte estendiam-se nuvens cinzentas, como vus de tempestade, que se fossem arrastando e enchendo a imensido. O deserto subia levemente, lgua aps lgua a caminho da distncia, majestoso, aberto, interminvel.
Marian enchia os olhos de beleza, tentando ver tudo quanto havia para ver. Os minutos correram, as milhas foram ficando para trs, e de sbito uma onda cinzenta de chuva e de neve, trazida pelo vento, envolveu o carro. Com a neve e a chuva veio um frio penetrante.

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E a chuva transformou-se em granizo que batia na cara de Marian, fazendo ricochete no "pra-brisas do automvel. Marian encolheu-se mais. As faces, o nariz e as orelhas pareciam pedaos de gelo. Em volta do velho Ford a terra cobrira-se de branco, varrida pelo vento que arrastava flocos de neve rente ao cho. O cu escurecera mais. Quando Marian abria os olhos, de longe em longe, pouco mais avistava do que o radiador do carro. Mas a escurido e a falta de visibilidade no impediam o ndio de conduzir depressa. E assim, dolorida e assustada, Marian achava ainda uma espcie de herico prazer na jornada atravs do deserto.
Pouco a pouco as nuvens cinzentas foram-se tornando mais claras. O frio apertava ainda, de maneira que luvas e bolsos no constituam proteco bastante. Mas, logo depois, a neve comeou a cair em flocos mais delgados, e o azul do cu brilhou atravs do vu branco que se ia tornando transparente, cada vez mais tnue at que desapareceu, derretendo-se por completo e deixando limpo e claro um largo espao do firmamento; a tempestade mudara de direco. Marian compreendeu ento que se haviam internado profundamente pelo deserto. Em volta dela as ondulaes do terreno estendiam-se at os confins do horizonte. J no havia neve. A terra tinha mudado a sua cobertura negra e branca e mostrava agora uma superfcie avermelhada. De novo o velho carro ganhou velocidade e galgou uma subida do alto da qual Marian pde olhar outra vez lguas e lguas de deserto. Impressionou-a ali, mais fortemente ainda, a extenso imensa e, sobretudo, a estranha intensidade da luz.
O sol surgiu por detrs da grande massa de nuvens que se acastelavam para Leste - e o deserto pareceu arrancar uma espcie de mscara, mostrando-se de uma beleza maravilhosa em linhas e em tons.
( O ndio parou uma vez o carro, para observar qualquer coisa no motor, e Marian aproveitou a oportunidade de descer tambm para desentorpecer as pernas trpegas e geladas.

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Depois disso, quando continuaram a viagem, ela em breve se sentiu reconfortada sob o calor do sol e no tardou em esquecer as suas dores e os seus medos, de novo absorvida pela paisagem do deserto. Durante mais de trs horas o Ford chocalhante foi devorando caminho, numa descida que parecia interminvel. E depois disso avistaram uma coisa que parecia quase chocante, por deslocada ali - uma ponte de ferro que atravessava uma garganta rochosa ao fundo da qual deslizava uma corrente lamacenta. Ali, no vale, o sol estava quente. Marian teve de despir o pesado casaco.
Para alm da corrente estendia-se uma plancie pedregosa que subia em declive suave at uma outra altura de onde Marian pde confirmar a sua maravilhada espectativa. Trs extenses de deserto, em nveis diferentes, coloridas, altas como montanhas, erguiam para o cu os seus tons maravilhosos de vermelho e de prpura, de doirado e cinzento. Parecia uma regio de degraus cheios de cor. Marian abrira a boca, de espanto, num encantamento que a deixava sem voz. Aquilo era uma orgia de mosaicos multicores, uma extranha combinao de terra e de rochedos. E era apenas o limiar do pas de Lo Blandy. Com que se pareceria ento Oljato, cujo nome significava "Luar sobre a gua"? Marian sentia-se envolvida por uma confuso de sensaes. Olhou uma vez para trs, como para se assegurar da distncia que havia percorrido, da existncia real de uma terra que ela sabia slida e verdadeira, mas que lhe parecia ao mesmo tempo ser uma viso de sonho. Para trs o espectculo era diferente, um declive de deserto cinzento, um declive de deserto vermelho, subindo lentamente para levantar-se e alcanar por fim um enorme planalto escuro acima do qual os Spanish Peaks mostravam as suas encostas cobertas de neve branca e pura, contra o fundo azul do cu.
A hora que se seguiu, durante a qual o motorista ndio
atravessou nuas plancies de pedras e areia, e escalou os sucessivos degraus de rochas coloridas, foi para Marian demasiado curta. O sol inundava a terra de calor. Para o norte, na direco em que seguia o carro, iam-se amontoando outras nuvens de tempestade. Acima do ltimo degrau do deserto a paisagem lembrava um lugar de runa e de desolao, uma zona sinistra de tons vermelhos e castanhos, onde as rochas e a pedra calcria tinham sido moldadas em silhuetas fantsticas. Marian, ao v-la, pensou em velhas gravuras que lhe tinham mostrado, representando o inferno. Mas em breve essa paisagem ficou para trs e ela encontrou-se diante de um largo vale aberto entre muralhas de rocha brilhante. Magnficos campos, cobertos de luzerna verde-escura, constituam o fundo do vale, e a sua cor quente e rica fazia com que as muralhas de pedra, pelo contraste, parecessem mais nuas e mais rudes. Marian viu grupos de rvores que comeavam a cobrir-se de folhagem, e avistou os telhados planos de duas casas baixas.
- Como se chama este lugar?... - perguntou ela.
- Copenwashie!... - respondeu o ndio.
- Estes campos verdes pertencem a ranchos de ndios?
- Alguns. Mas brancos ter agora muitas terras.
- Mas...- no  esta regio uma das reservas destinadas aos ndios?
A nica resposta que recebeu foi um grunhido de desagrado. O ndio conduzia o carro velozmente ao longo do vale, erguendo nuvens de poeira de sob as rodas. Quando chegou perto da primeira casa, parou e foi entregar alguns volumes. Marian no avistou quem quer que fosse. Nos campos, entretanto, andavam trabalhadores pitorescos, que ela tomou por ndios. Quando prosseguiram a viagem, o rapaz apontou para umas casas baixas, de pedra, que se erguiam mais longe, rodeadas de rvores,  sombra da penedia. Eram casas de missionrios. A partir dali a estrada subia ao longo de um dos lados de um desfiladeiro abrupto.

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No alto a terra era plana, coberta de moitas rasteiras de um tom verde-escuro. Avistavam-se a distncia edifcios cinzentos e vermelhos, e compridas fileiras de rvores despidas de folhagem. Em poucos minutos o carro chegou l. Marian ardia em curiosidade e interesse.
--Mesa. Ns parar um bocadinho... - disse o motorista, travando o carro em frente de uma das construes de pedra. Era um prdio grande, com poucas janelas e tinha um aspecto pouco hospitaleiro. Pequenos cavalos, de aparncia cansada, trazendo selas quadradas e primitivas, estavam, perto dali, com as rdeas pendentes.
- So cavalos ndios? ...- perguntou ela.
- Sim. No ser muito bons. "Miss" esperar... - respondeu o rapaz com o seu sorriso tranquilizador. - Isto posto comercial. Pessoas amigveis. "Miss" entrar. Eu levar Correio.
Marian desceu do carro, contente por poder de novo distender as pernas entorpecidas, e comeou a andar de um lado para o outro. Viu uma larga avenida orlada de rvores, com casas bem construdas em pedra cinzenta, de um dos lados, e edifcios grandes do outro lado, em pedra vermelha. Sups que estes ltimos deviam ser as instalaes das escolas do governo. Como pareciam deslocados, ali! A grande extenso do deserto que os rodeava, sublinhava ainda a sua incongruncia. A avenida era longa, to longa que Marian no podia distinguir o que havia no seu extremo superior. Ento a ateno da jovem concentrou-se no posto comercial. Trs homens, ndios, tinham chegado naquele instante. Usavam fatos de homens brancos, desde os chapus aos sapatos, e no despertaram qualquer interesse em Marian. Tinham caras escuras, fechadas e impassveis, e olhos escuros, pequenos e redondos como contas pretas. Os ndios observavam-na. Marian sentiu-se de algum modo desiludida e desapontada ao v-los. Foi ento que apareceu um homem branco, alto, de cabelo claro e expresso aberta.

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- Entre! Eu sou Paxton, o dono do posto... - disse ele. - Minha mulher fica sempre contente quando aparecem visitas. Deve vir fatigada e com fome, e daqui a Kaidab ainda  um bom pedao de caminho!...,
- Obrigada. Tenho realmente fome, mas estou cansada... - respondeu Marian, acompanhando o homem para o interior do posto e pensando ao mesmo tempo em como saberia ele para onde ela se dirigia.
Ele conduziu-a atravs de um enorme armazm em gnero de grande "hall", cujos balces e prateleiras estavam cheios de mercadorias, e entraram noutra parte da casa, uma sala-de-estar de aspecto confortvel e arrumado. A Marian encontrou a mulher do comerciante, uma senhora agradvel e simptica. No havia qualquer espcie de curiosidade no olhar ou nas palavras da mulher, que parecia simplesmente contente por receber uma visitante desconhecida e poder proporcionar-lhe algum repouso e conforto. Marian gostou dela.
- Vou a caminho de Kaidab...- disse a jovem.
- Muito bem, alegra-me isso.  generoso da sua parte interessar-se por esta gente. Deus sabe que os ndios precisam de amigos. Ns, os comerciantes, somos quase os nicos com quem eles podem contar.
Marian fez algumas perguntas sobre os ndios, no decorrer da conversa, tendo o cuidado de no dar a impresso de que tinha um interesse especial no assunto. E assim passou com a Sra. Paxton uma meia hora bastante agradvel.
- Espero que venha mais vezes a Mesa... - disse a boa criatura enquanto atravessavam o armazm a caminho da porta. Do limiar, Marian viu um homem branco que, de p ao lado do automvel, conversava com o motorista ndio.
- Ali est Friel... - disse a Sra. Paxton. E pareceu

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que o facto de ter reconhecido o homem a fez esquecer-se da conversa anterior.
- E quem  Friel?... - perguntou Marian.
-  um missionrio... mas de um gnero que, receio bem, serve mais para provocar o antagonismo dos ndios a respeito da igreja, do que para espalhar entre eles o verdadeiro esprito cristo.
Marian, surpreendida, no respondeu directamente  observao da Sra. Paxton.
- Obrigada por tudo... - disse ela. - Tenho a certeza de que voltaremos a encontrar-nos. At sempre!...
Encaminhou-se para o carro. Ao ouvir o som dos seus passos, o homem a quem a Sra. Paxton se referira, voltou-se para olhar para ela. Marian estava habituada a encontrar desconhecidos e a classific-los no seu esprito  sua maneira. Mas no podia recordar-se de ter alguma vez deparado com um tipo como aquele.
- Eu sou "mr." Friel... - disse ele, levando a mo ao chapu. - Posso ser-lhe til em alguma coisa?
- No, obrigada... - respondeu Marian.
A cara do homem, bronzeada pelo sol, no inspirou a Marian interesse ou simpatia. Depressa verificou o brilho de curiosidade nos olhos dele e, logo depois, uma expresso admirativa.
- Viaja sozinha... - disse ele. - Posso saber onde tenciona ir?
Marian disse-lhe o mesmo que j tinha dito  mulher do comerciante. E nesse instante sentiu, mais do que viu, o interesse crescente do homem, um interesse onde havia um certo antagonismo.
- Tem licena para entrar nas reservas dos ndios?... - perguntou ele.
- No! Isso  necessrio?
- Eu... bem, no se trata de uma coisa obrigatria.

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Mas convm sempre que as pessoas que vo visitar as reservas falem com "mr." Blucher...
- Quem  esse senhor?
- O agente responsvel pelas reservas.
- Muito bem. Onde posso encontr-lo?
- Desafortunadamente "mr." Blucher est fora, ocupado com uma investigao. Mas eu posso tomar a responsabilidade sobre mim e fazer que tudo fique em ordem. No gostaria de visitar a escola?
Marian pensou que talvez estivesse a desconfiar injustamente do homem, que parecia bem educado. Mas "mr." Friel olhava-a de uma maneira que ela achava desagradvel. No gostava de ver duas vezes as pessoas que a olhavam assim:. Entretanto, ali no deserto, ela devia aceitar as pessoas como elas eram e, sem prejuzo da sua dignidade, devia aprender com elas o que pudesse.
- Seria interessante ver as crianas ndias. Pode acontecer que volte para aqui para trabalhar com elas. Mas agora no tenho tempo.
- Eu posso arranjar-lhe aqui um lugar... - disse ele com interesse. Mostrava mesmo demasiado interesse.
- Que autoridade tem para isso?... - perguntou Marian com uma certa rudeza, sem pensar sequer em agradecer o oferecimento.
- Bem, eu no disponho de autoridade explcita para contratar funcionrios do governo... - volveu ele. - Mas, ocasionalmente, contrato empregados por minha prpria conta. E sou unha com carne com Morgan....
- Morgan?
- Est aqui h mais de vinte anos. E tem grande influncia.
- O que  ele?
- Missionrio.
- Ento - no caso- de eu voltar aqui em busca de trabalho - a quem devo falar em primeiro lugar?

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- Venha tranquilamente ter comigo. Eu falarei com Morgan. Se arranjar emprego antes de falar com ele... depressa o perder.
- Sim? Bem, hei-de pensar nisso... - declarou Marian, dispondo-se a subir para o carro.
Friel segurou-a por um brao, no para ajud-la mas para impedi-la de entrar.
- Deixe-me conduzi-la a Kaidab. Tenho aqui o meu automvel. No h lugar neste velho calhambeque mal cheiroso, e alm disso uma rapariga bonita como voc no deve viajar sozinha com um ndio.
- Porque no? Ele  o encarregado do transporte do Correio. Pago-lhe para me levar a Kaidab.
- So todos os mesmos, estes ndios sujos. No pode estar segura em companhia de qualquer deles.
- Se isso  verdade, "mr." Friel, o facto nada abona o seu trabalho de missionrio. Eu acho que posso confiar neste ndio. Bom dia!
E Marian, voltando as costas ao homem, retomou o seu lugar no carro e fez sinal ao ndio para partir. Ele ps o automvel em andamento, com um gesto que traduzia a sua satisfao por se afastar dali. Marian instalou-se melhor, no menos contente por pr um ponto final na sua conversa com o antiptico Friel. O vento era fresco e agradvel. Os largos espaos, cheios de cor, pareciam convid-la a percorr-los. A jovem observou, com certa surpresa, que estava quase indignada com as ltimas palavras que ouvira ao missionrio. Reflectindo, compreendeu que os insultos dirigidos ao ndio a tinham ofendido. Voltou-se para o rapaz.
- Entendeu o que disse aquele homem?
- Eu conhecer ele. Cabea dele no ser mais que um pau coberto de pele.
Marian considerou que o ndio era inteligente e original. Varreu a irritao do seu esprito.

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A nica coisa importante era a sua jornada atravs do deserto. A que distncia estava de Kaidab - e de Oljato? Cada milha velozmente percorrida a aproximava mais de Lo Blandy. Murmurou repetidas vezes o nome dele, o seu nome ndio - Nophaie, Nophaie, Nophaie... - como para aceit-lo definitivamente e torn-lo familiar. Mas no o conseguia. Cada pensamento acerca dele aumentava a crescente compreenso de uma provao que a esperava, uma possvel frustrao, tremenda no seu significado... Mas, ao mesmo tempo, que doce excitao - to cheia de estranha e mgica intensidade!
As nuvens cinzentas em breve obscureceram o sol, e Marian sentiu de novo a fria mordedura do vento. Embrulhou-se outra vez no casaco, encolhida. O motorista conduzia agora o carro para o norte da estrada de Mesa, percorrendo uma depresso de terreno que limitava o horizonte. Atravessaram uma regio de areia e subiram depois um longo declive que levava a um planalto, manchado aqui e alm pelo verde das plantas e monotonamente cinzento na distncia. Ali o ndio lanou o automvel na velocidade mxima, demasiado rpido e demasiado ruidoso para o gosto de Marian. Assim mesmo ela olhava para um lado e para o outro, interessada no que via. Para Leste avistavam-se longas linhas ondulantes e azuladas de terra ou de rocha, evidentemente marcando o curso de um desfiladeiro. Para Oeste a nica coisa notvel era uma alta montanha branca, isolada, de cume plano e encostas despidas de vegetao. Verificaram pouco depois que a escurido cinzenta,  frente deles, era neve arrastada pelo vento, outra tempestade que representava mais uma dura prova para Marian. Levantou a gola do casaco, tapou a cara com o "cachecol" e dobrou-se ao meio para suportar os aoites do vento gelado. Entretanto o tempo ia passando e milhas de caminho iam ficando para trs. Quando a tempestade se afastou e o sol brilhou de novo, tinham alcanado uma larga extenso de terras baixas e vermelhas,

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de declives arenosos e cercadas por muralhas de penedia,pouco elevadas, cujas escarpas brilhavam de humidade.
s duas horas o ndio parou o carro em Red Sandy, num posto comercial construdo como um fortim e erguido no alto de um imenso declive de areia. Os negociantes, dois homens novos, mostraram-se to solcitos e amveis como o tinham sido os Paxtons. Marian sentiu verdadeiro prazer em aquecer as mos, as orelhas e as faces geladas. Os dois rapazes conduziram a jovem para um andar superior, sobre o armazm. Era uma sala aconchegada, decorada com certo gosto e sentido de pitoresco. Por toda a parte se viam mantas, e cestos, e outros trabalhos feitos pelos ndios. L fora o vento assobiava ainda.
Atravs da janela Marian descobria uma paisagem que ao mesmo tempo a fascinava e entrestecia. Que desanimadora, desolada regio! As interminveis terras baixas pareciam estender-se at os quatro pontos cardiais. Sob um cu coberto de nuvens que seguiam a pequena altura impelidas pelo vento, viam-se brilhar as guas encrespadas de lagoas lamacentas. A vegetao era to escassa que as pequenas moitas, aqui e alm, espalhadas, lembravam animais perdidos no campo. Mais longe erguia-se um amontoado de penedias brancas, nuas e tristes, a que os elementos haviam dado estranhas formas, irregulares e torturadas. Essa massa de rochas terminava abruptamente numa encosta a pique, voltada para o sul. Uma larga abertura de terra deserta, manchada de escuro, separava a penedia da encosta fronteira de uma montanha negra, de cume plano, que se estendia para Leste. Marian distinguia a linha quase horizontal desse planalto, que se prolongava na distncia, gradualmente, at desaparecer na direco do norte. E, seguindo a curva do horizonte para Leste, Marian descobriu bruscamente uma espcie de cpula pouco ntida, de tons brancos e purpreos.

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Ficou durante largo tempo a olhar para ela, no apenas por causa da sua beleza. Havia ali como que um apelo, naquela silhueta distante e vaga que parecia irreal, to intensa era a prpura, de tal pureza o branco.
- Aquilo  uma montanha?... - perguntou ela a um dos negociantes.
- Com certeza! A velha Nothsis Ahn.  adorada pelos ndios!...
Marian regressou ao carro, onde o ndio a esperava pronto para partir. Quase lamentava aquela rpida jornada pelo deserto, to demasiadamente rpida. Mal havia tempo para olhar, menos ainda para contemplar. Relanceou mais uma vez os olhos para Red Sandy. Tinha uma beleza especial, austera. Ali no havia vida, nem movimento. As cores vermelhas dominavam mas no se destacavam. Confundiam-se com tons castanhos, cinzentos, amarelados, tons gastos e esmaecidos de buris desbotados e velhos. Talvez as nuvens baixas aumentassem o efeito de tristeza. O silncio impressionava.
No caminho para baixo, ao longo das terras arenosas, Marian avistou trs vultos escuros de cavaleiros que se aproximavam, vindos do outro lado da penedia. Ficou a observ-los enquanto eles vinham encurtando a distncia, tornando-se maiores, mais ntidos, at que passaram pelo carro e seguiram alm. Eram ndios, dois homens e uma mulher. Montavam pequenos cavalos magros e sujos, e transportavam  garupa dos animais, por detrs das selas primitivas, mantas e peles de carneiro. A mulher era pesada, grosseira, despenteada e de feies tristes e escuras, vestindo desajeitadamente uma roupa solta e pouco limpa. Aqueles ndios s pareciam pitorescos quando vistos a distncia.
Durante a hora que se seguiu, o automvel arrastou-se, chocalhante, ao longo de um caminho de areia, quase sempre a subir, de onde s se podia avistar a paisagem para Leste. Ali a montanha negra, de cume plano,

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assumia propores mais nobres. Bandos de pequenos cavalos ponteavam o terreno em declive, de um verde-acinzentado. Um cavaleiro ndio surgiu no alto de uma colina, galopando, emprestando uma nota de vida selvagem ao cenrio triste. Pouco alm o motorista chamou a ateno de Marian para um montculo de terra onde um buraco negro servia de acesso. - Cabana! Casa de ndio!... disse ele. Que rudeza e que primitivismo! Em verdade as necessidades e os confortos dos ndios deviam ser bem poucos.
Era apenas dos pontos altos que, como Marian no tardou em compreender, a inacreditvel vastido do deserto podia ser observada em toda a sua esmagadora amplitude. O carro alcanou pouco depois o alto de uma eminncia de terreno de onde ela podia abarcar um largo horizonte, uma extenso de terra que descia at uma pradaria plana para mais Longe surgir de novo, lentamente, suavemente, vazia e desolada, at as montanhas de prpura e de negro. O olhar de Marian ficou preso nas manchas de cor.  esquerda havia uma colina de pedra, arredondada, e  direita estendia-se a longa linha de planaltos que parecia ir diminuindo de volume na distncia. Ao cabo de outra hora de jornada ela pde ver que as manchas negras das montanhas eram formadas por florestas de cedros, e que largas superfcies cobertas de mato rasteiro davam os intensos tons de prpura. Muito antes de atingir as maravilhosas manchas purpurinas, Marian comeou a sentir que o vento vinha saturado de perfume. O cheiro tornava-se a cada instante mais forte, mais fino, mais doce. Reconheceu o aroma do mato. Reconheceu-o embora este fosse diferente, directo, primitivo, intenso e excitante. Ali o deserto no aparecia estril nem desolado. O carro alcanara um ponto alto do terreno. Em volta, por todos os lados, alargavam-se florestas de cedros e campos cobertos de mato espesso.
Se aquelas longas vinte milhas de deserto percorrido no tivessem lentamente transformado sob os seus olhos a paisagem,

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levando-a da plancie cinzenta s verdes pradarias, das terras nuas e sinistras s majestosas alturas onde o ar era perfumado e fino, intensa a luz e a cor, Marian no estaria preparada para a fase seguinte daquela terra de surpresas infindveis. Assim tivera tempo de adaptar-se. Tinha aprendido, percorrendo milhas.
Quando o motorista ndio lanou velozmente o carro por um declive sinuoso, de curvas sobre curvas, e saram da floresta para uma espcie de mundo diferente, feito de pedra vermelha, Marian no sentiu to forte o choque da surpresa. A estrada seguia agora ao longo de uma passagem longa e estreita, entre penedias altssimas manchadas de encarnado, e de amarelo, e de tons de oiro, cortadas tanto a pique que ela tinha de olhar directamente para cima se queria contemplar as agudas arestas superiores. Mais do que penedias, as muralhas pareciam as faces de pedra das montanhas. Marian olhou para o alto at que os olhos lhe doeram.
O carro seguia demasiadamente depressa, e o desfiladeiro pareceu demasiado curto. Desembocava por fim no deserto cinzento e ondulante,  direita do qual os negros planaltos pareciam ziguezaguear para leste, enquanto  esquerda a muralha de pedra alongava para o norte a sua linha ininterrupta de arestas. Dez milhas adiante muralha e planaltos afastavam-se, de ambos os lados, largamente. E, do alto de uma outra colina, Marian viu pela primeira vez Kaidab. As suas cartas, as suas prendas para Lo Blandy haviam sido enviadas atravs daquele posto! Tudo quanto ela podia ver era um amontoado de casas de pedra, baixas e de telhados planos. Uma povoao primitiva e desolada! E, no entanto, nenhuma das maravilhas que avistara durante a sua longa jornada lhe haviam feito sentir uma excitao to deliciosamente intensa como aquela que a invadia agora.

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IV.

Vistos de perto, Kaidab e o posto comercial apresentavam aspectos impressionantes de vida e de actividade. Marian olhava sem se cansar, com uma sensao cada vez mais intensa de encantada expectativa.
Passaram por um grupo de pequenos cavalos ndios, de plo comprido, soltos, parados, de cabeas erguidas e olhando de lado para o carro barulhento. Alguns dos animais no tinham sela, trazendo sobre o dorso uma simples manta amarrada com cordas; um deles era de um tom creme, quase rosado, com olhos muito brilhantes e uma crina maravilhosa, comprida como a cauda; muitos outros eram baios avermelhados; havia um, negro e nervoso, que atraiu a ateno de Marian.
Grandes sacos de tecido grosseiro, cheios de l, estavam a ser levados para um carro coberto por carregadores ndios. E havia outros ndios em volta, indolentemente encostados s paredes de pedra do posto comercial. Marian gostou do aspecto deles. Cabelos retintamente negros, faces bronzeadas e impassveis, olhos negros tambm, figuras delgadas e direitas vestidas de veludo e cordovo com ornamentos de contas e de prata - uma aparncia que de algum modo correspondia s ideias romanescas de Marian.
Em frente da entrada de uma das casas, que era evidentemente um armazm, outros ndios enchiam de l uns sacos compridos, tarefa difcil a julgar pelos esforos que eles faziam para manter os sacos de p e empurrar para o fundo a l macia. Todo o interior do armazm aparecia cheio de arreios, de pilhas de sacos brancos, de fardos de l e de peles arrumadas umas sobre as outras. O cheiro das peles de carneiro envolveu Marian, forte e desagradvel. O sol, quente, caa a pino sobre as mantas vermelhas. E aproximadamente uma dzia de ces magros,

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de olhos inquiridores e aspecto selvagem, farejavam em volta da jovem. Nenhum deles, conforme ela notou, abanava festivamente a cauda. Homens brancos, em mangas de camisa, com as caras suadas e as mos sujas, trabalhavam no motor de um automvel que parecia to velho como O velho "Ford" em que Marian viajara. Duas mulheres ndias, transportando pesados fardos, saram da larga porta do posto comercial. A mais velha era gorda e tinha uma cara agradvel. Usava um vestido solto, de cores vivas, tinha ao pescoo um colar de prata e curvava-se sob o peso de um volume grande, uma caixa. Quando ela passou perto, Marian viu num relance a cara morena de uma criana que espreitava por um buraco da caixa. A mulher mais nova era provavelmente filha da outra, e o seu aspecto no era desgracioso. Havia, na sua face escura e lisa, um certo brilho picante e atraente. Esbelta, calava nos ps pequenos uns mocassins castanhos. O seu trajo era de um tecido que Marian sups ser veludilho, com ornamentos de prata cravejados de grosseiras pedras azuis. Olhou timidamente para Marian. Ento chegou um ndio a cavalo, e desmontou perto da jovem branca. Era um velho. Tinha a face magra sulcada de rugas, e no seu cabelo havia tons de cinza. Usava uma camisa fina, de algodo, e um fato-macaco - um trajo de homem branco que lhe ficava mal. Da parte detrs da sela pendia um comprido volume, uma pele de cabra, enrolada com o plo para dentro. O velho ndio desamarrou-a e conduziu-a para o posto comercial. Chegaram outros ndios, tambm a cavalo; um dos animais comeou bruscamente a recuar, relinchando, aos coices; os ces ladraram; um vento quente, carregado de cheiros, levantava nuvens de p; a l e as peles de carneiro exalavam agora um cheiro mais intenso; as vozes baixas e guturais dos ndios misturavam-se com o som mais agudo das vozes dos brancos. Um homem robusto, de olhos penetrantes,

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saiu do posto com uma das mos poisada no ombro do motorista ndio. Vestia um colete sobre uma camisa de flanela, e no usava chapu nem casaco. Calava botas grossas e poeirentas.
- Leva a bagagem para dentro!... - disse ele ao ndio.
Quando ele se aproximou, Marian sentiu-se observada por um olhar ao mesmo tempo inquisitivo e bondoso.
- Prazer em dar-lhe as boas vindas, "miss" Warner... -disse ele. - Estava h duas horas  sua espera. Chamo-me John Withers.
Marian estendeu-lhe a mo.
- Estava  minha espera?... - perguntou ela com curiosidade.
- As notcias espalham-se depressa nesta terra... - respondeu ele com um sorriso. - H duas horas chegou aqui um ndio, a cavalo, e trouxe informaes de que vinha a caminho.
- Mas como sabia o meu nome?... - volveu Marian, ainda curiosa.
- A senhora Withers disse-mo,  descreveu-me o seu aspecto. Ela vai gostar de v-la. Venha, entremos.
Marian seguiu-o at o ptio que havia por detrs do posto, ao fundo do qual se erguia uma casa de pedra, baixa e pitoresca, com uma cobertura de terra vermelha. A sua curiosidade havia-se transformado em atenta expectativa. Pensou por um instante num pormenor que dava lugar a conjecturas. Como saberia a senhora Withers qual era a sua aparncia fsica? Withers f-la entrar numa sala encantadora, que parecia sorrir-lhe com as suas cores e desenhos tipicamente indgenas. Mantas no cho e sobre um div largo que servia ocasionalmente de cama, cestos na cobertura da chamin e ao longo das paredes, e um friso pintado de figuras de ndios, estranho, tosco, primitivo - e impressionante. Tudo isso dava  pequena sala um ambiente caracterstico e acolhedor. Um lume vivo ardia na lareira de pedra.

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No faltavam livros, nem pormenores de conforto. A saleta abria para uma comprida casa de jantar, decorada da mesma maneira, e para alm estendia-se um longo corredor, notvel pela variedade e colorido das suas ornamentaes.
Marian apenas relanceara brevemente o olhar em volta, quando apareceu uma senhora baixa e com uma cara singularmente expressiva.
- Seja benvinda a Kaidab, "miss" Warner!... - disse ela, num tom de quente simpatia, estendendo ambas as mos para a jovem. - Sentimo-nos felizes por conhec-la. Espero que se demore entre ns!...
--Obrigada, "Mrs." Withers. ...  muito amvel... e eu sinto-me muito contente por estar aqui!... - respondeu Marian nervosamente, perturbada.
- Fez uma longa viagem e suportou muito frio. Est tambm coberta de poeira vermelha, "miss" Warner. Eu conheo esse caminho que percorreu - porque o percorri tambm, a cavalo, h vinte e cinco anos...
- Sim? Oh, o caminho  realmente difcil... e to frio que quase me senti enregelada. Mas...  maravilhoso!
Withers riu com prazer, ao ouvi-la.
- Ora, isso no chega a ser uma jornada. Aqui, est apenas nos limites da verdadeira regio selvagem. Ns lhe mostraremos o autntico deserto!...
- John, leva a bagagem de "miss" Warner para o segundo quarto. E manda que tragam gua quente. Quando ela descansar e se sentir reconfortada, ento conversaremos.
Marian verificou que o quarto era to agradvel como os outros compartimentos que vira, decorado da mesma maneira encantadora e estranha. Cheirava a lavado e a terra fresca. As paredes pareciam ser de cimento vermelho - tijolos secos ao sol, pensou Marian - e davam frescura ao quarto. Enquanto se lavava e mudava a roupa coberta de p,

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a jovem meditava sobre a singular impresso que lhe deixara a senhora Withers. No era uma criatura vulgar. Por qualquer razo que desconhecia, a boa senhora parecia ter por ela um forte sentimento de simpatia pessoal. Marian sentia-o instintivamente. Alm disso ela parecia extremamente  vontade, decerto habituada a receber estranhos naquela terra bravia. Marian adivinhava na senhora Withers o mesmo tipo de distinta personalidade que havia por vezes encontrado entre senhoras de alta posio social. Tinha a mesma maneira de receber convidados, a mesma atenta e sbria delicadeza. Apenas, no caso dela, essa personalidade era mais simples, mais directa, uma espcie de dignidade instintiva que era mais espiritual do que material - e estranhamente atraente. Mas Marian no perdeu tempo a repousar ou a alongar-se em conjecturas sobre "Mrs." Withers. Sentia-se atrada por ela. Adivinhava novidades, estranhas perspectivas, possibilidades ignoradas, e tudo isso a fazia ter pressa de voltar  sala comum. "Mrs." Withers estava l, e esperava-a.
- Como  branca e bonita!... - exclamou a boa senhora quando Marian entrou, envolvendo-a num olhar admirativo. - No existem por aqui raparigas do seu tipo. O deserto  duro para a beleza loira!...
- Tambm creio... - respondeu Marian. - No permanecerei muito tempo como a neve sob as penedias... "Sob a Rocha"...
A senhora Withers riu-se.
- Sim. compreendo-a... Mas deve pronunciar assim... "Sob a Roch"!...
A voz dela tinha um som estranho, reprimido, doce, que fazia pensar num murmrio de gua e que era completamente indito para Marian.
- "Mrs." Withers, penso que sabe quem me deu esse nome...
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- Sim... e sinto-me feliz por lhe dizer que sei... - disse a senhora Withers com ar srio e carinhoso.
Marian cedeu ao instinto do momento. Lentamente as suas mos estenderam-se ao encontro das de "Mrs." Withers, e assim ficaram ambas durante alguns segundos, de mos dadas, fitando-se nos olhos. Marian observava com uma espcie de vaga perturbao aquelas feies ntidas, firmes, onde havia sombras de meditao e de tristeza - e onde os olhos brilhavam, penetrantes, com uma intensidade velada, mstica e poderosa.
- Sentemo-nos... - disse a senhora Withers, conduzindo-a para um largo div. - Teremos de conversar sobre os nossos segredos em momentos escolhidos aqui e alm. Aparece sempre algum a interromper... Mas em primeiro lugar quero dizer-lhe duas coisas que nos tornaro amigas...
- Espero que sim... creio que sim... - respondeu Marian, tentando dominar as suas emoes.
- Escute! Tenho vivido toda a minha vida entre os ndios... - disse a senhora Withers na sua voz baixa e suave. - J gostava dos ndios quando era ainda uma criana. E estou h muitos anos nesta terra selvagem. So necessrios anos de simpatia e de estudo para compreender o ndio... Estes ndios, aqui, habituaram-se a gostar tambm de mim. Deram-me um nome. Acreditam e confiam em mim. Chamam-me para resolver as questes entre eles, para dividir equitativamente os bens deixados pelos seus mortos - para todas as suas dificuldades. Aprendi a conhecer os seus sonhos, a sua religio, as suas oraes, e lendas, e poesia, as suas artes mgicas, o significado das suas danas. E quanto mais aprendo sobre eles, mais os respeito e amo. Os ndios no so o que pensa a maior Parte da gente branca. So, por natureza, crianas. Tm nobres coraes e belos espritos. H criminosos entre eles,
 em muito menores propores que entre os brancos.

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A cano de Hiawatha  verdadeira - verdadeira para todos os ndios. Eles vivem num mundo mstico, encantado, povoado por espritos, vozes, msica, murmrios de Deus, permanente, e eterna, e perfeita imortalidade. Eles tm realmente a simplicidade das crianas. Personificam tudo. Para eles tudo  simblico.
A senhora Withers calou-se por um momento, continuando a fitar Marian com os seus olhos tranquilos e eloquentes.
- Durante muitos anos esta remota parte do territrio dos ndios permaneceu distante dos caminhos dos homens brancos. Assim a desmoralizao e a degradao dos ndios foi demorada, pelo menos no que diz respeito a esta tribo. A tribo de Nopah  a mais altiva, mais inteligente, mais numerosa e mais rica das que ainda existem nos Estados Unidos. A pretensa civilizao no chegou ainda a Kaidab. Mas aproxima-se. Sinto que os prximos anos sero rduos para o povo ndio e talvez decidam o seu destino.
- Oh! Parece no haver esperanas... - murmurou Marian.
- Sim, em verdade no h esperanas se olharmos as coisas logicamente, friamente - impiedosamente. Mas eu olho para isto da mesma maneira que os ndios olham para todas as coisas. Eles comeam as suas oraes: "Que todo o Bem esteja comigo"... e terminam-nas: "Agora todo o Bem est comigo!"... Eles sentem, eles confiam. Deus realmente existe. Se no houvesse Deus eu seria uma infiel. A vida no deserto amplia tudo... Deixe-me ajud-la, a si, a compreender os ndios... Para que possa ser feliz!...
Marian sentiu-se estremecer. No conseguiu sequer exteriorizar a sua surpresa.
- Nophaie mostrou-me o seu retrato... falou-me de si... - continuou a senhora Withers com uma voz profundamente doce. - Oh, no fique chocada por isso. Foi bom para ele, confiar em mim... Encontrei-o no dia em que ele regressou do Leste.

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Lembrava-me dele. Tinha-o conhecido quando era ainda um rapazinho, um pequeno pastor que, em plena tempestade de areia, se recusou a abandonar o seu rebanho. Conheo o lugar onde ele nasceu... e conheo o mato onde passava quando o levaram. Conheci o ladro de cavalos que o raptou. Conheci a mulher que o levou para Leste e o ps na escola... Mas Nophaie no se recordava de mim. Dirigiu-se para os declives de Nothsis Ahn. cobertos de mato, e quando voltou j no tinha os seus fatos de homem branco, nem o seu nome, nem o seu falar de homem branco. Era novamente Nophaie. Vinha aqui uma vez por outra. Os ndios falaram-me dele. Ele  um chefe que quer ajud-los  maneira dos brancos. Mas os ndios preferem que ele seja um mgico, um feiticeiro, um homem-medicina... Assim eu vi as suas dificuldades e, quando ele aqui voltou, falei-lhe. Ajudei-o a reaprender a sua prpria lngua. Foi um trabalho Lento. Compreendi que no era feliz. E, ao cabo, ele falou-me de si - mostrou-me o seu retrato - disse-me do seu amor por si.
Marian cobriu ambas as faces com mos trmulas. No se importava de que aquela mulher estranha e boa conhecesse o seu segredo, mas a verdade dita assim, com to claras palavras, aparecia-lhe ntida, flagrante, saa dos limites de um vago sonho e chocava-a, desencadeando uma tempestade no seu corao. Nophaie amava-a! Ele confessara o seu amor quela nobre amiga dos ndios.
- Marian, no se envergonhe do amor de Nophaie... - continuou a senhora Withers numa voz que era um apelo. - Ningum mais o conhece. John suspeita, mas no tem a certeza. Eu compreendo-a - sinto o que sente... mas sei mais. Sei que no estaria aqui se no amasse tambm Nophaie.
- Sim - eu amo-o... eu amo-o... - disse Marian em voz hesitante, destapando a cara. - No me compreendeu.

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Eu no estou envergonhada... Foi apenas o choque de ouvir - de saber - a surpresa das suas palavras...
- No se importe comigo - nem com o facto de eu saber tudo... - respondeu "Mrs." Withers. - Isto aqui  o deserto. Est entre gente primitiva e simples. Nada h de tortuoso ou de complexo dentro deles. Os preconceitos e os artifcios do Leste ho-de deix-la... desprender-se de si como escamas mortas e sem brilho.
Enchendo-se de coragem, cedendo ao impulso daquela simpatia que sentia firme, Marian contou a "Mrs." Withers o seu romance com Nophaie, e das suas condies de vida, e da sua resoluo de experimentar a liberdade, de viver durante algum tempo no Oeste, de ajudar os ndios - e, talvez, de encontrar o seu caminho para a felicidade.
- Sim, lamentar muita coisa, mas ser tambm maravilhosamente feliz... - respondeu a senhora Withers. - Quanto a Nophaie - salv-lo-. O corao dele est ferido. E quando o corao de um ndio est ferido, ele morre... Eu tive sempre notcias de Nophaie. Sei que ele fez um curso notvel na Universidade. Foi um magnfico estudante e um grande atleta. Ouvi dizer que o pai de Nophaie era um extraordinrio corredor. E foi ele quem conduziu mais longe a "Pedra da Experincia" dos bravos, mais longe do que todos os outros chefes, em muitas geraes. Mas a questo est em saber para que servir a educao de Nophaie, para que serviro as suas proezas atlticas - aqui. Ele tem de reaprender a ser um ndio. Dezoito anos de ausncia tornaram-no mais branco do que vermelho... mas sei que no voltar, nunca mais, a viver como um branco. Marian... eu no posso deixar de pensar... - esse facto desgosta-a? Seja franca comigo!...
- No! Eu no desejaria que ele voltasse a viver como os brancos!... - disse Marian.
- E disse-me, "miss" Warner, que no tem quaisquer laos que a prendam, ningum muito prximo ou muito querido?...

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- perguntou a senhora Withers fitando em Marian os seus olhos luminosos.
- Ningum muito prximo ou muito querido!...
- E est cansada da vida artificial - dos modernos costumes da sociedade - de tudo isso que...
- Sim, em verdade estou!... - interrompeu a jovem.
- E tem realmente o desejo de voltar a uma vida simples, livre?
- O desejo?!... - exclamou Marian quase apaixonadamente, sem poder dominar-se, arrastada pelo estranho poder de excitao que irradiava da senhora Withers. -- Eu... eu no sei bem o que . Mas penso que, sob a minha pele branca - sou to primitiva e selvagem como os ndios!...
- E tem algum dinheiro?
- Sim... No sou rica, mas tambm no sou pobre.
- E ama Nophaie - e tem a certeza de nunca poder amar outro homem - um homem branco?
- Oh, sim... sim... eu amo-o... - sussurrou Marian. - Como posso eu predizer o futuro - qualquer outro possvel amor - outra vez? Mas, s pensar nessa possibilidade me repugna. Sim, bastantes vezes me ofereceram isso, ultimamente - casamentos de dinheiro ou de convenincia - apenas para ter um lar - para ter filhos - tudo menos amor! No. No! Isso no  para mim!...
- E casar com Nophaie?... - perguntou ainda a senhora Withers.
Marian soltou uma exclamao abafada. Tambm desta vez no foi por vergonha que as suas faces coraram intensamente, mas por uma espcie de transbordar irreprimvel de emoes at ento contidas. Aquela criatura honesta e franca despertava dentro dela os sentimentos mais profundos.
- Nophaie  um ndio... - continuou a senhora Withers. - Mas  um homem.

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Nunca conheci criatura melhor do que ele - branco ou vermelho... Penso que  uma rapariga afortunada, "miss" Warner. Amar e ser amada - viver neste deserto - ver a sua beleza e o seu esplendor selvagem - aprender a conhec-los em companhia de um ndio - devotar todas as suas energias a uma causa nobre! Espero que entenda a verdade, "miss" Warner!...
- Talvez a no veja, a no entenda ainda muito claramente, mas acredito em si... - respondeu Marian. - As suas palavras exprimem alguma coisa que dentro em mim  ainda profunda e vaga -- mas que quer realizar-se... Mas, no posso deixar de dizer-lhe - Nophaie nunca me pediu - para casar com ele.
- No o disse, no lho pediu, mas no foi porque no o desejasse, acredite-me... - disse a senhora Withers. - Eu vi ndios apaixonados, nos meus tempos, mas nenhum como Nophaie... O que pensa fazer? Cham-lo ou ir ter com ele?
-Eu... eu preferiria encontr-lo... num ponto qualquer... em qualquer stio no deserto... - respondeu Marian meditativamente, hesitante. - Mas isso... isso estaria bem?  uma coisa que no costuma fazer-se... isto que eu fao. Mas quero faz-la! Os meus sentimentos mais profundos dizem-me que devo faz-la. Mas... no sei -gostaria que ningum soubesse. Oh,  a cobardia e a tergiversao das criaturas da minha espcie...
- Nada receie, tudo estar bem! John lev-la- ao encontro de Nophaie... - concordou a senhora Withers, com uma simpatia calorosa. - E ningum, alm de mim e de John, conhecer o segredo. Ns faremos constar a toda a gente que veio para c a fim de trabalhar para os ndios.
- Obrigada! Isso tornar tudo mais fcil para mim, at que eu me encontre a mim prpria...

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Sentia-me cheia de audcia quando parti... mas a minha coragem est a desfalecer...
- Compreendo que estes primeiros dias vo ser difceis para si. Mas no fique assustada. Tudo correr bem.  nova, saudvel, forte.  inteligente e sabe o que quer. Ter aqui uma experincia maravilhosa que ser para si a melhor, se no a mais feliz.
Naquele momento Withers entrou na sala.
- Ol! Tem todo o aspecto de ser boa medicina para estes lados!... - disse ele cordialmente, olhando para Marian com um ar um tanto surpreendido e francamente encantado. - O que o deserto vai fazer a essa brancura toda!... Bem, "miss" Warner, chegou agora mesmo, a cavalo, um ndio "Paiute". Viu Nophaie esta manh, e falou com ele.
- Oh! Esta manh! To perto!
- No se pode dizer que seja assim to perto - se refere  distncia a que Nophaie se encontra.  quase uma centena de milhas...
- E o que lhe disse ele?... - perguntou Marian com ansioso interesse.
- Pouca coisa. Eu  que lhe perguntei se tinha visto Nophaie. Respondeu-me que sim, que o tinha visto e lhe tinha falado esta manh, ao nascer do sol. Nophaie estava com o seu rebanho.  a poca de nascerem os cordeiritos, por aqui. Nophaie foi um magnfico pastor, em rapaz. Ouvi muitas vezes falar da maneira como ele cuida do seu gado. O "Paiute", muito satisfeito, disse-me: "Nophaie esqueceu-se das suas ideias de branco e est a voltar aos tempos da sua infncia!". Penso que todos os ndios esto contentes por Nophaie ter renunciado a viver como os brancos.
- Posso ver esse "Paiute"?... - perguntou Marian.
- Venha. Eu apresento-a... - respondeu Withers, a
rir.

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- Sim, v com ele... - interveio a senhora Withers.
- Eu tenho de ir olhar pelo jantar.
- Eu no queria ser apresentada a esse Pa... "Paiute"
- nem que ele se apercebesse do meu interesse... - disse Marian, quando ela e Withers saram da casa. - ...  apenas uma ideia... sentimental, creio eu. S gostava de... de ver o ndio que esta mesma manh esteve a falar com Nophaie...
- Eu estava simplesmente a brincar, "miss" Warner...
- volveu Withers, agora srio.-Este "Paiute"  um ndio mau. Sinto diz-lo... mas tem at cadastro. Matou alguns brancos, e alguns ndios tambm.
-Oh! Eu ouvi dizer, ou li, que essas lutas sangrentas eram coisas do passado...
- Decerto... - respondeu Withers num tom amargo. - Mas o que ouviu ou leu est longe da verdade. Claro que a vida na fronteira no  bravia e selvagem como era h quarenta anos, quando eu vim para aqui, ainda rapaz. Nem mesmo como era h quinze anos, quando os ndios mataram um irmo meu. Mas a regio est ainda longe de ser tranquila e civilizada.
Conduziu Marian por detrs da casa de pedra cinzenta, em direco ao armazm. O centro do armazm era formado por um quadrado, pavimentado de pedra, separado das prateleiras, espaosas e carregadas de mercadorias, por altos balces de madeira escura. Alguns ndios estavam encostados a esses balces. Marian viu melenas de cabelo negro que saam, soltas, de sob empoeirados e amarrotados chapus pretos. Viu o brilho das fivelas e ornamentos de prata. Ouviu o tilintar de moedas e o sussurro das vozes numa linguagem estranha, cujas slabas predominantes tinham um som de "toa" e "taa". Todos aqueles ndios estavam de costas voltadas para Marian e pareciam ocupados em comprar coisas ao homem branco que estava por detrs do balco. Havia pilhas de mantas ndias aqui e acol.
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Para alm dos balces, nas prateleiras, viam-se fileiras variadas e coloridas de mercadorias diversas, enlatadas ou embaladas em caixas e boies. Do tecto pendiam lanternas, arreios, selas, laos, um inumervel sortido de artigos vendveis aos ndios.
- Ali est o "Paiute"... - disse Withers, da porta, apontando para a rua. - Nada bonito, hem?
Marian espreitou sobre o ombro do comerciante e viu um ndio de mau aspecto, baixo, quase preto, de cara redonda e nariz grande, com o olhar mais duro e mais atrevido que ela at ento vira em face humana. Usava um chapu cnico, de copa alta e larga aba direita, to negro como o seu cabelo e ornamentado de contas brilhantes. Vestia uma camisa suja, de veludo ou cordovo, e calas de ganga. Do seu cinturo pregueado de prata pendia um pesado revlver. Um largo bracelete de prata rebrilhante rodeava-lhe um dos pulsos nervosos onde estava pendurado um chicote de coiro. Aquele ndio no era seguramente um espectculo tranquilizador para uma rapariga da cidade, recm-chegada ao deserto. Mas a sua aparncia fascinava Marian.
- Ento? Que lhe parece o homem?... - perguntou Withers, sorrindo.
- No o acho particularmente simptico... - respondeu Marian, com uma careta. - Prefiro v-lo a distncia. Mas parece ser...
- Uma realidade viva, no? Pode ter a certeza de que . Mas mesmo ao diabo h que fazer justia. Esse "Paiute" no fez qualquer espcie de mal a quem quer que fosse - desde que Nophaie regressou. Os ndios dizem-me que Nophaie tem falado com eles, e que as suas palavras so boa medicina.
- Que quer dizer a palavra "medicina", no caso especial?... - perguntou Marian.
- Os ndios fazem medicina, ou remdios, com flores,

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razes, cascas de troncos, ervas - e usam-na tal qual como os brancos. Mas medicina tambm significa orao, palavras sensatas e magia, ou mstico poder dos homens-medicina, isto , dos feiticeiros ou mgicos das tribos, e o uso que eles fazem das pinturas de areia.
- Que pinturas so essas?
- Quando o homem-medicina, ou feiticeiro, visita um ndio doente, faz desenhos e pinturas sobre pedras lisas, servindo-se de areias coloridas de tons diferentes. Essas pinturas so as suas mensagens para o Grande Esprito. So geralmente belas e at artsticas, mas poucos homens brancos conseguiram at hoje v-las. E a coisa mais estranha  que o seu uso quase sempre cura o ndio doente.
- Ento... Nophaie comeou a ajudar o seu povo?
- Decerto que sim.
- Estou muito contente por isso... - murmurou Marian docemente. - Lembro-me de que ele no acreditava que pudesse vir a fazer-lhes qualquer espcie de bem.
- Ns tambm estamos contentes. Compreenda-nos, "miss" Warner. Ns no vivemos com os ndios, mas trabalhamos honestamente para eles.
- O negociante, em Mesa, disse-me quase o mesmo, e afirmou que os comerciantes dos postos so praticamente os nicos amigos com os quais os ndios podem contar.  verdade isso?
- Julgamos que sim. Mas eu conheci alguns missionrios que eram criaturas honestas e boas - e que faziam bem aos ndios.
- No trabalham todos eles pelo bem-estar dessa pobre gente?
Withers olhou-a inquisitivamente, interrogativamente, como se a pergunta lhe tivesse sido feita vrias vezes e fosse daquelas que exigissem tacto na resposta.
- Infelizmente no... - disse ele por fim, com simplicidade amarga. - Em todos os caminhos da vida se encontram homens

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que atraioam as suas obrigaes. No esperamos isso de missionrios, naturalmente, mas em Morgan e Friel encontramos dois exemplos flagrantes. Esses so m medicina. O mal que eles fazem, no entanto,  por vezes contrariado pelos esforos dos missionrios que trabalham sinceramente para o bem dos ndios. Mas a verdade  que alguns ideies pouco se demoram por aqui.
- a no Ser que queiram submeter-se ao domnio de Morgan.
- Isso parece estranho!... - comentou Marian, pensativamente. - Esse tal Morgan dispe de poder para interferir na aco dos missionrios verdadeiramente bons?
- Dispe?... - disse Withers com um humor azedo.
- Acho que sim. Ele trata de se ver livre de todos aqueles a quem no consegue dominar, sejam ou no missionrios!...
- E como pode ele fazer isso?... - exclamou Marian, pasmada.
- Ningum sabe, realmente. Mas ns, os que vivemos h muitos anos nas reservas, temos algumas ideias a esse respeito. A fora de Morgan pode vir de ligaes polticas, ou da prpria Igreja - ou de ambos os lados. Ele  tido em alta conta pelo Conselho das Misses, no Leste. Disso no h dvida. Tambm no h dvida de que o Conselho  constitudo por verdadeiros homens de Igreja que s desejam o bem dos ndios, gente sria e boa que sinceramente pretende cristianizar as tribos das reservas. Falei uma vez com um deles, o presidente. Para ele, as crticas feitas a Morgan eram obra de missionrios invejosos - ou ataques de religiosos de credo diferente. O Conselho das Misses nunca  posto ao corrente de factos. Essa deve ser a origem do poder de Morgan. Mas algum dia eles ho-de abrir os olhos, e ento Morgan ser demitido.
- Que diferente  tudo isto - o trabalho dos missionrios - daquilo que ns lemos e ouvimos... - murmurou Marian,

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pensando sonhadoramente na carta de Nophaie.
- Com certeza que ... - disse Withers. - Veja, por exemplo, o caso do jovem Ramsdell, o vaqueiro-missionrio. O trabalho de Ramsdell inquietou Morgan. Esse pregador-vaqueiro comeou por conseguir a simpatia e a confiana dos ndios. Morgan e o seu grupo recearam que ele adquirisse demasiada influncia. Ramsdell trabalhava com os ndios, cavando valas, arando terras, plantando e construindo. Era um bom mecnico e tentou ensinar coisas aos ndios. No queria meter-lhes a sua religio pela boca abaixo. Nas suas pregaes no falava no fogo do inferno e quejandas ameaas. Mais significativo ainda, talvez,, para os ndios, era o facto de ele deixar em paz as mulheres das tribos. Era um diamante em bruto, um rude cavaleiro missionrio. Pois bem, Morgan organizou uma das suas investigaes, um dos seus tribunais. Ele, e Friel, e o agente Blucher, constituram aqui, entre eles, um Conselho de Misses. Foraram Ramsdell a apresentar-se perante essa espcie de Arepago e acusaram-no de ser o chefe de um movimento de paganismo. A acusao baseava-se no facto de ele se vestir de ndio para falar com as crianas ndias. Outro agravo de que o acusaram foi de ser demasiadamente amigo dos comerciantes dos postos, para que pudesse ser um verdadeiro missionrio-. Foi demitido. Assim vo as coisas da Cristandade! Por vezes acho natural a absoluta incredulidade dos ndios, e o seu desprezo pela religio que  servida por tal gente.
Withers pareceu notar subitamente a impresso que as suas palavras causavam a Marian. Ento, sempre gravemente maS com menos mpeto, continuou a falar. Explicou que muitos dos missionrios mandados para ali eram pessoas falhadas noutros caminhos da vida. Alguns nem tinham sido pregadores. Outros eram criaturas fracas, que se encontraram longe de toda a civilizao e praticamente numa situao de domnio sobre uma raa indefesa.

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Sucumbiam  tentao. Eram menos para censurar, pelas ms consequncias dos seus actos, do que a conjugao de foras que os havia enviado para ali, para o deserto hostil e selvagem. E, para terminar, Withers declarou que o erro estava no sistema - esse sistema que, arbitrariamente e ignorando as realidades, enviava homens de mentalidade inferior para tentarem ensinar o Cristianismo aos ndios.
Marian sentiu angustiosamente a subtil e complexa questo do trabalho dos missionrios. Os Paxtons haviam-lhe dado uma explicao semelhante, menos completa embora. E de novo pensou na carta de Nophaie, que relera ainda no dia anterior. Agora comeava a construir as suas prprias impresses, objectivas, do problema que poderia vir a ter tremendas consequncias. E bruscamente compreendeu que deixara de estar perdida e hesitante quanto aos seus motivos e s suas hesitaes - tinha decidido e fixado a sua resoluo de permanecer no deserto.
- "Miss" Warner, quer que o "Paiute" leve algum recado ou alguma carta para Nophaie?... - perguntou Withers. - Ele parte daqui amanh.
- No. Prefiro ir eu prpria... - respondeu Marian. - A senhora Withers disse-me que o senhor me conduziria l... Querer ter essa amabilidade?
- Claro que a levarei!... - concordou ele. - Tenho algum gado para esses lados, e outras coisas a tratar. Mas  uma longa viagem para um caloiro. Que tal monta a cavalo?
- Tenho montado um pouco, e neste ltimo ms frequentei uma escola de equitao, trs vezes por semana. Estou bastante treinada mas, evidentemente no sei montar como deve ser. Creio que aprenderei, no entanto.
-  j bom que se tenha treinado alguma coisa antes de vir para Oeste,

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porque os caminhos de Nopah so duros para um cavaleiro, e vai ter de aguentar tudo o que puder. Quando gostaria de partir?
- To depressa quanto for possvel.
- Depois de amanh, ento. Mas no imagine que vai surpreender Nophaie. No  possvel.
- Porqu? Se nada dissermos a quem quer que seja?
- As notcias, no deserto, correm  nossa frente.
Dir-se-ia que os prprios pssaros as transmitem. Algum ndio nos ver no caminho, seguir adiante, contar a outro ndio. E chegar a Nophaie antes de ns.
- O que chegar a Nophaie?
-A notcia de que o comerciante Withers leva "Sob a Roch" para Oeste. Pensa que ele no compreender?
- Sim, ele compreender... - murmurou Marian.
- Claro! E h-de vir ao seu encontro. Iremos pelo caminho dos "Paiutes", "miss" Marian, e ser a primeira pessoa de raa branca, alm de mim, a pisar esse caminho. Tem de ter nervos rijos, menina.
- Tenho? Oh, a minha v confiana! A minha pequena vaidadesinha ftil! "Mr." Withers... tenho medo de tudo - da vastido, da estranheza deste deserto -i daquilo que  preciso fazer...
- Claro que tem! Isso  simplesmente natural. Comece agora mesmo. Use os seus olhos e os seus sentidos. No se preocupe. Aceite as coisas tal como elas se apresentam.! Prepare o seu esprito para suport-las. E tudo estar
bem.
Chamaram Withers do interior da casa. Ele desculpou-se e deixou Marian entregue a si prpria. Assim, no sem recorrer a um esforo de vontade, Marian ps de parte hesitaes e receios e caminhou entre os ces farejantes e magros, os cavalos peludos e selvagens e os ndios indolentes que a observavam. Conseguiu andar no meio deles sem revelar as suas verdadeiras sensaes. A provao, no que dizia respeito aos ndios, em breve se foi tornando menor,

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mas no podia sentir-se  vontade perto dos ces de gado, de olhos claros e atentos, nem dominar o seu medo dos coices dos cavalos. Os carregadores de l interessaram-na. Eles empilhavam os enormes sacos castanhos at a carga alcanar uma altura de quinze ps sobre o piso dos carros. Marian pensou se eles iriam partir quela hora tardia. Por fim o cheiro enjoativo da l e das peles tornou-se demasiado forte para ela. Voltou para o porto do ptio, caminhando por entre os grupos de ndios. Ento, do limiar, a senhora Withers chamou-a para a ceia.

V.


Vinte e quatro horas em Kaidab foram, para Marian, grandemente teis e cheias de novas sensaes.
Um pr do sol sobre o profundo rasgo entre a muralha vermelha e os negros planaltos a Oeste - atravs de nuvens transparentes, de tons de rosa e prpura, orladas de branco pela luz doirada; um estranho, triste crepsculo, intensificando-se na noite do deserto sob um cu azul-escuro onde brilhavam multides de estrelas; um passeio na isolada melancolia de um silncio vazio; uma hora maravilhosa vivida junto daquela mulher estranha e doce, que amava e conhecia as almas e as vidas dos ndios; um lento mergulhar num sono delicioso em que as suas plpebras pareciam tocadas por dedos de magia; um momento parado, de meia sonolncia, durante o qual a quietao da noite foi cortada por ladridos agudos e choros de tristeza; uma madrugada fria, seca e fina, revigorante e lacre; e ento um dia cheio de novas impresses, a menor das quais decerto no havia sido um passeio a cavalo atravs dos terrenos de areia, pontedos de verde, na companhia de um rapazito ndio - tudo isso, de uma maneira ou de outra,


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tinha apressado as mudanas no corao de Marian, tinha iluminado o seu esprito, tinha estabelecido solidamente no seu ntimo a verdade estranha do seu amor pelo deserto. Parecia a evoluo lenta de um longo perodo, condensada num curto espao de tempo. Dessas horas nasceu a compreenso perfeita das ilimitadas possibilidades de alegria, de vida, de trabalho. Nunca antes dessa hora ela havia entendido a verdadeira significao das palavras: "O mundo est to cheio de numerosas coisas"...
Nessa noite, numa outra e mais importante conversa com a senhora Withers, foi discutido o assunto do trabalho de Marian. Ambas concordaram em que era prefervel comear a trabalhar em Mesa, em qualquer posio que pudesse ser encontrada na escola ndia. Foi decidido que no caso da tentativa de Marian no poder realizar-se, ela regressaria a Kaidab e trabalharia entre os ndios seguindo a sua prpria iniciativa. Os possveis desejos e sugestes de Nophaie foram tomados em considerao, mas nem Marian nem a senhora Withers esperavam da parte dele outra coisa que no fosse concordncia. O que ele diria a Marian s poderia inspir-la ou anim-la para esforos ainda maiores. Quanto ao dialecto, a jovem resolveu que aprenderia o mais depressa possvel o bastante para entender-se com os ndios, at que, com o tempo, o pudesse conhecer profundamente.
Na manh seguinte, Marian levantou-se s cinco horas da madrugada. Seria o ar frio do deserto a nica razo da sua alegria? Como era estranha a longa linha escura do horizonte, com as suas silhuetas agudas a destacar-se na palidez doirada do cu azul to claro! O corao de Marian parecia dilatar-se, batendo com mais fora. A vida era doce e boa, e a jovem sentia uma espcie de gratido pelo significado que ela tomara para si. A gua era to fria que ela sentiu os dedos doridos.

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Foi com verdadeiro prazer que vestiu o seu trajo de campo - uma blusa de flanela, calas de montar e botas altas. Tinha um casaco, uma camisola de l e grossas luvas a condizer. Apenas o chapu que trouxera lhe no pareceu prprio. Era demasiadamente pequeno, com um arzinho petulante de chapu de excursionista. Mas tinha de us-lo,  falta de outro. Arrumou outras coisas necessrias num pequeno saco de pele.
Quando saiu para a rua o sol estava mais alto e parecia ter perdido um tanto do seu brilho. Uma neblina de nuvens estemdia-se pelo cu. O vento soprava, frio e em rajadas, fustigando o cabelo de Marian. ndios a cavalo encaminhavam-se para o posto; o dia de trabalho havia principiado j. Withers, de cabea descoberta e sem casaco, como era seu costume, dirigia o carregamento de duas mulas. Era evidente que no aprovaVa a maneira como amarravam os grandes volumes embrulhados em lona, porque a certa altura desfez o n e exclamou, com troa: - "Vocs no esto a carregar diamantes!". E refez o n a seu modo. Marian no conseguia seguir a complicada manobra, mas via Withers e um dos homens colocarem-se de ambos os lados da mula e apoiarem um p no tronco do animal, deitando todo o peso do corpo para trs e puxando com fora as cordas que seguravam. No admirava que a pobre mula ofegasse, e baixasse as orelhas, e olhasse em roda num protesto mudo. Marian pensou que era estranho como o animal no rebentava. Nessa altura Withers olhou para o lado onde ela estava e interrompeu a sua tarefa.
- Jolinny, faa o favor de correr l a casa e perguntar por "miss" Warner!... - disse ele com um ar muito srio.
Marian ficou confusa e surpreendida. Seria possvel que Withers no a tivesse reconhecido? A verdade era que a feminina dignidade dos seus vinte e trs anos e at um tanto da sua estatura,

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pareciam desaparecer quando ela vestia trajos masculinos.
- Mas "Mr." Withers! Eu... eu sou "miss" Warner!... - disse ela, quase involuntariamente. Custava-lhe acreditar que a atitude dele no fosse brincadeira. Um largo sorriso iluminou a face bondosa e inteligente de Withers, ao mesmo tempo que os seus olhos brilhavam, alegres.
- Pensei que era um rapazinho!... - disse ele. - E estava a dar voltas ao miolo para adivinhar de onde um tal rapazinho tinha vindo! Voc  realmente boa-medicina, "miss" Warner!...
A sua franca admirao agradou a Marian. Teria decerto preferido aparecer a Nophaie vestindo a sua roupa feminina, um vestido qualquer, semelhante ao que usara quando se tinham visto pela primeira vez. Mas isso seria deslocado, ali. .E sentiu-se feliz ao pensar que talvez Nophaie, tambm, a achasse atraente no seu trajo de
montar.
- Vamos ter hoje um bocado de vento... - disse Withers, observando o horizonte. - No querer adiar a viagem para amanh?
- Oh, no, no quero!... exclamou Marian, assustada. - "Mr." Withers... pensa que realmente no devemos ir hoje?
- Sim, penso, mas se  esse o seu desejo, vamos pr-nos a caminho... - disse ele, decidido. - Tanto faz comear a habituar-se s tempestadas de areia, agora ou mais tarde. Tem culos?
- Tenho uns culos de automvel.
- Magnfico. Tem  de arranjar outro chapu.
- Sim... eu estava a pensar que este servia - por causa do seu aspecto, quero eu dizer. Porque  que no o acha bem?
- Oh, o aspecto  excelente. Mas no serve. Precisa de um "sombrero" de abas largas, que lhe proteja a cara do sol e da chuva.

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O sol vai queimar-lhe a pele, "miss" Warner.
- Isso no me incomoda, "Mr." Withers... - respondeu Marian. - A minha pele parece delicada mas em realidade  resistente. Fica vermelha ao sol, mas logo se torna escura.
- Bem, veremos. Entretanto, se no tem chapu largo, vou procurar-lhe um.
Marian nunca tinha vivido uma hora que lhe parecesse to longa como a que decorreu at que Withers estivesse pronto para partir. O pequeno-almoo foi, para ela, um suprfluo desperdcio de tempo, apesar de sentir fome. Durante toda essa hora sentiu o olhar penetrante e eloquente da senhora Withers, que repetidas Vezes a envolvia, e adivinhou o seu sorriso subtil, cheio de simpatia e compreenso. Aquela mulher que amava os ndios sabia realmente compreend-la, e parecia viver com ela momentos de excitante expectativa da sua juventude. Mas ao mesmo tempo havia uma sombra de tristeza, pairando como um nevoeiro naqueles eflvios de to doce magnetismo. Withers estava bem disposto e entreteve-se a troar alegremente da aparncia de Marian, que continuava a parecer-lhe um rapazinho. Por fim o pequeno-almoo terminou, e comeou o intervalo de espera.
- Marian. vai comear uma jornada difcil mas magnfica. As minhas palavras no chegam para lho dizer. O pas de Nophaie  belo alm de tudo o que humanamente pode ser descrito. No se esquea que o estudo traz em si prprio a sua recompensa... Tenha cuidado nos trilhos da montanha. Adeus.
Dois ndios conduziam as mulas de carga,  frente de Marian. Withers dissera-lhe para manter o seu cavalo sempre atrs delas. Ele prprio fechava a marcha.

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Com desgosto da jovem, tinham-lhe dado por montada um cavalo de tamanho normal em vez de um dos pequenos animais mdios, peludos e nervosos. Era um cavalo curto e largo de corpo, calmo e feio. Mas ao montar, preparada para adaptar-se  sela e ao movimento, ela tinha notado com surpresa que quase nada lhe era preciso fazer. O cavalo partiu. Movia-se com vivacidade mas num andamento que no era o trote habitual. Ela tinha trotado no dia anterior, sobre um "pony" ndio, mas em breve se havia sentido cansada. Aquele andamento era novo para ela, embora julgasse conhecer alguma coisa acerca de cavalos. Sentia-se como se viajasse numa cadeira de baloio, deslocando-se num plano - se tal coisa fosse possvel. O movimento encantava-a.
Um dos ndios era um homem velho, a julgar pelos seus cabelos grisalhos e pelos ombros curvados. Usava um leno vermelho em volta da cabea; uma leve manta de algodo, vivamente colorida, cobria-lhe as costas, e as suas pernas compridas baloiavam abaixo dos estribos. O outro ndio era um rapaz de talvez dezasseis anos, e Marian gostou do seu aspecto. O seu cabelo de bano ondulava ao vento; a sua cara de um moreno escuro era redonda e simptica; tinha os olhos to negros como o cabelo, uns olhos expressivos que, com o sorriso aberto - que mostrava duas fileiras de dentes muito brancos e iguais, faziam dele um tipo atraente e quase belo.
Marian tinha tomado a resoluo de observar tudo, todas as coisas e criaturas que encontrasse. Mas o espectculo dado pelos dois ndios de trajos garridos e pelas mulas que trotavam duramente, tinha-a feito esquecer-se de olhar em volta. Sentia o roar do vento frio, ,o cheiro de p que se levantava de sob as patas dos animais, e cavalgava facilmente, sem o mnimo esforo. Bruscamente as mulas e os "ponies" que seguiam adiante dela desapareceram do seu campo de viso.

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A vereda descia um de clive acentuado. Marian alcanou por sua vez o alto da trilha e ficou pasmada ao ver o que lhe parecia ser um fundo rasgo vermelho do terreno, entre altas muralhas de pedra, ao fundo do qual corria uma torrente ruidosa e lamacenta. Mulas e "ponies" seguiam a passo por uma descida ao longo e  beira do curso de gua. Ento os ndios, gritando para excitar as mulas, atravessaram rapidamente a torrente, espalhando em volta deles gua e lama. Marian sentiu o corao bater apressadamente, ao mesmo tempo que um arrepio a percorria. O seu cavalo parecia importar-se tanto com o terreno plano como com as descidas quase verticais. Seguia a direito! A jovem no podia distrair-sa um s instante da tarefa difcil de manter-se em equilbrio sobre a sela. E, embora sem olhar directamente para as mulas, pareceu-lhe ver que as pernas dos animais se tornavam subitamente mais curtas. Ao mesmo tempo ouviu um rumor atrs dela.
- Areias movedias!... - disse Withers. - No h perigo, mas precisa apressar o "Buckskin".
Marian nem teve tempo para compreender bem o que aquilo significava. "Buckskin" pulou da ribanceira para a gua. A jovem sentiu o seu primeiro susto. Uma das pernas do cavalo afundou-se, depois outra e outra. Mas o animal continuou a avanar. As suas pernas nunca mergulhavam duas ao mesmo tempo. E, com o impulso adquirido, atravessou a torrente de lama num andamento rpido e trepou um declive arenoso at o alto da ribanceira do outro lado. A Marian enfiou de novo os ps nos estribos e retomou alguma aparncia de compostura antes que Withers a alcanasse.
- Que tal lhe parece o "Buckskin"?... - perguntou ele. No fez qualquer referncia ao perigoso caminho atravessado.
- Eu... eu acho que  ptimo!... - respondeu ela.
- Bem me parecia que havia de gostar dele.  um andarilho.

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Poder ir tranquilamente em cima dele, em pontos onde qualquer outro cavalo a faria cair.  s deix-lo andar, porque conhece bem o caminho e no se afasta dele. Receio bem que venha por a uma ventania forte.
Withers adiantou-se at junto das mulas de carga e apressou-lhes o andamento. Os ndios seguiam  frente. E Marian parecia ter sido deixada s, com o seu cavalo, a vereda e a paisagem que a cercava. Para diante, colinas de pedra amarela e desnuda erguiam-se para o alto, na direco do cu enevoado. Atrs dela o deserto estendia-se, imenso, vastido de terreno plano e de tons castanhos que seguia at o posto e mais para alm, subindo em ondulaes mais largas at encontrar-se com a muralha irregular dos planaltos, negra contra o fundo claro do cu.
- "Isto, isto tudo me parece ainda um sonho..." - murmurou Marian para consigo mesma. No teria trocado de lugar com quem quer que fosse no mundo. Sentia-se livre com os seus prprios sentimentos.
A trilha conduzia a um desfiladeiro entre colinas de rocha. As encostas erguiam-se de ambos os lados, subindo gradualmente at majestosas alturas. Em nichos e grutas surgiam cedros atrofiados, cujas razes se estendiam sobre a rocha slida. O vento, ali, no atingia Marian, o que lhe deu algum repouso. "Buckskin" seguia num andamento sempre igual, que no a deixava perder de vista os cavalos que iam na frente. No terreno pedregoso, o cavalo pisava to seguramente como sobre areia. Marian comeou a compreender porque motivo Withers lhe tinha dado aquela montada. Lentamente os declives iam-se acentuando, subindo sempre, e a vereda conduzia para o alto. Marian no podia ver muito adiante. Sentia-se agora confortavelmente quente. Talvez mais meia hora de subida gradual a levasse a um ponto elevado de onde em breve poderia observar a paisagem distante. E que maravilhoso cenrio se lhe deparou!

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Withers tinha esperado por ela, antecipando evidentemente o seu encantamento.
- Pensei que gostaria destas dez milhas de jornada... - disse ele. - A grande rocha negra que se ergue da plancie  chamada "O Capito". E os ndios, quele agudo obelisco que mal v, do o nome de "A Rocha Estreita que se ergue para o alto".  duas vezes maior do que o monumento aos soldados, em Washington.
Extensa, larga, verde, surgia a depresso plana do deserto que conduzia at as altas silhuetas erguidas, isoladas como sentinelas na distncia. Dez milhas! Parecia talvez um tero desse caminho. Mas Marian, seguindo sempre para a frente, percorrendo a trilha no andamento suave do cavalo e olhando sempre as rochas solitrias, em breve se convenceu de quanto era enganadora a perspectiva. Durante mais de uma hora esses estranhos monumentos do deserto no mudaram de forma, de tamanho ou de cor. Foi precisa outra hora para que a jovem passasse entre eles, olhando em pasmo para cima, maravilhada pela grandeza negra, grantica, de "O Capito", e pelo esplendor avermelhado da "Rocha Estreita que se ergue para o Alto". E essas rochas eram apenas os postos avanados das verdadeiras portas do deserto - o que excedia a compreenso de Marian. A nica coisa que ela podia fazer era olhar, olhar ainda, olhar sempre, e interrogar Withers, e caminhar, caminhar - at que, lentamente, hora atrs de hora, comeasse a conceber a iluso da distncia, a maravilha da cor, a imensido das terras altas e a estranha, fantstica, quase sublime nobreza das montanhas de pedra esculpidas pelo vento e pela areia.
Vento frio, nuvens escuras, rajadas de p, curtos aguaceiros com granizo e neve - tudo passou sobre Marian sem que ela notasse sequer. Alguma coisa de muito grande lhe invadia a alma. Era aquela a terra dos ndios? Que ideia faziam os brancos da natureza selvtica e solitria que tinha criado esses filhos do deserto?


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Que ideias se agitariam nas mentes das criaturas que viviam naquela terra de encantamento?
Cerca do meio da tarde, surgiu o que Withers havia previsto e receado.
- Tempestade de areia!... - disse ele. - Mas no  das piores. Durar pouco. Ponha os seus culos e tape a boca e o nariz com o cachecol"!
Uma nuvem amarela vinha baixando, do Oeste. Sombrio e irreal, colorido de um rosa vivo, o sol brilhava atravs daquela espcie de muralha de areia. O movimento da tempestade parecia rpido e intenso, encobrindo as rochas e a plancie, descendo sobre Marian com uma inevitvel e majestosa preciso. E de sbito envolveu-a.
Marian pensou que tinha cegado bruscamente. E sentiu-se abafada, sufocada. Tinha de respirar atravs do tecido que lhe tapava o nariz e a boca, e o tecido parecia-lhe demasiado espesso, no permitindo a passagem do ar. Os seus pulmes arfavam, numa respirao estertorosa. O cheiro da poeira parecia to sufocante como a prpria poeira. Marian sentia as finas partculas de p fustigarem-lhe as faces e o pescoo... E, quando o primeiro e pesado choque da tempestade passou mais alm, Marian emergiu exactamente a tempo de escapar a uma angstia que se tornava insuportvel. Continuava a ser difcil avanar, mas gradualmente as rajadas de vento e de areia foram diminuindo de intensidade at que a tempestade se afastou para Leste, envolvendo as terras altas tal como fizera no Oeste. O sol brilhou de novo, aquecendo agradavelmente as mos e as faces geladas de Marian, e iluminando o deserto. E em breve chegou a hora mais bela do dia, perto do pr do sol, mais quente e j sem vento.
Withers esperava outra vez pela jovem.
- Estamos a aproximar-nos de um certo lugar. No quis dizer-lho antes. Aqui  a plancie de mato onde Nophaie costumava pastorear o seu rebanho. Daqui o levaram...

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Alm, sob aquele planalto vermelho,  o stio para onde os bandidos conduziram o gado. Acamparemos l. Mais para cima - aquela grande abertura na muralha vermelha -  a passagem para o Vale dos Deuses. Ali nasceu Nophaie. Withers seguiu para a frente. Marian ficou a fit-lo durante momentos, depois o seu olhar poisou sobre o mato cinzento. Ali! Nophaie, o rapazinho ndio, o pequeno pastor solitrio, tinha sido levado dali, raptado! Uma onda de emoo encheu o corao de Marian. Os seus olhos molharam-se de lgrimas at que o cinzento macio do mato lhe apareceu confuso e nevoento. Limpou os olhos. O terreno, at onde ela podia ver, no tinha pedras. Uma plancie de mato levemente ondulante, de um verde acinzentado, estendia-se para todos os lados na direco das grandes rochas, a mais prxima das quais era o planalto vermelho que Withers apontara. Marian desmontou e, arrancando um punhado de mato cheiroso, guardou-o na algibeira da sua blusa, resolvida a conserv-lo para sempre. Ento, com uma das mos apoiada  sela do cavalo, olhou para as terras altas onde nascera Nophaie. Era para ela uma estranha e intensa sensao, a de atravessar a terra que havia sido percorrida pelos passos infantis de Nophaie, a de contemplar as torres primitivas, de rocha vermelha, que tinham dado sombra ao lugar onde Nophaie nascera. Monumentais, magnficos, os pilares, e as colunas, e as flechas de pedra reflectiam o oiro e o vermelho do poente, distantes e infinitamente solitrias, perfurando a linha do horizonte e as nuvens brancas que rolavam pelo cu. O Vale dos Deuses! Marian montou de novo e no mais olhou para trs. O seu corao estava cheio. Para diante estendia-se a trilha, atravs do mato rasteiro, prolongando-se at o planalto colorido, mole imensa com colunas que lembravam um rgo gigantesco, erguendo-se isolado no deserto, longe das extensas muralhas das terras altas. Withers tinha acampado num terreno coberto de relva. J ardia o lume vivo de uma fogueira.

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Os cavalos espojavam-se no cho. Os ndios descarregavam as mulas.
- Desmonte e Venha para aqui... - disse Withers alegremente. - Descubra um stio para sentar-se e descanse um bocado. A ceia no vai demorar.
S ento Marian comeou a sentir que tinha os msculos cansados, os ossos doloridos. Era agradvel repousar. Tudo o que dizia respeito quela viagem lhe interessava, mas agora tudo lhe parecia secundrio em relao aos pensamentos que a empolgavam, sobre Nophaie. Esforou-se por observar o trabalho de Withers, ocupado com os preparativos do acampamento. Withers nunca parecia apressar-se, mas as coisas apareciam feitas como por magia. Em poucos minutos a ceia fumegava agradavelmente, e uma pequena tenda de campanha erguia-se sobre uma cama feita com mantas sobrepostas, para ela. Dormir ao ar livre no era completamente novo para Marian. Vrias vezes se sentara perto de fogueiras de acampamento, no Maine e nos Adirondaicks. Mas isto agora era diferente, assim como o forno que Withers usava lhe parecia um fascinante utenslio. Era uma espcie de tacho de ferro preto, com uma tampa separada. Withers tinha atirado a tampa para o meio do lume, e o tacho repousava sobre um monte de carves ardentes, alisados de um dos lados. Withers ps dentro do forno os biscoitos moldados  mo, tirou a tampa do lume, servindo-se de um pau, e colocou-a sobre o tacho. Depois empilhou carves em brasa sobre a tampa, e aparentemente deixou de se interessar por aquilo. Marian olhava curiosamente, interessada em ver o que sairia dali.
- Venha, vamos a isto!... - disse Withers pouco depois, no seu tom de alegria habitual.
- A qu?... - perguntou Marian.
- Esta  a nossa maneira, no Oeste, de convidar as pessoas a comer.

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- Oh! E que aconteceu aos biscoitos que ficaram naquele tacho preto?
- Jovem senhora, quando tiver provado alguns dos meus biscoitos, nunca mais saber o que  a felicidade... - respondeu o comerciante, rindo. Logo em seguida levantou a tampa do forno. Marian quase no podia acreditar no que via. Momentos depois estava sentada no cho, de pernas cruzadas em frente de um quadrado de lona sobre o qual Withers colocara a refeio. O aroma que a envolveu despertou nela, bruscamente, um apetite tremendo. E Marian iniciou a sua primeira refeio no deserto, com um agrado e uma satisfao que nunca antes conhecera. Withers serviu-a, depois serviu os ndios que estavam de p, perto deles, seguindo-lhes os movimentos com os olhos gulosos; por fim serviu-se a ele prprio. Marian, todos os sentidos alerta, fixava atentamente a realidade daquela hora - os ndios pitorescos, o negociante do Oeste, impetuoso, feito de uma s pea e cheio de bondade humana, o aroma do presunto, e do caf, e dos biscoitos aloirados e quentes, o vento frio e penetrante que varria o espao e lhe atirava o fumo para a cara, o calor agradvel da fogueira e, para alm do crculo do acampamento, a mancha vaga da plancie coberta de mato e limitada pelas altas muralhas de rocha.
-Hum! Vejo que o apetite lhe no falta!...-comentou Withers em tom jocoso.
- Estou envergonhada de mim mesma, "Mr." Withers... - respondeu Marian. - Mas a minha desculpa est em que nunca senti tanta fome em toda a minha vida, nem provei to boas coisas como estas. A sua vaidade nos biscoitos  bem justificada.
O negociante apreciou francamente os elogios de Marian e o seu apetite devorador. Mais tarde, quando ela insistiu em compartilhar das tarefas de depois da ceia, ele riu-se outra vez.

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Marian comeou a associar a simplicidade daquele homem do Oeste com a ousada franqueza e a fora de nimo que o caracterizavam.
A jovem sentiu a necessidade de vestir o seu pesado casaco, mas em vez disso embrulhou-se numa manta e afastou-se do acampamento, para olhar o deserto. A luz vaga do crepsculo parecia reflectir-se nas altas muralhas de pedra, como demorando-se para que ela a pudesse ainda ver. Como era delicada e subtil a macieza dos tons de rosa e de oiro! As cores foram esmaecendo enquanto ela as contemplava. O crepsculo atardou-se ainda, mas por fim caiu a noite. Marian sentiu-se isolada. O lugar onde Nophaie e o seu rebanho tinham sido aprisionados pelos bandidos, era triste e solitrio. O vento frio passava por ela, estranhamente silencioso. Nada quebrava o silncio. E Marian sentiu que no podia suportar durante muito tempo aquela mudez das coisas. Grandes estrelas brancas brilhavam no cu azul-escuro, sobre as altas muralhas negras. A solido, as emoes, a onda de pensamentos que a avassalava, tudo isso seria bastante para que Marian regressasse ao acampamento. Mas sentia tambm frio, a escurido da noite comeava a assust-la, e estava cansada da longa jornada.
Ao aproximar-se do acampamento, uma cena se deparou, viva e recortada, aos seus olhos... o brilho claro da fogueira, acentuando o negrume do deserto, os ndios sentados em redor do fogo e Withers de p, com as costas voltadas para o lume. Vultos duros e destacados, singularmente tpicos de tudo o que dizia respeito  vida e  cor do Oeste, sobressaam nitidamente, como em relevo.
- Ia agora mesmo procur-la...--disse o comerciante.
- No deve afastar-se muito  noite, ou mesmo a qualquer hora.  melhor recolher-se, "miss" "Warner. Amanh seguiremos pelo trilho dos "Paiutes".
Marian entrou, de joelhos no cho, na pequena tenda de campanha, to baixa que lhe tocava na cabea quando ela se sentou na cama improvisada.

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Com o casaco e a camisola arranjou uma almofada. Depois, cansada, descalou-se e enfiou-se por entre as pesadas mantas de l, com um sentimento indefinvel de gratido e de bem estar. Tentou ainda pensar, coordenar ideias e emoes, meditar e sonhar sobre o futuro - mas o sono dominou-a quase imediatamente.
Withers acordou-a, de manh, e quando ela gatinhou para fora da pequena tenda viu-se envolvida na maravilhosa luz cinzenta do romper do dia, fria e pura, carregada do doce perfume do deserto, com o grande planalto a destacar-se, numa silhueta ntida, negra e recortada contra o esplendor doirado do nascente.
- Hoje vamos trepar um bom pedao... - comentou Withers, bem humorado como sempre.
Uma hora depois de terem recomeado a jornada, Marian comeou a compreender o exacto significado da frase, apesar de no fazer a menor ideia de como lhes seria possvel transpor a ciclpica muralha de pedra vermelha para a qual se encaminhavam e que parecia a face abrupta e cavada de uma gigantesca montanha. A vertente de rocha quebrada que se apoiava  sua base, talvez pudesse ser vencida, mas no se prolongava a grande altura. Pela centsima vez Marian verificou que o que ela via a distncia era totalmente diferente do que se lhe deparava ao olhar de perto.
As sombras que lhe haviam dado a impresso de grandes cortes, cicatrizes imensas, eram afinal linhas salientes e arredondadas, como cordas fantsticas formadas por pedaos enormes de rochedos ligados uns aos outros, vertentes e taludes, massas de pedra sobre as quais e ao longo das quais seria talvez possvel caminhar. A aproximao daquela alta barreira no foi, para Marian, vazia de excitao e de interesse. E, quando Withers se afastou da trilha marcada que seguia pelas terras baixas, para tomar por uma dura pista que se dirigia francamente para a montanha, ela
sentiu uma impresso quase de medo. Aquele devia ser o caminho dos "Paiutes", nunca percorrido pelos homens brancos.
- Aqui est a pista dos "Paiutes"... - confirmou Withers, desmontando. - Vamos seguir a direito, em corta-mato... Sinto dizer-lhe, "miss" Warner, que ter de ir a p. Suba devagar - repouse frequentemente - e nos stios mais difceis caminhe sempre ao lado do seu cavalo.
Os ndios tinham-se apeado tambm e conduziam os seus "ponies" para cima. As mulas transportavam os seus fardos por uma trilha em ziguezague. Withers comeou tambm a trepar a encosta. Marian seguiu-o, confiante e atenta, olhando para todos os lados. O que a impressionava sobretudo era o facto de, apesar do caminho ser quase a pique, haver sempre onde firmar os ps ao longo da vertente. Sempre que parava para retomar flego, observava os ndios. Eles nunca se detinham. As mulas tambm no. A trilha tinha sido maravilhosamente traada, sinuosa ao longo da primeira vertente, seguindo depois ao longo das salincias e depresses, e continuando em frente, de um lado para o outro, por uma passagem cheia de curvas bruscas, entre duas arestas de rochedos quebrados. Marian sentia-se entontecida ao olhar para o alto, para o rebordo superior da muralha. Os ndios desapareceram do seu campo de viso, logo seguidos pelas mulas, enquanto Withers, lentamente, se ia afastando tambm. Marian no estava a apreciar grandemente a situao, e descobriu que "Buckskin" tambm parecia contrariado. A jovem comeou a sentir-se embaraada nos seus movimentos, atrapalhada pelo cavalo que trepava demasiadamente depressa, atrs dela. O animal empurrava-a com o peito, derrubando-a quase, e as patas dele roavam-lhe as botas. Marian era forada a caminhar mais apressadamente, e nos declives cada vez mais speros a provao tornava-se difcil de suportar. "Buckskin" no queria, ou no podia, seguir mais devagar;

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e pouco a pouco Marian sentiu que tinha de fazer um esforo excessivo para manter o andamento da escalada. Parecia-lhe que tinha sido abandonada a si prpria.
- Cuidado a em baixo! Ateno s pedras!... - gritou Withers, que ia mais longe e mais acima.
Os ziguezagues da trilha haviam-no colocado num ponto exactamente a cima de Marian, e as patas do seu cavalo tinham feito rolar allgumas pedras. A jovem ouviu o barulho feito pelos pedaos de rocha que rolavam, e abrigou-se rapidamente numa reentrncia da muralha. As pedras rolaram ao lado dela, ganhando impulso e arrastando outras, at que a pequena avalanche rugiu como um trovo. De sbito voltou o silncio.
Marian recomeou a subida, quase sem esperana e completamente sem flego. A gente do Leste, em verdade, no fazia ideia do que era uma montanha. Marian lembrou-se de um amigo que detestava caminhar mesmo sobre terreno plano, quanto mais numa subida. Em breve a sensao de extremo calor e de cansao se transformou numa impresso dolorosa de queimadura. Sentia como que um peso sobre o peito, e as pernas sem fora, quase inertes. Comeou a compreender que as paragens demasiadamente demoradas eram ainda piores do que no parar de todo, porque a sensao de alvio era intensa demais, se se detinha alm de alguns instantes. Assim continuou a arrastar-se, para a frente e para cima,, ofegante, com uma sensao de intolervel calor e gotas de suor a correrem-lhe pelo corpo, tentando evitar os empurres de "Buckskin" e fugindo de olhar para baixo, para o declive que tomara propores de vertigem. A luz, em volta dela, ia-se tornando cada vez mais brilhante. Ouviu um alegre brado de Withers, a encoraj-la. Como lhe pareceu interminvel o ziguezaguear do ltimo pedao de trilha antes do cume!
- Magnfico! Voc  uma autntica trepadora!

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Mas isto no  nada, comparado com o desfiladeiro dos "Paiutes"!... - disse Withers, rindo.
- Oh!... - suspirou Marian, deixando-se cair, Sentada sobre uma pedra lisa. No podia mais, estava farta. Sentia uma impresso de esmagamento no peito. As felicitaes de Withers caram em ouvidos que zumbiam de esgotamento e de dvida.
- Descanse um bocado... - disse Withers bondosamente. -- E depois olhe em volta. Estamos no limiar do pas de Nophaie!...
Estas palavras despertaram o interesse de Marian. Primeiro olhou para trs, para as terras baixas por onde havia passado. Que distantes pareciam! A trilha, que descia em linhas sinuosas e quebradas, parecia-lhe impossvel de percorrer, e no entanto ela viera por ali. O Vale dos Deuses destacava-se majestosamente da vastido do deserto que podia agora avistar; e os pncaros das montanhas longnquas estavam ao nvel do ponto onde ela se encontrava. Pertenciam  mesma formao de pedra vermelha - o que significava que todo o espao em baixo, entre os dois pontos, havia sido cavado pelo tempo - desgastado lentamente pelas areias, pelo vento e pela geada! Essa noo, embora quase inacreditvel, era flagrante para Marian. A obra, estranha e formidvel, das Idades! Aquela terra de mistrio e de beleza parecia acenar-lhe, esperando-a. Na lonjura, os deuses de pedra vermelha erguiam-se isolados, enormes, impressionantes. Ela olhou-os por momentos, e pouco a pouco sentiu que as foras e a coragem lhe voltavam.
- Alegra-me ver como olha para o deserto... - disse Withers, com uma gravidade invulgar nele. - Muita gente no o v dessa maneira - embora seja verdade que poucos foram os que o puderam observar daqui. O que eu quero dizer  que isto  realmente uma terra de maravilha. ndios, cavalos, pssaros - as poucas criaturas vivas que aqui se encontram,

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parecem no existir... simplesmente porque ns raras vezes as vemos. Assim nada h para olhar a no ser a imensido - nada sobre que pensar.  essa a razo porque o ndio  grande. Parece-se com a terra que o rodeia.
- Eu no... no sei o que sinto - e ainda que soubesse... no o conseguiria traduzir em palavras... - respondeu Marian. - Quereria viver aqui durante meses, anos... Mas depois - poderei eu ser outra vez feliz?
- As terras contribuem mais para a felicidade do que as pessoas... - disse Withers. - Bem, vamos continuar. Apenas transpusemos o primeiro degrau desta escada.
Ento Marian sentiu Uma espcie de medo de olhar para Oeste. Mas alguma coisa dentro dela a compelia a faz-lo. Enorme, bravia, como que debruada sobre a plancie, coroada por um friso de rvores verdes, outra muralha rasgava o horizonte. Parecia estar perto, e para o norte interrompia-se bruscamente. Withers conduzia agora o seu cavalo atravs de uma floresta de cedros. Marian montou, no sem sentir que cada msculo lhe doa, e seguiu-o, fazendo o possvel para no o perder de vista. A trilha era quase invisvel, mas, naquele terreno macio e sem relva, Marian pensou que no teria dificuldade em seguir a pista dos cavalos que iam na sua frente.
Aquela extenso de floresta perfumada levava  base de uma elevao rochosa, onde Withers a esperava.
- Deixe ir a "Buckskin"  vontade... - disse ele. - Eu olharei por si. Sabe uma coisa? Vi a pista recente de um cavalo que atravessou esta trilha. Apostava algum dinheiro em como o "Paiute" que vimos em Kaidab j nos passou adiante. Se assim for, Nophaie vir ao nosso encontro antes que a noite desa.
Marian esforou-se por afastar essa ideia do pensamento. Perturbava-a intensamente e no lhe deixava a calma necessria para fazer frente s crescentes dificuldades da jornada.

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Queria apenas olhar, sem antecipar as suas emoes. E, ao mesmo tempo, desejava e temia o seu encontro com Nophaie.
Withers continha agora o andamento do seu cavalo, pautando a marcha pela da montada de Marian. Ela sentiu-se reconfortada por t-lo perto, embora no lhe apetecesse falar. E Withers, por seu lado, pouco tinha que dizer, atento ao caminho. Comearam uma longa subida atravs de um terreno de rocha amarelada, ondulante, cheio de altos e baixos, semeado de pequenas colinas e de fundas depresses, que impunha uma espcie de marcha como num labirinto, em direco s alturas. Mas o terreno no era completamente despido de vegetao, pois Marian avistou cedros anes que se erguiam em cavidades da rocha, onde a poeira e a gua tinham feito crescer uma erva rala. A estranha vertente prolongava-se por cerca de meia milha, atingindo por fim a altura da enorme fronteira de pedra que a jovem observara da outra elevao. Parecia-lhe ter agora alcanado o nvel mais alto das terras altas - mas ainda no era assim. Havia, a distncia, para oeste, picos mais elevados ainda. Para o norte a paisagem oferecia um violento contraste, com longas fileiras de negras montanhas cujos pncaros alvejavam, cobertos de neve.
- Olhe para trs e para baixo!... - exclamou Withers, com uma clara vibrao na voz. - Estive aqui s uma vez, mas nunca esqueci isto - e nunca hei-de esquecer!
Daquelas alturas Marian descobriu um horizonte imenso e surpreendente - lguas e lguas de deserto verde-cinza - as muralhas vermelhas de cada lado da passagem para o Vale dos Deuses - e, entre essas gigantescas sentinelas, as agulhas de rocha, enormes e misteriosas, envolvidas em luz - que os ndios consideravam sagradas. Sentiu que alguma coisa dentro dela, no seu esprito, se erguia, como tomando voo.

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Poderia alguma alma permanecer fechada ante aquele espectculo? O que era a natureza - se no era eterna? Compreendeu que na vida existem momentos de transcendente revelao para o esprito desperto. Nophaie tinha-lhe feito a oferta daquela sublimidade - e nunca mais ela seria a mesma pessoa que tinha sido at ento. Em breve o veria - o ndio a quem amava - esse atravs de quem lhe tinham vindo os mais profundos pensamentos, as mais doces emoes e, agora, uma compreenso mais alta e mais nobre da vida. A Natureza parecia lanar sobre Marian os seus ensinamentos eternos - e ela aprendia, humildemente, a sua primeira lio.


VI.


Daquele ponto, de onde se podia avistar uma paisagem to vasta, Withers encaminhou-se para Oeste, galgando uma espcie de degrau enorme para que se debruava sobre a trilha e em cuja sombra cresciam tufos de verdura intensa. Uma atmosfera fria e hmida envolveu Marian - subindo dos bancos de neve que enchiam as cavidades sombrias do sop da muralha. Uma leve camada de poeira vermelha recobria a neve.
Marian deliciava-se com o caminho que seguia a trilha. A terra era macia, avermelhada, sem rochas ou fundas depresses, e a pista prolongava-se em volta da muralha, debaixo da sombra que ela projectava, atravs de bosques de cedros e pinheiros, oferecendo sempre um cenrio diferente atravs dos planaltos bravios. O ltimo quarto de crculo em volta da larga muralha fez com que Marian sentisse um intenso arrepio, pois o caminho seguia agora, perigosamente, entre a alta penedia e um abismo, escuro e sinistro, de um milhar de ps de profundidade.
Ento, mais uma vez, Marian emergiu em plena luz do sol,

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frente ao deserto enorme, aberto e plano. Os ndios e as mulas de carga avistavam-se adiante, entrando numa floresta verde-negra de pinheiros e cedros, mas fechada e mais vasta do que as outras por onde haviam passado. Milha aps milha a floresta estendia-se para oeste, subindo em declive suave at uma plancie de mato cor de prpura. Para alm do horizonte de intenso colorido, erguia-se a cpula branca e negra de uma alta montanha, que Marian pensou reconhecer como sendo Nothsis Ahn - vista pela primeira vez das alturas de Red Sandy. Seguindo para Oeste deixou de ver a montanha, cujos pncaros desapareceram sob a linha do horizonte.
Marian comeou a sentir que os estribos, e a sela, e o movimento do cavalo se tornavam coisas difceis de suportar. O suave andamento de "Buckskin" tinha-a poupado at ento, mas agora as longas horas de jornada j pesavam sobre ela. Tinha em verdade de estar grata pela extenso de caminho fcil, porque receava mais ainda a dureza da trilha do que a crescente sensao dolorosa de todos os seus msculos. Ao mesmo tempo, quase se sentia feliz pelas suas dores e desconfortos. Apesar do sol quente, o ar parecia impregnado de um frio agudo, fino e penetrante. E pouco a pouco saturava-se de to intenso perfume que Marian se sentiu como que intoxicada. Lentamente, todos os vestgios de rocha foram desaparecendo. A paisagem parecia ser apenas constituda por uma enorme floresta ondulante, onde os tons verdes eram cortados aqui e alm por manchas purpurinas. As rvores eram todavia cada vez mais altas, mais verdes as falhas, mais intenso o doce cheiro do mato.
O sol subia no horizonte, o calor aumentava. Um vento quente, carregado de aromas do deserto, roava as faces de Marian. Ela continuava a cavalgar, perdendo toda a noo do tempo. Nem o cansao nem as dores poderiam diminuir o seu entusiasmo e o seu interesse, ou a envolvente,

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a dominante certeza de que se ia aproximando de Nophaie. Naquele interminvel planalto existiam criaturas vivas para observar - pssaros de penas azuis-escuras que soltavam uma espcie de gritos singularmente agudos, lagartos que atravessavam vivamente a terra nua e vermelha, falces que voavam baixo, procurando a presa, e coelhos que corriam a buscar refgio no mato rasteiro.
Foi a fome que lembrou a Marian as horas que passavam, e lhe fez pensar que, desde a madrugada - e agora o dia ia em meio - no tivera um s instante de repouso. Sete horas de constante caminhar! Calculando quatro milhas por cada hora, havia percorrido quase trinta milhas de caminho. Perguntou a si mesma se "Buckskin" estaria fatigado. Mas o cavalo seguia sempre, sempre no mesmo passo igual e fcil, como se a distncia, e o tempo, e o calor do sol nada significassem para ele. Marian recorreu a uma sanduche que preparara antes de partir, mordeu um pedao de chocolate e bebeu gua fresca do cantil. Sentiu uma espcie de pensativa gratido por essas coisas simples. Era a necessidade que dava valor s coisas. Quantas vezes, durante a sua vida, um biscoito requeimado e poeirento lhe parecera ao mesmo tempo um prazer e uma bno? Quantas vezes no lhe apetecera chocolate! E, a respeito da gua e do seu delicioso poder refrescante, ela tudo ignorava at ento. Se era assim com essas coisas- porque no o seria com todas as outras?
Assim Marian continuou a caminhar, mergulhada nos seus pensamentos. Mas a certa altura, erguendo os olhos, avistou uma imensa abertura na terra por onde se estendia a floresta verde-negra. Withers, a p, esperava-a  beira do precipcio. Para alm, na distncia, Marian via a outra face do abismo, uma penedia nua, de tons vermelho e oiro, que parecia descer quase verticalmente. Teve uma sensao de espanto. Dir-se-ia que a terra se havia fendido.

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Enquanto conduzia o cavalo para o ponto onde Withers se encontrava, pde verificar que o precipcio descia a uma fantstica profundidade, to grande que no conseguia ver-lhe o fundo-. O negociante fez-lhe sinal para parar antes de atingir a borda da muralha.
- O Desfiladeiro dos Paiutes... - disse ele. -  m medicina. Tem de caminhar depressa, porque os cavalos no podem ir devagar e eu tenho de gui-los. No me perca de vista, de contrrio no encontrar mais a trilha.
Marian desmontou e, entregando as rdeas ao negociante, encaminhou-se para a beira do abismo. Era um desfiladeiro pedregoso, completamente despido de vegetao, aberto na rocha polida, que parecia escancarar-se abaixo dela, tremendamente largo e profundo entre as duas encostas de penedia colorida.
-A gente branca no conhece o Desfiladeiro dos Paiutes... - comentou Withers, a seu lado. -  o stio mais maravilhoso e mais selvagem do Oeste. Mas ho-de passar muitos anos antes que os automveis possam vir por aqui, no lhe parece?
Teve um riso breve, mas na sua voz havia um tom de satisfao. Marian no soube que dizer. Sentia-se dominada pelo espanto. As fotografias que vira, de grandes desfiladeiros, no davam nem uma leve ideia da realidade que se deparava agora aos seus olhos.
-  maravilhoso... e assustador!... - exclamou por fim, sentindo uma espcie de vertigem, a poderosa atraco do abismo. - Mas parece que no  possvel... sequer... deixar-se uma pessoa escorregar at l em baixo!...
- Bem, deixe-me tomar a dianteira, com os cavalos, para que no caia por cima de mim... - disse o negociante. - Depois deixe-se realmente escorregar, se quer ver Nophaie ainda hoje. Temos de ir depressa para alcanarmos a aresta da outra muralha antes da noite.

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- Pensa que ele... ele vir ao nosso encontro?... - perguntou Marian.
- Era capaz de apostar... Tenha cuidado em no torcer um p nessas pedras soltas!...
Withers prendeu as rdeas do cavalo de Marian, atando-as no selim., e impeliu-o para a vertente. "Buckskin" avanou sem hesitao, deslocando pedras sob as patas. Ento o negociante comeou tambm a difcil descida, levando a sua montada. Marian ficou a observ-los por um momento. Era realmente preciso andar depressa para no perder o equilbrio. De longe, de l de baixo, vinham as vozes dos ndios que chamavam as mulas. O rudo das pedras soltas, rolando pela vertente, dizia das dificuldades da descida.
Marian fitou longamente a outra encosta, excitada pela ideia de que era ali que Nophaie viria ao seu encontro. O lugar pareceu-lhe estranhamente indicado para isso, para um acontecimento to cheio de significao e de esperana. A aresta de uma alta penedia orlada de pinheiros, sobre o desfiladeiro enorme, rosa e oiro, erguida e solitria como um ninho de guias - era em verdade um lugar onde Nophaie podia esperar por ela. Quando o olhar de Marian percorreu lentamente a linha da muralha, impressionou-a a enorme altura e a formao macia da vertente do desfiladeiro. Prolongava-se por uma distncia seguramente superior a cinco milhas, mas, apesar da sua largura, parecia to alta e to formidvel que Marian no conseguiu reprimir uma exclamao de espanto. Teria de escalar aquela imensido para encontrar Nophaie antes da noite! A ideia parecia absurda - porque ela no tinha asas. Como eram estranhos e para alm da sua compreenso aqueles homens do Oeste, que venciam os obstculos da Natureza!...
Sob a muralha colossal estendia-se uma superfcie de areia amarela atravs da qual uma corrente de gua, clara

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como uma linha branca, serpenteava rebrilhando ao sol. A dura nudez do terreno era alegrada por grupos de rvores de um verde intenso - o que provava que o Vero descera quelas profundidades.
Ento o olhar de Marian voltou a fixar-se no declive a seus ps. O ngulo era de quarenta e cinco graus, e a trilha uma linha estreita de rochas soltas. Marian respirou profundamente e disps-se a descer. Mas, antes de iniciar o movimento que no lhe permitiria olhar ao longo e ao largo do maravilhoso desfiladeiro, deteve-se ainda um instante, para gravar para sempre na memria aquele cenrio to estranhamente belo. A vertente baixava quase na vertical, spera, pedregosa, e muito mais alm, quase perto do fundo, prolongava-se numa extenso de terra, colorida e ondulante. Para o Norte o desfiladeiro abria-se num largo anfiteatro de natureza selvagem e bravia, com declives, muralhas, bancos e linhas de terra e de rocha, e inumerveis troos de calcrio em forma de leque, num mosaico de vermelho, amarelo, prpura, cinzento e violeta, reluzindo, nu e brilhante sob o sol.
O Desfiladeiro dos Paiutes tinha tudo o que fazia e Vale dos Deuses um espectculo inesquecvel, mas tinha ainda mais a estranheza da desolao, do abandono e da morte. A natureza tem os seus caprichos, e ali havia uma brutal expoliao da superfcie da terra. Marian no compreendia a coerncia entre o maravilhoso planalto coberto de cedros e de pinheiros - e aquela catstrofe imensa das idades. Mas sem aquilo, sem a aco destruidora do tempo, no existiriam aquelas cores intensas do minrio, que ao menos serviam para encantar os olhos dos ndios e para lhes fornecer as tintas das suas pinturas de magia.
Relutantemente, Marian desviou o olhar das maravilhas do desfiladeiro, e iniciou a descida. Ainda no tinha dado meia dzia de passos e j se esquecera completamente do cenrio,

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sbita e violentamente chamada  compreenso dos perigos traioeiros das pedras soltas - e da rudeza do contacto com elas. A primeira queda magoou-a bastante, sobretudo num cotovelo fortemente contundido ; mas feriu tambm a sua vaidade. Partiu de novo, mais cautelosamente, e logo a seguir desequilibrou-se outra vez, as mos tentando encontrar um apoio que no existia, os ps escorregando sobre a rocha lisa. Daquela vez evitou a queda, mas apanhou um susto. A precauo era intil, naquela trilha. Tinha de caminhar com leveza e rapidez, levantar os ps de sobre as pedras antes que elas se desprendessem e a fizessem cair. A descida era excitante, e Marian comeou a sentir-se audaciosa.O movimento libertou-lhe o esprito; quanto mais se adiantava menos medo sentia. Ao avistar os pontos mais difceis, longas extenses de pedras soltas sobre terra macia, parava o tempo necessrio para fixar um caminho entre as rochas e depois continuava a descer, sempre mais depressa, com os ps tornados mais fortes pela prtica. A certa altura distinguiu, muito mais para baixo, Withers e as mulas atravessando uma zona de terra vermelha e irregular. Desceu mais e, ou o caminho se tornou mais fcil - ou ela se movia melhor; apesar de escorregar de quando em quando, quase cada de costas, comeou a achar aquilo divertido. Tudo se limitava a manter o equilbrio. Prosseguiu, sempre para baixo, em ziguezagues, sentindo-se sem flego. Ento a superfcie pedregosa acabou, permitindo uma descida mais calma. Por todos os lados apareciam pedras enormes, grandes como casas. Marian alcanou a zona de terras avermelhadas, ainda fortemente inclinada mas muito menos perigosa e difcil de transpor. Quando olhou para cima, para a aresta l no alto, to distante, custou-lhe a acreditar no que via. Pouco a pouco, passO a passo, tinha percorrido todo aquele caminho! Era uma proeza de que sentia orgulho - enquanto esfregava com as mos o corpo dolorido. Depois desceu mais um declive de terreno macio e encontrou "Buckskin",

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esperando-a sobre a trilha, de rdeas pendentes. Withers esperava, pouco adiante. Marian montou a cavalo e s ento se deu conta de que a excitao lhe tinha feito esquecer a dor e o cansao. Foi ao encontro de Withers.
- Vejo que tem os ps firmes!... - disse ele alegremente.
- Sim;, os ps esto firmes... mas tenho outros stios bastante amachucados... - respondeu Marian.
- Escorregou algumas vezes, no?
- Sim... e fiz uma ginstica que envergonharia muitos atletas...
- Magnfico. Vamos continuar. No se assuste com os saltos de terreno, agora. Basta agarrar-se.
- Essa  uma soluo ptima para todos os problemas da jornada. Basta agarrar-se!...
Withers riu-se e impeliu a montada para a frente. Marian deixou as rdeas soltas sobre o pescoo de "Buckskin". As zonas de calcrio tinham uma aparncia estranha, pintalgadas de cor e quase ligadas umas s outras. Aos tons vermelho sucediam-se os amarelos, aos amarelos os violetas, depois os castanhos claros. O caminho continuava a descer, e os cavalos, por vezes, deixavam-se simplesmente escorregar; noutros pontos transpunham barrancos to a pique - que Marian s dificilmente se mantinha sobre a sela. Depois deles havia sempre uma funda depresso, com uma subida ao lado oposto. "Buckskin" no sabia trepar devagar; muitas vezes saltava para o fundo das depresses, e ainda Marian no se equilibrara na sela, j ele pulava outra vez, para cima. Os resultados eram mortificantes para ela, e por vezes dolorosos. Seguiu escrupulosamente o conselho de Withers, mas nem sempre sem grandes sobressaltos e sustos. Todavia teve alguns momentos de excitao e de prazer, misturados com outras sensaes. Parecia-lhe que estava a descer para as entranhas da terra.

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Que imensa profundidade, a daquele desfiladeiro! Apesar de a tarde no ir ainda adiantada, o sol mal tocava na aresta superior da muralha de oeste. Marian sentia-se extremamente fatigada, s pelo esforo de conservar-se em equilbrio sobre a sela, e ficou realmente contente quando o ltimo declive a levou a um banco de areia que conduzia por sua vez ao leito do desfiladeiro.
A corrente que, vista de cima, parecia uma linha prateada, era de facto um largo e profundo curso de gua, no qual os cavalos se apressaram a beber. Withers desmontou, estendeu-se ao comprido sobre a areia e matou a prpria sede. Os ndios tinham parado perto de um dos grupos de rvores e falavam com outro ndio, que estava a p.
- Descanse um bocado  sombra das rvores... - sugeriu o negociante. -- Vai precisar de todas as suas foras para a escalada. Vejo alm alguns "Paiutes"...
S quando estava perto das rvores, transposta uma parte do plano arenoso, Marian viu que havia outros ndios alm daquele que tinha avistado antes. Uma mulher e uma criana estavam sentadas no cho, para alm dos troncos coroados de verdura. Desmontando, a jovem procurou nos bolsos alguma coisa para dar  criana, e descobriu um pedao de chocolate que sobrara. Aproximou-se do grupo.
Sobre a areia ardia um lume baixo. Os utenslios de cozinha estavam perto, ainda sujos de restos de comida. A mulher era nova e quase bonita, pensou Marian. Trazia um vestido escuro, de tecido espesso, um colar de contas em redor do pescoo e braceletes de prata ornamentados com turquesas, de um desenho primitivo. A criana parecia ser uma menina de cerca de trs anos, delgadita, com uma carinha morena e redonda, de expresso assustada. A me demonstrava uma timidez que surpreendeu Marian. Havia realmente qualquer coisa de selvagem naquelas duas criaturas sentadas na areia, no fundo do desfiladeiro, especialmente no cabelo revolto da pequenita.
- Toma!... - disse Marian com um sorriso, oferecendo o chocolate. Divertiu-a ver que a pequenita, apesar do seu flagrante receio, estendia rapidamente a mozita morena e apanhava a guloseima. Depois encolheu-se, mais chegada  me, como a querer esconder-se por detrs dela. Marian sentiu vontade de demorar-se ali para demonstrar melhor a sua simpatia, mas afastou-se por um sentimento de bondade. A sua presena assustava evidentemente a garotinha, e embaraava a me. Ficou a olh-las desde a sombra das rvores onde foi instalar-se, com um interesse meditativo e carinhoso. No se avistava por ali qualquer cabana, ou tenda, ou habitao de outro gnero. Mas Marian no duvidava de que aquele lugar era uma espcie de lar para os trs ndios. Notou que o terreno em volta estava semeado de trigo, e que o "Paiute", agora em conversa com Withers, tinha na mo uma p tosca, cujo cabo era feito de um ramo de rvore. Que ndio estranho! Era novo ainda, e pouco havia nele que pudesse comparar-se aos ndios sujos e de ombros cados que ela tinha visto em Mesa. Enquanto ela olhava, o Paiute ergueu uma das mos, firme e forte, apontando com singular elegncia e expresso, num movimento largo e lento, para um stio alm e para cima do desfiladeiro. Havia uma espcie de clssica beleza naquele gesto simples, e na atitude do ndio.
Withers encaminhou-se para Marian.
- O "Paiute" cuja pista encontrmos passou esta manh por aqui. No h dvida de que encontrar Nophaie. E dir a Nophaie, o mesmo que disse a este ndio...
- O qu? - perguntou Marian, com a respirao suspensa.
- Que "Sob a Roch" segue a trilha dos "Paiutes"...
-- respondeu Withers, sorrindo. -- Essa notcia pode parecer estranha a este "Paiute". Mas Nophaie compreender. Como resposta Marian ergueu-se, desviando a cara, e dirigiu-se para o seu cavalo. Ao apanhar as rdeas viu que a sua mo enluvada tremia. Tinha um forte domnio sobre si mesma, mas no podia confiar demasiadamente nele.
E de novo seguiu a trilha, cavalgando atrs de Withers e dos ndios. Atravessaram o desfiladeiro at uma abertura na muralha, e a comearam a subir. A entrada daquela garganta de rocha era estreita e dentada. Olhar para cima, sobre a longa pista semeada de blocos de pedra quebrada, na direco do ponto superior e distante da garganta, fez afluir o sangue ao corao de Marian.
Withers deixou-a seguir a cavalo durante uma grande poro de caminho. Havia um banco de areia ao longo da muralha, do lado direito. Ao fundo da passagem um pequeno curso de gua corria sobre as rochas. rvores de folhagem verde e fresca ensombravam uma parte da trilha. Pouco adiante as rochas comeavam a misturar-se com a areia. Marian avistava os ndios, acima e  esquerda, avanando lentamente sobre o declive polido pelo tempo.
Ao atravessarem a corrente, Withers fez-lhe sinal para desmontar e encheu-lhe o cantil de gua. A gua era fria e cristalina, agradvel de beber.
- Beba com frequncia... - disse ele, observando-a. - Este deserto seca. Bem, agora temos de trepar. V devagar. Tenha cuidado. Descanse de quando em quando. No  possvel perder a trilha.
Sem outras palavras encaminhou-se ao longo de um extenso bloco de rocha lisa e azulada, levando  rdea o cavalo de Marian. Tinha entregado a sua prpria montada a um dos ndios.

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Marian olhou para cima, com uma espcie de surpresa e de espanto. Viu uma nesga de cu azul sobre a abertura de rocha avermelhada. A garganta cavava-se fundamente na terra e, dos lados e em baixo, era revestida de pedaos de rocha de todos os tamanhos e feitios. Marian sentia-se impelida a olhar para cima, mas isso no a encorajava.
Comeou a escalada, conjugando os seus esforos com uma desesperada tentativa para dominar os seus pensamentos. Tinha tempo bastante para pensar em Nophaie, se alguma vez conseguisse transpor aquela pavorosa escarpa! Apesar do que Withers dissera, Marian no acreditava muito nas suas esperanas. Talvez no dia seguinte visse Nophaie... Com os olhos fitos nas marcas deixadas pelas patas dos cavalos ao longo da trilha, concentrou todas as suas energias na escalada. Devia ser uma trilha muito antiga, pensou ela, a julgar pelos rastos ainda visveis nos sulcos da rocha e noutros pontos onde as avalanches e a aco da areia no os haviam apagado. Marian descansava sempre que encontrava uma pedra onde pudesse apoiar-se ou sentar-se. Ao cabo de cerca de meia hora de caminho, a garganta abria-se largamente, formando ao meio uma espcie de concha, com vertentes de rochas quebradas em todas as direces. Outra meia hora de esforos pareceu-lhe representar apenas um ligeiro progresso na asceno, mas levou-a a uma superfcie de rocha slida. Agora o spero leito da garganta aparecia-lhe l em baixo, rugoso, cheio de restos de pedra cados da penedia superior.
A trilha seguia para a esquerda, conduzindo a uma gigantesca mole de eminncias rochosas, muralhas, salincias e recantos, um conjunto ciclpico que formava como que um precipcio intransponvel. Marian trepava havia mais de uma hora, e parecia ter apenas comeado. Para mais, o aspecto da escalada modificava-se. A jovem deparava agora com uma sucesso de degraus de rocha que a levavam a salincias correndo em ngulo recto com a trilha,

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com estreitas agulhas de pedra emergindo dos declives, nuas e lisas, traioeiramente escorregadias e onde os pregos das suas botas no conseguiam firmar-se. A maneira como os cavalos tinham passado por ali, era um mistrio para ela. Mas realmente tinham passado, porque Marian podia ver os raspes brancos, feitos pelas patas ferradas ao roarem a pedra.
Mais de uma vez ouviu o rudo da marcha de Withers e dos ndios, l para cima.O som das pancadas de um martelo sobre a rocha, ouvia-se de quando em quando-, ntido e metlico. Ela tinha visto de facto um martelo de cabo curto, entre a bagagem transportada por uma das mulas; compreendia agora a sua utilidade durante a jornada. Withers ia quebrando arestas de rocha, partindo salincias mais agudas para que as mulas pudessem passar com a sua carga. Marian apreciava essas demoras, que lhe permitiam repousar mais longamente - e perder-se nos seus sonhos.
Quando alcanava os pontos onde Withers havia trabalhado com o martelo, a ascenso era quase fcil. Servia-se das mos, tanto como dos ps. Uma interminvel escadaria de degraus de rocha, de aspecto variado, com todos os ngulos concebveis, rachas, pontas agudas e estreitos sulcos - assim era a trilha que seguia. Eram os sulcos estreitos e cavados que mais assustavam Marian, porque a tinha de apoiar os ps e, se escorregasse, nada deteria a sua queda. Transpondo-os, no ousava olhar o abismo que descia j a tremendas profundidades.
Os seus esforos tinham levado Marian bastante para cima e bastante para longe da garganta aberta na rocha. O cu estava agora mais claro. A aresta superior, acidentada, parecia possvel de alcanar. Sob ela, as sombras cor de prpura adensavam-se na base das muralhas enormes. Eram cinco horas da tarde. Marian comeou a ter medo de se haver demorado demais,

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de ter descansado demasiado longamente. No entanto, essa tinha sido a indicao de Withers. Mas a dura escalada, a solido, o esforo constante, as emoes contidas, o tempo que decorria, mais cheio, a cada instante, de incerteza e de angstia, tudo isso a enfraquecera. Talvez fosse melhor descansar durante algum tempo, mas no o podia fazer. Em cada ponto mais perigoso, sentia-se nervosa e apressada. A certa altura firmou mal um p e caiu, rolando at uma rocha saliente. Magoou-se. Mas o susto foi pior do que a pancada. Por um momento pareceu-lhe que o corao se contraa, e ficou a tremer. Se tivesse escorregado numa daquelas arestas de pedra, sob os sulcos estreitos da muralha!...
- Oh! Isto ...  muito difcil... para mim! "Mr." Withers no devia... ter-me deixado s...
Compreendeu que a tinham abandonado aos seus prprios recursos. Se no a julgasse capaz de vencer o obstculo, Withers no a deixaria s. Aqueles minutos que viveu, isolada no flanco da muralha enorme, gravaram-se para sempre na sua alma. Censurou-se a si mesma, mas teve a sensao exacta do medo, uma sensao que nunca antes tivera, em toda a sua vida. Dominou-a. E, resolutamente, mordendo os lbios para que no tremessem, recomeou a escalada.
Mais uma vez o aspecto da vertente se modificou. O granito brilhante deu lugar a uma extenso de pedra lisa e avermelhada, e as longas arestas e curtos degraus foram substitudos por uma trilha em largas curvas, que se estendia sinuosamente sobre salincias que se debruavam para o abismo. Marian verificou que o caminho era menos difcil, e que, se no estivesse to completamente exausta, a escalada poderia ser rpida. Mas no podia fazer mais do que arrastar os ps lentamente, passo a passo, ao longo da trilha que subia sempre.
Eram seis horas no seu relgio, e o sol doirava a aresta superior da muralha.

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Parecia-lhe que a distncia a transpor era agora muito curta, mas a cada curva da trilha verificava que pouco tinha avanado. Apesar de tudo, esgotada e quase  beira do desespero, veio um momento em que o estranho encanto do desfiladeiro a empolgou de novo. Talvez fosse por causa da luz doirada do poente que se estendia ao longo do cu, ou pela majestade das alturas a que tinha chegado. Aquele era o reino da solido selvagem! Ali deviam as guias poisar, sobre as rochas, as suas garras recurvas.
Marian arrastou-se lentamente em volta da curva apertada de um promontrio escalvado. Parou, olhando os fantsticos degraus que tinha subido.O seu peito arfava. Um vento frio, vindo do alto, refrescou-lhe a fronte descoberta.
De sbito, um brado forte surpreendeu-a. Erguendo-se, agudo e estranho, rolou de penedia em penedia, amplificado e repetido pelo eco, at que morreu na distncia.
Marian levantou a cabea e percorreu com o olhar a aresta da muralha. Viu um ndio, de p, silhueta desenhada no esplendor doirado do cu. Delgado e alto, imvel como uma esttua, o seu vulto destacava-se em negro, ntido e recortado pela luz do poente, em singular harmonia com a nobreza selvtica das alturas.
- Nophaie!... - sussurrou Marian, sentindo o corao bater com mais fora.
Ele agitou um brao, a mo erguida num gesto lento, expressivo, de boas vindas. Marian acenou com o chapu, em resposta, e tentou chamar, mas faltou-lhe a voz. Ento lanou-se para cima e para a frente, em passadas rpidas,
num impulso irreprimvel, avanando ao longo das ltimas
curvas da trilha.
Mas a ltima escalada parecia interminvel - inatingvel a aresta superior. Marian tinha excedido as suas foras. Entontecida, quase sem ver,

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sentindo o corao bater doidamente, continuou a subir, a subir sempre em direco ao vulto de Nophaie. Via-o como atravs de um vu, como num sonho. Ele vinha ao seu encontro. Que estranha era a luz! Seria j noite? Vagamente, a muralha comeou a oscilar, a baloiar-se, a escurecer...
No, no tinha desmaiado. Nem por um segundo deixara de sentir aquele contacto, firme e apertado, de um brao de ferro que a envolvia pela cintura, a arrastava para cima. Ento - houve um longo momento, ainda pouco ntido - e de novo sentiu o seu corao bater apressadamente, sentiu doer-lhe o peito. Tinha a respirao curta e apressada. A nvoa que a envolvia foi-se dissipando. Viu a garganta de rocha, um abismo azulado que se abria na profundidade prpura do Desfiladeiro dos Paiutes. Mas no conseguia ver mais alm, porque no podia mover-se. Nophaie apertava-a contra si, a face dela apoiada ao peito dele.
- "Sob a Roch"!...
- Nophaie!...
No houve outras palavras entre eles. Ele no a beijou, e o seu abrao afrouxou lentamente. Marian recomps-se at poder manter-se de p, e afastou-se um pouco sem lhe soltar a mo. O ndio que ela tinha conhecido como Lo Blandy, transformara-se ao abandonar o seu nome de branco. A sua cara tinha tomado um tom escuro de bronze, magra e mais velha, com longos sulcos dolorosos que o sorriso no escondia por completo. Os seus olhos, negros e penetrantes, cheios de luz intensa, pareciam queimar os dela. Tinham um brilho inexprimvel, de alegria e de amor.
- Nophaie... acho-o... mudado!... - disse ela, quase num murmrio..

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- Tambm mudou... - disse ele. Uma indefinvel diferena no tom da sua voz, impressionou Marian. Tinha um som mais baixo, mais doce, de uma profundidade cristalina, que provava que a sua lngua materna voltara a dominar sobre a maneira de falar dos homens brancos.
- Como foi... que mudei?... - sussurrou Marian. As suas emoes tinham-se aquietado, embora inexprimidas. O momento que ela tanto desejava havia por fim chegado, estranhamente diferente daquilo que ela esperara, mas cheio de significado e de ternura. Ela compreendia isso, lentamente.
- Continua a ser "Sob a Roch", mas  agora mulher, j no uma rapariga... A mesma cara que eu vi em Cape May, mas ainda mais bela, Marian...
- Pelo menos no perdeu os modos lisonjeiros de Lo Blandy...
- No me d esse nome... - pediu ele, e uma sombra obscureceu por instantes a alegria dos seus olhos.
Marian hesitou. Estava a tentar compreend-lo, a tentar descobri-lo novamente tal como o havia conhecido e amado. Mas a tarefa no era fcil.
- Teremos de conhecer-nos outra vez?... - perguntou ela, sria.
- Sim, ter de fazer isso.
- Pois bem, estou pronta.
- Veio trabalhar entre a minha gente, Marian?
- Vim!... - respondeu ela com simplicidade. - Vim para fazer o que quiser que eu faa!...
Na sua voz havia uma vibrao de lealdade e de amor, que no enganava; e os seus olhos, francos e brilhantes fixavam-se abertamente nos dele. Por um momento, ento, Marian sentiu-se estremecer na compreenso da gratido de Nophaie, adivinhando o seu impulso para apert-la contra o peito. Sentiu esse impulso, quase o viu, no apenas perceptvel movimento do seu corpo.

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-  uma criatura nobre, e justificou a minha f. Salvou-me de odiar a raa branca...
Soltou as mos dela, deu um passo para a beira do abismo e ficou a olhar ao longo do desfiladeiro onde se adensavam as sombras do crepsculo.
S ento Marian o pde observar verdadeiramente bem. Parecia apenas um reflexo do que tinha sido o magnfico atleta Lo Blandy. Mais magro, mais delgado e mais duro. Estava vestido de cordovo e veludilho usados, com um cinto de fivela de prata e mocassins castanhos. O seu cabelo negro, puxado para trs, estava preso por um leno vermelho que lhe envolvia a cabea. O trajo, e a Sua silhueta calma e magnfica a destacar-se contra o fundo do desfiladeiro, tornavam-no imensamente diferente do homem que Marian havia conhecido com o nome de Lo Blandy. Se alguma vez tinha havido alguma coisa de artificial e de forado nele, essa coisa desaparecera. Ele correspondia a uma aspirao vaga e desconhecida, que desde sempre existira no corao de Marian. At mesmo o seu ar de algum modo trgico no era discordante. Que haveria ento na sua alma?
- Sinto-me contente pelo que pensa que eu sou... - disse ela, aproximando-se dele. - Por aquilo que diz que eu fao... que eu quero fazer... para torn-lo feliz.
- Feliz! "Sob a Roch"... este  o primeiro instante feliz da minha vida... desde o tempo em que eu era um pequeno pastor... Nophaie, alm no deserto, com o meu rebanho. Feliz porque, apesar de eu ser um ndio, sei que me ama.
- Sim... eu... eu amo-o, Nophaie!... - disse ela em voz trmula, sussurrante. Queria que ele tivesse de novo a certeza do seu amor, sem esperar mais.
De mos dadas, ficaram a olhar atravs das profundidades cor de prpura, ao longo das muralhas orladas de luz doirada, para a vastido imensa do deserto que se estendia para alm.

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O sol escondeu-se no horizonte enquanto Marian olhava e adivinhava a estranha exaltao do momento. As suas bnos seriam incalculveis... a glria de amar, de esquecer-se de si prpria, o trabalho que ia ser o seu, a descoberta daquela terra maravilhosa e isolada, feita atravs dos olhos e da alma de um ndio. Marian admirava-se agora de haver alguma vez hesitado, ou temido a experincia que a esperava.
- Venha, temos de ir... - disse Nophaie. - Est cansada e deve sentir fome. Withers acampar a algumas milhas daqui.
--Withers!... - exclamou a jovem com um riso claro. - J no me lembrava dele... nem do acampamento... nem da fome que tenho.
- Lembra-se de como gostava de gelados nesse Vero, em Cape May?... - perguntou ele.
- Sim, e a esse respeito no mudei... - volveu ela alegremente. - Lembra-se tambm, no  verdade?... E... e a respeito de Jack Bailey?
- O seu lagarto danarino! Tenho outra vez cimes, s de ouvi-la pronunciar o nome dele.
- Nophaie - depois da sua partida no houve razes para cimes. Nunca pensei seno em si.
Marian sentia-se ridiculamente feliz e, contra a sua maneira de ser, quase lhe apetecia atormentar Nophaie para faz-lo abandonar a sua reserva. Sempre sentira a fora estranha e dominadora daquele ndio e, feminilmente, isso contrariava-a. Mas viu que ele estava mais estranho do que nunca, mais difcil de ceder, apesar do amor que podia ler-lhe nos olhos.
O cavalo dele era o maior que ela vira, um animal selvagem e de pelo comprido, castanho claro. Quando chegou o momento de montar de novo o seu prprio cavalo, Marian no conseguiu dominar um impulso de vaidade feminina, e tentou pular para a sela com graciosa agilidade.

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Mas montou dificilmente, exausta e cansada como estava. Cavalgaram lado a lado atravs de uma plancie perfumada de pinheiros e do mato, sob a luz do poente que iluminava o cu, a oeste. Aquele momento parecia a Marian um encantamento dos seus sonhos. A hora quieta, um stio maravilhoso do deserto selvagem - e o homem a quem amava. A sua cor e a sua raa no eram obstculos para ela. Durante o caminho a jovem falou dos tempos que tinham passado juntos na praia, de amigos seus que ele conhecia, e por fim do seu lar, onde acabara por no poder sentir-se feliz. Nophaie escutou-a sem comentrios. Mas depois, quando ela abordou a narrativa da sua chegada ao Oeste e do seu encontro com os Withers, ele tornou-se mais comunicativo. Withers era um homem bom, um comerciante que ajudava os ndios e no se servia do seu armazm para explor-los. A senhora Withers significava, para os ndios, mais do que qualquer outra pessoa de raa branca que ali tivesse vivido.
A certa altura a escurido crescente do crepsculo foi rasgada pelo claro brilhante da fogueira do acampamento. Marian seguiu Nophaie at uma funda ravina onde a superfcie espelhada de um ribeiro reflectia o lume vivo e as sombras negras dos cedros. Withers estava ocupado com os preparativos da ceia.
- Bem, c estamos todos!... - exclamou ele alegremente. - Marian, parece-me um bocadinho plida sob o queimado do sol. Desmonte e aproxime-se. Sempre escalou o Desfiladeiro dos Paiutes?... Ah, ah... Nophaie, solte o "Buckskin" e d-me uma ajuda. No tarda que esta menina caloira se sinta reconfortada e feliz...
Marian pensou que em verdade poderia sentir-se mais reconfortada, mas que lhe seria difcil ser mais feliz. Mal teve foras para se dirigir ao lugar que Withers havia preparado para ela. O calor do lume, juntamente com a fadiga,

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t-la-iam feito adormecer se Withers no a chamasse. - Venha, vamos a isto... - disse ele.
-Receio bem que tenha de trazer-me aqui a ceia... Se me levanto daqui... estendo-me ao comprido no cho.
Withers e Nophaie serviram-na, e ela compreendeu ento que o esgotamento e as dores fsicas no a impediam de ter fome, nem de apreciar gostosamente a refeio. Nophaie sentou-se ao lado dela, com a luz da fogueira a iluminar-lhe a cara. Os outros dois ndios vieram buscar a sua ceia, caminhando lentamente e sem rudo. Depois sentaram-se, a comer.
Depois da ceia, Withers e Nophaie desembaraaram-se rapidamente do trabalho que havia a fazer. Por momentos o som estranho e abafado das suas vozes chegou at Marian - mas logo deixou de as ouvir. Withers ergueu a pequena tenda de campanha, sob os pinheiros, perto do lume, e disse: - Bem, creio que tudo est pronto, por agora.
Ento, dando as boas noites a Marian e a Nophaie, afastou-se discretamente e foi estender-se entre as mantas que preparara para ele, sob outro pinheiro prximo. O silncio da noite desceu sobre o acampamento, to profundo e doce, to estranhamente cheio de significao para Marian que ela receava perturb-lo. Observou Nophaie. Na luz oscilante da fogueira, a sua cara parecia imobilizada numa expresso de tristeza, uma grave mscara de bronze moldada pela angstia. De quando em quando levantava os olhos pensativos e fitava Marian. Ento ela sentiu que uma excitao profunda e alegre a empolgava.
- Fica connosco, esta noite?... - perguntou ela por fim.
- No., volto para a minha cabana.
-  longe?
- Para si, . Eu voltarei ao seu encontro, de manh.
- A sua casa,  em Oljato?

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- No. Oljato fica nas terras baixas. Alguma da
minha gente vive l.
- Sua gente? Quer dizer, parentes seus?
Ele respondeu negativamente e falou ento do seu nico parente vivo. Depois acabou por falar de si mesmo - e contou os motivos porque escolhera aquele ponto mais selvagem e mais isolado da reserva, a fim de estar muito longe dos brancos. Era costume na sua tribo que os rebanhos pertencessem s mulheres, mas ele tinha adquirido uns quantos carneiros e ovelhas. Era dono de alguns cavalos. Mas considerava-se o mais pobre dos ndios que ali viviam. Nem sequer possua uma espingarda, ou uma sela. Os seus meios de vida consistiam na venda da l e das peles, e em trabalhar para os ndios ricos da regio. Tinha-lhes ensinado como o milho crescia melhor nas terras lavradas, Construra diques para conter a gua que, na Primavera, descia das montanhas onde a neve se derretia, e assim podia ser conservada para o tempo das secas. Mas eles s lentamente abandonavam a rotina e se adaptavam a novos processos de trabalho. Queriam ver primeiro os resultados. E dessa maneira ele no encontrava muitas ocupaes que fossem compensadoras.
Marian nunca havia pensado que Nophaie pudesse ser pobre. Lembrava-se dele como de um atleta famoso, que recebia altos honorrios em Cape May. Os brancos haviam-no ensinado a ganhar dinheiro nas ocupaes deles, mas a essas ele havia renunciado. Marian devia ter adivinhado
isso.
A pobreza sempre lhe parecera uma condio revoltante. Ela nunca tinha conhecido uma vida luxuosa, nem a desejava, mas tambm nunca sentira a necessidade das coisas simples e elementares. Talvez, para o ndio, a pobreza nada significasse. Os pinheiros podiam dar-lhe casa e calor, a terra coberta de mato servia-lhe de cama, os rebanhos davam-lhe o sustento.

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Marian hesitou em exteriorizar a sua perplexidade e a sua simpatia. Ela podia ajudar Nophaie. Mas como? Talvez ele no quisesse mais gado, mais cavalos, mais roupas e mais mantas, uma sela ou uma espingarda. Marian sentiu que devia proceder lentamente e com cautela. A simplicidade de Nophaie era impressionante - e ela podia facilmente ver que ele estava mal alimentado. A sua face magra e o seu corpo delgado eram provas disso. Seria com aquele mesmo ndio que ela tinha jantado algumas vezes no Bellevue-Stratford Hotel? Parecia inacreditvel. E no entanto no era mais inacreditvel do que aquela hora no isolamento do deserto, com o claro ondulante da fogueira a iluminar a face de Nophaie. Como a vida real era mais estranha do que a fico dos sonhos!
Depois de um longo silncio que Marian desejava quebrar, sem saber como, Nophaie levantou-se e tocou-lhe levemente os cabelos com a mo.
- "Sob a Roch", os seus olhos esto pesados de sono... - disse ele. - Precisa dormir. Eu ficarei acordado. Partirei ao nascer do sol. Boa noite!...
Curvar-se-ia ele para beij-la? Marian recordava-se saudosamente dos beijos que tinham trocado, poucos que haviam sido. Mas ele afastou-se em silncio, o seu vulto alto e escuro a destacar-se no fundo do cu onde brilhavam plidamente as estrelas, e desapareceu aos olhos dela.
Por longo tempo Marian ficou ali sentada, combatendo o sono, lutando para manter-se acordada, a pensar no deserto, e em Nophaie, e no seu amor, e nas coisas que haveriam de acontecer. Parecia-lhe que a fatalidade velava com ela, nas sombras da noite. No olhar e na voz de Nophaie, na condio que ele confessara, ela tinha podido ler os sinais da catstrofe que esperava o ndio. Mas Marian no podia sentir-se infeliz, adivinhava o seu poder de dar; e sentia que Nophaie, estico, amarrado ao seu martrio de ndio,

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no seria completamente privado da bno e da glria do amor.
Recolheu-se ao abrigo da pequena tenda de campanha, ao conforto da sua cama de mantas. Que agradveis eram! Que espcie de mgico alvio havia no simples facto de estender-se e ficar quieta! Em breve o sono acalmaria o bater do seu corao, o arder das faces, a sensao dolorosa dos msculos. Mas os pensamentos sobre Nophaie no persistiriam, mesmo em sonhos? As sombras dos ramos, projectadas pela luz da fogueira sobre as paredes da tenda, moviam-se, fantsticas e estranhas. Um vento baixo gemia entre as agulhas dos pinheiros. O deserto parecia embal-la.

VII.


Ao acordar, na manh seguinte, Marian compreendeu o alto preo porque devia pagar as suas cavalgadas e as escaladas a p.O almoo teve de esperar por ela. Withers exprimiu, ao mesmo tempo, solicitude e divertimento.
- Pode ser que o caso parea engraado, mas eu no lhe acho muita graa... - lamentou-se Marian, tristemente. - Como hei-de eu chegar viva ao fim desta viagem? Oh, essas pavorosas trilhas, sempre para baixo e para cima, a pique!...
- No voltaremos a atravessar o Desfiladeiro dos Paiutes... - replicou Withers. -Agora coma e d um passeio por a. Ver que se sente melhor.
Marian sentia-se to dorida e trpega que no tinha a menor f no que ele dizia, mas seguiu os seus conselhos e descobriu que Withers falara verdade. Apesar disso, voltar a montar "Buckskin" foi uma dura prova, que a fez sentir dores por todo o corpo.

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Mas nada havia a fazer seno aguentar at que o movimento a aquecesse e atenuasse a sensao dolorosa. Ento comeou novamente a interessar-se pela paisagem que a rodeava.
Cerca de uma hora de caminho levou-a, atravs do suave declive da floresta de cedros e de pinheiros, ao ponto mais alto da trilha.O sol, j muito acima do horizonte, iluminava uma enorme vastido de terreno coberta de mato purpurino, com bosquetes de pinheiros e elevaes de rocha amarelada, tudo agora ntido e claro aos olhos dela. O cheiro do mato era doce e intenso. Parecia que toda a parte Oeste da paisagem se ia erguendo, alterando at culminar numa soberba montanha cujos pncaros surgiam como uma cpula coberta pelo negrume das rvores e pela brancura da neve... Alm na distncia, para o Norte, desenhava-se vagamente a linha indefinida de um deserto catico, entre muralhas vermelhas.
O esplndido espectculo, o aroma do mato, a frescura do ar to lmpido, o maravilhoso tom de prpura do deserto ondulante, que ali j no era dominado pelas rochas escalvadas ou invadido pela floresta verde-negra - fizeram reviver em Marian as emoes do dia anterior. Que selvtica, e magnfica,e completa sensao de liberdade! As terras altas pareciam cobertas de verdura rasteira, num belo contraste com o deserto estril e desnudado. O mesmo isolamento e a mesma solido reinavam sobre elas, a mesma intensa e esplendorosa luz do sol, o mesmo profundo mistrio da distncia, a mesma incompreensvel magia da natureza.
Withers esperou por ela, a certa altura, e quando Marian se aproximou ele apontou para longe, atravs da plancie de prpura.
- Nophaie vem ao nosso encontro!... - disse ele. - Vamos l ver se tem bons olhos!...
Atenta, Marian firmou a vista na direco apontada,

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mas nada conseguiu distinguir que se parecesse com um cavaleiro e um cavalo.
- Oh! No consigo v-lo!... - exclamou.
- Mais para o lado esquerdo! Ali, na direco daquela
penedia calcria, sob a montanha! Olhe seguindo a linha do mato... Dois pontos que se movem, um branco e outro negro!
- Sim, sim! Vejo esses dois pontos! Mas to pequeninos! Podero ser cavalos?
- Claro que podem! Nophaie monta o cavalo preto e traz o branco  rdea. Aposto que  um presente para si. Disseram-me que Nophaie tem um cavalo branco, maravilhoso, mas ele nunca o levou ao posto...
- Para mim? Pensa isso? Oh. seria to bom! Mas... saberei eu mont-lo?
- Alguns desses cavalos dos "Paiutes" so perfeitamente domveis e de boa ndole. Nophaie no lhe daria um que no fosse assim!...
Da por diante Marian j podia observar quase distintamente a aproximao de Nophaie. Continuou a cavalgar, com o olhar fixo nos dois pontos que se moviam a distncia. Por vezes perdia-os, e tinha dificuldade em localiz-los de novo. Mas pouco a pouco eles am-se tornando maiores, cada vez maiores at que tomaram as formas definidas de cavalos galopando graciosamente atravs do mato, emprestando uma nota de vida, selvagem e bela,  solido do deserto. Chegou o momento em que pde ver claramente o vulto de Nophaie, depois aquele em que j podia reconhecer a sua silhueta alta e esguia. Notou ento, com maravilhado pasmo, que o cavalo branco tinha as crinas e a cauda de um negro intenso, esvoaando ao vento. Mais perto, Marian ficou com a certeza de que nunca, na sua vida, vira um animal de tal beleza. Ao avistar os ndios e as mulas, o cavalo parou, no alto de uma eminncia do terreno,


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com a crina levantada pelo vento do deserto. Bateu com as patas no cho, abanou a bela cabea e relinchou. Os seus cascos ferrados arrancavam das pedras um som argentino, como de sinos tocando. Marian pde ento observ-lo melhor; era de uma brancura quase total, de tamanho mdio, com um corpo harmonioso e equilibrado; a crina era completamente negra, tal como a cauda que quase roava no terreno. Isso bastaria para fazer de qualquer cavalo um exemplar magnfico. Mas agora percebia-se que a sua braveza era apenas feita de mpeto juvenil, de fogosidade de temperamento, porque logo se disps a trotar ao lado dos outros cavalos. A montada de Nophaie, no entanto, era um animal realmente selvagem, negro, de pelo comprido, poderosamente constitudo e meio indomado, que trazia uma corda em volta do focinho, no lugar das rdeas. A saudao de Nophaie a Marian foi feita em lngua ndia, mas a sua significao no enganava. O seu sorriso e o seu aperto de mo teriam sido bastantes para que ela se sentisse feliz. Ento, apontando o cavalo branco, Nophaie disse com simplicidade:
- Trouxe-lhe um dos meus cavalos, Marian.  um "Paiute", mas o mais dcil e de melhor andamento que at hoje encontrei.
- Oh! Obrigada, Nophaie! Que lindo ele !  grande gentileza sua... realmente... Dcil, disse que ele era? Mas parece fogoso e selvagem como um cavalo de batalha!
- Gosta de correr e  mexido, mas pode mont-lo  vontade... - respondeu Nophaie. - Quer experiment-lo, agora?
- Nada me agradaria mais, Nophaie. Mas... tudo o que posso fazer, agora,  deixar-me ficar sentada sobre o "Buckskin". Talvez amanh eu tenha foras bastantes para isso... A que distncia fica o seu acampamento, Nophaie?

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- Eu nunca meo distncias em milhas... Com este andamento chegaremos l perto do meio-dia. Quer ir comigo,  frente, a galope? Isso repous-la-.
- A galope?... Withers disse que "basta agarrar-se"
 sela, e agora Nophaie diz-me para galopar. Bem. Entrego os meus pobres ossos doridos s suas maquinaes.
Uma palavra e um toque foram tudo o que "Buckskin" precisava.O animal parecia ao mesmo tempo surpreendido e contente. Lanou-se num galope largo, e Marian descobriu, com espanto, que o movimento era ao mesmo tempo mais agradvel e deliciosamente mais fcil. O galope mudou tudo - as suas sensaes, a paisagem, as cores, os cheiros do mato e o contacto do vento na sua cara. Nophaie galopava ao lado dela, fora da trilha, sobre o mato rasteiro. Como a Marian parecia doce o aroma do deserto, que o vento lhe lanava com fora contra as faces! Sentiu que o sangue lhe corria mais vivo nas veias, que os seus nervos se excitavam. Sempre tinha gostado da velocidade, da aco, de sentir que o seu esprito e os seus msculos dominavam o momento. Aquilo excedia os seus sonhos mais delirantes. Podia galopar! Quase no tinha acreditado nisso. E, sempre mais depressa, sempre para a frente, galopavam lado a lado, as montadas aquecendo no movimento, entusiasmando-se tambm, at que se fixaram num andamento solto e largo que devorava caminho. Marian pensou vagamente que nenhum outro lugar no mundo poderia ser mais belo do que aquela pradaria sem limites, coberta de mato rasteiro, de um tom vivo de prpura e saturada de aroma seco e doce, solitria e bravia, com as grandes montanhas erguidas na distncia e, adiante, atravs da lonjura, o estranho, atraente, vasto e nu deserto de rochedos.
A galopada embriagou Marian. Quando, ao cabo de trs ou quatro milhas, Nophaie a chamou para que contivesse "Buckskin" e o fizesse seguir a passo, a jovem estava sem flego,

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mas continuava impaciente por andar, ardendo em desejo de continuar a toda a brida, sempre para diante, de gosar intensamente uma noo de liberdade que era nova para ela, de percorrer interminavelmente O deserto e de esquecer-se do mundo.
- Oh!...  maravilhoso!... - exclamou ela. - Nunca pensei que um galope pudesse ser assim... Vamos correr ambos!...
- Espere at amanh, para montar o seu cavalo branco. Esse corre como o vento...
Seguiram ao passo lento das montadas, lado a lado. Marian sentia crescer, dentro dela, a compreenso de uma espcie de felicidade sufocante, pungente. Poderia essa felicidade durar? E qual era a sua causa? Ela prpria, Nophaie, o amor que os unia - tudo isso no bastava para explicar completamente o significado indito que a vida tomava para ela. Ento lembrou-se de uma frase que Withers tinha dito: "as terras contribuem mais para a felicidade do que as pessoas". Que queria ele exprimir com essas palavras? Repetiu a observao a Nophaie, e pediu-lhe que lha explicasse.
Nophaie ficou calado durante alguns instantes. - As pessoas so por vezes falsas. A natureza humana  imperfeita. Mas as terras representam a verdade. A prpria natureza  uma evoluo - uma caminhada irreprimvel para a perfeio absoluta e total.
A resposta deixou Marian mergulhada em profundas cogitaes. Que estranha era, nos lbios de um ndio! Por um momento esquecera-se de que a fama de Nophaie, como estudante universitrio, havia sido quase to grande como a sua celebridade de atleta. Tinha muito que aprender com ele, e nessa aprendizagem talvez viesse a compreender a estranha combinao resultante da sua natureza de ndio, aliada ao desenvolvimento intelectual dos homens brancos.

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Poderia um tal resultado deixar de ser trgico? Marian adivinhou aquilo que no conseguia perfeitamente entender, ou explicar.
Seguiram ao longo do ondulante mar de prpura, conversando, a passo, depois galopando de novo e mais tarde voltaram a um trote largo e calmo. Para Marian, o tempo parecia ter detido a sua marcha.
Um balir de ovelhas atravessou o espao, a certa altura.
-  o meu rebanho... - disse Nophaie, respondendo a um olhar de Marian.
- Onde?... - perguntou ela, interessada.
- Alm, nos cedros... "Sob a Roch", este  o lar de Nophaie.
O olhar atento de Marian percorreu a metade de crculo apontada pelo gesto lento e harmonioso de Nophaie. Compreendeu ento que tinham descido ao longo de milhas e milhas de um declive suave, que terminava num vale onde o mato crescia mais alto, mais denso, mais purpurino, rico e luxuriante entre bosquetes de cedros magnficos, pontuado aqui e alm por elevaes de rocha lisa, vermelha e amarelada. Acima erguia-se a grande montanha, agora bastante prxima para dominar e proteger o vale. Sobre um leito de rochas nuas uma corrente de gua cristalina serpenteava atravs do campo, lustrosa e brilhante ao descer de pedra em pedra, precipitando-se de espao a espao em pequeninas cachoeiras murmurantes. Uma coluna de fumo subia de entre os cedros, azul, delgada e leve.O cheiro do fumo chegava at Marian e trazia-lhe  memria a recordao do encanto que ela sempre havia encontrado em fazer arder as folhas secas pelo Outono. Uma sensao de paz, uma quietao tranquila de estilo e de solido parecia pairar sobre o vale.
Nophaie conduziu Marian por entre os cedros. No eram numerosos bastante para formar uma floresta,

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mas suficientes para darem ao lugar uma nota de perfeio, aos olhos da jovem. Para ela acampar, Nophaie escolheu um largo cedro, cujos ramos se abriam, tutelares e calmos, sobre uma pequena cachoeira da corrente, cantando ao despenhar-se de leve sobre um lago em miniatura, de guas cristalinas e claras como um espelho. O leito da corrente parecia de uma dureza de granito, to liso como vidro. Debaixo do cedro a terra era macia, castanha e perfumada. Flores silvestres, de um vermelho vivo, misturavam-se com outras flores de tons de branco e prpura.
- Aqui, neste lugar, eu pensei em si durante longas horas, e sonhei, e tentei rezar... - disse Nophaie. - Vamos levantar aqui a sua tenda, e preparar a sua cama de mantas, porque  sempre melhor dormir ao ar livre, quando a chuva no cai... Venha agora, descanse - e depois poder falar com Maahesenie, o meu parente. Mostrar-lhe-ei a minha cabana e o meu rebanho...
Nophaie ajudou-a a desmontar, e ela apreciou a ajuda porque se sentia novamente quase exausta; e,  sombra do velho cedro, ele arranjou-lhe um lugar para sentar-se, perto do lago de guas claras que sussurrava a seus ps.
- gua fresca da neve de Nothsis Ahn, a minha Montanha de Luz... - disse ele.
- Nophaie, encha o meu cantil... - pediu ela. - Tanta sede que eu tenho!...
Quando acabou de beber a gua cristalina e pura, to fria que tinha de ser tomada em pequenos goles, Marian compreendeu um dos outros encantos do deserto.
Nophaie tirou os arreios dos cavalos e deixou os animais soltos. Um vulto cinzento e peludo aproximou-se, aos saltos. Marian pensou que fosse um lobo. Era um co.
- "Taddy", o meu co pastor - que se parece com o outro "Taddy" da minha infncia... Vamos, "Taddy", cumprimenta "Sob a Roch!"...

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Marian estendeu a mo e chamou: "Taddy". O co avanou, obediente, devagar, sem medo ou desconfiana. Mas nos seus olhos claros brilhava uma luz atenta, como interrogativa. Era um animal semelhante aos outros ces de andar furtivo que Marian receara, no posto. Consentiu, no entanto, que ela lhe afagasse a cabea, fina e comprida. Marian tinha conhecido ces maus, viciosos, servis, ciumentos, mas todos eles eram to diferentes de "Taddy" como se este fosse realmente um lobo. Parecia to curioso acerca de Marian como ela acerca dele, mas muito menos inclinado  amizade.
Nophaie aproximou-se e ficou, de p, a olhar para a jovem. Havia, nos seus olhos negros, um brilho doce e alegre.
- V-la aqui, "Sob a Roch", - saber que veio por minha causa...-murmurou ele, com uma emoo que no havia at ento mostrado.
-  to maravilhoso para si como para mim, Nophaie... - disse ela docemente.
- No... -- respondeu ele com um sorriso grave. - A sua alma no est em perigo...
- Nophaie!... - exclamou ela.
Mas ele no deu qualquer explicao das suas estranhas palavras e, desejando-lhe bom descano, afastou-se, seguido pelo co. Marian ficou s. A sombra era fria, e fez-lhe sentir a necessidade de vestir o seu pesado casaco. Um sonolento zumbir de abelhas ou de outros insectos misturava-se com a cano murmurante e embaladora da corrente. E o som, baixo e constante, parecia tornar-lhe os pensamentos confusos, as plpebras pesadas. Adormeceu. Quando acordou de novo, tinha a impresso de ter dormido longamente, de tal maneira se sentia repousada e leve. Mas o sono no podia ter durado muito. Withers e os ndios haviam chegado entretanto, com as mulas de carga, e estavam a preparar o acampamento, a curta distncia.

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Foi Nophaie quem lhe trouxe o seu saco de pele e o rolo das mantas que lhe serviriam de cama. Withers seguia-o, transportando a tenda de campanha e um pequeno machado.
- Vejo que est muito confortvelmente instalada... - comentou risonhamente o negociante. - No  maravilhosa, esta terra de cedros e de mato? No conheo nenhum stio do deserto que se compare com este.
- Uma terra onde  sempre entardecer... - disse Nophaie, com os olhos fitos em Marian.
- Cite todos os poetas que quiser... - disse ela languidamente. - Nada pode j surpreender-me, vindo de si...
Os dois homens levantaram a tenda perto de Marian, estendendo ao lado o rolo de lona que continha as mantas.
- Jovem senhora, esta noite poder observar as estrelas... e ter o seu lindo nariz bastante mordido...
- Mordido?... - interrompeu Marian. -Pelas estrelas?
- Pela geada!... - respondeu Withers. Depois, outra vez srio, continuou: - Adoro estas terras altas, cobertas de mato prpura. Viro aqui vrias vezes, embora no pelo Desfiladeiro dos Paiutes. Parece um sonho, esta maravilhosa regio aberta, aqui escondida no alto - acima do mais terrvel e mais torturado dos desertos, cercada por desfiladeiros e muralhas quase intransponveis...
- Sim, parece um sonho... porque vi essas muralhas e esses desfiladeiros... - murmurou Marian.
- Bem, eu vou dar uma volta de cerca de dez milhas para o sul, para alm do flanco da montanha, onde vive um velho "Paiute"... - continuou Withers. -Compro-lhe algumas coisas, e ele compra-me outras.  rico, e  um velho maroto. Salga a l. Agora, poucos ndios fazem isso.
- Salga a l?O que quer isso dizer?

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- Espalha a l no terreno, ao sol, e cobre-a de sal. Esse sal atrai a humidade do ar e derrete-se na l, aumentando o seu peso para o dobro.
- Withers, eu convenci Etenia a no fazer mais isso... - disse Nophaie.
- Sim? Pois ainda bem! Alegra-me bastante isso, tanto por Etenia como por mim prprio. Gosto dele.  um ndio trabalhador e inteligente. As mantas feitas pelas suas mulheres so as melhores que compramos. Ele  rico, Nophaie. Penso que ele entraria consigo em algum negcio de gado.
- Sim, entraria... - respondeu Nophaie. -Mas queria que eu casasse com a filha dele, e quando eu recusei ficou zangado. Disse-me que eu tinha um corpo de ndio e um crebro de branco.
- Hum! Isso  grave... - comentou Withers sobriamente. E, apoiando o machado ao ombro, afastou-se em direco ao seu acampamento.
- Isso  realmente grave, Nophaie?... - perguntou Marian.
- Receio que sim - para mim.
- Porqu? Porque no pode - no pode casar ou tornar-se no que esse ndio quer?
- Por ambas as coisas. Como v a minha posio  difcil. A minha gente orgulha-se de que eu tenha renunciado a viver com os brancos. Mas esperavam que eu me adaptasse imediatamente  sua maneira de sentir e de viver. Experimentei - e falhei sob muitos aspectos.
Aquelas palavras desencadearam um tumultuar de pensamentos no esprito de Marian, e ela comeou a aperceber-se do problema que tinha na sua frente.
- J descansei bastante... - disse ela, levantando-se. - Leve-me a ver a sua casa e Maah... esse seu parente de quem esqueci o nome.

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Uma centena de metros alm do curso de gua, num terreno aberto e mais alto, erguia-se uma construo de terra vermelha, arredondada, em forma de colmeia. Do centro da cobertura em cpula, subia um tnue fio de fumo, azulado e tranquilo. Era uma construo grande e, de mais perto, Marian viu que a terra havia sido espessamente acumulada sobre uma estrutura de madeira. A porta, aberta, fazia face ao nascente.
Nophaie dirigiu-lhe algumas palavras em lngua ndia - alguma coisa em que ela adivinhou um cerimonial indicativo do momento sagrado em que ele a convidava a transpor o limiar da sua casa. Ela curvou-se para entrar. Um lume fumarento ocupava o centro daquela habitao a que chamavam "hogan".O fumo parecia flutuar em espiral at desaparecer finalmente atravs da abertura do tecto. E esse tecto era uma maravilha de engenho e de habilidade, construdo sobre pesados troncos de cedro plantados no cho e que serviam de suporte para uma teia cncava, feita de grossos ramos, sobre a qual se estendia a cobertura de terra vermelha. Como era forte e compacta aquela edificao ndia! Havia nela alguma coisa que impressionou Marian, explicando-lhe ao mesmo tempo os motivos porque desde sempre havia sido adoptada pela tribo.
Alguns utenslios de ferro e de pedra estavam espalhados em volta do lume. Uma perna de carneiro, fumada, pendia de um dos postes, e no cho havia um saco de farinha, com algumas caixas e latas que evidentemente continham provises. Viam-se no "hogan" duas camas, uma de cada lado do lume, encostadas  parede.
- Qual  a sua cama?... - perguntou Marian, incapaz de dominar a sua curiosidade.
- Esta... - respondeu Nophaie, apontando para uma grossa manta e para uma pele de carneiro com a l voltada para cima.

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Era bvio que a primeira devia servir-lhe de cobertor, e a segunda de enxerga. Marian pensou nas duras camas dos espartanos. Nophaie dormia ali! Olhou em volta e viu um velho casaco, um pequeno casaco de couro ornamentado com botes de prata, e uma faca de caa cujo aspecto traa o longo uso. Aquilo era tudo o que Nophaie possua, e ali era o seu lar. Os olhos de Marian encheram-se de uma nvoa confusa, dolorosa. Talvez fosse por causa do fumo, por causa do cheiro... Fosse porque fosse, a jovem sentiu que no podia ficar ali mais tempo. E tambm no podia traduzir em palavras aquilo que sentia e pensava.
- Durmo muitas vezes debaixo do cedro, mas Maahesenie no gosta disso .. - explicou Nophaie.
- Mostre-me o seu rebanho... - pediu Marian. Nem ela nem Nophaie voltaram a falar enquanto caminhavam por entre o mato alto cujas pontas, de um verde-claro manchado de prpura, chegavam  altura dos ombros de Marian. Ela arrancou as folhas macias de uma haste delgada e, esmagando-as entre os dedos, aproximou-as dos lbios e das narinas. Tinham um sabor amargo - e desprendia-se delas um aroma forte e pungente, que embriagava como uma droga. Viu bagas cor de prpura sobre os cedros, cujas folhas pareciam cobertas de um fino p doirado. E foi ento que ouviu o balir das ovelhas.
Em breve saram da zona dos cedros para o campo aberto, e a o olhar de Marian, surpreso e encantado, avistou o rebanho de cabras e de ovelhas, com numerosos cordeiritos. Se Nophaie possua apenas um pequeno rancho - como seriam os grandes?-pensou Marian. Havia ali, segundo o clculo dela, algumas centenas de cabeas. Muitos dos animais eram de uma brancura de neve, alguns negros, outros castanhos. Os cordeiros pareciam bolas de algodo, de um branco imaculado. Corriam e pulavam em volta de Marian, nada assustados com a sua presena.

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Ouviam-se a cada instante os balidos, e o som era estranhamente agradvel aos ouvidos da jovem.
Foi nesse momento que ela avistou um outro ndio, alto e de ombros curvados, magro e com os cabelos cor de cinza. Encaminhava-se para ela e trazia uma delgada manta em redor dos ombros. Na sua cara havia a histria de uma longa vida, e as suas rugas contavam do tempo que passara, e das tempestades do deserto.
- Maahesenie - "Sob a Roch"... - disse simplesmente Nophaie.
- Como est?... - perguntou o ndio, estendendo para Marian uma fina mo morena.
Ela apertou-lhe a mo e cumprimentou-o, no sem hesitar um momento antes de pronunciar o nome dele.
- Menina branca vir de longe?... - perguntou ele, apontando para leste num gesto lento do brao magro e comprido.
- Sim, de muito longe... - respondeu Marian.
- Sela difcil, assento duro... hum?... - disse ele, com um brilho vivo no olhar.
Marian acenou com a cabea, afirmativamente, rindo-se. Como aqueles ndios eram bons observadores! De longe, Maahesenie notara a sua maneira de andar, que traa a verdade de como a sela do cavalo a havia magoado. Para mais, alm de olhos penetrantes ele tinha um vivo sentido do humor. O velho ndio ria-se tambm para ela. Mas, quando falou a Nophaie, as suas feies retomaram uma expresso grave, de impressionante dignidade. Os gestos indicavam que ele se referia  jovem. Quando ele se calou, Nophaie conduziu Marian novamente para o acampamento debaixo dos cedros.
- Que disse ele a meu respeito?... - perguntou a jovem, ardendo em curiosidade.

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- No compreendi todas as suas palavras. Bem v, a minha lngua materna esqueceu-me quase por completo, e s lentamente a vou reaprendendo. Mas percebi o bastante para lisongear a sua vaidade. Ele disse "olhos de cu e cabelos de sol". Depois acrescentou qualquer coisa sobre a sua pele, que comparou aos lrios "sago".
- Deus o abenoe!... - exclamou Marian, com encantada surpresa. - E o que  um lrio "sago"?
- A mais bela das flores do deserto. Cresce no fundo dos desfiladeiros.


* * *


Marian dormiu outra vez por um par de horas, e acordou com a sensao de estar considervelmente aliviada das suas dores e da sua fadiga. A tarde passou tranquilamente, abrindo-se num esplendor de luz e de quietao. Marian escutava o zumbido das abelhas e o murmurar da gua. O mato cheio de cor, um claro curso de gua! Parecia que a maldade da vida e da natureza no tinham lugar ali, e no entanto, por vezes, uma observao mais atenta surpreendia a misteriosa aco de ambas, na sua tarefa de destruio. Mistrio dos mistrios - que as criaturas vivas devessem, para subsistir, eliminar outras criaturas vivas!... Porque ordenara Deus, assim, a natureza? Se os bichos se entre-devoravam, porque no seria a mesma coisa entre os humanos?
- Penso... - murmurou Marian quase em voz alta, com uma expresso de medo - ... que este deserto me traz ao esprito as mais estranhas ideias...
Withers chamou-a mais cedo para a ceia. Nophaie sentou-se ao lado dela, enquanto os outros ndios tomavam lugar do lado oposto. E todos fizeram justia  refeio que o negociante havia preparado.
- Ora a est... - disse ele. - Acho que se deve comer bastante bem antes de comear uma jornada difcil.

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Isso d-nos foras para ir at o fim!...
Depois da ceia, Nophaie caminhou em companhia de Marian. Parecia singularmente pensativo e triste. Subitamente apontou para uma eminncia de rocha, em forma cnica, no alto da qual se erguia uma espcie de monumento.
- Gostaria que subisse ali comigo - hoje ou amanh...
- disse ele.
- Leve-me agora l... - respondeu ela. - Mas porqu... especialmente ali?
- Quero que veja, dali, as minhas Rochas Andantes - e a minha Montanha de Luz!...
- Nophaie - quer que eu v consigo - apenas porque a paisagem  bela?... - perguntou a jovem, tentando adivinhar os pensamentos dele, inexprimidos.
- No.  porque, vendo-as daquela altura, elas me do
fora...
- Fora?... - repetiu ela como um eco. - Para que
- precisa agora essa fora?
Ele pareceu estremecer e encolher-se, numa leve convulso, estranha e vibrante, que no lhe era normal.
- Para contar-lhe das minhas angstias!
O sombrio olhar de Nophaie, a sbita rouquido e solenidade da sua voz, aumentaram ainda os receios de Marian e prepararam-na para o pior. As angstias dele deveriam tornar-se as dela. Como era estranho aquele desejo de escalar essa rocha entre todas as outras, para confessar as suas penas! O silencioso caminhar atravs do mato, e a lenta subida de uma colina de pedra nua, deu a Marian algum tempo para fortalecer-se a si prpria contra um possvel desmoronar das suas esperanas. Ao mesmo tempo ia antecipando algum extraordinrio espectculo que poderia talvez ser visto do alto da colina. A encosta era abrupta, e a subida difcil.

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Vista do acampamento, a rocha parecera bastante menos alta do que era realmente. Fizeram a escalada pela vertente leste, subindo em compridos ziguezagues e descansando muitas vezes pelo caminho. Cerca do ponto mais alto havia uma depresso em cuja parte superior se erguia uma agulha de pedra que suportava o monumento. Este era uma pirmide de rocha, de oito ou dez ps de altura, rudemente esculpida mas com um certo ar de simtrica dignidade. Decerto significava alguma coisa mais do que um simples marco indicativo para os ndios que passavam por ali.
- Quem fez isto?... - perguntou Marian.
- Homens da minha tribo.
- E o que significa?
-  um lugar de orao. Os ndios vm aqui para rezar, mas nunca quando no tm para isso um motivo especial.
- Cada ndio reza  sua maneira?
- No. H muitas oraes, mas so as mesmas que foram ditas pelos que viveram antes de ns.
- J rezou aqui alguma vez, Nophaie?... - perguntou Marian em voz baixa.
- Sim, muitas vezes.
- E vai rezar - agora?
- Vou rezar s minhas Rochas Andantes,  minha Montanha de Luz e ao Vento Azul...
- Deixa-me escutar as suas preces?
- Sim, quero que as escute!...
Nophaie tomou novamente a mo de Marian e conduziu-a ao longo dos ltimos poucos degraus que faltavam para alcanarem o ponto mais alto da colina de pedra que os impedia de ver a paisagem.
- Olhe, "Sob a Roch"!... - disse ele.
Marian fez o que ele pedia e de repente ficou calada, emocionada, to imvel como o monumento de pedra ao qual se apoiava levemente.

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E, enquanto ela olhava, Nophaie comeou a sua prece:


Belas Rochas Andantes,
parte vermelhas, parte brancas, luminosas
com a luz - essas luzes to brilhantes
que do cu caem sobre vs, maravilhosas.
Eu vos dou isto, simplesmente,
isto, uma orao que para vs eu digo,
fervorosa e ardente,
com palavras que vm do corao amigo.
Neste dia fazei com que os meus ps caminhem bem,
que as minhas pernas andem bem,
que o meu corpo se sinta bem, que a minha alma esteja bem.
Neste dia deixai-me erguer da minha cama
e caminhar com firmeza.
Que eu no sinta a febre da incerteza,
que o Bem seja como um guia que me chama.
Que tudo aquilo que eu veja seja bem,
que eu possa acreditar que tudo  bem...


Marian escutava e olhava, e sentia que para sempre na sua memria ficariam gravados o esplendor e o estranho fenmeno da aparncia de vida daquela terra de duendes onde se erguiam as Rochas Andantes.
Abaixo do ponto onde ela se encontrava, havia um planalto coberto de cedros, cinzento da erva e do mato. Prolongava-se para leste, ao longo de eminncias de rocha escalvada, e fazia pensar, no seu isolamento e na sua singular conformao, em qualquer estranho vulto de animal pr-histrico. Estendia-se, impressionante, sobre a imensa pradaria verde, arredondado, enorme, e parecia mover-se para a frente,

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caminhar, ser levado, e impelido por uma poderosa e fantstica vida. As Rochas Andantes! Posto avanado de um exrcito de pedras nuas, gigantesca massa de rochas alongando-se e espalhando-se de norte para sul, descendo da distncia, levado pelos declives e pela imensa ondulao dos montes!
- "Sob a Roch", a fora que esculpiu essas Rochas Andantes,  o vento... - disse Nophaie. - Escute a nossa orao!...


Vento da cor do cu, Grande Chefe dos Ventos, manda-me o arco-ris para que eu possa correr sobre ele o dia inteiro. Nuvens, nuvens azuis da cor do cu, deixai-me caminhar com vossos ps de nevoeiro, deixai-me andar com vossas pernas de neblina; com a vossa camisa azul, de aragem fina, deixai-me caminhar...
Nuvens, nuvens azuis, deixai-me usar vosso chapu de luz...
Nuvens azuis, que a treva permanea
para trs, para alm, que no mais aparea
e que, na minha frente, brilhe a luz.
Me terra, que a chuva caia para mim;
que, com ela, a seara verde amadurea,
e a paz, nuvem azul, fique comigo at o fim...


Ento Nophaie fez sinal a Marian para sentar-se e encostar-se a ele, ao lado da pirmide de pedra.
- Veremos daqui o pr do sol sobre o deserto... - disse ele. - O pr do sol - a consumao - a glria - o fim do dia para os ndios!...

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Os brancos no se levantam a tempo de ver nascer a luz da manh, e no se interessam por olhar o sol no poente. Mas, para os ndios, essas horas so sagradas...
Para o oeste, que Nophaie apontava ao olhar maravilhado de Marian, a paisagem recortava-se numa escala gigantesca, numa suprema manifestao da escultura da natureza. As sombras cor de prpura comeavam a desenhar os desfiladeiros, a tornar mais altas as encostas ondulantes de rocha vermelha. Para alm a intensa luz do poente envolvia magestosamente as escarpas que se erguiam, altas e escuras silhuetas orladas de um esplendor doirado, e ensombravam o mundo das esculpidas e escavadas Rochas Andantes. Mais para cima, sobre o flamejante centro do ocaso, surgia em estranha ascenso a Montanha de Luz de Nophaie, culminando numa cpula branca, franjada de negro. Ali, a neve e os pinheiros dominavam a altura.
Em cada instante o espectculo mudava, e sobre a vastido da terra estendia-se um caos de luz e cor. As sombras prpuras enegreciam aos poucos; o amarelo e o vermelho tornavam-se menos intensos. Longos raios de luz atravessavam as nuvens no poente. As emoes de Marian cresciam a cada transformao. Em frente dos seus olhos estendia-se uma imensido de terra nua, longa de duzentas milhas, larga de cem, descrevendo uma curva de leste para oeste.O olhar humano era insuficiente para abarcar a sua grandeza e o seu significado. Olhos de guia ou de condor, os mais penetrantes e poderosos de todos os conhecidos rgos de viso, seriam tambm impotentes ali. Nada se movia - alm da iluso das Rochas Andantes; nenhum som, nada alm da impressionante e dura nudez da terra, que encantava a alma mas excedia o poder de compreenso do esprito. Era o mundo dos ndios, um mundo de rocha escalvada, de cedros e de mato! Marian sentiu no fundo do seu corao

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uma dolorosa e enternecida piedade pelos ndios a quem os acasos da vida e da sorte pudessem eventualmente arrancar daquele mundo to quieto, to solene, to estranho - que era para eles um refgio e um lar.
As escuras muralhas de granito envolveram-se em neblina vermelha; as Rochas Andantes pareciam caminhar sempre, como fantsticos mastodontes, mstica evidncia das idades.O horizonte tornava-se ntido pela ascenso da nvoa do fundo dos desfiladeiros, pelos ltimos e penetrantes raios do sol. Parecia que um milho de facetas de rocha cinzeladas reflectiam o brilho do poente e o devolviam, projectando para as nuvens a maravilha da luz. As sombras alongavam-se, alargavam-se, adensavam-se. Para Marian, o sentido da cor ampliava-se ou reduzia-se, sem que ela pudesse compreender porqu. Milhares de arestas de rocha, frente ao sol, pareciam fundir-se nos seus ltimos clares.
O ar tornou-se frio. Mais longe, atravs das rochas recortadas, uma luz cinzenta invadia o horizonte. As grandes agulhas de pedra vermelha pareciam reduzir-se, encolher-se, morrer na luz da tarde que morria. Cada instante era mais maravilhoso e solene do que o instante precedente. Sim, aquele no era um lugar que os homens brancos pudessem entender. Mas era de uma beleza fantstica e selvagem, de uma beleza quase dolorosa pela sua intensidade! A grande luz esmorecia na lonjura. Sobre a imensa extenso de rochas, a enorme sombra cinzenta estendia-se cada vez mais depressa, enquanto Marian a olhava; s para leste a luz doirada se atardava ainda sobre os pontos mais altos das Rochas Andantes. Uma vez mais os raios de luz atravessaram as nuvens, como num adeus, fortes e dominadores, iluminando estranhamente os pncaros cobertos de neve. Ento todo o leste, tal como o norte, foi empalidecendo, escurecendo, envolto na mancha cinzenta da sombra que alastrava. Mas houve ainda um claro,

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que atravessou o cu e poisou por um instante sobre as Rochas Andantes. Foi uma luz efmera, que logo se apagou. S o reflexo doirado das nuvens se suspendeu ainda por um momento nos pncaros de Nothsis Ahn, mas no momento seguinte toda a terra se envolveu numa nvoa rosada. A montanha de Nophaie foi escurecendo, recortando-se no cu ainda claro. As terras altas pareciam mergulhar numa luz etrea e envolvente. Que estranhas mudanas! O frio apertava. O sol desaparecera. O deserto era uma enorme mancha escura. O grande disco de luz partira para alm, deixando ainda no cu um rasto de oiro que tocava de leve os cumes das montanhas. As pedras nuas pareceram ganhar fora, erguer-se, destacar-se como sombras enormes da luz crepuscular.
Marian voltou-se para Nophaie.
- Eu vi... - disse ela... - e sinto tudo o que sente... Agora conte-me as suas penas...
Nophaie ergueu-se, levantando-a com ele, dominando-a com a sua alta estatura e na sua face havia uma expresso estranha, que ela nunca vira antes. Mistrio e tristeza, atavismo e fora, tudo isso se lia nas suas rugas de bronze; e o olhar era terrvel. Marian julgou ver a prpria alma do ndio.
- Eu sou um infiel... - disse ele em voz rouca.
O choque de uma imensa surpresa tirou a voz a Marian.
- Eu ignorava isso quando vim para aqui... - continuou Nophaie num tom baixo e contido, como se uma irresistvel fora interior o obrigasse a falar. - Tentei regressar  religio do meu povo. Orei - tentei crer. Mas no consegui... Sou um infiel!... No posso crer no deus dos ndios - e no quero acreditar no Deus dos homens brancos.
- Oh, Nophaie!... - exclamou ela quase num soluo,

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bruscamente arrancada da surpresa para se sentir possuda pela consternao e pelo medo. - A sua f - voltar!...
- No. O que aprendi com os brancos matou a minha f. A religio dos ndios  a melhor para eles. Esse Morgan mata a f simples dos ndios - torna-os infiis como eu - e depois tenta faz-los cristos...  sua maneira. Isso no pode ser feito. No h um nico ndio realmente Cristo, em toda a reserva.
- Sim -  terrvel... - respondeu Marian. - Mas - Nophaie, sinto-me to... to triste! No tem qualquer espcie de f numa vida futura?
- Um infiel no tem f.
- Mas a sua f h-de voltar. Tem de voltar. Eu o ajudarei. Penso que h um s Deus, e creio que a sua religio  to boa quanto a minha. Ningum sente mais do que eu a necessidade de crer em Deus e na imortalidade. Para que serviria a vida, sem isso?... Nophaie, ns rezaremos ambos para que recupere a sua f.
- Marian, no pode compreender-me?... - perguntou ele com pattica gravidade. - Os conhecimentos que os brancos me impuzeram - a minha inteligncia evoluda - tornou-me impossvel acreditar na religio dos meus.
- Impossvel?!... - repetiu Marian.
Um silencioso e expressivo alargar dos braos, num gesto de impotncia e angstia, fixou na mente de Marian a certeza da catstrofe espiritual de Nophaie. E essa certeza magoou-lhe o corao. A sua pena por ele transformou-se em ressentimento e clera contra os brancos. Marian no conseguia compenetrar-se da ideia de que deveria desejar a aceitao, por Nophaie, da religio dos brancos. No lugar dele, ela no o faria. Mas como poderia ajud-lo?

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- Vamos descer antes que a noite escurea por completo... - disse Nophaie, tomando-a pela mo.
Devagar, em curtos passos cuidadosos, Marian iniciou a descida da colina de pedra, difcil na escurido que se adensava. Uma infinita melancolia envolvia agora o deserto cinzento e silencioso. Ao longe, entre os troncos dos cedros, brilhava o claro da fogueira do acampamento. E, quando alcanaram o terreno plano, a sombra do crepsculo cara sobre o mato rasteiro.
- Nophaie, escute o meu plano para trabalhar entre o seu povo... - disse a jovem. E exps-lhe em resumo o resultado das suas conversas com a Sra. Withers. Nophaie no s concordou como lhe exprimiu a sua gratido, e pareceu particularmente desejoso de que ela conseguisse encontrar um lugar em Mesa, na escola.
- Pode fazer tanto bem... - disse ele. -- As pequenitas ndias vo ador-la. E, to cedo quanto saiba falar a lngua delas, poder grandemente influenci-las e defend-las do mal. So crianas primitivas. H uma garota ndia pela qual ter de olhar especialmente.  Gekin Yashi - a Pequena Beleza. Tem catorze anos e  alta para a idade. Conheo o pai, Do Etin - o Gentil-homem.  um ndio velho, magnfico. Aprova a escola e gosta dos bons missionrios, mas odeia Morgan que dispe de grande poder em Mesa. Esse Morgan est demasiadamente interessado em Gekin Yashi...
- Ah! - Nophaie, creio que comeo a compreender alguma coisa do problema dos ndios... - respondeu Marian.
- Ainda bem. E agora diga-me: vai ficar aqui durante algum tempo? Para podermos conversar, e escalar as colinas, e correr a cavalo?
- Sim, ficarei dois dias. Withers no poder demorar-se mais tempo... Correr? Havemos de galopar atravs do mato!... Depois voltarei a Kaidab e da a Mesa...

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para comear o meu trabalho para si, Nophaie. Ir a Mesa algumas vezes?
- Sim, todas as semanas. Mas devemos encontrar-nos em segredo... em qualquer ponto do deserto, para seu bem. O agente Blucher s me viu duas vezes, mas antipatizou comigo assim que soube que eu era um ndio educado. Ele  m medicina, Marian. Blucher e Morgan governam a reserva e a escola, no para servirem o Governo ou os ndios, mas para se servirem a eles prprios. Abafam as melhores influncias, dominam os empregados do Governo e, ou expulsam os bons missionrios ou pem obstculos no seu caminho. Em breve os conhecer.
- Ir ver-me todas as semanas!... - exclamou Marian com alegria. - Ser magnfico! Pensa que devemos encontrar-nos em segredo? Mas, Nophaie, eu no me envergonho do... da nossa amizade! Tenho orgulho nela!
- Blucher e Morgan no devem saber que se encontra comigo!... - declarou Nophaie com firmeza. - No poderia continuar a trabalhar na escola, se eles soubessem. Dentro de dez dias irei a Kaidab e informar-me-ei, junto da senhora Withers, de como vai o seu trabalho em Mesa. Ento escrever-lhe-ei e direi quando havemos de encontrar-nos.
- E como, e onde nos encontraremos? Tenho o meu cavalo branco, bem sabe, e posso cavalgar no deserto!...
- Sim... - disse ele simplesmente.
Arrumado aquele importante assunto, Marian voltou a sentir correr-lhe nas veias um calor e uma excitao empolgantes, um renascer da sensao de felicidade que a confisso de Nophaie bruscamente esmagara. Poderia v-lo com frequncia! Essa era a razo maior da sua alegria... a inspirao mais forte para a sua aco. No conseguiria o seu amor por ele, a f que nele depositava, animar os dias sombrios de seu martrio? Porque, para Marian, a vida de Nophaie aparecia-lhe realmente como um martrio.

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A noite descera sobre o deserto, fria e quieta, com um negrume de sombras a envolver o mato e os cedros, e o veludo azul-escuro do cu semeado de mirades de estrelas reluzentes. Marian caminhava ao lado de Nophaie, de mos dadas, atravs do mato e em direco ao claro da fogueira. O uivo de um "coyote", na distncia, rasgou o silncio da noite. Marian sentia a plenitude do seu corao e, mais do que isso, sentia o mato, as rochas, a corrente murmurante... e a noite do deserto que parecia possuda de um estranho poder espiritual, como uma alma que respirasse e vivesse.


VIII.


Naquele ano as chuvas do Vero vieram tarde - apenas a tempo de salvar as terras altas de uma seca destruidora. O povo de Nophaie atribua a vinda das nuvens escuras carregadas de troves, da chuva que caa em grossas cordas de gua e do arco-ris que se encurvava sobre o deserto, ao poder infalvel das suas danas de feitio e das suas oraes. Mas Nophaie no podia crer nisto.
L no alto, acima dos pncaros de Nothsis Ahn, aquelas chuvas eram frias, mesmo em Agosto. Por vezes o granizo caa, fustigando o mato, lavando as rochas lisas e sujando de lama a l espessa dos carneiros. Maahesenie, que cuidava do rebanho durante as frequentes ausncias de Nophaie, expunha-se muitas vezes s frias chuvadas. ndio como era, nem buscaVa abrigar-se. A chuva, para ele, era sempre boa, apesar de ser fria. E, um dia em que Nophaie regressou de Kaidab, encontrou o seu nico parente gravemente atacado de uma doena que se desenvolvera com o correr dos anos.
Cuidar do rebanho sob a chuva e dormir com a roupa molhada tinham trazido a Maahesenie um ataque de reumatismo na sua forma mais grave. Nophaie receou ter chegado a casa demasiado tarde... Maahesenie, liberto da sua responsabilidade,

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havia recolhido  cama, muito doente. Naquela altitude as noites eram frias, e mesmo durante o dia a cama de Maahesenie, no interior do "hogan", no era to quente como deveria ser. Nophaie preparou uma cama agasalhada e confortvel, com peles e mantas, mas o velho doente no quis deitar-se nela. S queria a cama em que sempre dormira. Nophaie trouxe-lhe mantas de Kaidab. O primeiro "Paiute" que passou, levou essas mantas em troca de tabaco. Nophaie tentou explicar ao seu velho parente, doente e teimoso:
- Maahesenie, tu tens o que os homens-medicina, entre os brancos, chamam reumatismo.  uma doena do sangue, que afecta as articulaes e os msculos, e a sua causa  o frio, alm da humidade. Deves conservar-te quente e seco.
Maahesenie olhava para Nophaie como para um rapaz que fala  toa de coisas que no entende.
- Maahesenie  vtima do Mau Esprito... - respondeu o ndio. - Maahesenie pensou maus pensamentos. Um remoinho de vento, correndo da direita para a esquerda, que  a m direco, apanhou Maahesenie quando ele no sabia qual a orao que devia rezar. E  por isso que o seu corpo est torcido. Maahesenie precisa de medicina para se endireitar. Maahesenie tem de fumar a medicina no cachimbo negro que o homem-medicina traz no seu saco.
Foi assim que Nophaie se viu obrigado a cavalgar atravs das terras altas, para ir buscar um dos homens-medicina da tribo. Um velho ndio acompanhou Nophaie, mas durante o caminho no falou com ele. Era visvel o seu desejo de ficar s no "hogan", com Maahesenie, para lhe ministrar o tratamento. Entregou a Maahesenie o cachimbo negro para que ele fumasse e, quando esse ritual se cumpriu, tirou uma pitada de sal do seu saco de medicina, humedeceu-o na boca e misturou-o com as cinzas do tabaco. Ento espalhou a mistura sobre o corpo de Maahesenie e comeou a massaj-lo, entoando ao mesmo tempo uma cano que Nophaie reconheceu ser a Cano do Vento.

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Nophaie aprovou a massagem, que lhe fez recordar o trabalho dos treinadores de futebol sobre os msculos dos jogadores. Aquilo era sem dvida excelente para tirar dores.
O seguinte tratamento consistiu em ir buscar pedras lisas  corrente de gua e colocar sobre elas as areias de diferentes cores que trouxera tambm no seu saco. O homem era um artista maravilhoso. Os seus trabalhos de areia em breve tomaram as formas de simtricas figuras, sobre as quais o homem-medicina murmurou lentas palavras de encantamento. Feito isto, varreu a areia de sobre as pedras e, reunindo as suas coisas, deixou o "hogan" e seguiu o seu caminho.
Nophaie no ficou admirado ao ver que Maahesenie melhorava ao ponto de poder sair da cama. Talvez que, se ele fosse um homem novo, o tratamento o curasse. Mas era um homem velho, gasto, e nenhuma f podia vencer completamente a doena. No dia seguinte recomeou a sentir calafrios, e o lento e doloroso enovelar dos msculos. Desistiu de tratar-se, ento, e ficou  espera do fim, num sombrio e silencioso estoicismo. Nophaie dividia o seu tempo entre Maahesenie e o rebanho.
Um dia, cerca de um ms depois de Maahesenie ter adoecido, um "Paiute" apareceu no acampamento com uma carta para Nophaie. O ndio percorrera o caminho desde Kaidab numa dezena de horas. Nophaie recebeu a carta, que estava escrita  mquina e no trazia endereo nem assinatura. Apesar disso, e estranhamente logo ao primeiro relance, ele soube quem a escrevera e adivinhou que o assunto era importante. Recompensando o ndio e pedindo-lhe para esperar, Nophaie afastou-se para a solido do seu cedro favorito e abriu a carta.


"Fui por trs vezes ao lugar do nosso encontro, uma vez em cada semana e no dia combinado, e fiquei preocupada, e triste,

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e angustiada ao ver que no aparecia.
Hoje encontrei Withers no posto comercial e ele disse-me que Maahesenie estava  morte. Tive a maior das penas, embora fosse um alvio saber qual o motivo porque Nophaie no viera. Withers ofereceu-se para esperar enquanto eu escrevo esta carta que ele levar para Kaidab e lhe mandar por um mensageiro. Ele  uma pessoa realmente bondosa e amvel. Pode confiar nele completamente. Estou portanto a escrever esta carta no escritrio do comerciante, aqui em Mesa, pretextando que se tratava de uma carta para a Senhora Withers. Acredite-me, todos os cuidados so poucos. Sinto-me agora profundamente envolvida nas manobras subterrneas deste lugar horrvel.
No me escreva mais cartas pelo Correio normal. Se no puder vir aos nossos encontros - e eu irei todas as semanas ao stio combinado - qualquer mensagem que envie deve vir por intermdio de Withers. De outra maneira no  seguro. O meu Correio de Leste tem sido aberto. No duvido de que as cartas que eu escrevo sejam abertas tambm. Algumas delas no chegaram a ser recebidas por minha tia ou por amigos meus. Ao princpio julguei que se tratasse de indiscreta curiosidade de gente invejosa ou metedia ,ou mesmo do empregado do Correio. Ele tinha-me feito a honra de dedicar-me as suas atenes, que eu repeli. Mas agora sei que o homem  um instrumento de Blucher. Qualquer mensagem enviada para Leste, para o Governo ou para o Conselho das Misses, nunca chega ao seu destino, a no ser que seja favorvel para ele e para Morgan. Eu suspeitava disto e, felizmente, nada escrevi para cafea alm de assuntos de interesse pessoal,

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a maior parte dos quais referentes a pessoas que vivem no Leste.
H duas semanas Blucher pediu-me para fazer algum trabalho de escritrio para ele, poucas horas por dia e depois do meu servio normal na escola. Pensei que era de boa poltica ser-lhe til, mas insisti em ter uma tarde livre para mim, que evidentemente corresponde aos dias em que nos podemos encontrar. Blucher tem boa opinio a meu respeito. Ouvi-o discutir com Morgan. Ele declarou que eu era uma cabea-de-boneca, e riu-se quando Morgan o aconselhou a vigiar-me. Afirmou que eu me ocupava apenas com a minha vida, no conversando com homens nem fazendo mexericos com mulheres. Ouviu-me, um dia, pr Friel no seu lugar. Deve lembrar-se de que esse Friel me causou alguns aborrecimentos. Quanto a Morgan, os ndios odeiam-no. Nem numa centena de anos eles acreditariam numa s palavra do que ele prega, ou diz. Como pode um homem mentir aos ndios, roub-los em assuntos de dinheiro, apoderar-se da gua e da terra que lhes pertence - e esperar convert-los ao Cristianismo?
Este trabalho no escritrio de Blucher tem sido til para mim, pelas informaes que vou colhendo. Vejo, ouo e leio muito mais coisas do que as que so necessrias ao meu servio. Sinto que o que fao est mais do que justificado. Estou aqui no seu interesse, Nophaie. Blucher  alemo, e est profundamente preocupado com a guerra na Europa. Odeia a Inglaterra como odeia a Amrica. Sei como servi-lo para servir o meu prprio interesse. Mas Morgan suspeita de toda a gente.  ele, realmente, quem domina tudo, aqui. Gaba-se de "ter posto a andar" os anteriores superintendentes das reservas.

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Comecei a descobrir como.  que ele foi arranjar o poder necessrio para fazer o que faz. Quando aqui chega qualquer novo missionrio ou empregado do Governo, Morgan no perde tempo para pr em prtica a sua poltica especial. Com mentiras e persuao, atrai o recm-chegado para o seu lado, e se consegue o que quer - e habitualmente consegue - prepara sem demora qualquer gnero de armadilha em que os outros caem sempre. Uma combinao qualquer, que ele instiga e que os seus sequazes executam, onde o recm-chegado fica comprometido. Se falha, o seu dio pela pessoa torna-se violento, e comea a pr em prtica outro gnero de habilidades para que ele ou ela sejam afastados daqui. Ele conhece realmente qualquer segredo de que pode servir-se contra Blucher. E no  difcil, para uma pessoa inteligente, chegar a esse conhecimento. Por exemplo, o mestio ndio Noki, Sam Ween,  o intrprete de Blucher, que lhe paga vinte dlares por ms - nos meses em que lhe paga. Falei com o Sm. E vi, em documentos do Governo, qual a importncia que  abonada para o intrprete. Mas Morgan conhece outras coisas, seguramente, mais graves do que esses pequenos roubos feitos ao Governo dos Estados Unidos.
Tudo isto conduz ao ponto principal desta carta. O mais importante agente de Morgan  "miss" Herron, a dirigente das raparigas ndias. Eu consegui ganhar a confiana e a amizade de Gekin Yashi. Ela no  apenas a Pequena Beleza que o seu nome significa,  tambm uma pequena encantadora e boa. Tenho conversado muito com ela. Apesar da sua timidez e dos seus receios, confia-me as suas dificuldades.
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"Miss" Herron odeia-a. E o meu interesse por Gekin Yashi atraiu sobre mim a inimizade de "miss" Herron.
A situao, no que se refere a Gekin Yashi,  esta: Morgan fala-lhe sobre religio e a ns, professoras, diz que Gekin Yashi  muito inteligente e que em breve far dela uma boa Crist.
Do Etin, o pai de Gekin Yashi, no consente que ela v a casa de Morgan, ou  capela. No h qualquer lei que o obrigue a isso, e tanto Morgan como Blucher esto furiosos contra Do Etin. Morgan influenciou Blucher para que ele modificasse o regulamento de maneira a forar as raparigas ndias a irem  sua capela, para o ouvirem pregar. Tanto quanto sei, essa modificao vai entrar em vigor, e receio que v causar perturbaes entre os ndios.
No entanto o regulamento ser alterado e Morgan ter as coisas a seu peito. Gekin Yashi tem tanto medo de Morgan que positivamente treme quando eu falo dele. A nica maneira que eu vejo para salvar Gekin Yashi  esta, Nophaie: rapt-la e escond-la num desses desfiladeiros selvagens at que Morgan se esquea dela. Isto poder salvar Gekin Yashi, mas no impedir que qualquer outra garota ndia, que seja tambm bonita, corra o risco de se encontrar na mesma infeliz situao ,mais cedo ou mais tarde.  claro que compreende, Nophaie, que haver perigo para si se tentar pr em prtica este plano. Perigo de vida! No apenas de priso, mas de vida! Este plano pode ser tolo, porque sem dvida os ndios que esto ao servio de Morgan seguiro a pista at o ponto, seja qual for, onde Gekin Yashi fique escondida. Mas no consigo descobrir uma ideia melhor.

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Esta  uma longa carta, meu Amigo, e Withers est  espera. As notcias a meu respeito podem esperar at que eu o veja, o que de todo o corao desejo que no tarde.


Nophaie ficou a meditar sobre a carta. Releu-a ainda, mas ficou ainda mais sombrio e pensativo. O plano que Mariana sugeria tambm lhe havia ocorrido. E agora, considerando o que a jovem lhe dizia, resolveu correr o risco de raptar Gekin Yashi da escola. Mas estava ali amarrado,  cabeceira do seu velho parente moribundo. HaVia todas as razes para ir a Mesa o mais depressa que pudesse - mas no lhe era possvel partir. Maahesenie tinha mais direitos ao seu Amparo do que Gekin Yashi.
Nophaie esperou, sentindo um peso cada vez maior sobre o seu corao. Enquanto vigiava o seu rebanho, ia revolvendo no crebro planos para salvar Gekin Yashi e escond-la em lugar seguro. Seria fcil ocult-la dos homens brancos, mas quase impossvel conseguir que os ndios a no descobrissem. No entanto era preciso fazer a tentativa.
Maahesenie morreu de noite, enquanto Nophaie dormia. Embora esperasse aquilo, o desenlace foi um choque para Nophaie. Os instintos da sua natureza de ndio ressurgiram em presena da morte. Toda a sua gente tinha medo dos mortos. E, daquela trgica e rgida mscara de bronze, o esprito fugira. Para onde fugira? Onde se encontrava agora? O mistrio da morte era to grande como o mistrio da vida. No seriam as estranhas crenas dos ndios, a sua estranha f, to dignas de crdito como as dos homens brancos? Mas ali, naquela hora impressionante e solene, Nophaie sentia-se distante da alma do ndio morto.
Todavia, Nophaie cumpriu severa e rigorosamente os usos dos funerais da sua tribo.

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Alguns ndios da tribo vieram ver Maahesenie, mas deixaram o corpo aos cuidados de Nophaie. Os "Paiutes" que por ali passaram naquele dia pararam para exprimir os seus sentimentos - e continuaram o seu caminho. Nophaie compenetrou-se do facto de que os ndios no gostavam de enterrar os seus mortos. Adiavam a cerimnia enquanto podiam. O ritual prolongava-se durante quatro dias, e os parentes no tomavam qualquer refeio at tudo estar concludo.
Nophaie tinha assistido aos servios fnebres de alguns membros da tribo. Sabia o que tinha a fazer, embora no pudesse lembrar-se da maior parte das oraes e dos cnticos.
Comeou no revestir a Maahesenie os seus melhores trajos, guarnecidos a prata, e calar-lhe os seus melhores mocassins. Ento entregou-se  difcil tarefa de abrir uma sepultura servindo-se apenas do seu machado e de alguns rijos ramos de cedro, como nica ferramenta. Trabalhou nisso durante um dia inteiro, conservando o rebanho perto dele.
No dia seguinte Nophaie, conforme o uso da tribo, abriu um buraco no "hogan". O corpo morto de Maahesenie no devia ser transportado atravs da porta, e tinha de ser conduzido em linha recta at  sepultura. Nophaie gastou muito tempo para assegurar-se da perfeio dessa linha recta, e s se deu por satisfeito quando ficou convencido de que, mesmo aos olhos penetrantes de um ndio, nenhum desvio era sensvel. Ento embrulhou o corpo de Maahesenie na sua melhor manta, tomou-o nos braos e desceu-o para o fundo do coval. A tarefa seguinte consistiu em cobrir o corpo e encher a sepultura de terra, ao nvel do mato. Depois a sela de Maahesenie teve de ser cortada e espalhada sobre a campa. A sua cafeteira e todos os outros utenslios de cozinha de que ele habitualmente se servia, tiveram tambm de ser partidos e depositados sobre a terra que cobria o corpo.

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Toda aquela cerimnia devia ser feita para libertar tambm os espritos de todos esses utenslios necessrios, a fim de que pudessem acompanhar Maahesenie no Campo das Caadas Felizes, sob a terra. A seguir, continuando o cumprimento do ritual, Nophaie encaminhou-se para o mato em busca dos cavalos de Maahesenie, e foram exactamente trs os que Nophaie pde encontrar mais perto. Eram animais novos, belos e cheios da alegria de viver. Que pena ter de mat-los! E porqu mat-los? A mais difcil das tarefas a que Nophaie se obrigara desde o seu regresso  terra dos ndios, foi essa de levar os trs cavalos at junto da campa de Maahesenie, e abat-los a. Um dos magnficos animais tinha mesmo de ir com os arreios postos, de modo que Maahesenie pudesse facilmente mont-lo no outro mundo para onde fora o seu esprito.
Ao pr do sol desse dia, Nophaie tinha a sua misso concluda. Faltava-lhe apenas queimar ou destruir o "hogan". e decidiu que nunca mais l voltaria a entrar. Construiu um abrigo de ramos e de mato, perto do cedro sobre o qual Marian tinha dormido. Quando a noite desceu ele estava s, a no ser pela companhia de "Taddy", o seu co, e do rebanho. Longamente, durante as horas da noite, Nophaie permaneceu acordado. Ele era o ltimo da sua famlia, e no teria filhos. O peso do seu destino carregou-lhe, mais duro, sobre os ombros cansados. O grande esprito arfante da natureza estava em volta dele, to vivo e to ntido como qualquer outro esprito que os ndios pudessem ter adorado. Estava ali - a misteriosa fora - a eternidade - o infinito. A vida continuava. A alma abandonava o corpo. Morreria ela, ou viveria de novo em qualquer outra Forma? Nophaie no podia responder como um ndio a esta interrogao. Tinha de responder como um ateu. Aquela era a fatalidade da sua tragdia, o sabor amargo do clice que ele deveria beber at ao fim. Porque, desde a sua vinda para o deserto, a sua alma de ndio e a sua inteligncia de homem branco tinham-se fundido numa coisa bela e nica

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- o amor por toda a natureza. Mato e montanha, as muralhas vermelhas e rebrilhantes e o fundo cor de prpura dos desfiladeiros; "gahd", o cedro, e "choe", o cepo; as ptalas acetinadas das flores do deserto - essas faziam parte de si mesmo. Sentia uma fora espiritual nas rochas, e exultava no poderoso movimento das asas encurvadas das guias. A sua natureza de ndio tornava singularmente aguda a sua percepo emocional, mas no conseguia pensar  maneira dos ndios.
Na madrugada seguinte, Nophaie cavalgou atravs do mato, ao longo da trilha de Mesa.
A algumas milhas da encosta leste de Nothsis Ahn, desviou-se do caminho para visitar um acampamento "Paiute", onde contratou um rapazito para cuidar do rebanho durante a sua ausncia. Os "Paiutes" mostraram-se contentes por ver Nophaie, e receberam-no bem. Eram ricos em gado e em cavalos; as suas necessidades eram poucas; viviam felizes e em paz, na solido do seu lar no deserto. Nunca viam um homem branco, a no ser nas raras viagens aos postos comerciais. Nophaie compreendeu a beleza das suas vidas. Se alguns de entre eles, os mais velhos, formavam uma ideia do futuro e do desaparecimento da sua raa, no o demonstravam fosse como fosse. Mas Nophaie sabia isso, e continuou o seu caminho numa triste meditao, pensando em como ele prprio desejaria ser to feliz e auto-suficiente quanto eles.
O seu trajecto levou-o atravs das terras do velho e prspero chefe "Nopah", a quem Withers tinha acusado de salgar a l. Etenia, o Rico, teve palavras de simpatia para a perda que Nophaie sofrera com a morte do seu nico parente - e parecia ter esquecido os seus antigos motivos de discrdia. Nophaie no se demorou muito tempo com ele.

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Mas viu de novo, no entanto, as evidncias da fortuna de Etenia - um "hogan" de imponentes propores, construdo em pedra, estbulos ,campos cultivados, milhares de cabeas de gado e centenas de cavalos, e em redor, no terreno largo e ondulante, coberto de cedros, os "hogans" da sua gente. Etenia dispunha de tudo quanto um ndio pode ambicionar. E no entanto, a nica coisa que Nophaie lhe invejava era a sua f simples, a f que ele recebera dos seus antepassados.
Nophaie galopou ao longo da trilha do mato, sentindo na cara o fresco aroma do deserto, mergulhando o olhar na vastido da terra de um verde-purpurino. Como ele se sentia longe, imensamente longe da gente que por ali vivia! Cada dia lhe dava, dessa distncia, uma prova mais flagrante e mais amarga. Quando falava com os ndios servia-se da sua linguagem, mas os pensamentos e as ideias formulavam-se na sua mente em palavras inglesas. Durante muito tempo tentara dominar isso. Mas era impossvel. Qualquer pensamento, lento e deliberado, expresso em palavras ndias, era-lhe inteligvel ,era mesmo natural e corrente, mas no tinha a mesma significao da linguagem dos brancos. Essa era a tragdia, uma das tragdias de Nophaie - ele tinha os instintos, as emoes, a alma de um ndio, mas os seus pensamentos sobre ele prprio, as suas meditaes sobre si mesmo e sobre a sua gente, no eram as de um homem vermelho. Assim como via a beleza daquela terra selvagem e solitria e a rude simplicidade dos ndios, a sua maravilhosa resistncia, a sua f quase infantil e permanente nas coisas sobrenaturais e na imortalidade, assim via tambm a indolncia daquela gente primitiva, a sua maneira anti-higinica de viver, a sua absurda reverncia pelos homens-medicina, a sua caracterstica falta de castidade e mil outras manifestaes de ignorncia e de inferioridade em relao ao progresso e  evoluo do homem branco. Os ndios estavam ainda demasiadamente prximos do primata,

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do semi-bicho de que provinha a existncia humana.
Apesar de tudo Nophaie no aceitava facilmente e sem exame a supremacia da raa branca. Havia muitos pontos nos quais ele considerava a superioridade do ndio. Lembrou-se da resignao de Maahesenie em face da morte, e de como ele simplesmente se estendera sobre a sua cama,  espera dela. --"Meu filho... - dissera ele a Nophaie - ...no fiques a de p, curvado sobre mim, porque me tiras a luz do sol. Vai e leva o rebanho. O meu dia chegou ao fim. Deixa-me ficar s, para morrer."
Como, em comparao, eram ignbeis e egostas os usos dos brancos! Nophaie recordou-se de uma ocasio, no Leste, em Cape May, nos tempos em que ele jogava "base ball" e vivia entre os homens de raa branca - uma ocasio em que um moribundo fora conservado vivo a poder de remdios, durante cinco dias depois daquele em que devia ter morrido. Cinco dias de intolervel angstia que lhe haviam sido impostos por parentes dedicados - mas mal avisados! Os ndios sabiam mais e melhor do que isso. Eles no receavam a morte. O mstico futuro mantinha a sua promessa. A vida futura era a realizao completa da vida terrena. Os homens brancos odiavam a ideia de abrir mo dos seus prazeres materiais; os homens vermelhos amavam a crena na sua metamorfose espiritual.
Naquele dia, como muitas vezes antes, Nophaie parou junto da "Pedra da Experincia", cada perto da trilha. Era espessa e tinha quase dois ps de altura. Aquela era a pedra que, de um rapaz, fazia um guerreiro, um bravo. Havia muitas pedras como aquela, espalhadas pela terra dos ndios, e os rapazes de todas as famlias as agarravam, e as envolviam nos braos, e as puxavam, dia aps dia, ano aps ano,

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at chegar o momento maravilhoso em que conseguiam levant-las e transport-las. Levava anos, a desenvolver e atingir a fora necessria. Quando um jovem ndio podia erguer uma dessas pedras, passava a ser um bravo; se pudesse transport-la era um homem forte; se conseguisse lev-la a distncia era um gigante. Aquele exerccio explicara a Nophaie como era que os ndios podiam carregar um tronco abatido, mesmo que fosse um cedro com todos os seus ramos, pela encosta de um monte.
Nophaie desmontou. No podia passar adiante daquela "Pedra da Experincia", que parecia lanar-lhe  cara um desafio ancestral. A fora viril! O poder que os prprios deuses respeitavam! Fora de braos, que fazia passar um brilho intenso e furtivo nos olhos negros das raparigas ndias!
Respirando profundamente e curvando-se, Nophaie rodeou a pedra com os braos e puxou, retezando os msculos at o limite das suas foras. Levantou-a. Deslocou-a ligeiramente. Mas depois o tremendo peso dobrou-o, obrigou-o a solt-la. Ficou ofegante e coberto de suor. Olhou com uma expresso amarga para aquela prova da fora dos ndios. Lembrou-se desdenhosamente dos seus triunfos nos campos de futebol - os "records" universitrios to gabados pelos seus camaradas brancos. Qualquer rapaz daquele deserto era to forte como ele. E, comparado com os homens da tribo de Nopah, ele no passava de um pigmeu. Maahesenie, na sua mocidade, tinha levantado aquela mesma pedra at a altura dos ombros e caminhara cem passos, transportando-a.
Nophaie voltou a montar e continuou o seu caminho, pensando em "Sob a Roch" e olhando o cenrio  sua volta. Bruscamente o seu cavalo, depois de passar sob um enorme cedro, assustou-se ao ver na sua frente um estranho monumento.
Nophaie tinha visto muitas vezes aquelas pedras empilhadas, mas nunca, at aquele momento, parara junto delas.

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Tinham para ele um significado especial. Quando um ndio seguia por aquele caminho, perseguindo caa ou desempenhando qualquer tarefa que envolvesse perigo, apanhava um ramo do cedro e, depositando-o sobre o monumento, cobria-o com uma pedra e dizia uma prece.
Nophaie cedeu ao instinto que o impelia a colher um dos ramos do cedro. Juntou mais uma pedra ao monte de outras pedras e disse uma orao pela sua aventura. A ideia pareceu-lhe bela. Ele era um chefe ndio, caminhando ao encontro de uma perigosa empresa. O sonho - o capricho - a f dos homens vermelhos! Mas como era ftil aquela simples e instintiva negao dos seus conhecimentos de homem branco! Depressa desapareceu, deixando-o outra vez em face da verdade exacta e nua. Ele ia tentar salvar a alma de Gekin Yashi. Talvez chegasse demasiadamente tarde, mas, se ainda fosse a tempo, apenas conseguiria adiar um crime e uma tragdia to inevitveis como a prpria vida.
Oito horas de duro cavalgar ao longo da trilha, levaram Nophaie  crista do planalto de onde avistou a extensa linha verde de rvores que marcavam a localizao de Mesa. Bastante diferente era, aquela regio, das terras altas e cobertas de mato que rodeavam Nothsis Ahn. Deserto nu, areia amarela, salpicado de manchas verde-plido e sulcado de linhas de rocha azulada, espalhava-se e estendia-se para a distncia, nos trs lados do horizonte que o seu olhar abarcava. Ondas de calor subiam, pesadas e lentas, no ar espesso, ondulando em espirais de fumo e de areia; nuvens brancas, baixas, com tons de creme, rolaVam ao longo da linha escura do horizonte.
Rochas amarelas, esculpidas pelo vento, marcavam o ponto que Nophaie e Marian haviam escolhido para os seus encontros. Ali a sombra era fresca, podiam abrigar-se da chuva e da areia que o vento trazia - e o stio era alto bastante para que pudessem facilmente vigiar os arredores.

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Marian ainda l no estava, nem se avistava a mancha branca do seu cavalo em qualquer ponto do longo declive que subia quase insensivelmente at Mesa. Era perto do meio da tarde, e a jovem s deveria aparecer algum tempo depois. Nophaie preparou-se para esperar.
E algum tempo depois a sua espera foi recompensada ao distinguir um ponto branco na distncia, um ponto branco que emergia da linha das rvores e se encaminhava para onde ele esperava. Nophaie ficou a observar a aproximao de Marian. Ela tinha aprendido a montar como os ndios. Nophaie sentiu que as sombras se dissipavam na sua alma, as dvidas no seu esprito. Sempre se sentia reanimado ao v-la. Ela era, cada vez mais, a prova viva de muitas coisas: a verdade da lealdade e do amor - a nobreza das mulheres brancas - a significao de uma vida que, para todas as criaturas humanas, fosse digna de ser vivida - a estranha conscincia da alegria de resistir ao mal, lutando pelos outros, impelida por um sentimento cheio de esperana, indefinvel, to profundo e mstico como os seus prprios sentimentos. Como poderia ele portar-se como um cobarde, quando aquela mulher branca o amava e trabalhava para ajudar o seu povo? Ela era a refutao de todas as suas dvidas sombrias. Pensar no mal era praticar o mal. Naquele momento Nophaie compreendeu que poderia ser feliz e que, quando se despedisse dela, levaria consigo novas foras. Nada podia roubar-lhe a maravilha da sua presena.
Finalmente, ela levou a montada atravs das rochas amarelas, e, do alto de uma elevao de terreno, acenou-lhe com a mo enluvada. Desmontando, prendeu o cavalo branco a uma salincia de rocha onde fixou as rdeas, e comeou a trepar at o ponto onde se encontrava Nophaie .Ele ajudou-a a transpor os ltimos degraus e, ao tomar-lhe a mo, sentiu que ela lhe cairia nos braos se ele esboasse o gesto de estender-lhos. Nunca, antes daquele momento,

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desejara to intensamente apert-la contra o peito, dizer-lhe, gritar-lhe a sua ntima necessidade dela. Mas era a sua vez de dar-lhe uma prova de que a sua impresso dos ndios, ideal embora, era verdadeira. Certa vez ela chamara-lhe "o seu nobre homem vermelho". Permitiria ele que qualquer homem branco fosse mais digno desse nome?
Mas o espao de tempo de cinco semanas tinha transformado "Sob a Roch". Estaria toda a diferena na sua blusa clara e na sua saia aberta, que ela agora usava em vez do seu trajo masculino de montar? Enquanto ela falava, Nophaie ouvia-a e observava-a. Que tinha sido feito da sua pele to branca, to semelhante s ptalas cor de prola dos lrios "sago"? A sua face tinha agora um moreno doirado e estava mais magra, mais velha tambm, excepto quando sorria. Apenas o azul dos olhos e o oiro dos cabelos lembravam ainda "Sob a Roch". As suas formas haviam perdido um tanto da sua primitiva plenitude. O Vero do deserto exercera sobre ela a sua aco; os ventos quentes haviam secado um tanto as suas carnes. E, em repouso, a sua expresso tinha um toque de tristeza que lhe emprestava nova beleza e nova fora. Nophaie apenas podia aceitar a devoo de Marian por ele e pelo seu povo, porque via que ela estava a atingir assim uma mais nobre feminilidade. Em anos futuros ela poderia pensar naquele tempo, e em Nophaie, sem ter de lamentar-se. Nophaie tinha viso bastante para ver isto, e isto lhe permitia ser feliz junto dela.
Depois de falar sobre a sua gente do Leste, Marian passou a referir-se aos assuntos de Mesa e, porque isso fazia parte da sua maneira de ser, contou coisas engraadas que descobrira nas crianas ndias e a tinham divertido. A escola tinha tantos aspectos engraados como trgicos.

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Nophaie alegrou-se ao verificar os progressos que ela fizera
na linguagem dos "Nopahs", mas no pde furtar-se a um vago e estranho sentimento de tristeza, ao ouvi-la falar o seu dialecto. Das narrativas sobre as crianas ndias, ela passou a falar-lhe das intrigas em Mesa, que envolviam agora amigos que ela encontrara, um jovem texano e sua mulher, que se viam em dificuldades em consequncia das maquinaes de Blucher e de Morgan.
Nophaie conhecia o texano, que se chamava Wolterson. Era um funcionrio do Governo, e os seus deveres consistiam em percorrer as reservas e ensinar os ndios a cuidar dos rebanhos, dos cavalos e do gado. O pouco que Nophaie ouvira dizer de Wolterson, era inteiramente a seu favor. Os ndios apreciavam-no. Este facto aumentou o interesse de Nophaie no que Marian tinha para lhe contar e que, para ele, se revestia de um significado especial.
Wolterson tinha vindo para o deserto por motivos de sade. Havia sido criador de gado, e recebera do Governo o lugar de inspector dos rebanhos e manadas nas regies limtrofes de Mesa. Por ser um rapaz de boas famlias do sul, e altamente recomendado, imediatamente incorrera no desagrado do superintendente. Quando perguntou a Blucher em que consistiriam as suas obrigaes, esse sujeito respondera sucintamente: "Ande por a." A isso se haviam limitado todas as indicaes que recebera. Morgan solicitou os bons ofcios de Wolterson atravs de "miss" Herron e das suas sugestes  senhora Wolterson. No entanto, pouco depois, quando os Wolterson descobriram os factos que eram do conhecimento de todos os antigos habitantes de Mesa, essas sugestes foram repelidas. Ento principiara o trabalho subterrneo, o trabalho de sapa contra Wolterson.
- Depois de eu me ir embora hoje... - concluiu Marian - ...peo-lhe que v falar com Wolterson. Depois interrogue os ndios a respeito dele.

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No tardar que Blucher invente alguma acusao torpe e promova uma investigao. Se Wolterson no puder desmenti-la ser demitido - e ns perderemos um bom amigo dos ndios. Wolterson tornou-se amigo de Do Etin. Esse  o verdadeiro motivo da inimizade de Morgan.
- E... Gekin Yashi?... - perguntou Nophaie com uma espcie de relutncia.
- Est bem e em segurana... por enquanto... - respondeu Marian com alegre simplicidade. - Os moinhos continuam a girar como dantes, mas com menos rapidez. Morgan esteve em Flagerstown. Blucher tem andado envolvido em discrdias com os seus capatazes - Jay Lord, Ruhr e Glendon. No tenho ouvido muito a esse respeito, mas ouvi o bastante.  sobretudo acerca de Wolterson, agora, mas tambm das complicaes sobre terras e guas, criadas pelos "Nokis" em Copenwashie. Friel conseguiu uma patente de terras que pertenceram aos "Nokis", ou que, pelo menos, foram ocupadas por eles. Blucher, evidentemente, ajudou Friel nesse negcio, mas agora, com o seu esprito retorcido, est farto dele... Ainda no foi publicado o regulamento que obrigar as raparigas ndias a irem  capela de Morgan, depois das horas de aula... Mas  quase certo que ser posto em vigor. Tenho tido conversas com Gekin Yashi. Ela est pronta para fugir. Arranjmos as coisas de maneira a que ela tivesse licena para visitar o pai. Wolterson est a ocupar-se dos rebanhos de Do Etin, e esta manh Gekin Yashi partiu para casa. J l se encontra e l ficar at domingo. Pode ir v-la esta noite, Nophaie, e combinar um plano para se encontrar com ela no seu regresso a Mesa. Gekin Yashi far a viagem sozinha...
- Do Etin ficar contente... - disse Nophaie. -Wolterson sabe do caso?
- Sim, e aprova a ideia. Mas no devemos deix-lo envolver-se no assunto.
- Levarei Gekin Yashi para o "hogan" de um "Paiute",

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no Vale das Muralhas Silenciosas... - disse Nophaie, pensativamente. - Poucos "Nopahs" conhecem esse lugar.  l para baixo, sob a encosta oeste de Nothsis Ahn, no fundo dos desfiladeiros.
- Vale das Muralhas Silenciosas... - murmurou Marian. Depois olhou para Nophaie: - Levar-me- a esse Vale, um dia?
- Sim, "Sob a Roch"... respondeu ele. - Mas a corre um perigo.
- Um perigo? De qu? De quem?
- De mim!
Marian corou sob o tostado das suas faces, e os seus olhos procuraram os de Nophaie, interrogativos. Nophaie baixou o olhar e poisou-o sobre a mo morena da jovem. Essa mo tremia e apertava a luva entre os dedos.
- Est - a brincar?
- No. Penso que estou a dizer a verdade... - respondeu Nophaie. - Algum dia, dentro de mim, o homem civilizado e o selvagem tero de lutar. O meu Vale das Muralhas Silenciosas,  o mais maravilhoso - o lugar mais selvagem e mais belo - o mais solitrio em todo este deserto. Muralhas de branco e vermelho, to altas que os seus cumes no so visveis - gua murmurante, feita de neve derretida - flores, e relva, e rvores... Se alguma vez a levar l... posso no a deixar de l sair, nunca mais.
- Oh! Assusta-me... - riu-se Marian. - Vejo que conserva muitos vestgios da sua violncia de jogador de futebol... Mas se tudo correr bem - leva-me l para visitar Gekin Yashi. Sim?
- E poder sair de Mesa?
- Nophaie, eu no poderei trabalhar em Mesa durante muito tempo... - respondeu ela. - Algum dia Blucher compreender o meu duplo papel... porque decerto eu me tenho servido de habilidades femininas para o enganar.

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- Bem, ento eu a levarei ao meu Vale das Muralhas Silenciosas.
Marian colocou a sua mo na dele, fitou-o nos olhos e depois baixou o olhar, num esforo evidente para dominar as suas emoes.
- Nophaie - Gekin Yashi ama-o!
- Essa criana? Mas ela viu-me apenas poucas vezes... - volveu Nophaie, recordando-se amargamente da proposta de Do Etin, para que ele casasse com a rapariga.
- No importa. Viu-o o bastante. Estas raparigas ndias amadurecem cedo. Gekin Yashi ainda no tem quinze anos, mas sente como uma mulher. Eu penso que ela  gentil e meiga.  a melhor aluna da escola. Durante todo o tempo de que posso dispor, ocupo-me dela. Acredite-me, Morgan no  a nica serpente venenosa que a ameaa. Gekin Yashi tem a clara transparncia dos ndios, mas  uma rapariga inteligente. Gosta dos modos das mulheres brancas, das que so boas e amorveis. E eu ensinei-lhe que, quando uma mulher branca ama um homem, se conserva pura e sagrada para ele.
- Marian, pensa que a melhor maneira de salvar Gekin Yashi  casar com ela?... - perguntou Nophaie.
- Pode... ser... - murmurou Marian em voz trmula. - Se... se... Nophaie...
- Eu no a amo e no posso despos-la... - disse ele simplesmente. - Isso aprendi com a minha educao de branco.
No falaram mais de Gekin Yashi. Nophaie sentia uma enorme onda de ternura e de piedade por Marian. Como ela o inspirava a dominar-se, a vencer a amargura e a baixeza. Os ltimos momentos do encontro foram de algum modo alegres e felizes para Marian. Depois chegou a hora em que era necessrio partir. Tocando de leve com a mo a face de Nophaie, ela desceu as rochas e montou o cavalo branco. Voltou-se uma vez na sela e acenou-lhe, enquanto galopava.

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O seu cabelo tinha um brilho de oiro sob o sol. Nophaie ficou a segui-la com o olhar at ela se perder na distncia, sentindo agitar-se dentro dele uma emoo profunda e estranha, em parte dolorosa por causa do destino que era o seu - em parte exaltante porque, ndio miservel e perdido como ele era, aquela mulher branca, de raa diferente da sua, fazia dele um rei.



IX.


No limite superior da longa avenida bordada de rvores que constitua a nica rua de Mesa, os Woltersons ocupavam uma pequena casa de pedra que havia sido construda pelos primeiros habitantes da povoao. Um pequeno bosque de arbustos rodeava um lagosito orlado de relva, onde nadavam patos e sobre o qual as aves cantavam, empoleiradas nos ramos. Ali havia frescura e tranquilidade, como um hlito doce do vero que o vento soprava atravs do deserto.
Do outro lado da casa havia um jardim que apenas um muro baixo separava do largo ptio de recreio da escola.
Nophaie deixou o seu cavalo beber a gua do pequeno ribeiro que corria, delgado e rpido, atravs do jardim dos Woltersons, vindo do lago que uma nascente alimentava. O sol descia para o poente, e o calor do dia declinava. A gua murmurava, cristalina e fresca, a caminho de um pequeno pomar. Para baixo, no outro extremo da longa avenida, Nophaie podia ver ndios e cavalos em frente do posto comercial. Passou pelo porto da casa, que estava aberto, e soltou o cavalo, que ficou a morder a erva verde em volta da nascente.
- Ol, Nophaie!... - disse uma voz lenta e cantante. - Que alegria v-lo por aqui!

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Nophaie respondeu ao cumprimento do texano, falando na sua prpria lngua. Poucos homens brancos, em toda a reserva, tinham ouvido Nophaie falar ingls. Wolterson era um homem novo, alto e magro, com feies finas e ntidas a que o sol dera um tom bronzeado. No parecia endurecido pelo clima. As suas botas de montar, de altos taces, e o seu largo "sombrero", eram, tal como a sua voz lenta, arrastada, caractersticos do seu Texas natal.
Nophaie aproximou-se. Wolterson estava a arranjar uma espcie de dique em miniatura para reter e desviar a gua do ribeiro, a fim de lev-la a outros pontos do pomar. Fez sinal a Nophaie para sentar-se e estendeu-lhe um pacote de cigarros. Um carro de transportes, puxado por seis cavalos e carregado de lenha, passou ao longo da rua. O condutor seguia a p, ao lado dos animais. De entre a folhagem vinha um zumbido de abelhas. O ribeiro sussurrava mansamente.
- Os "Nopahs" gostam de voc e do seu trabalho... - disse Nophaie. - Voc  o primeiro inspector de gados a quem eles se referem com agrado. Se tiver de ser submetido a um "comit" de investigao, eu trarei aqui Etenia, e Tohoniah Bi Dony, e vrios outros chefes influentes, para testemunharem a seu favor.
- Isso ser com certeza ptimo, Nophaie... - respondeu Wolterson. - Tenho um palpite que vou precisar deles...
Nada disseram a respeito de Gekin Yashi. Wolterson falou nos seus planos de alargar a sua aco at os terrenos, distantes, do rancho de Etenia. Convinha que Nophaie e os "Paiutes" das terras altas levassem para l os seus rebanhos. A erva crescia agora com abundncia nas terras baixas, e assim os "Nopahs" no teriam de ir to longe como antes para apascentar os seus gados. Depois Wolterson informou de que o Governo ia promover anlises de sangue para reses e cavalos,

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porque, especialmente os ltimos, mostravam sintomas de tuberculose.
- Qualquer cavalo ou vitelo que esteja contagiado tem de ser abatido... - disse Wolterson com expresso grave. - No acha que vai ser difcil convencer os ndios da necessidade de proceder assim?
- Sim, receio bem que isso no possa ser feito.... - respondeu Nophaie. - H uma real necessidade de fazer anlises ao gado a propsito dessa doena?
- Acho que h. Escrevi para Washington, concordando com a medida. Mas desagrada-me a perspectiva de complicaes com os ndios... Nophaie, querer voc ajudar-me, explicando essa necessidade  sua gente?
- Assim farei, se me convencer a mim prprio.
- Bem, quando vier a ordem respectiva irei em primeiro lugar ter consigo, e ver-me- fazer as anlises. Etenia tem muito gado?
- No muito, no que se refere a gado bovino. E todas as rezes so sadias.
- Nophaie, as rezes podem parecer sadias - e ter tuberculose na mesma.
Naquele momento os pequenos ndios, rapazes e raparigas, comearam a sair do grande edifcio vermelho e a espalhar-se pelo ptio, como uma torrente de ganga azul. Nophaie observou que apenas as crianas entre os trs e os cinco ou seis anos apareciam no ptio. Formavam um bando silencioso, que corria e brincava sem o rumor caracterstico das crianas brancas. Espalharam-se plo ptio, vrias centenas delas, num espectculo de vida e de cor. Alguns dos rapazitos mais pequenos aproximaram-se de um ponto onde uma vedao de arame substitua o muro, e ficaram a olhar para Nophaie. Pareciam saudveis e bem tratados, e estavam seguramente mais limpos do que quaisquer outros garotos ndios que ele tivesse visto. Mas como pareciam, ao mesmo tempo, apticos!

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Olhavam para Wolterson com os seus olhos muito negros e muito expresssivos, e pouco mais interesse dispensaram a Nophaie.
Nophaie observou tambm que duas das professoras tinham vindo para o ptio com as crianas, mas no se aproximaram o bastante para que ele pudesse reconhec-las. Foi ento que apareceu a Senhora Wolterson, atravessando o jardim. Tinha luvas caladas e empunhava uma pequena p. Era muito nova e de aspecto impressionante, to morena como uma ndia e mostrando j alguns sinais da aco do vento e do calor do deserto. Cumprimentou agradavelmente Nophaie. Ele viu que ela olhava por cima da cabea dos garotitos, atravs do ptio da escola, como se estivesse  procura de algum.
- Ali vem Marian com Evangeline... - disse ela com evidente prazer.
E Nophaie viu Marian, que se encaminhava para eles trazendo pela mo uma rapariguinha ndia. Pensou que aquele encontro no era to acidental como poderia parecer. As duas professoras observaram Marian. E os olhos penetrantes de Nophaie viram de relance a cara de uma mulher espreitando por detrs do vidro da janela; numa casa do outro lado da rua. A prpria rua parecia agora animar-se. Passavam ndios a cavalo, na direco do deserto. Alguns dos garotos mais velhos estavam a brincar com uma bola. Trs trabalhadores ndios atravessaram o caminho, levando aos ombros compridas ps.
- Olha... - disse Wolterson na sua voz lenta, observando a avenida. - Ali vem tambm o campio dos mentirosos c destes stios!...
- Bob, no digas isso... - atalhou a Senhora Wolterson, prontamente. - As prprias rvores tm ouvidos, sem falar nos indiositos.
Nophaie viu um homem de compleio robusta, grosseiramente vestido  maneira tpica do Oeste, de cordovo, botas altas e largo chapu,

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que avanava com um andar caracterstico de cavaleiro, ao longo da avenida. Ao avistar o grupo no jardim, obliquou e, empurrando o chapu para trs, encostou-se ao porto. Tinha uma cara morena e larga, de expresso dura, com lbios grossos e olhos proeminentes, cor de vinho.
- Ol, gentes!... - disse ele, com um sorriso lento.
- No me digam que esto a trabalhar!
- Ol, Jay!... - respondeu Wolterson. - A no ser s tardes, no disponho de muito tempo para isto...
- Ora! Voc dispe de todo o tempo que entende...
- volveu o outro secamente, em ar de troa. - E - ora vejam quem est aqui! A linda Senhora Bob. Estou a pensar em arranjar uma mulher como ela.
Era a primeira vez que Nophaie encontrava Jay Lord. Calmo, descontrado,  vontade, com um ar ao mesmo tempo frio e mordaz, aquele tipo do Oeste no era feito para aumentar o respeito de Nophaie pelos homens brancos. Vendo-o bem, e verificando claramente a sua verdadeira natureza, to diferente dos modos risonhos e familiares que afectava, Nophaie sentiu despertar dentro dele qualquer coisa latente e adormecida.
- Jay Lord, voc  um triste lisongeador... - observou tranquilamente a Senhora Wolterson.
- Triste? Acho que no. Estou at alegre... - volveu ele, entrando no jardim. O seu olhar insolente envolveu Nophaie; dirigiu-lhe a palavra em dialecto Nopah.
- Ora diga... - acrescentou ele voltando para Wolterson, ao ver que Nophaie no lhe prestava ateno... - no  este o ndio do colgio?
-  o qu?... - perguntou Wolterson.
- Ora, ora, no se faa de novas... - retorquiu Lord, com uma expresso de aborrecimento. - Quero falar do ndio da Universidade - ou l de onde foi que ele andou. Voc sabe isso to bem como toda a gente.
- Jay, eu c no sei de coisa alguma...

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- Est certo... Desta vez falou com tino. Tambm acho que quanto menos se sabe, melhor ...
Ento Lord espreitou Marian, que se tinha aproximado da vedao trazendo a pequenita com ela. A Senhora Wolterson foi ao seu encontro, correspondendo ao cumprimento de Marian. Lord tirou o chapu e cumprimentou rasgadamente, quase roando a aba pelo cho, numa imitao grosseira de um cumprimento distinto, enquanto olhava para Marian com uma admirao que no se dava ao cuidado de disfarar.
- Acho que vou ficar por aqui um pedao... - disse ele, aproximando-se tambm da vedao e apoiando-se a ela. - Ol! Quem  esta garotinha? No s ndia, pequena?
- No sou! Chamo-me Evangelina Warner!... - respondeu a vozita esganiada da garota, num ingls perfeitamente bem articulado.
- Olha, olha! Ora ouam l a miudinha ndia!... - exclamou Lord, com um riso largo.
- Jay, por favor no se meta com Eva... - pediu a Senhora Wolterson. - Todos os homens fazem o mesmo, por ela ser to esperta. Ho-de estrag-la.
Nophaie tinha ouvido falar daquele prodgio de trs anos. A me de Eva, uma ndia, tinha ficado muito satisfeita por se ver livre dela, mas assim mesmo mostrava grande vaidade na fama da pequenita. Por qualquer estranha razo, a criana, de pura raa ndia, tinha-se adaptado notavelmente aos hbitos e  linguagem dos brancos - e depois de dois anos de escola acabara por odiar o prprio nome de ndia. Era uma garota robusta, com uma cara redonda e de feies pesadas, olhos e cabelos pretos, e nem a sua aparncia nem a sua expresso a tornavam diferente das outras crianas ndias. Nophaie sentiu-se interessado por ela.

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- No sou ndia! No sou!... - gritava Eva com fria, dando pontaps na vedao de arame.
- No te rales, Eva... - disse a Senhora Wolterson, ajoelhando-se junto da pequenita e pegando-lhe na mo. - Dize a tua orao da noite, para ns ouvirmos.
Evangeline parecia completamente isenta da timidez caracterstica das crianas ndias.


Agora eu estendo-me para adormecer com calma e rezo a Deus para que proteja a minha alma. Mas, se eu morrer antes de poder acordar, ficarei triste!...


Jay Lord soltou uma ruidosa gargalhada, e Wolterson tambm riu.
- Mas... mas, bondade divina!... - exclamou a senhora Wolterson, partilhada entre o espanto e a vontade de rir. - Evangeline! Onde foste tu aprender essa ltima frase?
- Foi algum dos homens que a ensinou, sem dvida... - disse Marian. - Nunca a ouvi dizer a orao desta maneira. Ento, curvando-se sobre Evangeline e olhando-a bem nos olhos, apertou-lhe docemente um dos bracitos, com fingida severidade. - Eva, tu levas um par de aoites. Dize a orao outra vez, como deve ser. No te esqueas... cuidado com os aoites!...
Muito sria, a pequenita olhou para a professora.


Agora eu estendo-me para adormecer com calma e rezo a Deus para que proteja a minha alma. Mas, se eu morrer antes de poder acordar, tu levars aoites!


Antes que Marian pudesse protestar, antes mesmo que os homens tivessem tempo para rir,

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uma voz grossa, de timbre peculiar, fez-se ouvir atrs do grupo:
- Calem essa garota!
Ainda antes de voltar-se, Nophaie j sabia que tinha sido Morgan quem falara. Nunca, antes daquele momento, vira Morgan to de perto.
- Vem, Eva... - disse Marian apressadamente. E, levantando-se, afastou-se com a pequenita.
- Isto parece-me coisa aprendida de propsito, hein?... - disse Morgan na sua voz spera, olhando em volta.
Nophaie viu um homem de idade madura, estatura mediana, grosso de corpo, com uma aparncia desleixada e uma cara balofa, cujas feies mais impressionantes eram uns olhos muito claros, frios como gelo, e uma boca comprida e de lbios delgados, comprimidos e secos. Tinha um nariz grande, avermelhado, e a pele de um tom azeitonado, diferente do bronzeado saudvel prprio do deserto. Morgan no parecia ser um homem habituado ao ar livre. A sua expresso era estranha, forte, e denotava um intenso poder de vontade. A face era cavada de fundas rugas, e as sobrancelhas pareciam dois tufos desordenados de cabelos rijos, separados por um sulco profundo. O seu magnetismo parecia feito de uma espcie de luta mental, uma dinmica energia de crebro, um tremendo potencial de pensamento. Tudo nele respirava intolerncia.
Jay Lord foi o primeiro, a responder-lhe:
- Parece-me uma dessas vulgares brincadeiras das crianas.
- "Mr." Morgan, tenho a certeza de que no foi "miss" Marian quem ensinou aquilo  pequenita... - interps a Senhora Wolterson. - Ela ficou pasmada, tal como eu!...
O missionrio pareceu no a ter ouvido. Pelo menos no o demonstrou.
- Wolterson, o agente diz-me que voc levou Gekin Yashi para casa, esta manh.

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- Levei, realmente..., - respondeu o texano, encostado
ao cabo da p e erguendo lentamente o olhar.
- Como foi isso?... - quase berrou Morgan.
- Bem... - volveu o texano no seu falar vagaroso - ...se quer saber porque intervim no caso... Blucher concedeu licena a Gekin Yashi para ir visitar o pai. Estou a cuidar do gado de Do Etin, e tinha de levar algumas coisas para l, esta manh. Gekin Yashi foi no meu carro. Mais nada.
- Hum! E quando volta?
- No sei. Ela disse que esperava que o pai a deixasse ficar em casa.
O olhar inquieto de Morgan poisou em Nophaie - e fixou-se. Nophaie no desviou os seus olhos. Uma das coisas que no havia aprendido no seu longo contacto com os brancos fora o hbito de dissimular. O homem acordava nele uma qualquer impresso que Nophaie sentia profundamente. No era o velho dio ancestral dos peles-vermelhas pelos homens brancos, seus inimigos .Era uma espcie de instinto mais complexo e subtil, nascido naquele instante. Vagarosamente, Nophaie ergueu a sua alta estatura e fitou Morgan, olhos nos olhos.
- Voc  o ndio da Universidade? Nophaie no se dignou responder.
- Claro que  ele mesmo... - disse Jay Lord. - Chama-se Nophay, ou qualquer coisa assim...
- No sabe falar ingls?... - perguntou Morgan asperamente. - D l uma amostra da sua palrao do Leste...
- No seria preciso conhecer muito bem a lngua inglesa para fal-la melhor do que voc... - respondeu Nophaie na sua voz pausada e lenta, articulando perfeitamente as palavras.
- Hein?... - explodiu Morgan.
Nophaie olhou-o com uma expresso indecifrvel, sem falar.
- J foi alguma vez  minha igreja?... - perguntou Morgan.
- No.
- Bem, pois eu quero que v.
- Para qu?
- Para me ouvir pregar. Se fala ingls to bem como se gaba, pode levar a palaVra de Deus - da Cristandade -  sua tribo de pagos. Ensin-los a ganhar o cu.
- Ns no desejamos ganhar o seu cu... - respondeu Nophaie. - Se realmente existe um paraso como esse de que voc fala, todos os lugares a ho-de estar, como as terras dos ndios, em poder dos missionrios. E os ndios ficaro sem uma nesga sequer de paraso.
- Voc julga que  esperto, no?... - rugiu Morgan.
- Morgan, o ndio mais estpido desta reserva  mais inteligente do que voc.
- Ah! A sua tribo de comedores de tripas  demasiadamente ignorante para perceber seja o que for, quanto mais a religio dos brancos!
- A religio dos ndios  bastante melhor, para eles, do que a dos brancos.
- Hum!... - exclamou Morgan. - Aprendeu isso na Universidade?
- No. Aprendi quando voltei para junto do meu povo. E aprendi mais - que no existe aqui um nico verdadeiro cristo entre os ndios das reservas, por culpa de voc.
- Isso  uma suja mentira!... - berrou Morgan, apopltico de fria.
- Que entende voc dos ndios destas terras?... - perguntou Nophaie, apontando o deserto. - Voc nunca esteve no deserto, nem o conhece.
A vermelhido foi desaparecendo lentamente da cara de Morgan,

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e era visvel o poderoso esforo de vontade que ele fazia para dominar a sua raiva e o seu espanto. Quando conseguiu dominar-se, no entanto, havia ainda na sua face uma expresso de pasmo. Tinha encontrado um ndio que ultrapassava estranhamente todas as suas experincias anteriores. Aquele sbito domnio de si mesmo, aquele brusco conter dos seus impulsos, mostravam a real capacidade de Morgan. Ele sabia deter-se a tempo, no perdia a cabea facilmente. Nophaie adivinhava-o, adivinhava-lhe a astcia. Teve ao mesmo tempo a intuio instintiva e subtil de que aquele missionrio era uma mistura de bandido e de fantico, um homem sem escrpulos que no tinha iluses quanto  sua prpria honestidade, e ao mesmo tempo um visionrio obcecado, que se julgava um apstolo.
- O que  que voc pensa que sabe a meu respeito?... - perguntou Morgan.
- Sei o que dizem os ndios - e o que eu prprio vejo... - volveu Nophaie com um subtil desprezo.
- Sou missionrio nestas terras h mais de quinze anos. Os "Nopahs" so rudes. So lentos na apreciao do meu trabalho.
- No, "Mr." Morgan... - retorquiu Nophaie - Est enganado. A minha tribo foi rpida a apreciar o seu trabalho. Compreenderam-no sem demora. No, no tente comigo as suas conversas sobre religio. Tudo isso so tretas. Voc no  um verdadeiro missionrio.
- Pago insolente!... - bramiu Morgan, quase sufocado, a ponto de as pregas de gordura no seu pescoo se agitarem ridiculamente.
- Um missionrio  um homem que a Igreja envia para propagar a religio, na f de que uma raa estranha possa assim vir a salvar-se... - continuou Nophaie tranquilamente. - A sua sinceridade no  totalmente errada. As Igrejas so sinceras, e muitos dos missionrios so nobres criaturas. O Governo, por seu lado,

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 tambm sincero e acredita em homens como voc e como Blucher. (Essa deve ser a razo porque voc se tem aguentado aqui durante tanto tempo. Se voc fosse realmemte um homem ajudaria os pobres ndios, tal como fazem os verdadeiros missionrios. Poderia ensinar-lhes melhores processos de construrem as suas casas, de cozinharem, de fazerem as suas colheitas, de irrigar os seus campos, tosquiar as suas ovelhas e armazenar o seu milho. Podia ensinar-lhes os hbitos da higiene. Melhorando as suas condies fsicas, podia melhorar-lhes o nvel moral. Voc, por exemplo, podia ensinar-lhes, mostrar-lhes como um homem branco trabalha com as suas prprias mos. Mas voc no trabalha. As suas mos - vejo-as bem! - So mais macias do que as da Senhora Wolterson... se ela me desculpa este cumprimento duvidoso... No, "Mr." Morgan, voc no  um construtor. Voc  um destruidor, e no apenas da f dos ndios, mas tambm do trabalho e dos sacrifcios dos verdadeiros missionrios de Deus!...
O imenso egotismo de Morgan era mais forte do que o seu domnio de si mesmo - a revolta da sua soberania ultrajada no podia ser completamente contida.
- Eu... eu hei-de met-lo na cadeia!... - rouquejou ele, arquejante.
- Porqu? Por dizer a verdade?... - perguntou Nophaie com tranquilo desprezo. - Vivemos num pas livre. Eu sou um americano, um ndio honesto.
- Hei-de mover-lhe uma aco por isto!... - berrou ainda Morgan, erguendo no ar um punho que tremia.
Rpido como um relmpago, Nophaie pulou para a frente, deixando a sua imobilidade de esttua. O movimento foi to brusco que os outros dois, Morgan e Lord, recuaram, como para fugir a um ataque. A face de Morgan empalideceu.
- Leve-me a um tribunal!... - disse Nophaie com voz sibilante. - Leve-me  presena do seu "comit" de investigao!

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Nada me agradaria mais. L estaro outros ndios, e haver verdadeiros homens brancos para me ouvir... Compreende isto, "Mr." Morgan?
Mas Morgan esquivou-se a responder e, desviando o olhar sombrio, levou Lord consigo e saiu do jardim, afastando-se ao longo da avenida. Ouviu-se ainda, durante uns curtos segundos, o som da voz de Lord, baixa e rouca.
Nophaie voltou-se para Wolterson e para a mulher. A habitual calma do texano parecia t-lo abandonado.
- Uf! Voc tratou-lhe convenientemente da sade. Se lhe tocasse com uma pena ele teria cado... - disse Wolterson, respirando fundo. - E eu tambm, alis... Foram os minutos mais felizes da minha vida, desde que estou em Mesa.
Mas a senhora Wolterson estava plida e parecia apavorada.
- Oh! Ele ia furioso... - sussurrou ela.
- Pois claro que ia. Nunca vi o Morgan to transtornado como hoje... - respondeu o marido, com um sorriso lento. - Ele nem podia acreditar nos seus ouvidos... Nophaie, deixe que um texano lhe d um palpite. Seja como for, o Morgan h-de faz-lo pagar por isto. Sofreu uma afronta sem paralelo, em frente de outras pessoas. Alm disso estava realmente com medo de si - furioso, portanto assustado. Senti isso. Tenho estudado esse homem. E, embora no tenha muitas provas contra ele, suponho-o capaz de tudo.
- Morgan  um cobarde e um mentiroso. Espanta-me que qualquer ndio no o tenha liquidado h muito tempo. Isso prova a pacincia e a moderao da minha gente... - disse Nophaie.
- Nophaie, eu vivi entre homens violentos... - disse o texano em tom grave. - No avalie Morgan abaixo do que ele vale, como inimigo. Quando veio para aqui era um rude homem do Oeste.

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Est h muito tempo no poder.  arrogante e mau. Eu no seu caso, teria cuidado com ele.
- Bem, um homem avisado vale por dois... - disse Nophaie encaminhando-se para o seu cavalo. - No voltarei mais a Mesa durante o dia, nem de maneira que Morgan saiba que eu estou c...


* * *


Tinha anoitecido h muito quando Nophaie alcanou o "hogan" de Do Etin. Havia ainda uma fogueira acesa, e  luz danante via-se o vulto do pai de Gekin Yashi, um homem de pouco mais de meia idade, seco, de largo peito e com uma cabea pesada onde brilhavam dois olhos grandes, pretos, de bovino. Do Etin no era rico em cavalos e em gado, como muitos dos seus vizinhos, e tambm no era um chefe. Apesar disso ocupava na tribo uma posio de respeito e dignidade, porque era um homem inteligente. Gekin Yashi era a sua nica filha. O rancho de Do Etin ficava no fundo de um desfiladeiro, terra de relva onde corria a gua de uma nascente que nunca secava. Nophaie olhou em redor, nas sombras do "hogan", procurando Gekin Yashi e a me, mas elas no estavam ali. Talvez que Do Etin estivesse  espera dele para conversarem, e as tivesse enviado para o "hogan" de algum parente, perto dali.
Pouco a pouco, Do Etin foi saindo do seu mutismo. Deu o seu consentimento para que Gekin Yashi partisse em companhia de Nophaie, e aprovou o plano estabelecido. Mas duvidava de que fosse possvel esconder a filha durante muito tempo. Nophaie no correria perigo de ser castigado pelo Governo se casasse com Gekin Yashi, ou se se soubesse que ele a havia escondido em qualquer stio. Do Etin acreditava que a educao dos brancos era vantajosa para os rapazes ndios, e para as raparigas. Ensinava-os a ajudarem os pais e a viverem de um modo diferente e melhor.

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Mas a religio que lhes impunham no era aceitvel, e a corrupo das raparigas ndias, pelos homens brancos empregados nas reservas, era o mais negro e o mais vil dos muitos crimes praticados pela raa branca contra os homens vermelhos.
Do Etin prosseguiu, contando as confisses que lhe fizera Gekin Yashi - da inimizade de Blucher em relao a ele - das pregaes de Morgan referentes a ela - dos trabalhos grosseiros que a dirigente lhe impunha durante as horas em que devia estar na aula - das brutalidades praticadas contra as crianas -- e de como o leite e as frutas, destinados aos estudantes, eram desviados para benefcios de Blucher e dos seus cmplices.
Nophaie informou-o de que iam ser postos em vigor os novos regulamentos, segundo os quais as raparigas ndias eram obrigadas a frequentar a capela de Morgan, para o ouvirem pregar.
Do Etin mostrou-se profundamente revoltado e excitado:
- Nunca Gekin Yashi ir a casa de Morgan!
Depois da sua exploso, o velho ndio fechou-se em silncio, meditativo e triste, manifestamente duvidoso quanto ao futuro. Havia em Do Etin alguma coisa de pattico e impotente, que comoveu Nophaie e o fez ter pena dele.
- Do Etin, ns estamos em poder dos homens brancos... - disse ele gravemente. - Existem homens brancos que so bons e que acreditam na justia que  devida aos ndios. H muitos missionrios bons. Mas assim mesmo ns devemos olhar o futuro. Os ndios sero empurrados cada vez mais longe, para as terras mais estreis, e acabaro por ser varridos da terra. Estas coisas contra as quais lutamos, tais como a luta dos "Nokis" para no serem roubados dos seus ranchos e da sua gua, ou os nossos esforos para salvar Gekin Yashi - estas coisas so apenas incidentes da desagregao do nosso povo. Ns devemos resistir, mas o fim chegar, da mesma forma.

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- Mais vale combater e morrer, como os nossos antepassados... - disse Do Etin em voz forte.
- Sim, mais vale. Mas quem combater? Apenas um ndio aqui e alm, os raros cujos coraes no foram esmagados ainda.
Do Etin curvou a sua imponente cabea, e as sombras da fogueira pareciam correr sobre o seu vulto imvel.
- Nophaie, tu vieste com uma viso do futuro igual  dos homens brancos... - disse ele por fim.
- Sim. Os ndios aprenderam a ver com o corao. A educao dos brancos ensinou-me a ver com o crebro... - respondeu Nophaie.
- O sol do dia dos ndios est a aproximar-se do poente... - murmurou Do Etin com profunda tristeza. - Ns somos a raa que est a desaparecer...


* * *


Na madrugada fria, clara e cinzenta, em pleno deserto, Nophaie esperava por Gekin Yashi, tal como tinha sido combinado.
Para leste, a luz difusa sobre a areia e o mato ia-se aclarando ao longo da muralha de rocha azulada que cortava o planalto e que aparecia coroada do brilho de oiro plido que precedia o nascer do sol. O deserto estava mergulhado num silncio total. Nophaie esperava, e por fim o seu olhar fitou-se num ponto do declive onde Gekin Yashi devia aparecer. E pouco depois a jovem surgiu na distncia, um vulto escuro e delgado sobre o cavalo cinzento que montava. Nophaie sentiu de algum modo a excitao do momento. No seu ntimo reviviam velhos instintos da sua raa. Ele era o bravo guerreiro ndio que esperava a noiva ndia. O deserto estendia-se em volta, enorme e solitrio. Montanhas e planaltos, vales e desfiladeiros, as encostas manchadas de verdura, as rochas inumerveis e as areias da castido,

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- tudo parecia entoar um canto mudo em glria das lendas de amor dos ndios.
O sol ergueu-se no horizonte, envolvendo os cabelos negros de Gekin Yashi, que emolduravam a sua face de flor escura. Dois meses haviam transformado grandemente Gekin Yashi. Ele nunca a tinha visto seno vestida com o uniforme da escola. Agora ela envergava um vestido de veludilho, ornamentado de contas e de aplicaes de prata, com o saiote de pele de gamo que era vulgar na sua tribo. Quando fez parar o seu cavalo ao lado de Nophaie, os seus olhos negros fitaram-no com assustada timidez - mas havia neles um brilho incontido de apaixonada alegria! Depois os olhos baixaram sob as longas pestanas, mas o seu peito arfava. Gekin Yashi no podia esconder o seu amor - e at, talvez, no quisesse escond-lo. Nophaie sentiu no corao a futilidade da sua vida, a sua inutilidade.
- Escuta-me, filha de Do Etin... - disse ele. - Eu sou Nophaie, o ndio que pensa como os homens brancos. Vim para ajudar o meu povo. Sou amigo de Do Etin e amo Gekin Yashi, mas amo-a como a uma irm. Nophaie nunca se casar... Ele vai levar Gekin Yashi para longe, para os desfiladeiros das muralhas brancas, e deix-la- escondida entre os "Paiutes". E ser sempre, para ela, como um irmo, e ensin-la- a ser como a jovem branca "Sob a Roch", e far com que ela aprenda a distinguir o bem do mal...
Nophaie cavalgou, em companhia de Gekin Yashi, na direco do norte, fugindo das trilhas, ocultando o melhor que podia a pista dos cavalos, vigiando a cada passo o deserto,com o seu olhar penetrante, para evitar o encontro com algum cavaleiro ndio. Ao pr do sol pararam no "hogan" de um Nopah em quem Nophaie podia confiar. No dia seguinte as encostas negras de Nothsis Ahn apareceram no horizonte. Gradualmente Gekin Yashi foi perdendo um tanto do seu acanhamento, e a certa altura
comeou a falar com Nophaie.

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Assim ele teve oportunidade de estudar os efeitos da escola sobre uma rapariga ndia. Muito do que ela aprendera era bom. Algumas coisas eram ms. Quando ela se casasse, e fosse para o seu lar, e tivesse filhos, ela e eles tirariam bastante proveito da sua educao. Nophaie compreendeu que essa era uma autntica realidade - desde que ela pudesse voltar a viver como uma ndia. Com o correr do tempo, muitas raparigas ndias, e rapazes tambm, que fossem recebendo educao dos brancos, poderiam transformar grandemente as condies de vida dos seus, contribuindo para que desaparecessem a misria e a imprevidncia que tinham sido o quinho dos seus maiores. Foi um alvio para Nophaie, arrumar esse assunto no seu esprito. A educao era de facto boa para as crianas ndias. As falhas no sistema, para aquele caso particular, e os terrveis danos para as raparigas ndias, eram devidos s pessoas que ocupavam o poder. As jovens ndias, dedicadas e de esprito simples, primitivas nos seus instintos e sem o apoio de qualquer lei moral, eram fcil presa para a bestialidade dos homens brancos. A raa branca e a raa vermelha no podiam misturar-se. Se o pele-vermelha tinha uma nobreza nata, se era um sonhador dos espaos abertos, um combatente de inimigos imaginrios, um guerreiro sempre disposto a lutar contra guerreiros de outras tribos, uma criatura no preparada para a civilizao - ento o branco, ocupando um degrau mais alto do que o ndio na escala da evoluo humana, tinha passado o estado de barbrie, promovera o progresso material do mundo, era egosta e intelectual, mais pago do que o ndio, e estava no declive que conduzia a uma decadncia to inevitvel e to fatal como a prpria natureza. Nophaie via claramente que a natureza era a grande lei. O ndio, mesmo o brbaro, estava mais perto da perfeio para a qual a natureza caminhava irresistivelmente. O indivduo tinha de perecer para que a espcie sobrevivesse.

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Os ideais da natureza eram a fora, a virilidade, a fecundidade, a vida longa - todos de aspecto fsico. Se a natureza era deus, ento a nica imortalidade do homem eram os filhos. Com que amargura todos os caminhos do pensamento de Nophaie conduziam  certeza de que ele era realmente um infiel!

Em trs dias Nophaie alcanou o campo dos "Paiutes", sob as vertentes de Nothsis Ahn - pensando que os poucos ndios a quem confiava Gekin Yashi saberiam guardar o seu segredo. Custou-lhe todo o seu rebanho, conseguir que eles ficassem ao servio de Gekin Yashi. Eles no deixariam os seus campos, para se esconderem nos desfiladeiros por tempo indeterminado, se no fossem bem pagos para isso. Nophaie no pensara nesse ponto, mas foi alegremente que entregou as suas ovelhas. Mais difcil foi despedir-se de Gekin Yashi. "Nophaie! Nophaie!..." chamava ela, enquanto ele se afastava. E o grito da jovem atravessou o corao de Nophaie. Que havia nos olhos escuros da rapariga? A grande sombra da misria e da desgraa dos ndios! Voltou ainda atrs, para anim-la, para dizer-lhe, uma nica vez, as palavras que ela desejava -e que ele sabia no serem a verdade. Depois partiu de novo. "Nophaie!" O grito dela vibrou francamente no ar, sobre o mato sombrio. Mas ele continuou o seu caminho, olhando em sua frente.


X.


Desde a hora em que Nophaie entregara o seu rebanho aos "Paiutes" para que eles cuidassem de Gekin Yashi, ele tornara-se um nmada - um vagabundo do deserto.
Com toda a responsabilidade afastada da sua vida,

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deixou de sentir-se ligado ao seu lar solitrio das terras altas - um facto que a princpio lhe pareceu doloroso. Mas em breve descobriu que a sua solido tinha sido uma espcie de egosmo que o mantivera afastado da sua gente. Apenas havia passado uma curta parte do seu tempo entre os ndios, e mesmo isso s durante as suas jornadas a Kaidab e a Mesa, na ida e no regresso. Como ele os havia ajudado pouco, considerando tudo aquilo que teria podido fazer! Pensando nesse facto, agora, Nophaie reconheceu que ele era sobretudo devido ao seu amor pela solido, ao seu gosto de vaguear com o rebanho atravs do mato e de meditar sobre a sua prpria e estranha vida; e tambm  intensidade com que sentira que, embora pudesse andar entre o seu povo, no fazia parte dele.
Algumas jornadas de "hogan" em "hogan" mostraram a Nophaie que a sua posio entre os "Nopahs" se tinha considervelmente modificado. A princpio no compreendeu qual era o motivo dessa benfica transformao. No "hogan" de Etenia, porm, o subtil motivo transpareceu nos cimes da filha dele - ela e todos os "Nopahs" sabiam que Nophaie raptara Gekin Yashi. Nophaie ficou profundamente contrariado com esta descoberta, que era de mau agoiro para a conservao do segredo sobre o esconderijo da Pequena Beleza da tribo. Falando com o velho ndio, soube que a notcia se tinha espalhado atravs do deserto, de cavaleiro em cavaleiro, de "hogan" em "hogan", de boca em boca. Em breve cada "Nopah" da reserva conheceria a grande proeza de Nophaie - que raptara Gekin Yashi de entre os brancos de Mesa. Nophaie era um descendente de chefes; ele mesmo era, agora, um chefe corajoso e cheio de sabedoria. O esprito dos "Nopahs" vivia ainda. Os sonhos e a glria tinham desaparecido, mas estava ainda entre os "Nopahs" um homem digno dos velhos tempos, um Chefe. Etenia jurou que no havia na tribo um nico ndio que fosse capaz de trair Gekin Yashi. Talvez algum dos "Nokis,

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servil e viperino, com receio de Morgan, se prestasse  seguir a pista de Gekin Yashi at o lugar onde ela se ocultava. Mas todos os "Nopahs" se vangloriavam da faanha de Nophaie. Ele era um heri. A sua grandeza de ndio aumentara porque ele se tinha servido do seu crebro de branco para salvar a filha do nobre Do Etin. "Agora Nophaie casar com Gekin Yashi", conclura Etenia, que parecia ter completamente esquecido todos os seus agravos. Honrou Nophaie e festejou a sua vinda ao "hogan"; os seus bravos sentaram-se com ele em redor da fogueira e cantaram as belas legendas de amor e de coragem dos "Nopahs". Nophaie nada podia fazer ou dizer para corrigir aquela certeza que se espalhara entre o seu povo. Todos, "Nopahs e "Paiutes", acreditavam sem sombra de dvidas que a Pequena Beleza estava destinada a desposar Nophaie. Num nico dia, ao que parecia, a sua fama crescera e transformara-se. Todos os ndios conheciam a histria de Nophaie, e todo o isolamento, e desprezo, e desgosto que haviam sido causados pela sua educao de homem branco, eram agora como se nunca tivessem existido.
Etenia conhecia a sua gente. Nophaie cometera realmente uma proeza que todos os ndios desejariam realizar. O seu gesto tinha sido como a materializao de um sonho do seu povo. Depois de ter percorrido a regio durante uma semana, Nophaie viu-se forado a aceitar a verdade do juzo de Etenia. Rapazes ndios, raparigas, guerreiros, chefes e homens-medicina - todos o festejavam e respeitavam. Os "Nopahs" haviam sido um povo de bravos, e nelles sobrevivia ainda o culto pelos fortes, pelos valentes, pelos lutadores. Os jovens da tribo olhavam Nophaie como algum a quem os mais velhos consideravam um verdadeiro Chefe, algum cujas grandes proezas lhes seriam contadas mais tarde.
Nophaie partiu para encontrar-se com Marian, perto de Mesa, e durante quase toda a curta hora em que estiveram juntos,

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ele falou das mudanas que se tinham dado em consequncia de ele ter levado Gekin Yashi para longe das garras -do missionrio. Contar-lhe essas coisas, a ela, parecia-lhe aclarar a sua estranha e confusa impresso do que lhe acontecera. E a imediata alegria da jovem reanimou-o.
- Nophaie, eis que chegou a sua grande oportunidade!... - disse Marian, com um brilho srio e feliz nos seus olhos azuis. - Agora ser realmente uma fora entre os seus. Mas guarde segredo de... de que no compartilha a sua f!
- Assim farei... - respondeu ele. As poucas palavras que Marian pronunciara haviam iluminado a imaginativa e sombria subjectividade do seu esprito. Fosse ele o que fosse, a oportunidade sorria-lhe, e parecia magnfica. Agora os ndios haviam de escut-lo e de segui-lo.
- Deixe-me falar agora, porque no poderei demorar-me... - disse Marian. - Ningum suspeita de si. Tudo o que sabem, na agncia,  que Gekin Yashi desapareceu. Blucher no se importa com isso, mas Morgan estava furioso. Ouvi-o esbracejar. O caso vai criar dio entre eles. E Do Etin sofrer com isto. Tenho medo por ele. Que magnfico e nobre homem! Espantou-me v-lo to calmo e to fechado, to senhor de si em frente daquela gente. Respondeu a todas as perguntas que lhe foram feitas, e no parecia mentir!
"- Pensa que a sua filha fugiu?..." - perguntou-lhe Morgan.
"- Sim!..." - respondeu Do Etin.
"- Para onde?".
"- A pista de Gekin Yashi conduz para o norte, alm da estrada de Mesa - e desaparece no areal".
"- Ajudar-nos- a encontr-la - a traz-la de volta?".
"- No!".
"- Do Etin morrer antes de perseguir Gekin Yashi!".

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"- Sim! Ter de o fazer!".
- Deixe-me dizer-lhe, Marian... - interrompeu Nophaie. - Do Etin contou-me o que se passou...
- Oh! Tenho medo ,por ele!... - exclamou Marian. - Essa gente vai fazer-lhe todo o mal que puder. Depois de Do Etin sair, Morgan ps-me fora do gabinete. "- Saia daqui, gato branco!", gritou-me ele. Quase me empurrou para fora e atirou com a porta. Ouvi-o dizer: "- Blucher, quando encontrarmos essa pequena bruxa ndia voc ter de publicar as emendas ao regulamento. E se Do Etin no quiser obedecer, a coisa ser m para ele - e voc ser posto a andar daqui!..." "- Que raio diz voc?..." - gritou-lhe Blucher. E Morgan gritou em resposta: "- Sim,  um raio o que eu digo! J corri daqui onze agentes que c estiveram antes de voc, e sou muito homem para completar a dzia! Fique sabendo que tenho poder para isso!..." Depois eles acalmaram-se e eu j no consegui ouvir o que diziam, mas ficaram a falar durante muito tempo. Acho que deve avisar Do Etin para ir durante algum tempo refugiar-se no stio mais distante das reservas.
- Ele no dar um passo para fugir!... - respondeu Nophaie.
- Nesse caso tenho realmente receio por ele... - disse Marian. - Era o aspecto de Morgan - a maneira de ele falar! Toda a medonha malvadez da criatura se mostrava sem mscara. Blucher tambm est a tornar-se mais feroz. Penso que ele anda profundamente preocupado. A guerra na Europa deve atormentar-lhe o esprito.


Nophaie regressou pelo caminho de Red Sandy. No posto comercial viu-se rodeado por "Nopahs" que nunca havia encontrado antes, e foi de novo forado a reconhecer a sua prpria importncia.

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O negociante do posto estava a comprar l a cinquenta cntimos cada libra, e queixava-se da escassez das ofertas. Os ndios pareciam no precisar de dinheiro. J nem fabricavam mantas. Nophaie ficou impressionado pelos sinais de prosperidade e de independncia exibidos por aqueles "Nopahs" das terras baixas. Nenhum dos seus enfeites de prata estava empenhado ao negociante - o que era uma prova flagrante e incomparvel de que os tempos iam bons.
Cavalgando para o norte, atravs do areal, com alguns desses ndios, Nophaie percorreu mais de vinte milhas antes de deixar o ltimo dos seus companheiros  porta do seu "hogan". Por toda a parte o cinzento-esverdeado dos prados se via povoado pelos rebanhos de carneiros e por pequenas manadas de gado ou bandos de cavalos. Em cada "hogan" as mulheres juntavam-se  porta, para espreit-lo, sussurrando entre elas. Uma velha "squaw" abriu caminho com os cotovelos at chegar junto dele.
Nophaie,, olha para Nadglean Nas Pah... - disse ela, com grande dignidade - ... que foi quem assistiu a tua me, quando tu nasceste. Nadglean Nas Pah levou-te os olhos para que tu visses a luz. E viveu at hoje para te ver,  Nophaie, o Guerreiro... Vem, entra no nosso "hogan" e festeja connosco a alegria deste encontro!...
Nophaie ficou ali, interessado em ouvir falar de sua me, contente por sentir-se envolvido num contacto mais estreito com o seu povo. Ao anoitecer, quando foi servida a ceia festiva, no cabiam mais ndios no "hogan". Comeram durante quatro horas e cantaram at tarde na noite. A ocasio parecia de grande honra e alegria para aqueles ndios que se encantavam com a companhia de Nophaie. Ao ouvi-lo muitos olhos brilhavam intensamente ao claro da fogueira.
Partiu na manh seguinte, mais impressionado do que nunca pela prosperidade feliz dos "Nopahs". Parecia-lhe agora razovel calcular que todos os vinte mil "Nopahs"da reserva viviam numa mar cheia de bem estar.


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As suas impresses chegaram quase ao ponto de faz-lo acreditar nas palavras que Nadglean Nas Pah havia dito: "-Agora tudo est bem!". S homens sabedores, como Etenia e Do Etin, anteviam o futuro. A maioria daqueles ndios de esprito simples vivia apenas a hora presente, aceitando a sua riqueza como uma consequncia da sua capacidade, comendo, dormindo, montando os seus cavalos, pastoreando os seus rebanhos, dia aps dia, sem cuidar na aco dos homens brancos - que alastrava lentamente, como uma sombra sobre o mato.
A noite surpreendeu Nophaie no ponto mais alto de uma longa vertente que conduzia s terras altas. Viera por atalhos desde Shibbet Taa, a oeste, para os lados das propriedades de Etenia. O seu cavalo estava cansado. Nophaie soltou-o no mato e preparou uma cama sob os ramos espessos de um enorme cedro. A sua ceia comps-se de carne e milho que lhe tinham dado no ltimo "hogan".
Tudo quanto havia de ndio dentro dele, pulsava no seu sangue e agitava-se na sua alma, ali, na solido e no isolamento da noite. Estava a muitas milhas de distncia de qualquer trilha que houvesse at ento percorrido. Apenas o vulto de Nothsis Ahn poderia orient-lo. Pensando com um crebro de homem branco, encontrava-se perdido no deserto, mas a sua sensibilidade de pele-vermelha dizia-lhe que nunca poderia perder-se. Estendeu-se sobre ramos tenros do cedro, encostando a cabea  sela do seu cavalo e cobrindo-se com a sua manta. Assim ficou, a olhar as estrelas que brilhavam no cu. Havia em volta dele um silncio total, absoluto. Nenhum som, nenhuma vida alm da respirao subtil da natureza, a fora penetrante de um esprito invisvel que pairava sobre as coisas,
envolvendo as rochas, flutuando no aroma adocicado do mato.
Durante muito tempo Nophaie ficou estendido, quieto embora acordado, todos os seus sentidos de ndio absorvidos na singular capacidade de manter o seu esprito vazio de pensamento. No pensava. Sentia. Tinha recebido dos ndios essa herana, essa possibilidade que os brancos desconheciam. Embora no se apercebesse disso por um acto mental, sentiu uma inexplicvel impresso de felicidade enquanto esse transe durou. Olhava apenas. A imensa cpula do cu azul, recamada de estrelas, encurvava-se sobre ele, ilimitada, sem fronteiras, apenas interrompida pela linha do horizonte. Via as estrelas cadentes riscarem traos de luz na vastido do espao. Parecia-lhe ver, atravs da imensido azul, o infinito que se estendia para alm. Viu a sombra de "gahd", o cedro, recortar-se no cu; e a obscuridade cinzenta do mato, e as colinas de contornos vagos, espectrais, como deviam ser as colinas na madrugada no mundo. Respirou o cheiro seco das agulhas dos pinheiros e das folhas que rangiam sob o peso do seu corpo, o aroma do tronco do cedro, o cheiro do p, o perfume do mato, um vago ar de humidade que talvez viesse de alguma tempestade distante, um cheiro a cavalo e a coiro que se emanava da sela, o seu prprio calor. Sentiu perpassar o suspiro das coisas vivas e das coisas mortas do deserto, e o sabor acre das coisas selvagens - nas agulhas de pinheiro que inconscientemente partia entre os dentes. Os seus ouvidos absorviam o silncio - onde nada mais havia do que o lento palpitar da natureza, que podia ser o bater do seu prprio corao. Compreendeu, sem pemSar, toda a imperecvel imortalidade que o cercava, o elo existente entre o seu corpo vivo e os ossos dos mortos de inumerveis geraes, a vida que existia nas rochas e nos troncos, na distncia vaga e indefinida - e sentiu que a vasta terra sob ele,

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e a imensido dos espaos que o cobriam, faziam parte do seu ser.
Ento, atravs da sua mente preguiosa, opaca e vazia, surgiram bruscamente recordaes e imagens. Viu a doce e bela face de Marian - coroada de cabelos de oiro - e os seus olhos azuis onde parecia reflectir-se o cu. O Seu amor por ela envolveu-o, inundou-o como um rio que quebrasse os seus diques. E recordou-se de que era Nophaie, o vagabundo do deserto, um estranho entre o seu povo, um infiel, um homem sem lar, sem parentes e sem rebanho, o mais pobre dos "Nopahs", votado  iluso e despedaando a sua vida contra as grades de um dio desconhecido e estranho.
Quando alcanou as pastagens das terras altas, perto de Nothsis Ahn, Nophaie reuniu os seus cavalos em grupo e conduziu-os pela trilha dos "Paiutes". Nessa noite acampou no fundo de um desfiladeiro, com a famlia que ali vivia, e descobriu com espanto que a sua fama o havia precedido nesse lugar remoto. Era recebido de braos abertos em todos os "hogans" por onde passava. Ao nascer do sol levou os cavalos ao longo da vertente colorida, de rochas e de terra, at os planaltos cobertos de cedros, e depois para baixo, para a regio das agulhas de pedra onde Oljato e os campos da sua mocidade pareciam chamar por ele com uma triste e pungente saudade. Da seguiu para Kaidab, atravs do deserto amarelo e vermelho.


* * *


- Com certeza que compro os seus cavalos... - disse Withers, em resposta  pergunta de Nophaie. - Quanto quer voc por eles?
Nophaie hesitou um momento, depois enunciou um nmero.

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- No  bastante... - volveu Withers. - Dou-lhe mais cinco por cada animal. O que prefere - mercadorias ou dinheiro?
Nophaie recebeu parte da importncia em roupas e objectos de uso pessoal, incluindo um revlver.
-Creio que voc vai fazer o que Blucher aconselhou a Wolterson - "andar por a", disse Withers, com uma risada. - Pode fazer algumas viagens para ns. Estou contente por ter vindo. A senhora Withers preparava-se para mandar algum procur-lo.
Nophaie no sabia o que a mulher do negociante quereria dele, a no ser que se tratasse de qualquer coisa referente a Marian. Estava, por outro lado, com uma certa curiosidade de saber se ela j tinha conhecimento da nova fama que ele alcanara entre os ndios, em consequncia de ter levado Gekin Yashi para fora do alcance de Morgan. A senhora Withers alegrou-se por v-lo e perguntou interessadamente notcias de Marian, mas nada ouvira acerca do rapto da filha de Do Etin.
- Nophaie, eu queria pedir-lhe que nos ajudasse num pequeno trabalho - o nosso gnero de trabalho missionrio... - disse ela depois. - Conhece esse ndio meio doido a quem chamamos Shoie?
- No - respondeu Nophaie.
- Bem, ele declara que embruxou uma "squaw", que morreu. E disse a outras duas "squaws" que estava resolvido a usar os seus bruxedos contra elas. A primeira, Nolgoshie, comeou a matutar no caso e adoeceu. Receio que ela venha a morrer tambm. Preciso que me ajude a obrigar Shoie a dizer que retirou o bruxedo. Ento deve ir ao "hogan" de Nolgoshie e inform-la disso. A outra "squaw"  a mulher de Beleanth Do De Jodie. O marido  um rico "Nopah", e um bom homem. Tenho medo de que ela tambm se deixe impressionar com os feitios,

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e queria que Nophaie lhe dissesse que se trata de coisas que merecem o mesmo nome que voc deu ao ensino religioso de Morgan.
- Que nome?... - perguntou Nophaie, curioso.
- Tretas!... - respondeu a mulher do negociante, com um brilho alegre no olhar. - Essa palavra correu por todos os territrios das reservas. Uma boa dzia de ndios j me procurou para saber o que ela significa. O Jay Lord, que no pode calar-se a respeito seja do que for, contou o caso no posto comercial de Mesa, em frente de alguns ndios. Foi assim que a notcia se espalhou. Eu no me atreveria a chamar tretas s pregaes de Morgan, mas  decerto essa a palavra que convm para classificar as feitiarias de Shoie.
- Eu julgava que Jay Lord era um dos homens ao servio de Morgan... - disse Nophaie, pensativo.
- No. Ele  um instrumento de Blucher. A respeito disso - todos eles se odeiam uns aos outros. E agora - querer demorar-se aqui no posto durante alguns dias e ajudar-me a livrar essas "squaws" dos bruxedos de Shoie?
- "Mrs." Withers, acredita realmente que essas mulheres ndias possam adoecer e morrer em consequncia disso?
- Se acredito? Sei que  verdade. Acontece muitas vezes. Para um ndio, pensar no mal  fazer o mal. Se conseguir forar um ndio a pensar numa coisa, essa coisa torna-se uma verdade para ele.
- Sim, bem sei. Mas nunca ouvi dizer que um ndio meio doido pudesse fazer bruxedos.
- Nophaie, ho-de correr anos antes que consiga entender as supersties do seu povo. Nunca os compreender totalmente. No se esquea de que viveu quase toda a sua vida longe deles.
- Eu posso influenciar esse Shoie... - respondeu Nophaie. E contou, resumidamente, o que se passara no jardim dos Wolterson, em Mesa, e a sua conversa com Do Etin,


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o rapto de Gekin Yashi e a estranha reaco da sua tribo.
A senhora Withers mostrou uma animao crescente, entre satisfao e ansiedade.
- Ento era isso!... - exclamou ela. - Eu tenho estado a pensar sobre o sbito interesse estabelecido  sua volta. Pois bem, Nophaie, nenhuma outra coisa poderia fazer que melhor servisse para lhe criar um grande nome entre os ndios. Isso coloca-o muito alto no esprito deles. Assim, de certo modo foi bom, porque, acontea o que acontecer, o seu nome est feito. Por outros lados  mau. Eles acabaro por apanhar Gekin Yashi. Os "Nokis" seguir-lhe-o a pista. Se Blucher descobre a sua interveno, prend-lo-. E, quando encontrarem Gekin Yashi, no sei qual ser a reaco de Do Etin.
Ento Nophaie contou da atitude de Do Etin e das suas firmes declaraes.
- Isso  muito mal.. - disse ela Gravemente. - Do Etin no pode impedir que Gekin Yashi seja levada  capela de Morgan, se os novos regulamentos estabelecerem essa obrigao. Compreende, os ndios so realmente prisioneiros nesta reserva.. Tm de obedecer ao Governo. Se no quiserem obedecer, sero forados a isso...  muito mau. Do Etin no ceder, nem faltar  sua palavra. Isso significa, para ele, a cadeia - ou pior.


* * *


Nophaie gastou algum tempo a escolher as suas coisas, especialmente o revlver. Era um novio no que dizia respeito ao uso de armas de fogo, e depois de muito pensar acabou por decidir que uma arma pequena era prefervel, um revlver que ele pudesse esconder ou usar no cinto.

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- A est o tal Shoie... - disse Withers, entrando no posto.
Nophaie aproximou-se do ndio com um interesse mesclado de aborrecimento, e tambm com uma espcie de vaga e estranha relutncia. Esta ltima impresso tinha talvez origem em pensamentos da infncia de Nophaie, que muitas vezes lhe ocorriam mergulhando-o em cogitaes e dvidas.
Shoie era um ndio que aparentava cerca de vinte anos de idade, um bravo de cabea grande e cabelos emaranhados - dos quais lhe vinha o nome porque era conhecido. A sua cara poderia talvez impressionar uma "squaw" supersticiosa, mas Nophaie viu-a como a de um ndio gabarola, ardiloso e pouco inteligente. O trajo de Shoie no era o de um rico e prspero "Nopah".
O homem ficou flagrantemente lisonjeado de ter sido chamado de entre um grupo de outros ndios, e mostrou por Nophaie a mesma deferncia que era agora geral. Nophaie falou-lhe como se tivesse ficado bem impressionado com ele, comprou cigarros e frutas enlatadas, que lhe deu, e conversou durante algum tempo antes de abordar o assunto dos feitios e bruxedos que Shoie conhecia. O ndio negou que tivesse lanado algum feitio sobre qualquer "squaw", mas depois de alguma insistncia confessou o que fizera, afirmando que as mulheres estavam possudas por maus espritos que ele queria expulsar. Nophaie acabou por convenc-lo a declarar que retiraria os feitios.
Ento Nophaie resolveu ir imediatamente visitar os "hogans" dos ndios a cujas famlias pertenciam as mulheres doentes, levando Shoie consigo. Quando a senhora Withers foi informada do que se passara, pediu para ver Shoie e falou com ele durante alguns momentos.
- Talvez d resultado... - disse ela a Nophaie - ... mas tenho as minhas dvidas. Shoie est muito convencido.

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Pensa que  um grande homem. Sente-se capaz de fazer sentir o seu poder. O que vai acontecer  isto. Ele far como o Nophaie mandar, hoje. Mas amanh ou em qualquer outro dia dir aos ndios que lanou de novo o feitio. Bem v, ele  suficientemente doido para que os ndios supersticiosos tenham medo dele.

Nolgoshie, a "squaw", vivia no deserto, num desfiladeiro aberto no planalto de rocha. Eram numerosos os "hogans" sob a grande muralha das terras altas. Nophaie deu  jornada o carcter de uma visita cerimoniosa, falando com os ndios e pedindo a alguns deles para o acompanharem. Nolgoshie era dona de vrios rebanhos, e uma hbil fabricante de mantas. O marido dela estava ausente em qualquer outro ponto da reserva. Nophaie foi encontr-la entregue aos cuidados de outras "squaws", parentes ou amigas. Antes de entrar no "hogan" chamou as mulheres para fora e contou-lhes porque vinha, indicando Shoie que se conservava de p a seu lado, muito convencido da sua grande importncia. As mulheres ficaram contentes; relanceavam os olhos negros e assustados para aquele ndio que era senhor dos feitios. Nophaie achou prefervel no levar Shoie ao interior do "hogan".
Nolgoshie estava estendida sobre mantas, uma ndia ainda jovem e quase bonita. Tanto quanto Nophaie podia ver, parecia de perfeita sade. S o seu esprito estava doente.
- Nophaie trouxe Shoie. Ele est l fora... - disse Nophaie gravemente. - Shoie afastar o feitio.
A "squaw" olhou para Nophaie e depois para as outras mulheres; todas acenaram afirmativamente, com grande convico, apoiando as palavras que ela ouvira. O efeito daquilo sobre Nolgoshie foi quase fantstico. A sua face perdeu a expresso de solene tristeza. Os seus olhos brilharam. Sentou-se sobre as mantas. Nophaie falou com ela durante alguns momentos, assegurando-lhe que os espritos maus haviam partido e no regressariam mais.

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Nolgoshie melhorou rapidamente, na sua presena, e Nophaie saiu por fim, espantado com a aco do pensamento sobre a mente e o corpo de uma criatura humana. Seguiu, sempre acompanhado por Shoie, at o extremo limite das pastagens, uma dezena de milhas a oeste de Kaidab. Beleanth Do De Jodie estava em casa, muito preocupado acerca da mulher. Ela estava muito doente. O homem-medicina nenhum bem lhe fizera. Nophaie falou tambm com a "squaw" e viu desde logo que se tratava de um caso igual ao de Nolgoshie, mas que aquela mulher se havia deixado influenciar mais profundamente pelos seus prprios pensamentos e se encontrava num estado muito mais perigoso do que a outra. Nophaie no ficou seguro de que ela o tivesse compreendido. No mostrou, pelo menos, qualquer indicao de sentir-se melhor. Nophaie saiu e encontrou Beleanth Do De Jodie a cumular Shoie de presentes; o que, segundo a opinio da senhora Withers, era um procedimento errado.


* * *


No dia seguinte um mensageiro chegou a Kaidab com a notcia de que a mulher de Beleanth Do De Jodie tinha morrido. Foi um profundo choque para Nophaie. Fez tudo o que lhe foi possvel para que a notcia no chegasse ao conhecimento de Nolgoshie. Em vo! As prprias mulheres que a tratavam, a despeito de conselhos, de avisos e at de ameaas, contaram-lhe da morte da outra mulher que tinha sido vtima dos feitios de Shoie.
Nolgoshie recaiu no pavor das suas supersties. Nophaie falou-lhe, servindo-se de toda a eloquncia e de todo o poder de persuao de que dispunha. Ela piorou ainda. Ento ele galopou em procura de Shoie. Encontrou-o finalmente,

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no exacto momento em que ele se gabava de ter lanado outra vez o feitio sobre a mulher de Beleanth Do De Jodie - e declarava ir fazer o mesmo com Nolgoshie.
- Vem comigo... - disse-lhe Nophaie - ... para que Nolgoshie possa ouvir-te dizer que o feitio foi quebrado.
- No!... - respondeu Shoie, insolente, levantando a cabea hirsuta.
- Tu virs!... - afirmou Nophaie rudemente, desmontando.
Todos os ndios presentes, com excepo de Shoie, se tinham erguido por respeito a Nophaie. Um velho chefe, que evidentemente tinha estado  escuta, espreitou da porta de um "hogan".
- Nophaie  o chefe... - disse ele. - Shoie  um ndio de mente retorcida. No  um homem-medicina. O seu feitio  uma mentira.
Nophaie derrubou Shoie e bateu-lhe duramente. Depois, forando-o a levantar-se, empurrou-o para o seu cavalo.
- Monta!... - ordenou ele.
Nophaie forou o ndio, apavorado e sangrando, a cavalgar  sua frente at o "hogan" de Nolgoshie. Mas chegaram demasiado tarde para darem qualquer espcie da luz quele crebro entenebrecido. Nolgoshie delirava.
Nophaie expulsou ento Shoie, ameaando-o de o matar se ele voltasse a falar em lanar algum bruxedo ou feitio sobre os ndios. Quando Nophaie regressou a Kaidab com as notcias, a senhora Withers demonstrou desgosto, mas no surpresa.
- Eu sabia que isso tinha de acontecer... - disse ela. - Nolgoshie morrer.
E, no dia seguinte, chegou um mensageiro com a notcia da morte da "squaw", acrescentando que nenhum ndio se prestava a fazer o funeral. Nophaie tomou para si essa tarefa.

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XI.


Marian Warner achou que seis meses de trabalho intensivo, em estreito contacto com missionrios, e o estudo atento de todos os livros que pde encontrar sobre o problema dos ndios, lhe haviam dado uma ideia clara a respeito de um assunto de to grande importncia. Nas suas observaes e estudos ela pusera toda a agudeza crtica, toda a imparcialidade de julgamento de que era capaz. Nunca se havia deixado dominar pelas suas prprias emoes. Embora sentisse o problema de um modo estranho e pungente, atravs das suas relaes com Nophaie pusera de parte os seus sentimentos para que eles no prejudicassem a sua viso das coisas, no impressionassem o seu esprito, no influenciassem o seu sentido de justia. O deserto e a gente primitiva que l vivia haviam de algum modo aguado a sua inteligncia, modificando toda a sua concepo da vida.
Os agentes eram nomeados pelo Governo; os missionrios estavam ali voluntariamente, por dedicao. As relaes entre eles, tal como o destino dos ndios, dependiam da espcie de homens que eles eram. O jogo das influncias polticas trazia vrios ambiciosos para o lugar de superintendente das reservas, mas poucos de entre eles se tinham mostrado eficientes. Muitos deles eram falhados noutros caminhos da vida, e isso no era boa indicao de xito para o desempenho de um cargo vastamente difcil e complexo. Mesmo os melhores e mais competentes deparavam com um trabalho que exigia deles toda a sua capacidade e largueza de vistas. Quanto mais importantes eram esses homens, tanto mais complicada, ao que parecia, se tornava a sua posio. As possibilidades dos ndios eram ilimitadas, mas ilimitadas eram tambm as dificuldades para ajud-los. E, entretanto, era com certeza exacta a suposio de que esses agentes no aceitavam a sua nomeao por amor aos ndios,

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ou pelo desejo de praticar o bem. Marian conseguiu obter a histria completa de uma dzia de agentes que haviam antecedido Blucher, e muitas vezes roubava horas ao seu prprio sono para copiar registos e cadastros. O nico, entre esses homens, de quem os ndios gostavam e a quem respeitavam, o nico que se dispusera realmente a ajud-los, pouco tempo pudera resistir s manobras de Morgan.
Muitos desses agentes eram criaturas que se encontravam completamente deslocadas do seu meio. Trabalhavam como quem executa uma tarefa intolervelmente aborrecida; vinham para ali porque tinham falhado a sua carreira no Leste, ou porque precisavam tratar-se, ou porque dispunham de influncias polticas atravs das quais alcanavam cargos que no eram capazes de exercer, ou, em alguns casos, porque queriam fugir a um ambiente onde eram mal vistos por aqueles que os conheciam. Alguns haviam tentado honestamente, duramente, adaptar-se a uma tarefa que, ao cabo, reconheciam no poder desempenhar. Mas do ponto de vista dos ndios, e dos missionrios, e dos empregados do Governo, e, especialmente, dos homens dos postos comerciais, quase todos esses agentes eram simplesmente falhados. Indubitavelmente a complexidade subtil da situao era excessiva para criaturas cujas qualidades no fossem alm da mediania.
Anos de srio estudo e de dedicao eram indispensveis para aprender a compreender as necessidades dos ndios. Mesmo os missionrios honestos, sensatos e de forte carcter se encontravam com uma tremenda tarefa  sua frente.
Marian descobriu que a concepo dos ndios, quanto a religio, estava para alm da compreenso de alguns missionrios. O ndio pensava sob a forma de smbolos. A natureza era para eles o deus. O ndio concebia deus atravs da percepo sensorial de um imenso e mstico esprito de vida
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e de morte, que flutuava  sua volta. Tudo o que acontecia na natureza, todos os fenmenos da existncia fsica, eram manifestaes do domnio exercido sobre o Universo por um ente supremo. Era a essas manifestaes que ele dirigia os seus cnticos e as suas preces. Ele rezava ao sol, pelo calor que o envolvia, pela neve que derretia e transformava em gua, pelas searas e frutos que amadurecia. Da terra macia surgia o po para ele, a pastagem para o seu rebanho. O sol era fonte de vida. A neve, a chuva, o orvalho, a geada e o vento - tudo vinha do Grande Esprito. A avalanche, a inundao, o trovo e o relmpago, as rajadas, o calor trrido e plmbeo dos dias de Vero, as ululantes tempestades de areia que varriam o deserto - tudo o que se passava na natureza tinha ligao directa e pessoal com a vida ntima do ndio. A sua cabea situava-se entre as nuvens. Ele caminhava com as sombras e ouvia as vozes subtis e misteriosas do silncio. Era um mstico e vivia mais perto da terra do que os homens brancos. A sua viso das coisas era larga e maravilhada. Beleza, cor, melodia, a linha recta da plancie, a curva do horizonte, a quietao e o movimento - eram para ele coisas vivas. As rvores davam-lhe o seu arco, as pedras forneciam-lhe as pontas agudas das suas flechas, aos animais ia buscar os tendes que transformava nas cordas vibrantes que despediam as sibilantes setas - de todas as coisas fsicas em seu redor ele tirava a satisfao das suas necessidades materiais. No invisvel centro de tudo o que o cercava, respirava a fora criadora, a essncia divina, o segredo. Ao nascer do sol o ndio permanecia em transe, em adorao perante a renovada apario da luz, olhando para leste com uma orao nos lbios.  hora do poente ele ficava a olhar a gloriosa partida do senhor do dia, silencioso, maravilhado, absorvendo na alma aquela luz doirada e murmurando a prece cujas ltimas palavras eram:

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"-Agora tudo est bem!".
Apenas os poucos homens e mulheres que tinham vivido longos anos entre os ndios, de alma e corao abertos, poderiam entender com verdade o seu simbolismo, a poesia e a beleza dos seus sentimentos inexprimidos, a sua adorao pela me natureza.
O missionrio sincero, o homem que deixava o conforto da sua casa e a companhia dos seus amigos para se internar numa terra dura e isolada, ardendo em zelo para espalhar as bnos de Jesus Cristo sobre aqueles a quem considerava ateus, dificilmente compreendia a verdadeira natureza da sua tarefa, o absurdo da ideia de converter rapidamente os ndios e, finalmente, as complicaes fomentadas por um dspota, como Morgan, e pelos empregados do Governo, as camarilhas, as intrigas e as ocultas maquinaes de todos eles. Que pouco se sabia, fora das reservas, sobre aquele assunto confuso e temeroso! A vida de um bom missionrio era em verdade um martrio.
Menos ainda do que qualquer outra coisa, a maioria desses recm-chegados entendia o deserto e a sua significao, a sua influncia subtil sobre a vida, a sua misteriosa rudeza e ferocidade.
Os missionrios, tal como outros homens brancos nascidos para viver em ambientes de civilizao e de conforto, eram lanados aqui e alm, em pequenas comunidades espalhadas pelas reservas do deserto. Trabalhavam ou preguiavam conforme a maneira de ser de cada um, mas viviam. Eram inconscientemente dominados por tudo o que os rodeava. O deserto era selvtico, aberto, imenso, livre, isolado, silencioso, hostil e violento, duro e cruel como a prpria natureza. O sol no poupava as pessoas que viviam em lugares que lhes no eram prprios. Inverno e Vero, a grande e esplendorosa luz, o intenso brilho do sol,

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era terrvel. No podia ser suportada por gente de pele branca. O deus dos ndios, pelo menos, no destinara os homens brancos ao deserto. Os bedunos, os gachos, os ndios, todos tinham pele escura - a sua pigmentao tinha sido criada para resistir  luz do sol. Durante longos meses o calor era trrido, de efeitos incalculveis sobre o esprito e sobre o sangue. Na Primavera soprava o simonte, o vento penetrante que arrastava muralhas de areia, dias e dias sob nuvens amarelas de p, irritantes para os olhos e para a alma dos homens brancos. As tempestades eram ferozes, sbitas, violentas como a prpria natureza do deserto. Os Invernos, na vastido aberta das grandes altitudes, eram duros, longos e frios. Os elementos, o isolamento e a solido, a imensido vazia, a extenso interminvel do deserto, invarivel e inevitavelmente exerciam a sua aco sobre a mente do homem branco. Se os brancos vivessem com o corao aquela vida, se pusessem no deserto as suas esperanas de futuro, os efeitos sobre o seu carcter, e at sobre o seu fsico, seriam totalmente diferentes. Mas a maior parte deles odiava aquela terra selvagem que os retinha por algum tempo, odiavam-na como o desterrado odeia o lugar do seu desterro. Assim a desagregao, tanto do corpo como do esprito, era inevitvel. Sempre, nos lugares escassamente habitados, especialmente nas vastides onde os elementos tornam a vida difcil, homens e mulheres acabam por concentrar os seus interesses em si mesmos, e as franquezas humanas adquirem propores maiores. Recuam na escala do progresso. O dio torna-se mais violento, o amor mais intenso, o cime, a cupidez, a cobardia e o egosmo rasgam a estreitada camada de civilizao e surgem, impetuosos e ferozes. A necessidade de resistir faz aparecer a fraqueza ou a fora de qualquer homem. A defesa prpria foi a primeira lei da vida, e no deserto esse instinto domina tudo.

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Apenas poucos homens e esses apenas entre os que amam a vida livre e dura dos grandes espaos abertos, se tornam mais nobres no contacto com o deserto. Que alguns homens, e mulheres, se modifiquem magnificamente atravs da evoluo que a vida do deserto provoca em seus espritos, isso prova a parte de divino que existe no barro humano - o que est dentro deles. Esses so os que esto mais prximos do ndio. Mas os que se desagregam tm a desculpa de haverem sido colocados num ambiente que faz vir a lume as fragilidades da humana condio.
No  improvvel que esta influncia elementar explique em parte os crimes praticados pelos brancos contra as mulheres ndias. Onde quer que os brancos recuam na civilizao, em terras selvagens, eles encontram-se com a vida no seu estado mais rude e primitivo. E reagem subtilmente a essa influncia.
A rapariga ndia, do deserto,  estranha e lamentavelmente susceptvel.  uma criatura primria, que tem ainda os instintos do selvagem. A sua religio no a ensina a defender-se - no lhe dispensa a proteco que todas as raparigas brancas tm, em toda a parte. O seu pai , talvez, um polgamo. Sua me no a faz aprender a dominar-se. Na sua tribo no h uma rgida observncia de qualquer lei moral. Ela no pensa no mal, porque, no seu credo, pensar no mal  praticar o mal.  tmida, sonhadora, passiva ainda que cheia de fogo latente, inocente como um animal - e em verdade semelhante a um animal. A sua mente  uma arca de tesouros, plena de lendas e de canes, de poesia e de msica, de encantamentos e de sonhos, mas o seu sangue  vermelho e quente, e ela  uma consequncia dos elementos.

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XII.


Morgan arrumou algumas cartas na gaveta da sua secretria, e fechou a gaveta.
- Tenho a Velha Lei pelo meu lado... - disse ele a meia voz, com uma satisfao sibilante e maquiavlica.
Juntou um certo nmero de pginas dactilografadas, sujas, todas manchadas, em baixo, pelas marcas dos polegares enxovalhados dos ndios. Colocou-as num sobrescrito, endereou este ltimo, fechou-o e guardou-o no bolso, para entreg-lo pessoalmente ao ndio que transportava o correio. Morgan nunca confiava a sua correspondncia ao funcionrio dos Correios de Mesa. Ficou por momentos a meditar, com um ar intensamente preocupado, tamborilando com os dedos gordos sobre o tampo da secretria. As suas grossas sobrancelhas pareciam reunir-se numa espcie de n de plo hirsuto.
O seu gabinete comunicava com a capela onde ele pregava aos ndios. No era, de nenhum modo, um compartimento austero, impregnado de severidade. Por toda a parte se viam notas garridas de cor, pormenores flagrantes de conforto. Havia uma significativa ausncia de motivos ou ornatos ndios. O gabinete tinha mais duas portas, uma que comunicava com uma sala-de-estar e outra que conduzia  rua, atravs de um prtico nas traseiras da casa.
A certa altura Morgan levantou-se e dirigiu-se para a janela aberta. A brisa da manh de Setembro trazia consigo a fresca mordedura da geada. O Vero aproximava-se do fim. J no jardim, as folhas das rvores de fruto mostravam os tons de bronze doirado do Outono. Mas, para alm? a extenso do deserto parecia to imutvel como infinita. Aquela enorme vastido de verde e de amarelo, com as linhas speras e escuras dos desfiladeiros, na distncia, e as manchas compactas das rochas e dos terrenos calcrios,

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parecia formar uma muralha envolvente. Morgan no gostava dos espaos abertos.
O seu primeiro visitante, naquela manh, foi Jay Lord. Com as suas botas pesadas, o seu passo arrastado, entrou familiarmente sem tirar o chapu da cabea ou o cigarro da boca, com a sombra de um sorriso na face insolente. O seu fato coberto de p testemunhava uma viagem recente.
- Ol, Morgan!... - disse ele. - Voltei ontem  noite. Ainda no falei ao Blucher... Bem, eu queria falar com voc em primeiro lugar...
- Descobriu alguma coisa?... - perguntou Morgan.
- Hum... Sim e no... - volveu Lord. - No posso
provar aquilo que o Blucher quer. Os "Paiutes" so bocas fechadas. Mas tenho c um palpite de que esse tal NopHaie tem muito que ver com o desaparecimento de Gekin Yashi...
- Esse palpite tambm eu tive... - disse Morgan, com ar sombrio. - Blucher no estava disposto a deixar que voc fosse. Ele no quer saber do caso, agora que a rapariga voltou. Mas eu quero! E quero que se faa um exemplo com Do Etin e com todos os que estiveram misturados no assunto!...
- Acho que voc nada pode provar contra Do Etin ou Nophay... - disse Lord, secamente. -  melhor arranjar uma manobra das suas para os comprometer...
- Jay Lord, no gosto da sua maneira de dizer as coisas!
- Bem, se no gosta coma menos... - respondeu o outro. - J lhe disse que estava pronto a trabalhar pelos seus interesses, na sombra. Ainda estou. Mas no me venha dizer que espadas so copas. H dez anos que ando por a... e tenho os olhos abertos...
Os olhos plidos de Morgan estudaram por instantes o atrevido,

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descuidado Lord, com o olhar penetrante de um homem astucioso que no se fia de ningum.
- Muito bem. Ento seja, espadas so espadas... - respondeu Morgan secamente. - Eu preciso de voc... e voc deseja o lugar, de Wolterson. Tratarei de fazer com que Blucher ponha o Wolterson a andar. E, alm disso, pago-lhe, a si.
- Quanto?... - perguntou Lord com cnico laconismo.
- O que o servio valer... - retorquiu Morgan. - No pago um trabalho antes de estar feito.
- Hum... Bem, acho que nos entendemos ambos. O meu palpite acerca de Blucher bate certo?
- Que  isso?
- Bem, voc no falou muito claramente, mas tenho uma ideia de que quer saber coisas a respeito dele para o liquidar quando entender.
Morgan ficou pensativo. Os seus punhos, fortemente cerrados, traam a sua compreenso de que estava a tratar com um tipo astuto e sem escrpulos, a quem lhe convinha ter bem seguro.
- Voc no  tolo, Jay Lord. E  por isso que eu quero conserv-lo aqui, em Mesa... Agora diga-me, porque  que pensa que esse ndio teve alguma coisa que ver com a desapario de Gekin Yashi?
- Bem, no dia seguinte ao do desaparecimento da garota, eu atravessei o planalto... - disse Lord - ... e encontrei o stio onde Gekin Yashi tinha sado da trilha. Procurei por ali at que descobri marcas de mocassins e de patas de cavalo. Durante toda a minha vida fui pisteiro, e no h ningum, l na minha terra, que faa melhor do que eu. Tomei nota da pista, fixei-a bem na memria e depois medi as marcas. Segui os sinais durante todo o dia, at que vi que se dirigiam em linha recta para o norte. Depois voltei para trs.

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- Vamos, continui... - disse Morgan com impacincia. - Isso mesmo foi o que fizeram os "Nokis"...
- Pois. Mas levaram muito tempo para descobrir o que eu j sabia - que nunca mais seriam capazes de seguir a pista a partir do ponto em que ela se perdia na regio de matos e de rochas, para as bandas de Nothsis Ahn.
- Sim, mas se os "Nokis" perderam a pista, como foi que eles acabaram por encontrar Gekin Yashi?
Descobri isso tambm, agora. Os "Nokis" no descobriram Gekin Yashi. Foram os "Paiutes", com quem ela estava, que a levaram ao campo dos "Nokis"...
- Hein? "Paiutes"?  estranho. Eles tinham medo de alguma coisa?
- No de voc ou de Blucher... - respondeu Lord com um sorriso irnico. - A coisa aconteceu assim. H um "Nopah" meio maluco, chamado Shoie.  uma espcie de bruxo. Ele sabia que Gekin Yashi estava com os "Paiutes", nos desfiladeiros. Todos os "Nopahs" sabiam disso. Ora bem, esse ndio maluco mandou dizer, por um "Paiute" que havia de fazer um bruxedo contra Gekin Yashi, para a matar. Ele j tinha feito morrer duas "squaws", com os seus feitios, e os "Paiutes" so ainda mais supersticiosos do que os "Nopahs". Por isso  que eles levaram Gekin Yashi ao acampamento dos "Nokis" que andavam em busca dela...
- Bem... - disse Morgan lentamente. - E porque  que voc diz que o tal ndio universitrio est metido nisso?
- Essa  a parte divertida do caso, mas no posso prov-la a ningum alm de mim mesmo... - volveu Lord, coando a cabea. - Enquanto estive nas terras altas encontrei o stio onde Nophay viveu e onde ele enterrou um parente.  uma regio selvagem a valer, mas atravessei-a e acabei por descobrir o "hogan" de Nophay. Andei por l em busca de sinais de mocassins e de marcas de patas de cavalo, que se parecessem com aqueles que eu conservava na memria.

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E encontrei-os, to claros como se estivessem impressos. Na sepultura do parente de Nophay, as pegadas eram ntidas. Reconheci a pista e, no caminho de volta, perguntei a um "Nopah" quem tinha enterrado o parente de Nophay. Foi o prprio Nophay, disse-me ele... E essa  a razo do meu palpite. No prova nada, a no ser para mim mesmo. Eu sei quem levou Gekin Yashi...
- Para mim a prova  tambm suficiente... - disse Morgan com ar sombrio. - Lord, voc  um homem inteligente, e eu creio que no o tenho apreciado como devia. Havemos de nos entender... No conte a Blucher o que sabe sobre o ndio... V agora falar com Blucher e conserve-se por enquanto ao servio dele. Mas fique de olhos e ouvidos atentos... e venha ver-me com frequncia...
Morgan encontrou o homem que transportava o correio e entregou-lhe pessoalmente o sobrescrito que preparara. O homem era um ndio de confiana de Morgan.
Seguiu depois o seu caminho ao longo da avenida ensombrada de rvores, observando o que se passava em volta, e dirigiu-se para o escritrio do agente. Morgan, conquanto gordo e pesado, sabia caminhar sem rumor. No o fazia em obedincia a um instinto, como os ndios, mas sim porque os hbitos da sua vida complicada, baseada na maldade e na astcia, o haviam tornado furtivo e subreptcio. Ao subir os degraus do prtico ouviu vozes, Friel e a rapariga Warner! Morgan parou para escutar.
- Largue-me!... - protestava a rapariga, ofegante.
O som da queda de uma cadeira, rumor de passos rpidos e logo a voz enlouquecida de um homem:
- Marian, no compreende que estou apaixonado por si?
Morgan abriu a porta e entrou. Friel tentava enlaar Marian nos braos, e a jovem repelia-o com raiva.
- Ol! Desculpem-me, por favor... - disse Morgan com ar severo. - Estou a interromper uma cena amorosa?

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- No est!... - gritou Marian, furiosa, empurrando Friel com fora e libertando-se dele. Tinha as faces vermelhas e os seus olhos azuis chispavam. O peito arfava. Pela primeira vez Morgan, que s gostava de raparigas morenas, achou que ela era bonita.
- Ento?... - perguntou ele com fingida surpresa. - Que venho ento interromper?
- "Mr." Morgan, creio que deve ter compreendido claramente... - respondeu Marian.
- Uma tentativa de violncia, suponho eu... - comentou Morgan enquanto a jovem se interrompia, ofegante.
Friel olhou para Morgan com uma raiva mal contida. Era um homem alto, que ainda no atingira a meia idade, magro e nervoso.
- Olhe l, Morgan, anda mais uma vez nas suas velhas manobras de comprometer as pessoas?... - rouquejou ele.
- "Miss" Warner, a situao  grave mas eu considero que a menina no tem qualquer responsabilidade nela - disse Morgan, sem prestar ateno a Friel. - Onde est Blucher?
- Foi ao dormitrio da escola, para falar com "miss" Herron.
- Peo-lhe que v cham-lo. No lhe conte este desagradvel incidente. Deixe o caso comigo, e eu me encarregarei de fazer com que se no repita.
Quando Marian saiu, Friel abandonou a sua atitude de irada contrariedade e teve um ataque de fria. Durante uns momentos perdeu a cabea, desgrenhado e agitando os braos com desespero, sufocado pela raiva.
- Friel, isto  uma acusao sria... - declarou Morgan.
- O inferno o confunda! Faa o que quiser! Prepare um dos seus infames sarilhos!"... - exclamou Friel em voz rouca e sibilante. - Sim, eu estou a v-lo agir! Voc agarra-se a tudo para levar a cabo os seus propsitos miserveis!... Eu amo honestamente esta rapariga. Quero casar com ela.

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Voc interrompeu-me quando eu estava a tentar convenc-la. Foi isso o que se passou - e nada mais!...
- Friel, eu gostava de poder acreditar nisso que diz... - respondeu Morgan em tom sarcstico - ... mas as afirmaes de "miss" Warner provam claramente que voc  um intrujo... ou que perdeu a cabea.
- Com seiscentos diabos! Ela  que tem mau gnio, digo-lho eu! Ela bem sabia que eu no queria fazer-lhe mal... - protestou Friel.
- Suponha que eu requeiro uma investigao pelo Conselho das Misses!? Se a "miss" Warner testemunhasse as suas convices e eu contasse o que vi - voc ficava metido numa sria complicao, no ficava?
Friel relanceou para Morgan um olhar de compreenso, penetrante e malvolo mas de algum modo impotente. Ento a sua atitude modificou-se por completo. Era evidente que tinha sido surpreendido por Morgan numa atitude violentamente apaixonada mas que ele no considerava criminosa, e depois, naturalmente, enraivecera-se. De repente ps de lado a irritao excessiva e os seus impulsos furiosos.
- Investigao?... - repetiu ele em voz baixa. - Voc no promoveria uma investigao a meu respeito...
- Eu tenho sido seu amigo. Tenho-o conservado aqui, na reserva. Este seu procedimento no  digno de um missionrio, e a sua atitude para comigo tambm no me agradou especialmente. Posso de facto promover uma investigao.
- Voc pode!... - volveu Friel, com sarcasmo. - Pode mas no o far, pelo menos enquanto eu estiver do seu lado, no  isso?
- Precisamente. Recorda-se certamente daquela pequena irregularidade que praticou a respeito dos testemunhos - aquelas impresses digitais dos ndios que obedeceram s suas ordens sem saberem que estavam a dar-lhe posse das terras e da gua que eram deles?

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Terras e gua que voc registou em seu nome, no foi?
- Sim, lembro-me. Mas tambm me lembro claramente que a ideia no partiu completamente de mim...
- Isso no pode voc provar... - retorquiu Morgan secamente. - Por isso acho que andar com juzo se se mantiver do meu lado. A vem Blucher. Nem uma palavra a este respeito!
Morgan fechou a porta do gabinete privativo de Blucher. Um relance de olhos bastou-lhe para ver que o agente se encontrava possudo de um dos seus tortuosos estados de esprito.
Blucher era um tipo forte, plido, de cara larga e com o aspecto de intolerncia peculiar de certos germnicos.
- Que lhe aconteceu?... - perguntou Morgan, baixando a voz.
Os olhos cinzento-azulados de Blucher pareceram dilatar-se, ao mesmo tempo que brilhavam como chispas.
- E que aconteceu, a si?... - perguntou ele, com uma gargalhada. - Voc parece to excitado como eu.
- Fale mais baixo... - respondeu Morgan, olhando significativamente para a porta que comunicava com o gabinete onde trabalhava Marian. - No tenho confiana nessa rapariga. Um dos meus "Nokis" disse-me que a viu em Castle Rocks, a falar com o tal ndio universitrio. Se isso  verdade, h muita coisa que eu comeo a compreender. Mas no tenho a certeza. O "Nokis" estava longe demais para poder reconhec-los com segurana. No entanto  preciso cautela.
- Suponha que eram realmente eles?... - disse Blucher, interessado.
- Foi esse ndio universitrio que raptou Gekin da escola.

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Blucher estremeceu bruscamente.
- Como sabe isso? Quem lho disse? Quem...
- No se preocupe com a origem das minhas informaes. Eu sei... e isso basta.
- Mas o que voc sabe no me satisfaz a mim... - declarou Blucher friamente. - Aprecio "miss" Warner.  uma excelente rapariga e no vejo razes para lhe procurar defeitos que no tem. Alm disso  de um grande auxlio para mim. Far-me-ia falta.
- No estou a sugerir que a ponha a andar... - concordou o missionrio. - Se ela tem assim tanto valor, aproveite-se dos seus servios - at sabermos ao certo quem ela . E entretanto acautele-se.
- E de que maneira quer voc adquirir essas tais certezas a respeito dela? Tommos conhecimento do que diziam algumas das suas cartas, e no encontrei nelas nada de suspeito. Penso que voc exagera as suas precaues.
- No exagero. Essas cartas deram-me uma ideia. Ela vivia em Filadlfia e passava sempre o Vero na praia. Nas cartas referia-se a jogos de "base-ball" a que tinha assistido. Soube agora que esse ndio foi um dos mais famosos atletas universitrios de todo o Leste.
- O ndio?
- Sim, o ndio... - confirmou Morgan. - No me esqueo to depressa da amostra que ele me deu dos seus talentos. Esse "Nopah"  inteligente. Pois bem, acho possvel que "miss" Warner o tivesse conhecido no Leste. Hei-de escrever para um amigo meu, em Filadlfia, a pedir-lhe informaes. Interessa-me sobretudo saber se este "Nopah" jogou "base-ball" nalgum desses campos desportivos da praia, durante o Vero.
- Porque no havemos de resolver o problema atacando-o de frente?... - disse Blucher, com impacincia. - Voc trabalha sempre na sombra.
- Nunca  bom mostrar o nosso jogo.

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- No estou para perder tempo e oportunidade. Vou mandar chamar "miss" Warner... - ripostou Blucher.
O missionrio levantou a mo num gesto de aviso, detendo o agente.
- Espere um momento!...
Pensou, franzindo os sobrolhos espessos num esforo visvel de ateno. Depois disse:
- Est bem. Mande-a chamar mas deixe que eu a interrogue. Veremos o que sai daqui.
Blucher correu o fecho da porta, abriu-a e chamou:
- "Miss" Warner, pode vir aqui, por favor?
Marian entrou, calma e natural, mas um bom observador poderia notar-lhe uma ligeira contraco dos maxilares, um brilho mais atento nos seus grandes olhos azuis. Morgan notou esses pormenores. Fitou-a com seu olhar gelado.
- "Miss" Warner, nega ter relaes de amizade com esse estudante universitrio, Nophaie... e encontrar-se secretamente com ele?
O tom doirado da pele de Marian pareceu esbater-se, deixando uma leve mancha plida na sua frente. Respirou mais profundamente. Depois corou com intensidade e os seus olhos chisparam, como durante o incidente com Friel. Ergueu a cabea, num ar de desafio.
- "Mr." Morgan, devo compreender que sou uma espcie de serva a quem o senhor pode permitir-se fazer perguntas de carcter pessoal?
Morgan teve um gesto da mo, para indicar a Blucher que podia mandar sair a jovem. Manifestamente a resposta bastava-lhe.
- Responde negativamente?... - interps Blucher.
- No nego seja o que for que "Mr. Morgan afirme ou sugira... - respondeu a jovem com altivez.
- Muito bem. Isso basta - disse Blucher, despedindo-a com um aceno e fechando a porta logo que ela saiu.

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Morgan fez-lhe um sinal para aproximar a cadeira da dele, e sussurrou:
-  pior do que eu supunha. A sua carinha de boneca  de uma mulher inteligente. Encontra-se com o ndio. Talvez gostem um do outro. Mas ela no  o que parece.
O agente coou o queixo e envolveu o missionrio num olhar de aborrecimento e de repugnncia.
- Morgan, voc procura podrido em cada homem e em cada mulher, porque o seu esprito  podre tambm... - disse ele. - No acredito no que voc pensa a respeito de "miss" Warner.
Morgan teve um breve sobressalto, como se o sangue lhe fervesse subitamente nas veias. E o olhar sombriamente frio que fitou em Blucher seria o bastante para dar que pensar a uma criatura menos rude do que o agente.
- Eu encontro habitualmente o que procuro... - respondeu ele. - Deixemos por agora o caso de "miss" Warner. O que h a respeito de Wolterson?
O agente abriu a gaveta da secretria e tirou de l algumas cartas e outros papis.
- Wolterson est quase pronto para ser posto ao largo daqui... - disse Blucher com aspereza. - Todos os meus relatrios chegaram ao seu destino. Aqui est a cpia de uma carta para Wolterson, do Comissrio Salisbury do Departamento do Interior, em Washington.
Blucher abriu um papel manuscrito a lpis, e leu:


Robert Wolterson,

Ao cuidado do Superintendente da Escola ndia de Mesa.

Caro Senhor,

Os relatrios aqui recebidos indicam que os seus servios como Inspector de gados esto longe de ser satisfatrios;

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que lhe falta energia e iniciativa: que se gaba de poder viver sem trabalhar; que est completamente desinteressado dos seus deveres e no tem o menor cuidado na boa execuo dos Servios; que passa o seu tempo na ociosidade, passeando em volta do seu escritrio, nos armazns dos vrios negociantes locais, ou viajando para divertir-se; que quase invariavelmente se deixa ficar na cama muito tempo depois de os outros empregados terem comeado a trabalhar; que no cuidou dos cavalos reprodutores, da Agncia, que esto a seu cargo, e que em consequncia disso morreu um dos animais; que em razo da sua negligncia morreram tambm algumas rezes novas. So-lhe facultados dez dias, a contar da recepo desta carta, para apresentar qualquer justificao, se puder apresent-la. E caso contrrio, ter de ser transferido ou demitido dos Servios. A sua resposta dever ser enviada atravs do Superintendente, indicando com exactido a data em que a entregar.

Respeitosamen te Otto Salisbury.


- Hum... - resmungou Morgan. - Isso tudo no constitui um caso muito grave contra Wolterson. Que respondeu ele, por seu intermdio?
- A resposta  demasiadamente extensa para ser lida. Leve esta cpia. Uma coisa  certa,  que Wolterson devolve as acusaes e quase consegue provar o que afirma. Alm disso estabeleceu contactos com amigos influentes, no Texas, um dos quais  Senador. O melhor que podemos esperar  que ele seja transferido para qualquer outro ponto da reserva.

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- Isso j servir. O que no queremos  que seja feita uma investigao, aqui. Wolterson  esperto bastante para trazer c esse universitrio, com uma quantidade de outros "Nopahs" que sabem coisas... Esse ndio, e Wolterson, e a mulher de Wolterson... e "miss" Warner - todos eles formam um grupo contra si.
- Se  contra mim porque no h-de ser contra si?... - perguntou Blucher, duramente.
Morgan agitou a mo num gesto de descaso, singularmente expressivo.
- Voc  apenas o Superintendente.
- E voc tem a Velha Lei pelo seu lado, no ?... - perguntou Blucher, com desprezo.
- Sim, tenho, tenho, TENHO!... - respondeu Morgan, num "crescendo" de voz.
- Missionrio Morgan, voc acredita realmente nas coisas que diz?...
- Sei!... - ripostou Morgan em tom definitivo.
- O diabo que o leve!... Voc e as coisas que voc sabe ho-de ir para o inferno qualquer dia... e quanto mais tempo c estiver maior ser o trambolho.
- Talvez... mas voc no h-de estar aqui para gosar o espectculo... - volveu Morgan. - Estamos a afastar-nos do assunto... Acho que devemos apresentar outras acusaes contra Wolterson. Sugiro-lhe que o aponte como envolvido neste caso de Gekin Yashi.
- No h-de ser preciso. Wolterson ficar arrumado quando eu aprovar a sua transferncia. Eu propus a demisso dele, mas isso era ir um bocadinho longe demais.
- Era o que ele precisava... - disse Morgan pensativamente, de olhos perdidos no espao. - Antes de tratarmos do caso do Do Etin, temos de arrumar esse assunto dos rapazes ndios que entraram de noite no dormitrio das raparigas.
- Isso no  da minha competncia?... - perguntou Blucher.

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- Ser voc o superintendente da escola e da reserva?
A resposta de Morgan no foi afirmativa nem negativa. Ficou a estudar em silncio a cara do agente.
- Eu sei a verdade a respeito disso... - afirmou lentamente Blucher.
- Como soube? "Miss" Herron contou-me tudo quanto sabia, antes de voc ouvir sequer falar no assunto.
- Voc imagina que ela lhe contou tudo... - respondeu Blucher, com certa dose de malcia. - Mas a verdade  que no contou. Eu creio que ela tem alguma coisa a ver com essas entradas dos rapazes no dormitrio.
Foi a vez de Morgan mostrar incredulidade e espanto.
- Eu conhecia "miss" Herron antes de ela ser dirigente nesta escola... - declarou ele, como se a simples afirmao desse facto exclusse qualquer possibilidade de culpa.
O superintendente ficou a olhar para ele, e depois largou-se a rir. Era evidente que a entrevista tinha tambm os seus lados cmicos.
- Que tem isso que ver com o caso?
- Tem tudo... - replicou Morgan. - Confiei a "miss" Herron o dever e a responsabilidade de olhar pelo comportamento moral das raparigas estudantes.
- Ora! Porque diabo voc no chama as coisas pelos nomes que tm, pelo menos quando fala comigo?... - disse Blucher. - O que voc quer dizer  que essa especial criatura recebeu da sua mo o lugar que ocupa, e que, portanto,  responsvel perante voc. Responsvel perante voc, sim, pelo comportamento moral das rapariguinhas ndias - e pela apresentao de relatrios completos sobre o que se passa, de maneira que voc esteja sempre bem informado.
Morgan fez um gesto de incompreenso, como a querer dizer que as palavras de Blucher eram chins para ele.
- No posso provar seja o que for a respeito de "miss" Herron,

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naturalmente, e por isso  intil expor-lhe as razes que tenho para dizer o que digo.
- No  intil!... - respondeu Morgan duramente. - Eu sou responsvel por "miss" Herron, e qualquer palavra dita contra ela tem de ser apoiada em factos.
Blucher no era tolo ao ponto de no reconhecer que o missionrio o dominava. Mas a sua impotncia em face dele tambm no era devida a falta de coragem ou de desejo de resistir. Havia qualquer outra coisa.
- Factos? Pois bem, o primeiro facto que eu averiguei  que essas visitas nocturnas j duram h algum tempo.
- Quanto tempo?
- Desde que voc comeou a mostrar interesse em Gekin Yashi... - respondeu Blucher, significativamente.
A significao que poderia haver, no entanto, escorregou sobre a couraa de indiferena do missionrio.
- Sim? Ento h uns seis meses.
- Isso. Voc sabe que foi "miss" Gale quem provocou as investigaes, informando-nos de que Gekin Yashi tinha aparecido uma noite no seu quarto, a pedir-lhe proteco. Isso aconteceu alguns dias apenas depois da data em que Gekin Yashi foi trazida novamente para a escola. Agora Gekin Yashi disse-me que, por vrias vezes, antes de ela ter sado da escola para ir visitar o pai, tinha sido obrigada a refugiar-se, de noite, no quarto de "miss" Herron... No acha divertido que a sua zelosa dirigente no tenha apresentado um relatrio sobre o assunto... ao superintendente da escola?
Se Morgan fez algum esforo para impedir que a sua cara trasse os seus pensamentos, esse esforo no foi completamente bem sucedido. Blucher tirou um charuto da gaveta, acendeu-o e ficou a lanar baforadas de fumo para o ar, ao mesmo tempo que observava o seu visitante.
- Morgan, eu sei que voc e muita outra gente me julgam um cabea de pau... o que supem corrente entre os
alemes... - continuou Blucher. - Mas no sou to duro que no veja as coisas... Eu suspeito, note bem, suspeito que "miss" Herron no passa as suas noites acordada a orar pela proteco das garotas ndias... especialmente de Gekin Yashi. Sei, sem sombra de dvida, que "miss" Herron ficou satisfeitssima quando Gekin Yashi desapareceu. E sei tambm, da boca da prpria "miss" Herron, que ela reprova fortemente o regulamento novo, que obriga as pequenas ndias a irem  sua capela... Alguns destes factos so elucidativos para si?
- No particularmente... - respondeu Morgan, respirando fundo. - Mas o que se passa com esses jovens ndios prova que eles so pagos e que continuaro a s-lo at que se tornem cristos.
- O que nunca suceder... - declarou o superintendente.
O missionrio no estava couraado contra aquela negao, claramente afirmada, de todo o seu trabalho no campo religioso.
- Tenho muitos convertidos!... - afirmou ele altivamente, sentindo o sangue a latejar nas fontes.
- Morgan, os seus convertidos so iluses do seu esprito frtil... - volveu Blucher com desprezo. - Voc mostra um papel a um ndio e finge ler coisas que l no esto escritas. Depois diz-lhe: "Voc no aprendeu com os meus sermes? Voc no acredita no meu Deus?... "O ndio responde: "Sim"... O que ele quer dizer  "Sim, eu no aprendi"... Mas voc manda-o pr o dedo sujo de tinta sobre o seu papelucho... e envia o dito papelucho para a Igreja, ou para as Misses, como prova do seu zelo.
- Blucher, o que voc pensa de mim, ou o que eu penso de voc, no est agora em causa... - disse Morgan pausadamente. - A pouco e pouco acabaremos por chocar um contra o outro...

210 - 211


mas por agora temos coisas mais srias que tornam necessrio que nos entendamos.
- Sim, bem sei... - resmungou Blucher. - E detesto ter de tratar disso.
- Se no d um exemplo com os casos de Do Etin e de Nophaie, a sua autoridade nesta reserva acabar por completo... - declarou Morgan, com veemncia. Emanava dele uma fora singular, como que a irradiao de um enorme poder de vontade.
- Diabos levem esse velho ndio!... - exclamou Blucher, numa sbita exaltao. A sua cara parecia a de um "bulldog". - Ou ele obedece ao regulamento, ou... eu...
- Voc nada conseguir dele... - atalhou Morgan. - No conhece os ndios. Do Etin permanecer fiel  sua palavra. Nunca consentir que Gekin Yashi v  minha igreja.
- No o censuro por isso!... - retorquiu Blucher, brutalmente. - Gekin Yashi no me interessa. Mas esse Do Etin atreveu-se a resistir-me. No me obedeceu. H-de conseguir que eu passe por um tipo fraco aos olhos dos ndios. Mas que fazer, para dar um exemplo?
Morgan debruou-se sobre o outro, murmurando entre-dentes. - Mande Rhur, o polcia, Glendon e Naylor, de noite, para prender Do Etin. Do Etin no quer obedecer ao novo regulamento oficial. H-de oferecer resistncia aos captores.
- Desta vez estamos de acordo... - disse Blucher, em resposta. - E a respeito do tal universitrio?
Morgan fez estalar os dedos, sacudindo a mo diante do olhar espantado de Blucher.
- Esse ndio  o homem mais perigoso da reserva, seja branco ou vermelho... - sibilou o missionrio. - Deixe-o
comigo.
- Caso arrumado!... - respondeu Blucher.

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- Mande os seus homens tratar de Do Etin, esta noite mesmo... - acrescentou Morgan.
- Sim, quanto mais cedo melhor. E o novo regulamento vai entrar imediatamente em vigor...
Morgan encaminhou-se apressadamente para casa, ao longo da avenida. Seguia como um homem ao qual seria perigoso encontrar numa rua estreita. Parecia nada ver, alm da areia que os seus ps pisavam com fora.
O ndio que ele esperava encontrar, estava no seu gabinete - "Noki", um homem alto, magro, de pele muito escura e corredio cabelo preto, com olhos estranhamente penetrantes. O ltimo servio que esse ndio prestara a Morgan, tinha sido o de trazer Gekin Yashi novamente para a escola. Era, desde h muito, um instrumento do missionrio, e um espio s ordens dele.
Morgan agarrou-o por um brao e f-lo sentar-se no div. Depois ficou de p de frente do ndio, dominando-o, fitando-o duramente, de cima para baixo.
- "Noki", esta noite podes pagar toda a tua dvida ao homem branco que  o homem de Deus... Vai ao "hogan" de Do Etin. Deves l chegar exactamente ao escurecer. No te mostres aos homens brancos que l iro, mas deixa que os ndios te vejam. Espreita esses homens brancos quando eles entrarem no "hogan" de Do Etin. V se consegues aproximar-te para ouvir o que eles dizem. A escurido ajudar-te-. Escuta o que disserem. E espreita... observa todos os movimentos deles. Quando os brancos sarem de l, vem dizer-me tudo o que se passou.
Os olhos negros do ndio tiveram um brilho que revelava mais alguma coisa do que simples compreenso. No eram os "Nokis" inimigos hereditrios dos "Nopahs"?

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Durante muito tempo depois da partida do ndio, Morgan ficou no seu gabinete, imvel, mergulhado nos seus pensamentos, os sobrolhos contrados a formarem um n espesso de cabelos rijos. O que o fazia permanecer ali era um hbito do seu esprito intrincado e tortuoso - um recurso  sua engenhosidade para estudar todos os possveis ngulos dos problemas, todas as suas repercusses e aspectos em relao ao futuro, a fim de se preparar contra o inesperado, de esconder as suas maquiavlicas combinaes estratgicas - de satisfazer um monstruoso egotismo. Na conscincia daquele homem de Deus no havia sequer uma voz que protestasse, dbil embora.
Por fim levantou-se, murmurando:
- Desta vez vou liquidar Blucher, definitivamente.


XIII.


Morgan ficou acordado at muito tarde, nessa noite, esperando o regresso do "Noki" e as notcias que ele devia trazer acerca do que se teria realmente passado. Mas o ndio no apareceu, e Morgan chegou gradualmente  convico de que nada de especial ocorrera. Assim, perto da meia-noite, ps de lado a Bblia que tinha estado a ler e foi deitar-se. O seu sono no foi perturbado por visitas, nem por pesadelos.
Na manh seguinte, enquanto almoava, algum veio procur-lo - um homem idoso que tinha sido durante anos inspector agrcola em Mesa, por parte do Governo. O seu vulto baixo e anguloso parecia animado por uma rude vitalidade; as suas feies eram como uma histria resumida do deserto.

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- "Mr." Morgan, os "Nokis" de Copenwashie esto a tornar-me a vida num inferno de todos os diabos.... - comeou ele.
- Sim? E porqu? Peo-lhe que, quando falar comigo, no diga blasfmias.
- Estamos na estao seca. Todas as fontes secaram, menos duas. Os "Nokis" no tm gua bastante para a sua luzerna. Friel leva a gua em primeiro lugar, para as terras de que se apropriou.  por isso que os "Nokis" esto danados... e eu acho que eles tm carradas de razo.
- Porque vem dizer-me isso? Eu ocupo-me das almas dos ndios, no dos seus direitos  gua.
- Bem, mas as ocupaes de Friel referem-se todas  gua... - respondeu o velho, rudemente. - A minha posio  esta. Os "Nokis" so bons lavradores. Trabalharam a valer nos seus campos de luzerna... e eu no quero que aquilo se queime e fique perdido. Friel diz que eu no tenho que meter o nariz nos seus negcios... mas  preciso que os ndios tenham o maior quinho da gua que lhes pertence.
- Que lhes pertence? Porque diz isso?
- Os "Nokis" j estavam aqui antes de chegarem os "Nopahs" ou os brancos.
- Isso nada significa. A gua pertence ao Governo... e a propriedade de "mr." Friel, sobre as terras e a gua, foi-lhe garantida pelo Governo. Eu no posso intervir no assunto, mesmo que estivesse disposto a faz-lo.
- Friel no tem cavalos que estejam  mngua de gua ou de feno. Ele "vende" o feno. Pelo contrrio, os ndios necessitam de bom feno e de muita gua. No podem mandar os seus cavalos pastar para o deserto. Os "Nokis" so tambm carregadores. So eles que transportam os abastecimentos, de Flagerstown, e  assim que ganham a vida... No esto a ser tratados como deve ser...
- V ter com Blucher.

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- J estive com ele. No quis saber do caso e mandou-me para aqui. Parece-me que estava preocupado porque os seus homens tiveram de matar um ndio, esta noite.
- O qu? No ouvi falar nisso... - disse Morgan sem demonstrar qualquer interesse no caso. Parecia no reparar nos olhos cinzentos do homem do deserto, fitos sobre ele.
- Bem, parece que a coisa foi provocada por um regulamento ou l o que , feito por Blucher... - continuou o velho. - Do Etin no quis sujeitar-se, segundo me contaram. Quando Rhur e os seus ajudantes, Glendon e Naylor, foram prender Do Etin, esta noite, o ndio resistiu... e eles tiveram de o matar.
- Foi uma lstima... - comentou Morgan, abanando gravemente a cabea. - Mas os ndios tm de aprender a obedecer...
- "Mr." Morgan, quer fazer o favor de dizer a Friel que d um jeito nessa histria da gua?... - pediu o velho, em tom srio. - Ele gasta mais do que a que precisa. E tem chovido muito pouco em Copenwashie.
- No. Se eu fizesse tal pedido isso significaria que partilhava da sua opinio sobre os desperdcios de gua feitos por "mr." Friel, o que no corresponde  verdade.
- Hum!... - resmungou o homem. E, sem mais palavras, deu meia volta e encaminhou-se para a porta. Foi-se embora.
Durante o dia Morgan ouviu vrias verses sobre a morte de Do Etin. Leu a breve comunicao de Blucher para as entidades oficiais em Washington; perguntou  angustiada "miss" Warner o que sabia sobre o caso; ouviu Rhur contar o que se havia passado, e falou tambm com Glendon. Mostrou-se profundamente preocupado quando encontrou Wolterson, o inspector dos gados, e interessou-se por conhecer o que ele tinha sabido acerca do caso. Todas as histrias eram substancialmente semelhantes, pois o polcia e os seus auxiliares tinham falado em primeiro lugar com Blucher,

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e s depois contaram o incidente aos outros funcionrios do Governo. No havia qualquer excitao, nem se faziam comentrios especiais. A morte de um ndio era coisa de pouca monta. Mas, quando Morgan perguntou a Jay Lord o que era que ele tinha ouvido, o homem acrescentou algumas palavras significativas  verso corrente da histria: - Bem, isto  o que "eles dizem!"...
Mais tarde, nesse mesmo dia, Morgan falou com o "Noki" no seu gabinete, tendo fechado cuidadosamente as janelas e as persianas. E, observando atentamente a face escura e quase impassvel daquele "Noki" que odiava os "Nopahs", Morgan escutou uma extensa narrativa, feita com a singular pormenorizao da exacta e subtil observao dos ndios, uma histria estranha e largamente diferente de todas as outras que contavam a trgica morte de Do Etin.
Era novamente noite, uma das noites fixadas para que as raparigas ndias, escolhidas por Morgan, fossem  capela ouvi-lo pregar. O missionrio no dominava ainda o dialecto dos "Nopahs"; apenas, a sua longa estadia na regio quase o tinha forado a aprender as palavras escassamente suficientes para se fazer compreender.
Ele falava para um grupo imvel, de faces escuras:
- Tm de aprender a obedecer-me... - dizia ele. - Os vossos parentes esto velhos demais para que possam aprender. Eles so ateus. O deus deles no presta. A religio deles no presta. Os vossos parentes no podem ir para o cu. Eles vivem na ignorncia e no pecado. Eles vo arder para sempre no fogo do inferno.
"Cu e inferno so stios. Muitas coisas que vocs agora fazem e acreditam ho-de fazer com que vocs vo direitas para o inferno quando morrerem,

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a no ser que aceitem a minha religio. Tal como vocs so agora, podem comparar-se a uma ferida grande e feia. O mdico da escola, o homem-medicina, d-lhes remdios, e vocs parecem ss, pelo lado de fora. Mas a ferida continua a existir debaixo da pele. Assim so vocs, raparigas "Nopahs", podres no corao. Vocs pensam que, se vestirem vestidos de cores para parecerem bem por fora, tudo estar certo. Por isso mesmo ho-de ir direitas para o inferno.
"Vocs devem esquecer as cantigas, e as legendas, e as oraes da vossa gente. Os ndios so ateus. Eles tm de aceitar as maneiras dos brancos, os fatos, os trabalhos, a linguagem, a vida e o deus dos brancos. S assim, talvez, algum dia os coraes dos ndios possam ser como os dos brancos.
Assim falou o missionrio durante uma hora, para o grupo imvel, de faces escuras. Depois despediu as suas ouvintes, mas,  porta, reteve uma delas.
- Gekin Yashi, tu ficas... - disse ele, segurando-a por um brao. - Eu vou pregar s para ti, para que tu possas espalhar as minhas palavras entre as tuas irms.
Mas aquela rapariga ndia no tinha uma face escura e imvel como as outras. Estava plida e agitada, embora bela nas suas feies, nos seus olhos negros, nos seus lbios vermelhos. Tremia enquanto o missionrio a levava de novo para dentro. Bruscamente ele empurrou-a para um banco e ficou debruado sobre ela, tenso, obcecado pelo seu fanatismo.
- Gekin Yashi, sabes que o teu pai morreu?... - perguntou ele numa voz rouca e spera.
- Oh! No... senhor!... - balbuciou ela, encolhendo-se como sob uma pancada.
- Morreu... foi morto a noite passada... morto porque quis lutar com os homens brancos que iam prend-lo. Mas foi o pecado que o matou. Ele no queria obedecer.

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O missionrio calou-se por um instante. A face moa e gentil de Gekin Yashi mudou lentamente de expresso... inundada de lgrimas que corriam dos seus grandes olhos trgicos... crispada pelo medo, pelo espanto, pelo desespero. Ento a sua cabea curvou-se.
- Tu fugiste para junto dos "Paiutes"... - continuou o missionrio. - Quem te levou?
Gekin Yashi no respondeu.
- Foi Nophaie. Ele vai ser morto a tiro, como o teu pai... a no ser que tu confesses O teu pecado... e depois aceites a minha religio... Fala! Foi Nophaie quem te levou?
- Sim... - murmurou ela. - Mas Gekin Yashi no pecou. Gekin Yashi  como a rapariga branca. "Sob a Roch"...
Ento o missionrio trovejou:
- Sim, tu pecaste! Toda tu s pecado! S a Palavra pode limpar-te. Deixa-me fal-la... rezar por ti... Eu hei-de salvar-te das torturas e do fogo do inferno... Treme de medo, Gekin Yashi! Ajoelha, filha de pago!... Abandona essa falsa religio da natureza!... Ama-me, a mim que sou o homem branco de deus!... Promete fazer o que eu te digo!
A rapariga ndia ergueu a face, ergueu as pequenas mos escuras que tremiam como folhas sob a tempestade.
- Gekin Yashi... promete - disse ela, numa voz quase extinta.


XIV.


Marian, enquanto esperava a demisso que devia chegar a cada momento, continuava a trabalhar como se nada de especial tivesse acontecido. Mas em realidade j no tinha qualquer interesse que a prendesse o seu trabalho, a no ser uma curiosidade mrbida em relao aos assuntos daquela escola governamental...

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e o seu fiel, teimoso, inquebrantvel desejo de ajudar os ndios.
Os ltimos dias de Outono arrastavam-se, o Inverno vinha perto - dias maravilhosos claros em que o deserto ia mudando lentamente de aspecto. s noites, o vento gemia em frente das janelas do seu quarto, ao passar entre as ramadas das rvores. Durante os dias o sol brilhava num cu limpo de nuvens, inundando o deserto de uma luz intensa que tudo iluminava".
Marian no voltou a Castle Rocks, no voltou a sentir a alegria excitante dos seus encontros com Nophaie. Nenhum deles tinha qualquer prova de que a vida de Nophaie estivesse em perigo, mas suspeitavam disso e ambos sabiam que a sua liberdade estava ameaada. Nophaie tinha-lhe escrito uma carta que enviara por intermdio de Withers, e outra que mandara por um pastor "Nopah". Ambas haviam sido entregues por Wolterson. Havia, nas palavras exaltadas de Nophaie, uma nota de amor e de desespero que lhe perturbou a alma - mas que era ao mesmo tempo inexprimivelmente doce. A ausncia desesperava Nophaie. Ele precisava de Marian, e Marian, na sua crescente ansiedade, ardia em desejo de ir ter com ele, de ser sua mulher. Mas, mesmo no seu desejo ardente, compreendia a nobreza do ndio e da sua atitude em relao a ela. Marian no era feita para viver num "hogan", para criar os seus filhos numa cabana de terra batida, como um troglodita. O seu amor por Nophaie havia sido acrescentado por um infinito respeito. Ele era em verdade um homem, e ela sentia em si mesma um apaixonado desejo de mostrar ao mundo at que alturas podia chegar um ndio! Havia de demonstrar isso de qualquer maneira que fosse, por ela prpria ou por intermdio de algum a quem contasse a sua histria. Nophaie, tal como ela, esperava o desenrolar dos acontecimentos, talvez o dia da sua demisso. Entretanto o dever dela era aguentar-se, manter-se corajosa e fazer a seu modo
todo o bem que pudesse. O que mais animava Marian era a certeza de que Nophaie ansiava por ela.
E assim foi esperando, e as semanas passaram. E, enquanto as semanas decorriam, foi alargando a sua experincia quanto s crianas ndias, o seu conhecimento das rodagens daquela mquina governamental foi crescendo aos poucos. Mas o ideal que ela to sentimentalmente alimentara, que to fortemente a impelira, foi esmorecendo como uma simples iluso, e as esperanas, que dia a dia a haviam encorajado, foram-se queimando, foram-se lentamente transformando em cinzas.
Entre ela e Gekin Yashi estabelecera-se como que uma estranha sombra, fria e escura, como aquela sombra que havia agora nos olhos negros da pequena ndia. Marian recusava-se a aceitar os receios que a sua inteligncia sugeria. As circunstncias haviam modificado as suas oportunidades de estar com Gekin Yashi. Eram agora raras. A inimizade de "miss" Herron no se escondia mais, e era difcil de combater. A dirigente dispunha de todos os poderes dentro da escola. Alm disso Gekin Yashi j no acolhia Marian com a tmida alegria antiga. A rapariga parecia ter envelhecido. Raras vezes erguia os olhos. S raramente Marian conseguia penetrar a sua reserva. Ouvia, mas no respondia. Marian no voltou a magoar Gekin Yashi, falando-lhe de Nophaie. E outra reaco reveladora, de Gekin Yashi, foi a sua resposta a um dos apelos de Marian: "- Agora nunca ningum me diz coisas boas...". Marian perguntava a si mesma se o estado de esprito de Gekin Yashi era consequncia da morte de seu pai.
Enquanto o Inverno se aproximava e a guerra da Europa estendia mais e mais as suas garras sobre o mundo, especialmente na direco dos Estados Unidos, Blucher ia-se deixando possuir, flagrantemente, por uma crescente obcesso quanto aos direitos da Alemanha. Marian, que dactilografava muitas das cartas do agente,

220 - 221


notava que ele se esquecia cada vez mais de pormenores sobre pequenas coisas. Era-lhe difcil concentrar o esprito nas tarefas relativas  reserva, e mais ainda resolver qualquer problema. Assim foi-se tornando progressivamente descuidado e desatento, pelo menos no que dizia respeito a Marian. Perdera todas as cautelas, nas suas conversas fosse com quem fosse. Certa tarde estavam no gabinete de Blucher, cuja porta tinha ficado aberta, alguns funcionrios do Governo. HaViam chegado pelo correio notcias de vrios aspectos da guerra, quase todos eles favorveis aos alemes. A conversa tinha-se generalizado, bastante acalorada, at que Wolterson declarou :
- Havia de haver algum que desse um tiro nesse Kaiser...;
Blucher teve um sobressalto, como se lhe tivessem batido, e a sua cara tomou uma expresso de raiva concentrada. Berrou algumas palavras em alemo, e de sbito, ao ver que todos o fitavam com espanto, fez-se muito vermelho e exclamou com voz rouca, em ingls:
- Voc era capaz de matar o Imperador?
Wolterson respondeu na sua voz arrastada:
- Claro que sim... E voc no era?
- Certamente que no!... - rugiu Blucher. A resposta do texano, desta vez, foi rpida.
- Pois eu gostaria de faz-lo!
Blucher teve bruscamente a impresso de ver em Wolterson alguma coisa profundamente mais antagnica do que as pequenas divergncias sobre os interesses das reservas governamentais para os ndios.
Marian no conseguiu ouvir o que Blucher retorquiu, se  que chegou a retorquir, nem viu qual era a sua atitude. No entanto, a partir de ento, notou uma visvel mudana no agente. Uma tremenda fora mudara a direco do seu esprito; toda a sua fraqueza parecia ter desaparecido. Marian meditou sobre esse facto, e tambm sobre uma observao que Wolterson lhe fizera:

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"Se o velho Tio Sam declara guerra  Alemanha, a vida nesta reserva vai tornar-se um inferno autntico..."
Entretanto, com o correr do tempo, as observaes e as convices de Marian foram-se tornando progressivamente mais profundas. Quantas coisas teria para contar a Nophaie, quando se encontrassem!
Morgan era um mestre no jogo maquiavlico da poltica. Muitos dos funcionrios, embora corajosos bastante para fazerem objeces a algumas razes extraordinrias apresentadas aos ndios, no eram inimigos de Morgan. Na ausncia do agente algumas raparigas tinham sido levadas para fora da reserva e enviadas para outras escolas, em outros estados. Morgan tinha sido repetidas vezes visto na escola, em stios isolados, conversando gravemente com inimigos de Blucher.
O facto entre todos mais significativo era o de todas as cartas escritas para Washington, ou para o Conselho das Misses, ficarem sem resposta, por nunca chegarem a ser recebidas pelas entidades oficiais s quais se dirigiam. O chefe de todos os "Nopahs", um ndio notavelmente inteligente, escrevera para Washington, por intermdio de um intrprete, narrando e demonstrando factos importantes para a reserva e para o Governo. E conclua a sua carta de que Marian lera uma cpia e considerara um documento notvel com esta pergunta: "Esta reserva  realmente uma reserva para os ndios?"... Nunca foi recebida qualquer resposta.
Marian tinha grande dificuldade em compreender a profunda e verdadeira significao da religio dos ndios. Os "Nopahs" oravam ao Sol,  Lua, s Estrelas, ao Vento, ao Trovo e ao Relmpago - tudo o que excedia o seu entendimento,

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e que eles representavam por smbolos. Eles reconheciam o invisvel poder que todos os dias enviava o sol, os ventos frios e quentes, e todos os fenmenos da natureza. Eles ouviam expor a ideia de que Deus era uma pessoa que existia num determinado lugar, mas argumentavam que, havendo um deus pessoal e um paraso material, deveria haver um caminho que para l conduzisse. Eles acreditavam que havia uma vida fsica para os espritos dos bons - e isso explicava o ritual de fazerem acompanhar os mortos pelo seu melhor cavalo, rdeas, sela, cinturo, ornamentos e armas. Utenslios de todas as espcies eram enviados tambm - os espritos desses utenslios - porque tudo que acompanhava o morto tinha de ser tambm morto, ou destrudo, para poder realmente acompanh-lo. Os "Nopahs" acreditavam que os espritos dos maus se introduziam nos animais da terra - os "coyotes", os ursos, os pumas e as serpentes -- e era por esse motivo que os ndios raras vezes ou nunca matavam esses animais.
Embora a curiosidade de Marian fosse atenta e aguada, ela evitava algumas coisas que lhe seria fcil observar. Por outro lado havia incidentes que ela no tinha interesse em ver, mas que no podia evitar. Durante uma das suas pregaes do meio da semana, Morgan bateu nos rapazes ndios que no se conservavam quietos enquanto ele ridicularizava as crenas do seu povo. Muitas vezes ele levava as crianas  dirigente, com indicaes para que fossem castigadas. Marian havia observado alguns dos processos de castigo de "miss" Herron. Obrigava as crianas a dobrar-se para a frente, com as mos a tocar no cho, ou a permanecer de p, com os braos para cima, durante tanto tempo quanto pudessem suportar. Eram frequentes os desmaios entre as raparigas castigadas daquela maneira. Um dia, alguns garotos ndios atravessaram a correr o prtico da casa de Blucher. Marian viu o agente precipitar-se, apanhar um deles, derrub-lo,

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e dar-lhe pontaps enquanto ele estava no cho. O garoto levantou-se com grande dificuldade.
Outro dia, no princpio de Dezembro, quando, apesar do sol brilhante, havia lminas de gelo ao longo das valas de irrigao do pomar, Marian passou por acaso em frente da porta da cave de um dos armazns, e viu l dentro dois pequenitos ndios que escolhiam batatas de um grande monte. A cave era extremamente fria e as batatas estavam cobertas de geada. Os garotitos, magros e mal enroupados, tremiam tanto que nem podiam falar, e mal conseguiam segurar as batatas nas mozitas roxas. Marian levou-os para a casa das caldeiras, a fim de que eles aquecessem um pouco. Blucher repreendeu-a asperamente por isso.
Por um processo de eliminao, Marian conseguiu reunir algumas provas de certos aspectos, benficos para os ndios, da educao obrigatria que lhes era imposta. Talvez, em cada cem estudantes ,noventa e nove regressassem  antiga vida, aos "hogans" e aos rebanhos. Mas de qualquer maneira eles levariam consigo ideias de uma existncia melhor, de melhores mtodos, de melhor administrao das suas coisas. Poderiam entender ingls e ficavam a saber o valor das moedas e das trocas. Assim, quer eles apreciassem o facto, quer no, estariam de algum modo mais bem equipados para tratar com os homens de raa branca. Essas vantagens, entretanto, eram de somenos, especialmente no que se referia s raparigas ndias, comparadas com as desvantagens do ensino obrigatrio da escola. Marian inclinava-se cada vez mais para a convico de que todo o sistema das reservas e das escolas governamentais estava errado.
Essas semanas de relativa inaco para Marian, a escassez das notcias de Nophaie e a aparente indiferena de Blucher,

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e de Morgan quanto  sua presena como funcionria do Governo, de nenhum modo diminuram os receios da jovem ou a certeza da sua prxima demisso. Os poderosos estavam ocupados com assuntos de maior importncia. Marian sentia-se enervada e triste, perturbada por estranhos pressentimentos, impossveis de definir. Sentia que qualquer coisa estava para acontecer.
E uma manh, quando "miss" Herron, a face dura agitada e coberta de intensa palidez, entrou a correr na sala onde ela trabalhava, Marian sentiu um choque. Os seus pressentimentos no a haviam enganado.
A dirigente precipitou-se para o gabinete de Blucher, cuja porta estava aberta.
- Onde est Morgan?... - perguntou ela em voz aguda. - No consigo encontr-lo!
- Que aconteceu?... - disse Blucher, franzindo as sobrancelhas numa expresso de enfado por aquela intruso.
- Esse ndio universitrio... entrou  fora na sala de aulas!... - ofegou "miss" Herron. - Assustou-me... mortalmente! Arrastou Jekin Yashi para o vestbulo e... e est... a falar com ela! Ouvi-o pronunciar... o nome de Morgan... e fugi... corri a casa dele..., para o avisar... Oh! Esse ndio tinha um ar terrvel...
- Nophaie!... - exclamou Blucher. Era evidente que esse nome lhe lembrava ideias pouco tranquilizadoras. Parecia apavorado. Quando "miss" Herron se preparava para sair a toda a pressa, ele deteve-a. - Fique a onde est e cale a boca!... - bradou, ao mesmo tempo que pegava no telefone.
Marian havia ficado to surpreendida que no se movera do stio onde estava quando "miss" Herron entrou. Passos rpidos e furtivos, que ela reconheceu serem os de Morgan, deram-lhe novo choque. Ento o missionrio entrou. Era evidente que ele no sabia da presena de Nophaie, mas a atitude de Marian e o facto de ver "miss" Herron no gabinete de Blucher deram-lhe a conhecer que alguma coisa de grave se passava.

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- O que h, porque est voc aqui?... - perguntou ele, entrando no gabinete.
- Cale-se!... - gritou Blucher. - Morgan, vai haver o diabo. O tal ndio universitrio est na escola... com Gekin Yashi!... All! Sim,  Blucher quem fala! Onde est Rhur?... No est a?... Onde est?... Encontrem-no depressa!
Blucher poisou o telefone no gancho, com fora, e ficou a olhar para Morgan com os olhos muito abertos. Marian s podia ver parte da cara do missionrio, que tinha uma palidez lvida.
- Morgan, esse ndio est agora com Gekin Yashi... - disse o agente em voz rouca. - A sua amiga Herron ouviu-o falar em voc.
- Que... quer dizer com isso?... - perguntou Morgan com ar incrdulo.
- No sei, mas nem por um milho queria estar na sua pele... - ripostou Blucher, sarcstico. - Voc est armado?
- No!
- Bem, ento a velha Lei no vai estar agora atrs de si, nem  sua frente!...
- Fecha a porta!... - berrou Morgan, voltando-se bruscamente. Atirou com a porta e Marian ouviu a chave rodar na fechadura.
Marian avistou num relance a cara dele, antes que a porta se fechasse, e o que viu impressionou-a. Olhou atravs da porta exterior, para o ptio, na direco do dormitrio. Um ndio de alta estatura corria como uma flecha para o prtico dos escritrios do agente. Marian sentiu uma funda excitao. No tinha ela visto j aquela magnfica passada? O ndio era Nophaie, correndo como ela o vira fazer tantas vezes...

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correndo com a incomparvel rapidez que o havia tornado famoso. Antes que ela pudesse respirar duas vezes, ele alcanou o prtico e galgou os degraus num salto de pantera. Os seus ps calados com mocassins mal fizeram rudo ao tocar o cho. E ele encontrou-se em frente de Marian... com uma expresso assustadora. Um leno sujo, dobrado numa tira estreita e manchado de sangue que estava agora seco, envolvia-lhe a fronte e o cabelo negro. Os seus olhos pareciam atravessar Marian.
- Vi Morgan vir para c... - disse ele. - Esto aqui, ele e Blucher?
- Sim... - disse Marian num murmrio. - Esto alm, fechados. Nophaie! No deve...
Nophaie empunhou um revlver, que pareceu surgir-lhe bruscamente na mo, vindo no se sabia de onde, e saltando para a porta apoiou um p contra ela, com tremenda fora. A fechadura quebrou-se. A porta cedeu. Nophaie transps de um pulo o limiar.
Marian, subitamente galvanizada, correu atrs dele.
"Miss" Herron estava cada no cho, desmaiada. Blucher, sentado na sua cadeira, tinha a boca aberta, os olhos esbogalhados. O espanto cedera lugar ao medo. Morgan estava lvido.
Nophaie empunhava o revlver na mo direita, apontado para a frente. O co da arma, erguido, tremia quase imperceptivelmente. Com a mo esquerda, Nophaie tocou significativamente no leno sujo de sangue que lhe rodeava a cabea.
- No foram os assassinos de Do Etin que fizeram isto... - disse ele. - Por trs vezes procuraram apanhar-me, mas falharam. Foi o vosso "Noki" que me feriu, emboscado na trilha, por vossa ordem... Tenho uma confisso dele.
Nenhum dos homens pronunciou uma s palavra. A ameaa do ndio era clara, to inevitvel como terrvel.
- Morgan... resolvi obter tambm a confisso de Gekine Yashi.

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posso mat-los sem os escrpulos que a minha educao de branco me imporia.
Morgan abriu a boca, sufocado, e cambaleou contra a parede. Blucher, verde de medo, balbuciava incoerentemente.
Marian sentiu uma enorme opresso no peito. Mas essa mesma opresso pareceu impeli-la. De sbito ficou calma, deixou de sentir-se paralisada pelo pavor e teve a impresso de que alguma coisa ardia dentro dela.
- Vou mat-los, a ambos!... - disse Nophaie.
Marian fechou a porta por detrs dela e colocou-se entre Nophaie e os miserveis, olhando para estes. Sabia o que devia fazer, e sentia-se  altura do seu dever.
- Fiquem quietos!... - ordenou ela.
Voltando-se ento para Nophaie aproximou-se dele, apoiando uma das mos num dos seus ombros, baixando o cano da arma com a outra mo.
- No deve matar esses homens, Nophaie.
- Porque no? Os homens de Blucher, por ordem dele, mataram Do Etin. Morgan destruiu a alma de Gekin Yashi.
- Isso pode ser verdade... - respondeu Marian. - Mas no  de justia que se trata. Se os matar, Nophaie, prend-lo-o.
- Sim, se me apanharem. E eu gostaria ento de dizer, num Tribunal, quem eram estes homens.
- Nophaie, ningum o acreditaria, a no ser alguns, poucos, que no o poderiam ajudar.
- Ento mat-los-ei por vingana. Para vingar Gekin Yashi... e o meu povo.
- No, no! Nophaie est acima disso, tambm. No se deixe dominar pelos seus impulsos! No h qualquer "Bem" nesse gesto. O mal que estes homens fizeram trar com ele mesmo o seu castigo. No os mate!
- Devo mat-los. No h justia. O Governo dos brancos no  leal nem honesto para com os ndios. No o foi nunca,

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e nunca o ser. Ele no salvar os ndios! Estas reservas no so em verdade para os ndios. So terras desertas, vastides isoladas, onde alguns homens brancos levam o Governo a gastar quinze milhes de dlares... para que eles possam manter os seus empregos bem pagos e inteis... Os brancos educaram-me... e tudo o que eu aprendi me incita a matar estes homens. Devo mat-los.
- Mas Nophaie, eu amo-o!... - gritou Marian, desesperada pela fria verdade das palavras dele, pela sua clera justa e sem remorsos. - Voc , para mim, o homem! O meu corao ficaria partido se se tornasse um assassino... um fugitivo da justia... e se... se eles o enforcassem... eu morreria!... Meu Deus!... Nophaie, pelo meu amor, por mim... deixe viver esses homens. Pense no que significa para mim, Nophaie! Eu casarei consigo... irei viver consigo. Passarei toda a minha vida a ajudar o seu povo... se... se fizer o que lhe peo... se no derramar sangue!...
Envolveu-o nos braos, unida a ele, sentindo-se desfalecer ao cabo do seu longo e desesperado apelo.
Nophaie baixou lentamente o co da arma.
- "Sob a Roch"... - disse ele numa voz quase doce. - Segure isto por um instante, peo-lhe.
Marian recebeu a pesada arma com mos trmulas, tentando compreender qual era a inteno de Nophaie. Sentia-se exausta, angustiada. O aspecto de Nophaie, os seus modos, a prpria irradiao que dele emanava, haviam-se singularmente modificado. A fria de morte, esse qualquer coisa que momentos antes o possura e que o tornava to diferente da ideia que ela fazia dele, havia desaparecido. E agora, estranhamente, ele fazia-a pensar em Lo Blandy.
- Senhores, esta menina da vossa raa salvou-lhes a vida... - disse ele. - Eu tinha decidido mat-los... Mas nem o vosso Governo, nem o Deus que vocs fingem adorar, podem evitar o castigo do ndio.
Ento, num movimento brusco e incrivelmente rpido,

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num nico gesto em que parecia ter posto toda a violncia e toda a fora at ento contidas, levantou um p e bateu no ventre proeminente de Morgan. O golpe fez ouvir um rudo surdo, semelhante ao soar de um pesado tambor. Morgan foi atirado contra a parede onde a sua cabea chocou, e abriu a boca deixando escapar todo o ar dos pulmes. Caiu de joelhos, com uma careta horrvel, agitando no ar os braos gordos.
Logo a seguir, num nico impulso, Nophaie saltou sobre a secretria e caiu directamente em cima de Blucher, quebrando a cadeira e atirando o agente para o cho. Nophaie nem sequer se desequilibrou. Os seus movimentos eram de uma leveza, de uma agilidade e de uma harmonia maravilhosas.
Nem que se tratasse de salvar a sua vida, Marian poderia mover-se ou interpor-se. Sentia-se como sob o poder de um estranho, e novo, e terrvel encantamento. Nophaie, agora, no queria matar. Mas queria ferir, magoar. E essa certeza libertou o sangue nas veias de Marian, deixando-o circular livremente. Os movimentos do ndio fascinavam-na. Era quase estranho que ele no voltasse a bater em Blucher, que praguejava, raivoso e apavorado, tentando levantar-se. Mas no conseguia. Nophaie empurrava-o apenas com o p. De cada vez que o alemo se erguia sobre as mos e os joelhos, Nophaie abatia-o com um pontap certeiro. Batia-lhe e empurrava-o. Ento Marian compreendeu que ele estava a levar Blucher para junto de Morgan, que ao cabo de longas convulses parecia ter recuperado algum flego. Um pontap mais forte atirou o agente para cima do missionrio, que rolava por sua vez ao levantar-se. Rolaram ambos no cho.
- Na Universidade aprendi muitas das habilidades dos homens brancos... - disse Nophaie, com um humor amargo. - Uma dessas habilidades  a de dar pontaps. Os meus camaradas diziam

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que eu podia lanar uma bola de futebol mais longe e com mais fora do que qualquer outro atleta vivo. E agora, para no sujar as mos nuns animais to nojentos como vocs, volto a servir-me dos ps.
E, sem demasiada violncia nem demasiado rancor, continuou a jogar futebol com os dois homens at que eles se transformavam em dois farrapos sujos, sangrando pelo nariz. Bruscamente parou. Marian viu ento que "miss" Herron havia recuperado os sentidos e se soerguera do cho. Nophaie olhou para ela com a mesma repugnncia com que tinha olhado para os dois homens.
- Devia bater-lhe tambm... - disse ele. - Mas a minha educao de branco impede-me de o fazer... e quase tenho pena disso.
Depois, levando Marian para fora da sala, fechou a porta e tirou a arma das mos trmulas da rapariga.
- No esteja assustada, "Sob a Roch"... - disse ele, passando-lhe pela cintura um brao terno e forte. - Salvou-me uma vez mais. Nada posso fazer seno am-la mais por isso... e voltar para os meus desfiladeiros... No se importe com o que Blucher e Morgan possam fazer. So cobardes, ambos. No diro a ningum uma s palavra sobre o que se passou aqui. Se a despedirem v para casa do agente comercial. Peo-lhe... que fique na reserva ainda por algum tempo. Mande-me notcias suas por Withers. Adeus.
- Oh! Nophaie!... - bradou Marian, tentando recuperar o uso da voz.
Mas ele passara j para alm do prtico. Olhou para a direita e para a esquerda, desceu tranquilamente os degraus e encaminhou-se ao longo do ptio, em direco  estrada. Marian avistou o cavalo de Nophaie, que tinha ficado amarrado  vedao, junto ao porto do ptio. Esperava a cada instante ver chegar homens correndo de todos os lados. Mas nenhum apareceu. O corao de Marian retomou lentamente o seu bater normal. Viu Nophaie montar a cavalo e partir a galope.


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XV.


Na profundidade das gargantas de rocha, longe, sob a cpula branca de Nothsis Ahn, Nophaie escolhera o seu refgio numa das grutas quase inacessveis do Desfiladeiro das Muralhas Silenciosas.
Tinha levado provises de Kaidab, e antes de deixar o posto havia combinado que quaisquer cartas de Marian, bem como novos abastecimentos, seriam enviados uma vez em cada ms por intermdio de um "Paiute" de confiana.
O apelo de Marian, para que ele no se tornasse um assassino, era caro ao corao e  conscincia de Nophaie. E parecia-lhe que a nica maneira de no derramar sangue era esconder-se nos desfiladeiros, passar ali os meses de Inverno... e esperar. Pouco receava os polcias a soldo de Blucher. Nunca eles poderiam descobrir o seu refgio. Muito antes de atingirem a nica entrada do Desfiladeiro das Muralhas Silenciosas, perderiam qualquer pista que pudessem ter seguido. Entre o seu refgio e o planalto de Nothsis Ahn estendiam-se muitas milhas de gargantas labirnticas e a enorme extenso rolante do brao oeste das Rochas Andantes. No havia qualquer trilha sobre essas colinas de pedra. Os suaves declives varridos pelo vento no conservavam sinais de mocassins ou de patas de cavalos. Eram muitos os perigosos precipcios que se cavavam ao longo da nica passagem praticvel naquela regio de colinas de pedra esculpidas pelo vento do deserto. O ltimo "hogan" "Paiute" ficava a trinta milhas de distncia, em linha recta, na parte mais adiantada das terras altas, onde cresciam os cedros. E essas trinta milhas representavam trs dias de jornada dificlima, sempre a subir, a subir mais ainda desde as profundidades das gargantas de rocha.
Nophaie internou-se pelo recanto mais distante de uma das gargantas do vale; e a, naquela terra que os ps dos homens brancos nunca haviam pisado,

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sob as muralhas brancas e brilhantes que subiam para o cu, estabeleceu o seu acampamento. Era o melhor entre todos os lugares, para um ndio solitrio. As terras altas estavam agora entre as garras do Inverno. Naquelas profundidades a relva e o musgo eram ainda verdes, as folhas dos carvalhos, mais escassas, continuavam ainda doiradas sob a luz do sol, e outras ramagens se mantinham tambm, tenazmente vestidas nos seus tons outonais. Ainda havia flores nas vertentes onde o sol se atardava.  hora do meio-dia zumbiam as abelhas. Os troncos esguios que Nophaie preferia, destacavam-se, negros e altos, sobre os declives nevados de Nothsis Ahn. Mas no vale, "gahd", o cedro, floria ainda e conservava a sua verdura permanente. Pssaros azuis, sagrados para o ritual dos "Nopahs", desciam da montanha para viverem o Inverno naquele stio onde o calor do sol continuava a ser reflectido pelas altas muralhas. Outras aves enchiam os crepsculos de doce melodia. Pequenos pssaros brancos, de que Nophaie ignorava o nome, voavam entre os ramos debruados sobre a corrente murmurante, soltando aqui e alm um grito agudo e triste. E,, das covas e dos ninhos nas alturas da rocha, vinham as notas penetrantes da ave dos desfiladeiros, cujo voo mergulhante e rpido lembrava o silvar de uma flecha.
Nophaie havia pensado que, se alguma coisa podia ajud-lo na situao em que se encontrava, essa coisa era a comunho com a sua prpria alma, o domnio da sua personalidade fsica... ali, na sombra das muralhas silenciosas e solitrias. Se, na reserva, corria o risco de ser preso por agresso, pouco poderia fazer para continuar a trabalhar entre o seu povo. Para mais, o risco que corria era seguramente mais grave do que o de ser preso. A ferida que tinha sido feita pela bala traioeira do "Noki", apenas cicatrizara. Havia assim vrias razes para que a sua melhor deciso fosse a de ocultar-se, estar s... e esperar que o destino resolvesse o seu problema. Estaria a salvo dos seus inimigos;

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estaria livre dos frios do Inverno, que prendiam os ndios no interior dos seus "hogans"; poderia viver em completa liberdade naquele vale maravilhoso; poderia sonhar e meditar durante longas horas, face a face com a sua prpria alma, descobrindo-a a si mesmo, sentindo morrer dentro de si o seu dio selvagem... sentindo uma espcie de melanclica felicidade na doura do seu amor por "Sob a Roch".
O vale de Nophaie lembrava de algum modo a forma de um polvo gigantesco, fantstico. Apenas o corpo era estreito e encurvado, e os braos estendiam-se, abertos e distantes. Esse corpo tinha cerca de uma milha de comprimento, e os braos maiores eram muito mais compridos. Inumerveis ramificaes em menor escala rasgavam por toda a parte as penedias de rocha. Milhares de recantos e arestas desconhecidas, nunca pisados pelos homens, milhares de nichos, e gargantas, e cavernas e desfiladeiros em miniatura, existiam seguramente, perdidos nos labirintos do vale. O grande brao esculpido do desfiladeiro, que penetrava fundamentalmente no flanco de Nothsis Ahn, era em si prprio uma enorme garganta entre muralhas, abrindo-se largamente no ponto onde se unia com o corpo principal, ladeado por maravilhosas penedias rebrilhantes que ondulavam como vagas, em tons de vermelho e de amarelo, atravessando o vale para continuar mais alm, estreitando-se, erguendo as suas altas paredes para o cu. Atravs desse desfiladeiro deslizava a corrente de gua, sobre o seu leito de pedras. A cheia dessa corrente, ampliada pela neve derretida que descia na montanha, havia cavado um caminho profundo e sinuoso, arrastando milhes de seixos no seu caminho. Bancos de pedra, bancos de areia escondiam as suas superfcies brancas sob os seixos. rvores de ramos pendentes, que tinham crescido nas fendas da rocha, debruavam-se sobre a gua murmurante. Arbustos delgados, mato e relva cresciam em moitas, defendendo com impenetrveis barreiras os recantos selvagens.

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Naquele desfiladeiro pareciam ter-se concentrado muitas das foras dos elementos, dando-lhe um ar fantstico e bravio.
Nophaie sentia-se impelido a procurar, a explorar, a escalar... principalmente a escalar as alturas que sabia inacessveis, mas que o atraam como uma espcie de vertigem estranha. Todos os ndios gostam dos lugares isolados, abandonados. E Nophaie sentia-se igual s guias no seu amor pelos ninhos solitrios nas alturas, pelos largos espaos selvticos e abertos. As silenciosas muralhas que estavam perto dele no o fascinavam tanto como aquelas que se erguiam para o cu, sonhos de altura, longe demais, altas demais para que ele as pudesse alcanar. O tempo viria, seguramente, em que as poderia entender, ouvi-las falar. Essas muralhas de sonho tinham uma voz que no era s para o homem vermelho, uma voz que ia para alm... para toda a humanidade. Mas era preciso esperar, lutar pelo direito de as ouvir. A natureza guardava avaramente os seus segredos. Falava apenas para aqueles que sabiam am-la e entend-la.
O repouso e a calma voltaram a Nophaie, e ento os dias pareceram fundir-se uns nos outros, deslizar a caminho de um fim desejado e sem nome, a caminho da descoberta do futuro.
O dia tinha sido invulgarmente quente para aquela poca do ano. Ao pr do sol, quando Nophaie escalou a alta colina de forma cnica que se erguia no anfiteatro do vale, a superfcie da rocha estava quente. Ele podia sentir esse calor atravs dos mocassins! ou quando as suas mos, na subida, tocavam a pedra. O contacto era agradvel. O cu parcialmente encoberto e a ausncia de vento, haviam conservado o ar frio para alm da montanha.
Nophaie alcanou o cume arredondado da colina,

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e a estendeu-se sobre a rocha. Um zumbido de abelhas passou por ele, perdendo-se em direco  parte mais alta do vale, onde os cedros se erguiam. As infatigveis trabalhadoras aproveitavam bem a luz do dia.
O cu encoberto entreabriu-se levemente para oeste, apenas para tingir de um claro tom de rosa os pncaros nevados das montanhas. Atravs do desfiladeiro, para o norte, Nophaie entreviu vagamente a aresta cor de prpura de um planalto distante. O lento e longo crepsculo era uma das mais estranhas e belas caractersticas daquele desfiladeiro das Muralhas Silenciosas. O poente vinha cedo, por causa das altas penedias que escondiam o sol muito antes de ele mergulhar para alm da grande curva, a caminho do oeste. Assim a luz desmaiava lentamente, atardando-se. Nophaie olhava o esmaecer dos tons rosados, o subir das sombras cor-de-cinza. As coisas que ele desejava estavam ainda longe dele. Apenas lhe ficava a alegria estranha das suas sensaes.
Desceu a colina antes que a escurido envolvesse completamente o vale. Caminhava em passo leve, seguro como um gamo, deixando-se escorregar aqui e ali, descendo sempre para a ravina pedregosa onde a noite j se adensara por completo. Em baixo, perto da corrente, parou ao ouvir um som estranho, que era novo para ele -- o estranho coaxar dos sapos do desfiladeiro. O dia invulgarmente quente havia trazido uma iluso de Estio para as criaturas selvagens da solido das rochas. Mas o coaxar dos sapos era hesitante e fraco, como se eles estivessem apenas meio acordados. Emitiam sons roucos, sincopados, arrastados, cortados de longos intervalos. Depois faziam ouvir uma espcie de trinados, nem agudos nem doces mas de algum modo melodiosos. Com o vento frio da noite cessaram essas canes de um Vero tardio. Nophaie deixou de ouvi-los.
Mas o pouco que ouvira fora bom para ele.

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A noite escurecera por completo enquanto ele tinha estado sentado sobre uma pedra. Sentia-se penetrado pela tranquilidade triste daquela hora, e compreendia que teria ainda muitas horas como aquela - das quais podia vir algum alvio s suas penas.
Por cima da sua cabea a linha ondulante das colinas debruava-se, mais negra, e para alm delas recortavam-se as altas muralhas do desfiladeiro, irregulares, sobre o fundo do cu. No havia qualquer cintilar de estrelas no azul profundo, quase preto, do firmamento. Das sombras  sua volta subia um murmrio de msica - a doce cano da gua sobre as pedras. Esse murmrio acentuava a solido e o silncio daquele recanto isolado da terra. O povo de Nophaie, e o mundo dos homens brancos - pareciam-lhe distantes e desnecessrios para ele, naquela hora calma. O tempo vivido ali ensinaria a Nophaie a superfluidade de muitas coisas - talvez ele aprendesse a resignar-se  sua condio de infiel, talvez ele entendesse por fim a futilidade do prprio amor. As muralhas silenciosas, to semelhantes a imensas plpebras carregadas de sonhos, as sombras profundas, a recordao obcecante do coaxar dos sapos, o vento frio e leve que trazia um hlito de neve, a vasta amplido negra da montanha de rocha e o infinito cu que se estendia em cima, mais mstico e mais estranho sem a cintilao das estrelas - tudo lhe fazia sentir a pequenez das coisas vivas, a brevidade efmera e transitria da prpria vida.
As emoes de Nophaie foram-se tornando gradualmente mais profundas e mais plenas. O dio e a amargura que tinham vivido nele, iam perdendo pouco a pouco a sua fora. Parecia-lhe que a sua alma se despia de uma camada seca de torturadas folhas mortas. A opresso das rochas que pareciam debruar-se sobre ele, como para esmag-lo - um sentimento que era seguramente pouco ndio - deixou completamente de existir.

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Nobres pensamentos comearam a tomar forma na mente de Nophaie. O seu trabalho que ficara por terminar, os seus deveres para com a sua gente, a sua responsabilidade em relao  mulher branca que lhe havia dado a bno do seu amor - tudo devia ser entendido de novo e recebido como a nica recompensa da sua vida. A emoo empolgava Nophaie, a sua inteligncia sobrepunha-se ao egosmo. Mas assim mesmo dominava-o uma funda tristeza - uma tristeza de que no podia desprender-se porque o tinha invadido uma tremenda realizao do poder e da tragdia das coisas naturais. Toda a natureza humana era um estudo fascinante; a sua prpria, em contacto e em relao com o seu povo, era uma histria triste; ali, no isolamento e na solido de uma terra selvagem, a sua personalidade aparecia-lhe, nua e ntida. Ele era apenas um animal com alma - um animal que precisava de comer e no desejava a vida, que tinha o poder de criar e no possua o direito de amar, que continha em si mesmo a semente da imortalidade... e no acreditava em Deus.
Mas, estranhamente, uma esperana parecia palpitar na alma de Nophaie, como a tentar nascer. Mais e mais ele a sentia agitar-se fundamente dentro dele. Era semelhante a essa curiosa concepo do primeiro homem, que ele s vezes obtinha semicerrando os olhos e olhando a natureza como se ela fosse vista pela primeira vez. Era uma sensao to efmera como o momento em que ele a sentia, sem pensar. Tinha no entanto relao com a sua vida fsica. Na natureza no havia apenas o segredo da vida, havia tambm a salvao para ele - se tal salvao era ainda possvel. O deus que ele desejava alcanar era o deus dos seus antepassados. Isso era seguramente a adorao da natureza, mas no da natureza como ele a via.

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Os espritos dos mortos no se transmudavam em folhas, em pedras e em nuvens. Havia realmente um esprito, que fosse para algum lado? Nophaie via atravs da superstio. Nos ndios essa adorao era ignorncia - a necessidade de adorar as coisas sobrenaturais, os poderes que excediam a condio humana. Mas, se nos homens havia um esprito que abandonava os corpos dos que morriam, no poderia haver tambm uma alma na natureza infinita e permanente? A crescente esperana de Nophaie estava em que ele havia realmente comeado a entender as vozes das muralhas silenciosas. No era uma ideia mrbida, era um sentimento; no era uma paixo meditativa e doentia de isolado, nem o medo da morte e o cego fortificar de falsas crenas - era apenas uma compreenso inteligente da alma da natureza! Os cientistas no afirmavam a existncia dessa alma. Mas, sbios como eram, os cientistas tambm no podiam resolver o enigma da vida, a extenso do universo, a origem do tempo, o nascimento do homem, o milagre da reproduo. As suas dedues eram simplesmente biolgicas, arqueolgicas, fisiolgicas, psicolgicas, metafsicas. Nophaie estava em luta com a cincia que destrura a sua religio. Havia qualquer coisa naquelas muralhas de sonho, silenciosas, mergulhadas numa espera meditativa e estranha, milenrias, cavadas pelo vento e pela gua como a face enrugada das Idades. Assim,  sombra delas, Nophaie deixava vaguear a sua imaginao, e olhava-as de madrugada,  luz solene e intensa do meio-dia, ao crepsculo da tarde e sob o negro manto das noites mais escuras. Assim ele as escalava at os cimos - para chegar ao alto e ver outras muralhas.
Nophaie estava sentado a meio do anfiteatro. A hora do poente vinha prxima. Uma imensa aurola doirada coroava as arestas e cpulas para oeste, inundando o vale com o claro da luz do ocaso. L em cima, nas brancas torres de rocha,


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o oiro tomava um tom vermelho; mais alto ainda, nas neves de Nothsis Ahn, a cor era rosada. Para alm, ao norte, atravs da imensa abertura do vale, via-se o planalto enorme envolvido numa nvoa lils. Luzes vagas, macias, esmaecidas, pareciam escorrer ao longo das vertentes, sob as agulhas de rocha que subiam para o cu colorido do poente. Ali flutuavam nuvens esguias, leves como pinceladas de coral sobre um mar de turquesa - cmulos brancos e franjados de prata rolando em colunas rosadas - nuvens de prola e de alabastro e, mais altas no infinito azul, manchas de fumo em claros tons de malva e grandes massas densas de rebrilhante bronze.
Cada instante trazia a sua transfigurao. Cada instante parecia infinito ao gravar-se na alma. Aquele era o mundo vivo da natureza, e aquelas mudanas eram um dos elementos da sua maravilhosa vitalidade. A beleza e a glria talvez existissem apenas na mente de Nophaie. Mas eram coisas tangveis. A luz caiu, doirada, sobre a sua mo escura. Todo o vale estava cheio de um esplendor luminoso, movendo-se, mudando, sombras e claridades que pareciam brincar num estranho encantamento. Uma guia, com as asas em arco e recortando-se em negro sobre o fundo de luz, passou atravs do campo de viso de Nophaie, rpida como um relmpago sombrio, e mergulhou nas profundidades de prpura, para alm das muralhas. Foi uma nota de vida no panorama de Nophaie - e encheu-o de uma estranha alegria. Da sua torre isolada a rainha das alturas mergulhara no espao como um raio, bela, livre, solitria, selvagem como o vento selvagem, para alegrar os olhos de Nophaie, para acrescentar um novo encanto  sua esperana.
Nophaie no conhecia a orao que devia dizer ali, sobre o redondo altar de rocha.

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Nenhum outro "Nopah" de toda a tribo desejaria com tanta intensidade poder diz-la! Mas murmurou uma prece que foi compondo ele prprio.


Glria do Sol no poente ao acabar o dia; nuvens azuis no cu, to cheias de beleza; maravilha da luz na rude penedia... Tu, impassvel deus de toda a natureza, torna-me igual a ti...
Empresta-me os teus dons, ensina-me o segredo
de ser como tu s;
d-me o esprito calmo e forte do rochedo,
aqui,
sob os meus ps...
guia do largo voo audaz, sonho de altura; sombra no vasto cu, alm,, purpreo e leve; raio, e vu, e claro de mstica brancura, azul do firmamento e tom rseo da neve, vinde para Nophaie...
Vinde,  coisas subtis que h na terra e no ar... Vinde todas, do Norte, e do Leste e do Oeste, vinde todas, voando ao largo sopro agreste do vento que passou sobre o distante mar...
Vinde todas, de alm dessa muralha erguida,
silenciosa, milenria;
vinde todas, ficai na minha alma perdida,
na minha alma sem voz,
to erma e solitria...
Vinde, vinde e ficai porque eu sou como vs...


Nophaie voltou a face para Leste - a direco sagrada dos adoradores do sol.

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A grandeza do Oeste devia reflectir-se no Leste. Rochas arredondadas rolavam para a altura, largas ondas de pedra que subiam mais alto, at as arestas superiores, em tons aveludados de verde e camersim, alteando-se sempre, cada vez mais, e acabando por fundir-se nas muralhas distantes. Onde os raios do sol poente iluminavam de plena luz a face das penedias, tingia-as de um vermelho alaranjado e vivo. As sombras profundas marcavam ntidos contrastes. Grutas e cavidades de rocha escondiam do claro do sol poente o seu mistrio de tons prpura. Acentuavam as superfcies doiradas, sulcando-as de cicatrizes violeta. O Desfiladeiro das Muralhas Silenciosas parecia inundado de reflexos de cor. Ao longo dele brilhavam milhares de superfcies de vermelho e doirado, com meios tons nos degraus que subiam, escadaria dos deuses erguendo-se s altas torres acasteladas que as dominavam. Torres brancas, cinzentas, manchadas de oiro, rugosas e espiraladas, coroavam o horizonte nas muralhas de rocha e levavam o olhar de Nophaie para o sul, onde a encosta norte de Nothsis Ahn mostrava as cicatrizes ciclpicas das Idades.
De todas as silenciosas muralhas que isolavam o vale de Nophaie, aquela era a mais abandonada e a mais alta, a que mais o atraa com as suas vertentes de avalanche batidas pelo vento e pela chuva, com a franja verde-escura das rvores brilhando ao sol. com a vasta cpula branca coberta pela brancura imaculada da neve. Ali ficavam as alturas inatingveis. Num pasmo de encantamento, Nophaie deixou que o seu olhar descesse ao longo da encosta e viesse demorar-se no anfiteatro do desfiladeiro que ficava sob ele, reconstruindo na sua imaginao aquela fantasticamente expressiva muralha de rocha, aquela imensa parede de pedra, aquele monumento da natureza, aquela face maravilhosa da montanha de luz.
Abaixo de Nophaie ficavam as sombras do fundo desfiladeiro - os escuros bosquetes de cedros,

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as espessuras de mato cinzento, as rochas plidas, mergulhando lentamente na misteriosa obscuridade do crepsculo purpurino. Alm-, onde ficava a base da muralha mais baixa, as sombras adensavam-se, recortando a silhueta das muralhas do oeste, que escondiam a luz. O escuro contorno da sombra distinguia-se nitidamente, avanando devagar sobre a luz vermelha do ocaso - reflectida pelas penedias lisas que ficavam mais longe. Via-se o caminhar da sombra para a altura. Ao passo que o sol descia no poente, as sombras nas muralhas subiam como uma poderosa mar, fazendo recuar as superfcies luminosas. No havia um s instante de paragem nas manchas contrastantes de luz e de sombra. Moviam-se, e as suas cores mudavam. Um pssaro dos desfiladeiros desceu das alturas, como uma chispa de lume doirado que o vento levasse, e mergulhou na sombra, procurando talvez, para a noite, o abrigo mais quente das rochas. O seu grito selvagem, agudo e melodioso, vibrou um instante no espao.
As muralhas vermelhas cederam lugar s superfcies doiradas, onde a linha e a regularidade se quebravam em milhares de vertentes, recantos, plataformas, grutas, cavernas, uma vasta parede de rocha semi-circular onde as cavidades estavam cobertas de cedros anes e de liquens pendentes. Parecia que todo um exrcito de habitantes da montanha tinha ali trabalhado e vivido, na face do enorme declive. A muralha tinha quase uma milha de largo, outro tanto de altura e lembrava realmente uma superfcie de oiro, enrugada, sulcada, cheia de salincias, de nichos, de curvas, de terraos, de plataformas, de covas e de asperezas, coroada por uma longa cornija de pedras brancas. S s criaturas aladas era dado repousar naqueles pncaros dominantes. Eles pertenciam aos condores e s nuvens - torres como dolos de deuses pagos, doiradas na base, brancas de calcrio na parte superior,

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coroadas de pedras agudas que apontavam para os pinheiros negros de Nothsis Ahn e para a cpula branca e rosada das neves eternas.
Lembravam muralhas de colunas rolantes, como as nuvens que flutuavam mansamente no cu. Nophaie olhava para elas, perdido numa contemplao muda e pasmada. De todos os dons da vida, o dom de ver era o mais alto. Mas os olhos do esprito podiam adivinhar o infinito... E, enquanto ele olhava para a altura, a luz do sol continuou a realizar o milagre das suas transfiguraes. Vida da cor - alma subtil dos tons - smbolo de tudo o que  belo e efmero! O encantamento daquele instante era como um sorriso da natureza.
Nophaie criou no seu esprito a paisagem que poderia ser vista das alturas; imaginou-se dispondo dos olhos penetrantes da guia. Sob o seu olhar agudo estendiam-se os desfiladeiros escuros, as colinas vermelhas, as muralhas doiradas, um mundo quebrado de rochas partidas, nuas e ondulantes. Sobre uma das arredondadas colinas de rocha erguia-se o vulto isolado de um homem - o ndio Nophaie - estranho, lamentavelmente pequeno, um tomo apenas entre os grandiosos monumentos da natureza imvel. Ele era o mistrio da vida lanado no meio daquele cenrio das Idades da terra. Como um marinheiro naufragado, de p sobre a ponte do barco que sob ele se afunda, o ndio olhava em pasmo para as montanhas eternas e gigantescas. Face de pedra rebrilhante de luz! Silenciosa muralha feita de mil muralhas!
Toda a profunda adorao de Nophaie pelos elementos, o seu poder de vontade e a forte projeco da sua alma, a sublimidade da sua esperana, o intenso desejo do seu esprito pela luz - mais luz - luz de Deus como aquela gloriosa luz do sol - o faziam permanecer ali, sobre a colina, solitrio em plena solido, com a alma pesada de sensaes,

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sob o indiferente, desapaixonado, spero, penetrante e misterioso olhar da natureza, que envolvia a humildade da sua pequenez e do seu pasmo.
Os dias formaram lentamente semanas. O tempo piorou. O vento norte rugia em volta de Nothsis Ahn e as nuvens de tempestade acumulavam-se sobre a montanha, escuras, deixando cair sobre a terra o grande vu cinzento da chuva. Mas no fundo do Desfiladeiro das Muralhas Silenciosas no havia o frio nem o vento do Inverno. Nophaie procurava as muralhas onde batia o sol, e estendia-se a sonhar, envolvido no calor que elas reflectiam. Apenas um dos braos do desfiladeiro estava ainda por explorar. Nophaie guardava-o como uma reserva onde aplicar aco e energia quando sentisse o seu esprito deprimido.
Um dia, de um ponto distante para alm do desfiladeiro, vibrou e ecoou o chamado de um ndio. Nophaie surpreendeu-se - porque se tinha esquecido do "Paiute" que Withers devia enviar-lhe com novas provises. Tinha esquecido isso e outras coisas. Decerto ele traria notcias do mundo que ficava para alm das muralhas silentes, notcias da reserva, dos assuntos de Mesa - e finalmente o que ele mais desejava, cartas de "Sob a Roch".
Nophaie correu, com a rapidez de um ndio e a alegria de um homem branco. Quase se desprezou a ele prprio por aquela ansiedade, aquele estranho bater do corao. A solido que ele procurara parecia surgir-lhe agora mais ntida, inimiga da sua inteligncia. Os desfiladeiros isolados eram refgios para brbaros, selvagens, ndios... no para homens de inteligncia desenvolvida. A tarefa dos homens brancos seria sempre a de ajudar o crescente progresso do mundo, no caminho para uma vida melhor. Mas ele no era um branco.

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E, enquanto corria, os pensamentos tumultuavam dentro dele.
Nophaie encontrou o "Paiute" no brao principal do desfiladeiro. O homem trazia consigo uma mula pesadamente carregada. Nophaie levou-o para o seu acampamento e a descarregou a mula, e preparou uma refeio para o ndio, e foi informado por ele de que os polcias brancos o haviam procurado por toda a reserva... e tinham regressado a Mesa. O "Paiute" no tinha outras notcias, nem Outras indicaes a dar-lhe, a no ser que o negociante de Kaidab lhe dissera que era preciso chegar junto de Nophaie naquele dia exacto. "O dia de Jesus Cristo..." - disse ele com um sorriso.
- Natal!... - exclamou Nophaie. E estranhas recordaes o envolveram.
O "Paiute" partiu ao princpio da tarde, porque queria passar para alm das Rochas Andantes antes que anoitecesse. Nophaie ficou outra vez s. Mas como era diferente, agora, a sua solido! Havia, naquele monto de abastecimentos, embrulhos e pacotes que, apesar de envolvidos em linhagem e grossos papis, no traziam a marca de qualquer negociante ndio. Nophaie sentiu-se rico. Impressionou-o a inexprimvel certeza da sua alegria. Mas no tinha ele a segura esperana de receber ali uma carta de Marian? Decerto, mas no era apenas isso! Desembrulhando em primeiro lugar os pacotes mais pesados, Nophaie verificou que Withers havia ampliado largamente a sua encomenda mensal. Depois abriu um embrulho mais leve, mais cuidadosamente feito, e encontrou dentro um carto onde estava escrito, em ingls: "Feliz Natal lhe desejam os Withers".
Nophaie tentou sentir-se contrariado com aquilo, mas no o conseguiu e percebeu que o que o irritava era aquele cumprimento em ingls. "Eu sou um ndio..." - murmurou ele; mas no o disse na linguagem dos ndios. - "Prendas e cumprimentos de Natal..." - acrescentou - "...e do-me alegria!".

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ndio ou no ndio, ele no podia dominar o que sentia. Era certamente grande bondade da parte dos Withers, terem-se lembrado da solido dele. Nophaie encontrou cigarros, fsforos, chocolate, uvas secas, um slido canivete, um pequeno machado, vrias peles de gamo cortidas e cortadas, agulhas e linha forte, meias de l e uma camisa de flanela espessa. Withers tinha adivinhado as suas necessidades, e suprira-as com luxo.
Ento, com dedos apressados, Nophaie abriu o mais pequeno dos embrulhos, que adivinhava ter sido enviado por Marian. Por baixo do grosso papel havia mais papel, e sob este, ainda, um tecido impermevel. Dentro estava um cachecol de seda, cuidadosamente dobrado em volta de um grande e espesso envelope sobre o qual estava escrita uma palavra: Nophaie. A letra de Marian! Um estremecimento percorreu-o. Existiam as iluses, mas existiam tambm as realidades. No havia um s momento da vida que no trouxesse felicidade para algum!
Ps a carta de lado e abriu o segundo volume, maior, mais achatado, mais solidamente embrulhado, coberto por duas folhas de carto. Esperava encontrar uma fotografia e no ficou desiludido. Mas, antes de levantar a primeira folha de carto, caiu de dentro um sobrescrito que continha alguns retratos de Marian, tirados em Mesa com a sua prpria mquina. O melhor deles mostrava-a a cavalo, montada no belo animal branco que ele lhe tinha dado. Todos estavam bons, no entanto, mas nenhum deles lhe parecia igual  imagem que ele conservava na memria. O deserto era duro para Marian. Mas, quando Nophaie abriu o sobrescrito maior, encontrou uma ntida e encantadora reproduo da clara face que ele amava e to bem recordava. Era uma fotografia magnfica, tirada em Filadlfia, provavelmente algum tempo depois de ele ter partido do Leste.
- "Sob a Roch"... - murmurou ele; e toda a clara brancura de flor parecia irradiar numa luz maravilhosa,

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daquela face fotografada. Olhando, ele esqueceu-se por algum tempo de tudo o mais.
Quando voltou a ocupar-se dos embrulhos, encontrou livros, revistas, jornais recentes, blocos de papel, e lpis, e sobrescritos, uma pequena caixa de costura para caador, uma outra caixa com remdios, ligaduras, acar, nozes e bolos secos, e, por fim, um relgio com horas fosforescentes e uma bolsa de relgio feita de pele e decorada com os botes caractersticos dos "Nopahs". Ela no se esquecera de incluir na sua amorosa munificncia um tpico pormenor ndio. Essa ideia encantou-o alm de tudo.
Um a um, pegou em todos os objectos e foi meditando sobre eles. Para alm de qualquer cogitao ou dvida, eles estabeleciam a ligao entre ele e o mundo dos brancos. Dezoito anos da sua vida, exactamente os anos durante os quais a sua personalidade se formara e definira, tinham-no conduzido a coisas como aquelas, no s coisas usuais entre os homens vermelhos. Mesmo que morresse de fome e completamente nu numa gruta dos desfiladeiros, sem ter perto dele fosse o que fosse que representasse os brancos, nada alteraria  verdade dos factos. Ele amava Marian Warner. As suas prendas davam-lhe felicidade. A isolada solido do deserto era em verdade boa para o seu corpo e para a sua alma... mas nunca poderia satisfaz-lo por completo.


XVI.


Nophaie levou a carta de Marian para l-la no seu recanto favorito, onde ele gostava de descansar e de sonhar. No queria l-la nas alturas descobertas, mas sim na sombra de mbar das Muralhas Silenciosas.
Era um lugar estranho, uma estreita passagem do desfiladeiro onde a muralha oeste se debruava at quase tocar a muralha de leste, cavada de grutas e de sulcos,

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deixando ver entre as arestas de ambas apenas uma delgada fita de cu azul. Ali o desfiladeiro tornejava bruscamente para a esquerda e depois para a direita, dando uma estranha impresso de esmagamento e de grandeza. Na base da penedia leste murmurava uma corrente de gua clara que reflectia o tom verde do musgo e da relva que cresciam nas fendas da rocha. Havia ainda um doirado outonal nas folhas dos arbustos. Ali os sons ampliavam-se, ocos, ntidos, estranhamente melodiosos, repetidos pelo eco. Nophaie sentou-se sobre a pedra lisa onde sempre se instalava, e, com o corao a bater fortemente, numa emoo que o empolgava, abriu a carta de Marian. Parecia-lhe um sonho estar ali - ele, um ndio "Nopah" isolado da sua tribo, na imensa solido do desfiladeiro silencioso - segurando nas mos a carta de uma nobre e apaixonada mulher... que pertencia a uma raa odiada e inimiga...


"Querido Nophaie,

Feliz Natal para si; Eu no poderia sentir-me feliz se no lhe enviasse os meus desejos, as minhas lembranas e o meu amor. Possam eles encontr-lo bem. Possam eles, ao menos, dar-lhe a certeza da ternura constante de "Sob a Roch"! Nem mesmo no dia de Natal eu me sinto capaz de acreditar inteiramente no verdadeiro esprito da frase: "Paz na Terra aos homens de boa vontade...". No posso quando o homem que eu amo, e que  bom, est longe, escondido em terras distantes e selvagens, perseguido por homens da minha raa.
Mesmo que eu pudesse escrever-lhe todo um volume, no seria capaz de contar-lhe tudo. A minha demisso chegou poucos dias depois da sua visita. De facto eu dirigi o escritrio at que

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Blucher e Morgan estivessem em condies de aparecer em pblico. Ento fui "posta a andar" - e sem receber o meu ordenado do ms. Fiquei grata por isso, pois assim tenho uma desculpa para voltar ao escritrio, o que tenho feito com regularidade desde que vim para casa dos Paxtons. Estes tm sido muito bons para mim, permitindo-me que pague a minha hospedagem. Tenho-os ajudado no armazm, e dessa maneira tem-me sido possvel continuar a observar e estudar os ndios. Aqui tomei conhecimento com outro aspecto da vida na reserva.
Tanto quanto eu sei, nada transpirou ainda em Mesa a respeito do seu jogo de futebol com Blucher e Morgan. Nunca esquecerei esse dia - e nunca voltarei a confiar em mim prpria. Se o Nophaie era um ndio - eu era uma verdadeira selvagem. Eu entusiasmei-me, e vibrei, e ardi em raivosa alegria de cada vez que Nophaie batia - numa das bolas de futebol. A minha nica pena vem do facto de que nunca o vi jogar realmente futebol nos desafios da Universidade, que o tornaram famoso.
A minha ltima entrevista com Blucher e Morgan foi um pesadelo.
Blucher estava pior do que veneno. Morgan tentou intimidar-me e levar-me a sair da reserva. Ele disse-me - mas no importa o que ele disse. Os polcias voltaram depois de terem em vo tentado encontr-lo, a si, creio eu. Far bem, Nophaie, em continuar oculto por algum tempo. Este particular ponto da reserva faz-me pensar num vulco prestes a entrar em erupo violenta. Os Woltersons esperam ser demitidos de um momento para o outro. Todas as comunicaes para Wolterson chegam atravs do superintendente.

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Isto  um caos. Eu penso que seria capaz de dirigir a reserva muito melhor do que ela est a ser dirigida. Todo o conjunto do Servio dos ndios, a julgar por esta seco,  apenas uma enorme mquina poltica. Mas Nophaie sabe isto, melhor do que eu.
Suspeito que Blucher anda muito preocupado com a possibilidade de os Estados Unidos serem arrastados para a guerra contra a Alemanha. E h realmente uma grave probabilidade de que isso acontea. Poder ler as ltimas notcias nos jornais que lhe remeto. Chegaram hoje mesmo, com o Correio de Flagerstown. Leia-os com ateno.  um "Nopah" mas  tambm um americano, Nophaie. Um dos mais autnticos americanos que existem - um verdadeiro nativo. O militarismo alemo no ameaa apenas a paz do mundo, ameaa a prpria liberdade humana. Se for declarada a guerra, confio em que Nophaie dir a verdade a todos os "Nopahs" da reserva. Porque eu sei que Blucher se ope a que os ndios ajudem o exrcito dos Estados Unidos. Li uma carta que ele escreveu para um alemo de Nova Iorque. Ele estava a escrev-la pessoalmente  mquina, mas, quando algum o chamou, eu lia-a. Se ao menos eu tivesse podido tirar uma cpia, ou declar-la. Mas eu estava excitada -- chocada. Blucher  alemo dos ps  cabea. Se a guerra for declarada a situao na reserva tornar-se- terrvel. Pense na maneira de enfrentar essa situao, Nophaie.
S uma vez encontrei Gekin Yashi. Estava no ptio da escola, perto da vedao, quando eu passei, vinda de casa dos Woltersons. Aproximei-me antes que ela me visse. Tinha a face estranhamente alterada. Foi um choque para mim.

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Durante um segundo senti-me dilacerada... Quando me viu - fugiu. Chamei-a, mas ela no fez caso.
A rapariga ndia que foi recentemente enviada para a maternidade do hospital daqui, deu  luz uma criana. Vo mand-la para Riverside - separada do beb, e ter de estudar durante cinco anos antes que ele lhe seja restitudo. Ouvi dizer que Blucher mandou prender o pai do recm-nascido. As leis da escola desta reserva so vrias e estranhas.
No formei quaisquer planos de futuro. Estou  espera. Pode ter a certeza, Nophaie, de que no abandonarei a reserva.  possvel que queiram levar-me daqui, mas tero de carregar comigo. O Inverno no constitui problema. Preciso descansar e tenciono escrever alguma coisa. Mais tarde, se nada houver aqui, talvez v a Kaidab. Espero v-lo na Primavera, Nophaie, e quero que saiba que penso exactamente o que lhe disse no escritrio de Blucher, no dia em que castigou ambos, ele e Morgan. Serei feliz em casar consigo e em partilhar consigo o que tenho, serei feliz em compartilhar a sua vida e o seu trabalho entre a gente da sua raa. Disponho dos meios suficientes para comearmos. Peo-lhe apenas que consinta em que passemos algum tempo, todos os anos, na Califrnia ou no Leste. Sou bastante vaidosa para no desejar que o ar do deserto me seque por completo.
O tempo e as preocupaes mudam o carcter das pessoas, no  verdade?
Sinto-me mais forte depois de tudo o que me aconteceu aqui. O deserto  terrvel. Destri e reconstri. Eu no sabia o que era a luz - o maravilhoso sol -- e o vento.....e o p - e o calor -
e as estrelas, e a noite, e o silncio

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- e a grande solido vazia - at que vim para o deserto. Talvez tambm no soubesse o que era o amor!
Hei-de arranjar coragem para suportar o longo silncio a seu respeito, porque no deve, por enquanto, correr o risco de escrever-me. Hei-de sonhar consigo - hei-de v-lo entre as rochas. Para sempre, tanto quanto viver, as rochas e as muralhas de pedra tero para mim uma significao ao mesmo tempo perturbadora e triste.

Sob a Roch.


Nophaie olhou com renovado pasmo para a formidvel muralha de pedra que se erguia em frente dele. No podia distinguir a sua base, nem as suas extremidades. Rocha slida, impenetrvel, inamovvel e inultrapassvel. A tentao que lhe surgia agora era tambm uma ciclpica muralha, uma barreira, um peso esmagador.
"Sob a Roch" amava-o. Queria casar com ele. Queria compartilhar da vida dele, partilhar com ele tudo quanto possua. Viver com ele! Pertencer-lhe inteiramente!
Isso era, para ele, como um choque tremendo. Ali, sob o olhar acusador das muralhas silenciosas, ele tinha sentimentos que nenhum outro lugar poderia inspirar-lhe. A solido havia aumentado o seu desejo por uma companheira. A natureza importunava-o com os seus direitos. E bruscamente Nophaie sentiu-se despido de todos os seus ideais, cavalheirescos, deveres, das falsas inibies da sua educao, das inteis cadeias da sua incredulidade.
Um ser humano, um homem, um ndio, um selvagem, um animal primitivo - assim ele recuava na escala. Como criatura humana ele aspirava  glria do martrio, como homem ele sacrificava o prprio amor, como ndio ele erguia a sua alma numa nobre exaltao, como selvagem ele sentia apenas o sangue quente que lhe corria nas veias,

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como um animal primitivo ele debatia-se entre as garras de instintos hereditrios, rudes e bravios, indominveis - a impiedosa e irresistvel lei da natureza.
E enquanto se conservava ali estendido, imvel, sobre a pedra coberta de musgos, parecia-lhe que o elementar - o natural - o inconsciente autmato de carne palpitante, deveria vencer. Nada mais havia na vida. Aquele vacilante feixe de nervos, veias, sangue, rgos e ossos que constitua o seu corpo, continha milhes de clulas, cada uma das quais bradava pelo seu direito a completar-se, a exprimir-se, a reproduzir-se. A morte poria fim s clulas, aos rgos, ao corpo, ao indivduo, mas a vida perpetuaria as espcies! Esse instinto que Nophaie tentava dominar era a mais estranha das foras do universo.
Durante um terrvel momento Nophaie ficou ali estendido, sob as muralhas que pareciam gritar numa voz trovejante a mensagem da natureza. Depois, num salto brusco, ergueu-se para forar o seu corpo, a sua carne revoltada, aquele palpitante e ardente aglomerado de msculos e de nervos onde corria o sangue, a uma actividade fsica e exaustiva que submeteria os instintos que tentavam subvert-lo. Precisava vencer agora - naquele instante - ou ficaria derrotado para sempre. Pensamentos, reflexes, razo, argumentos - tudo isso se dilua na sua conscincia como a tnue neblina da noite sob o claro do sol. Antes que pudesse pensar tinha de dominar alguma coisa dentro dele, alguma coisa que, com a Hidra mitolgica, tinha muitas cabeas e muitas vidas - e que era o insaciado instinto de projectar a sua vida noutras vidas. Nophaie no queria aceitar as imposies desse gnero de imortalidade, de defesa da espcie. Se era um instinto que o enlouquecia, um instinto contra o qual lutava, foi tambm um instinto que o impeliu a mover-se, a correr, a escalar.
No havia algum da sua raa que pudesse v-lo, que pudesse trazer-lhe um homem-medicina para exorcismar os maus espritos

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que tentavam possu-lo. S as muralhas silenciosas fitavam sobre ele e sobre o seu terror os seus olhos de pedra.
Nophaie correu. Pulou sobre a corrente de gua. Ia saltando, de pedra para pedra, de rocha para rocha. Ao longo dos declives relvados, sob as arestas que pareciam debruar-se, por cima dos charcos, atravs das moitas, ele correu velozmente ao comprido do desfiladeiro, com a sua incomparvel passada de atleta ndio treinado pelos grandes mestres do atletismo da Universidade. Estranho lugar para o famoso atleta que fizera delirar as multides - que as tinha ouvido aplaudir, bradar, gritar o seu entusiasmo enquanto ele corria! Os homens brancos haviam-no treinado - tinham-no educado. Mas naquele momento era a sua natureza de ndio que impelia Nophaie a correr - a fugir de si mesmo.
Parou no seu acampamento, apenas o tempo de guardar a carta de "Sob a Roch". No queria sujar aquele rectngulo de papel branco onde ela escrevera as suas belas e emocionantes palavras de amor. Guard-lo-ia toda a sua vida. Mas naquele momento receava-o. Sentiu novamente estremecer a sua carne, palpitar-lhe nas veias o sangue ardente. E correu para a frente - na direco do fim do desfiladeiro - os olhos fitos na vertente inacessvel de Nothsis Ahn, coroada de branco. Nenhum ndio havia ainda escalado aquela muralha - mas Nophaie tinha agora de venc-la, ou de morrer na tentativa. Para olhar a lonjura do deserto, para rezar e para se absolver a si prprio, o ndio corria sempre, escalava sempre as alturas.
Os mocassins de Nophaie pisavam, macios e leves, os declives de pedra desnudada. Correu, subindo, ao longo da encosta ondulante da colina de terra vermelha, de cuja cpula redonda - onde ele tantas vezes olhara as guias e o poente - fitou atentamente a muralha de pedra, tentando descobrir a maneira de escalar a face norte de Nothsis Ahn.

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Uma centena de labirnticas trilhas em ziguezague estendia-se sobre a muralha de rocha, mas nenhuma delas parecia possvel para ps humanos.
Nophaie desceu rapidamente a colina, veloz e seguro como um gato selvagem, e atravessou a vasta extenso de pedras nuas que o separava da base da montanha.
Comeou ento a escalar um longo e estreito declive oblquo na vertente de rocha escura e lisa, riscada e cavada de sulcos, rodeando as salincias speras e difceis para se internar por outro declive que seguia em sentido oposto, trepando sempre em trilhas tortuosas at o encurvado limite da pedra avermelhada, onde principiava a lenta e larga vaga do branco anfiteatro.
Toda aquela vertente era varrida pelos ventos, nua, lisa, sob os ps, feita de pedra branca que o esforo desintegrava; e lembrava um grande mar oblquo, rolando, ondeando, alteando-se em vagas colossais. Salincias, bancos, planos, arestas, buracos, gargantas, tudo era arredondado e macio, sem um rasgo, sem uma aresta viva, sem um ngulo sob os ps de Nophaie, que todavia subiam sempre. Impelia-o uma espcie de apaixonado mpeto. Continuava a trepar, mais devagar agora que a vertente era mais difcil. De baixo, o enorme anfiteatro branco parecia diferente do que era. As suas dimenses cresciam com a aproximao. Uma linha de rochas quebradas, que Nophaie julgara ter visto, era afinal uma vasta depresso do grande mar de pedra. O caminho em ziguezague representava largas milhas de percurso. Para um lado e para outro, ao longo da face enrugada da montanha, o ndio arrastava-se, cada vez mais alto. O ar frio, estranho, de oxignio rarefeito, tornava ainda mais lentos e difceis os seus esforos. A escalada era cada vez mais dura. Nophaie, ofegante, suado, com os msculos doridos, j no podia agora correr. Olhava apenas para a pedra

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onde firmava os ps - e para as torres cinzentas que se erguiam para cima dele, e pareciam to inatingveis, to distantes como no princpio da escalada.
Ao longo da ltima salincia circular do anfiteatro, ele arrastou-se em volta de uma rugosa agulha de pedra, galgou-a e encontrou-se numa zona de penedias, precipcios, promontrios agudos, speros e debruados, em estranho contraste com a vertente que havia percorrido. Ali eram-lhe necessrios olhos de guia, a agilidade do cabrito, a segurana de ps do gato selvagem. Continuou a escalada por outra vertente da torre de pedra, outra vertente que no era menos alta nem menos inacessvel. Para cima, sempre para cima, foi trepando at que alcanou finalmente um ponto onde a torre esbranquiada se ligava com a massa imponente de Nothsis Ahn. Aquele ponto no era visvel desde o vale. Ele tinha subido at s agulhas brancas que se erguiam escondendo a vertente da montanha, deixando ver apenas a enorme cpula redonda. Nophaie forou-se a avanar ainda, erguendo-se ao longo das cornijas, mergulhando nas depresses de rocha, transpondo em saltos as largas fendas que cortavam a pedra, arrastando-se pela beira de abismos de profundidades azuladas, contornando a base das agulhas, trepando por elas e entre elas.
Saiu finalmente da zona dos pilares e das torres - ao nvel dos altos ninhos das guias! Nophaie ficou de p na base do declive superior de Nothsis Ahn, a rampa das avalanches, o plano inclinado das pedras soltas; fitava quase a direito, quase ao mesmo nvel, a linha verde das rvores e a cpula brilhante da neve. Se a escalada havia sido difcil e perigosa at ali, agora passava a ser praticamente impossvel. As pedras soltavam-se sob os ps de Nophaie, escorregando, arrastando outras, formando avalanches. O ndio rastejava, buscando apoios firmes para as mos que sangravam.

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Realizou milagres de agilidade, de rapidez, de resistncia. Tal como os grandes chefes das velhas legendas do seu povo, ele parecia dispor das asas encurvadas das guias, caminhar com os ps do vento, baloiar na orla das nuvens.
A neve e os troncos detiveram Nophaie, uma floresta de pinheiros retorcidos e entrelaados pelo vento, cujos ramos mergulhavam fundamente, dobrados, na espessura branca do gelo das alturas. Era uma barreira intransponvel, que o no deixava continuar a subir. Nos limites da linha da neve, sobre um bloco de rocha cinzenta, ele ergueu um monumento de pedras que os olhos penetrantes de um ndio poderiam avistar desde o fundo do vale. Mas no orou aos deuses da montanha.
No frio penetrante da altitude. sob as rajadas do vento norte, Nophaie ficou a olhar para longe e para baixo, ao longo da terra nua que se estendia a seus ps. Vagas, obscuras, abissais, eram as profundidades de onde ele tinha vindo. A beleza e a cor no se distinguiam na grande sombra que envolvia o desfiladeiro. As distncias confundiam tudo, perdiam-se. As estreitas e profundas gargantas pareciam apenas linhas de prpura escura. Sobre a imensido do deserto fantstico pairava um esprito de desolao, de morte e de abandono. O sol dardejava sobre a paisagem a terrvel veracidade da luz.
Aquilo contra o que Nophaie tinha to desesperadamente lutado, parecia agora nunca ter existido. Ele havia generosamente desperdiado as foras da sua natureza - os seus instintos fsicos. Por aquela hora, talvez para sempre, ele havia triunfado. Nas alturas vinha-lhe um renascer de emoes, um fulgurante regressar de pensamentos. Havia sangue na beira rasgada dos seus mocassins; as suas unhas estavam partidas rente  carne. Os ossos que lhe doam, os pulmes que arfavam penosamente, o esgotamento dos seus msculos,

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testemunhavam a extraordinria dureza da escalada. As horas pareciam poder medir-se como anos.
Tinha anoitecido havia muito tempo quando Nophaie arrastou at o acampamento o seu corpo dolorido e exausto, para se deixar cair sobre a cama e estender as pernas - com a sensao de que nunca mais poderia voltar a mov-las. Mas o sono e o repouso, durante vrios dias e vrias noites, restituram-lhe as foras, embora ele soubesse com segura certeza que aquela escalada havia representado o mais alto limite das possibilidades de esforo fsico de toda a sua vida. A fadiga do mais violento desafio de futebol, nada era, comparada com aquilo. Uma corrida de cem milhas atravs do deserto, nada era tambm. Do mesmo modo Nophaie compreendia que nunca mais voltaria a escalar a muralha norte de Nothsis Ahn. Forte, rpido, seguro, gil, resistente, com o seu olhar de guia e o seu corpo nervoso de ndio - apesar de tudo essas faculdades no explicavam a proeza extraordinria que havia realizado. A verdadeira inspirao para o que fizera, tinha de algum modo razes-, confusas e vagas embora, nos segredos e nos msticos impulsos da sua natureza ntima. Mas nos dias e noites que se seguiram,  sombra das silenciosas muralhas, Nophaie acabou por compreender que a mais nobre prova do seu amor por Marian no estava em submeter-se s suas prprias exigncias, aos seus prprios anseios. No a arrastaria para a sua condio. Para ele, era-lhe completamente impossvel viver entre os homens brancos. Ele havia sido espoliado, roubado, privado da sua herana. Via a inacreditvel brutalidade e rudeza dos brancos em relao  sua raa. E via a sua raa deperecer. Ele prprio era um homem que se estiolava, que se apagava - era o americano desaparecido. No tinha Deus,
nem religio, nem esperana. A nica, a estranha esperana que nascera ali, nas profundidades do desfiladeiro, tinha ardido nas chamas ateadas pela oferta de amor que Marian lhe fizera. A natureza havia acarinhado aquela esperana
- e iludira-o. Tinha sido como uma bela face velada, entrevista em sonhos, a erguer-se para ele.
As muralhas silenciosas ouviram a negao de Nophaie
- e nas suas faces de pedra brilhou uma estranha luz! "Sob a Roch" amava-o, e ele devia quebrar-lhe o corao. Mas a tristeza dar-lhe-ia, a ela, foras que o fardo de Nophaie no poderia dar-lhe. Os misteriosos caminhos da natureza haviam-nos juntado, ele e a jovem branca; sem dvida essa impiedosa natureza divinizara uma unio que serviria os seus desgnios evolutivos. A natureza no reconhecia qualquer religio, qualquer deus. A natureza exigia apenas,, de todas as criaturas vivas, o nascimento, a reproduo e a morte. O amor era um cego e imperioso instrumento da natureza. Como poderia esse amor perdurar alm da velhice e da morte?
Os dias formaram semanas, as semanas formaram meses. Trs vezes veio o "Paiute", e por trs vezes uma carta branca e de muitas pginas fez passar a tempestade na alma de Nophaie - deixando-o todavia mais forte na sua deciso.
Ele media a passagem do Inverno pelos uivos do vento na encosta de Nothsis Ahn, pelo brilho mais alto do sol, pelas madrugadas que vinham mais cedo, o calor dos dias e o coaxar das rs quando caa a noite. Ele ocupava o tempo, que corria veloz, com as tarefas simples do acampamento, ou vagueando, ou escalando montanhas como se o inatingvel devesse ficar um dia ao seu alcance - ou sonhando com Marian e escrevendo, para ela, pensamentos, reflexes, resultados de experincias, ou ainda no estudo da natureza no seu refgio de muralhas de pedra.


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S depois de muito tempo decorrido ele se resolveu a explorar o nico brao do desfiladeiro que ainda desconhecia. E foi grande o seu pasmo e a sua pena por no t-lo conhecido mais cedo, porque era incomparavelmente mais maravilhoso que todos os outros.
Trs milhas, ou mais, de caminho excessivamente difcil, levaram Nophaie a um ponto onde a garganta de rocha mudava de cor, de largura, de altura, de leito e de horizonte, em cada pormenor. Nophaie deu-lhe o nome de "Desfiladeiro dos Reflexos Brilhantes". A sua cor, ao luar, era estranhamente plida, marmrea; a sua altura era enorme, perpendicular e fantstica; tinha uma largura de cerca de seis ps na base, alargando em forma de V at atingir perto de cinquenta ps na parte superior; o seu leito era slido, liso, de rocha cinzenta dura como ferro, cavada de fundos sulcos macios pela corrente de gua; e as suas arestas superiores, o seu horizonte, eram linhas direitas, paralelas, que se prolongavam at onde alcanava o olhar de Nophaie, emoldurando uma fita delgada de cu azul. No havia aves, nem lagartos, nem abelhas, nem rs ou insectos; nenhuma criatura viva, ou tufo de verdura surgiam aos olhos do ndio. A voz ca, ntida, ecoante do curso de gua, era o nico som que se fazia ouvir. No havia vento. O leito da corrente brilhava, a gua brilhava, as muralhas tinham reflexos de luz, o cu era brilhante.
Nophaie internou-se por aquela gigantesca fenda da rocha, at que o seu caminho foi impedido por um estreitamento da garganta e uma profundidade da gua que o foraria a nadar se quisesse avanar ainda. Colocando um p em cada uma das muralhas e subindo lentamente, Nophaie alcanou uma altura de onde podia ver que o desfiladeiro se prolongava muito para diante, semeado de obstculos cada vez maiores. Pareceu-lhe ouvir ao longe os ecos abafados de uma queda de gua. Pensou que mais tarde,

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quando a gua perdesse a sua frialdade de gelo, havia de nadar ao longo da corrente.
Aquele "Desfiladeiro dos Reflexos Brilhantes" acabou por exercer uma insacivel fascinao sobre Nophaie. Vagueava por ali muitas vezes, achando-o sempre diferente. S o murmrio da gua no mudava. A luz do sol nunca descia ao fundo da fenda gigantesca.  noite a escurido era total, to absoluta que o ndio tinha de tactear o seu caminho. As tardes eram ali maravilhosas, em consequncia de alguma especial conformao das arestas superiores que reflectiam uma luz brilhante, intensa, espessa, quase tangvel, com um tom doirado. Os reflexos da gua e das muralhas eram to cambiantes como as cores do poente. Ali Nophaie sentia menos as suas afinidades com os homens brancos, a presena dos seus prprios conhecimentos cientficos, a perda da sua f, o sacrifcio do seu amor, a aproximao de uma fatalidade inevitvel.
As fantsticas muralhas pareciam envolv-lo, davam-lhe por vezes a impresso de que iam unir-se, sepult-lo para sempre nas entranhas da rocha. No eram coisas mortas, aquelas muralhas. Tinham um poder espiritual, uma beleza que nenhuma arte poderia reproduzir fielmente. E todavia pareciam realmente janelas pintadas, atravs das quais se pudesse ver brilhar a alma da natureza. Silenciosas - sempre silenciosas para Nophaie, embora cheias de sons inexprimidos. O ndio que ele era, sentia-se companheiro daquelas rochas estranhas. Sua me era a terra. E tudo era rocha, as areias do mar e do deserto tal como a curva magnificncia de Nothsis Ahn. A prpria terra era feita de rocha, desde os seus fundamentos. Assim a slida muralha era como uma me para Nophaie, os seus reflexos brilhantes eram sorrisos, o silncio era a voz da sua mudez eterna.
Primavera! A gua do ribeiro cresceu, mais impetuosa, perdendo o seu tom verde e trocando-o por um plido reflexo amarelado; as rs mudaram o seu coaxar tmido num coro solene,

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forte e rouco onde havia sons trinados e quase melodiosos. Flores brancas e doiradas brotavam da terra, nos stios onde batia o sol. Folhas de erva surgiam como por mgica, e as rvores perdiam a sua cor cinzenta. Nophaie sentia-se irrequieto. O domnio das muralhas silenciosas esbatia-se pouco a pouco. Havia dentro dele como duas mars que se chocassem. O silncio e a solido pesavam-lhe. A faculdade de esquecer e de no pensar, prpria dos ndios, quase lhe havia embotado a memria. A natureza importunara-o com o seu insidioso e supremo domnio sobre os sentidos. Em vo o dio e a descrena lhe tinham assolado a alma. Sentia-se ainda livre.
E veio um dia em que um chamado forte acordou os ecos sonolentos do desfiladeiro silencioso. Nophaie ficou surpreendido. Aquela voz no era a de um ndio. Teria o isolamento perturbado o seu esprito? Nophaie correu para a parte mais larga entre as muralhas vermelhas. Viu cavalos, mulas de carga, um ndio - e Withers, que surgia de sob a sombra de um cedro, enxugando a cara com um leno.
- Ol, Nophaie!... - disse ele, com um sorriso e um olhar atento. - Tem um aspecto magnfico.
A nica resposta de Nophaie foi apertar com fora a mo de Withers. Parecia-lhe difcil falar, depois de tanto tempo de silncio. Por outro lado, Withers mostrava-se profundamente cansado. Estava mais magro e mais velho. Parecia haver no seu ntimo uma excitao reprimida.
- Saia do sol... - disse ele, voltando-se. - Est calor, e eu vim depressa...
Nophaie acompanhou-o e sentaram-se ambos  sombra, sobre pedras. O momento parecia ser o limiar de estranhas coisas. A presena de Withers podia significar um maior fardo de angstias para Nophaie.
- Ponha as selas e os embrulhos aqui mesmo... -
disse o negociante ao ndio que viera com ele. - Nophaie, onde est o seu cavalo?
- Foi-se... - respondeu Nophaie. - H muito tempo
j...
- Pensei isso mesmo, e trouxe-lhe um...
- Withers, porque me traz um cavalo?... - perguntou Nophaie, sentindo-se tremer intimamente.
- Porque suponho que voc ir de volta comigo... - respondeu significativamente o outro.
- Aconteceu alguma coisa a Marian?
- Claro! Muitas coisas! Mas ela est "O. K."! ptima e com sade!...
- Withers,  uma longa e difcil jornada, at aqui.
Tem decerto uma forte razo para vir c. Diga-me qual .
- Uma forte razo, decerto que  uma forte razo... - volveu o negociante, com uma expresso amarga.
- Porque veio?... - perguntou Nophaie.
- Guerra!... - retorquiu Withers.
Nophaie ergueu-se de um salto, espantado e emocionado.
- No!... - exclamou.
- Sim, por Deus!... - volveu o outro, erguendo-se tambm. Havia no seu olhar um brilho de ao.
- A Alemanha e os Estados Unidos?
- Tal como diz, Nophaie.
- Blucher... e os ndios?... - a voz de Nophaie tinha um som agudo e rpido.
- Nada tenho a dizer a respeito de Blucher... - afirmou Withers com veemncia. - Mas contar-lhe-ei alguns factos passados fora da reserva... Os alemes afundaram o "Lusitnia", que tinha a bordo homens, mulheres e crianas americanas... Torpedearam barcos mercantes americanos... ameaaram e trataram grosseiramente o Presidente Wilson... insultaram a bandeira americana...

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Depois mandaram submarinos para as nossas costas... O Presidente e o Congresso declararam a guerra!
Nophaie recordou as cartas de Marian. Algumas frases pareciam-lhe agora gravadas na sua memria em letras de fogo. O militarismo germnico! A queda de uma civilizao. O fim da liberdade! A escravatura dos americanos! Por todos os direitos de lei e de herana, ele - Nophaie - representava o mais antigo e o melhor sangue da Amrica. Das profundidades da sua alma subia um impulso forte e estranho.
Withers ergueu a mo trmula.
- O meu filho partiu... - disse ele. - Partiu logo... sem esperar pela chamada s fileiras... pelo recrutamento...
- Recrutamento?
- Uma lei nova. Uma lei de guerra. Todos os homens entre os vinte e um e os trinta e um anos so chamados para o exrcito ou para a marinha - para lutar pelo seu pas.
- Esse recrutamento diz respeito aos ndios?
- No. Os ndios no sero recrutados... mas o Governo dirigiu-lhes um apelo para que se registassem. Isso significa, penso eu, um registo de nmeros e nomes de ndios - dos seus cavalos e do seu gado, para que o Governo possa utilizar esse registo como referncia - com um fim qualquer, que eu no entendi bem. Mas nenhum ndio  forado a ir para a guerra.
- Podem ir, se quiserem?
- Sim. h um forte apelo, tambm, para que se alistem como voluntrios.
- Eu irei!
Withers apoiou a mo trmula no ombro de Nophaie, segurando-o com fora. Ficou por instantes sem poder falar. A sua face rude mostrava uma estranha agitao. Todas as suas paixes vibravam nele.

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- Nophaie, no tem de se alistar. Nada deve ao povo dos Estados Unidos. Eles prejudicaram-no.
- Eu sou um Americano!... - respondeu Nophaie com simplicidade.
- No vim aqui para lhe pedir que fosse para a guerra... - disse Withers, com calor. - Mas vim para lhe dizer isto... que esto a mentir aos "Nopahs". Eles no compreendem a ideia de se registarem. Fizeram com que eles acreditassem que se trata de uma manobra, um ardil para obrig-los a dar os nomes e a pr a marca do polegar sobre um papel. Esto a ser induzidos a acreditar que esse registo  uma nova mentira dos homens brancos - e que, se assinarem, podero ser recrutados... O velho Etenia encontrou-me quando eu vinha para c. E disse-me: "- O Grande Chefe em Washington quer que os meus jovens bravos vo para a guerra... Porque no lhes pede abertamente para irem? Os "Nopahs" sempre foram guerreiros... mas ningum os forou, nunca, a combater". Outro velho ndio afirmou: "- Deixem os alemes matarem todos os americanos. Ento ns teremos outra vez as nossas terras e viveremos em paz...". Nophaie, a sua tribo conta mais de vinte mil ndios. Ningum deve fazer-lhes crer que eles podem ser injustamente arrastados para a guerra. A verdade tem de ser-lhes dita. Estes falsos boatos de traio do Governo - esta maldita propaganda, no podem espalhar-se mais.
Nophaie compreendeu o que Withers no podia dizer-lhe. Marian havia-o preparado para que ele soubesse aquela crescente hostilidade entre os ndios.
- Eu direi a verdade aos "Nopahs"... - disse ele. - Eu levarei os ndios comigo, para a guerra!...

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XVII.


Nophaie acenou um longo adeus ao seu "Desfiladeiro das Muralhas Silenciosas". Do extremo leste - muito acima da estreita garganta entre as penedias de rocha - ele olhou para baixo, para o verde vale limitado pelas muralhas de pedra vermelha, e fixou para sempre esse quadro na memria. Uma vaga sensao de frio - um estremecimento, um bater mais forte do corao - lhe percorreu o corpo. Seria o misterioso pressentimento de que nunca mais voltaria a sonhar sob aquelas muralhas brilhantes e silenciosas? Sacudiu o pensamento confuso e impreciso.
Ele e Withers alcanaram o acampamento dos "Paiutes" num tempo "record", e a passaram a noite. Nophaie comeou ali mesmo o seu trabalho. Nenhum dos poucos homens presentes, no entanto, se encontrava dentro dos limites prescritos pelas necessidades da guerra.
O dia seguinte levou Nophaie e o comerciante atravs do mato das terras altas, at o rancho de Etenia. O velho Nopah tinha numerosos filhos e parentes, e mais cavalos e gado do que qualquer outro ndio daquela zona das reservas. Era importante persuadi-lo a consentir no acto que Withers designava como "registo".
Nophaie verificou que o recebiam com deferncia e respeito. Era um bom augrio para o xito da sua nova tarefa entre os ndios. Pediu a Etenia que reunisse o conselho dos homens, o que lhe foi assegurado; e o velho ndio solicitou a honra da presena de Withers. Nophaie preparara mentalmente uma exortao que ele tinha por honesta, eloquente e persuasiva, e que acreditava seria compreendida pelos ndios. Exp-la a Etenia com toda a veemncia de que era capaz.
O velho "Nopah" fumava em silncio. Tinha ficado profundamente impressionado, e no podia responder ir imediatamente a um discurso to cheio de significao e de ideias.

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Por fim falou:
- Nophaie v as coisas com olhos de homem branco... largamente e ao longe. Ele devia ter sempre um lugar nos conselhos dos "Nopahs". Etenia acredita nas suas palavras, e ir registar o seu nome. Vender os seus cavalos e as suas reses ao Governo. E dir aos seus filhos: "- Um de entre vs partir para combater pela Amrica, pelos homens brancos, pelas terras que eles nos deram". Ele lhes dir que tirem  sorte qual deles h-de partir para a guerra...
Nessa noite Etenia reuniu no seu "hogan" todos os seus filhos e parentes, em honra de Nophaie e para que o ouvissem falar. Ordenou tambm a preparao de um festim no qual Withers tomaria parte. Comeram, e cantaram!, e estiveram alegres. Depois o velho "Nopah" ergueu-se para falar. Tinha uma expresso solene e austera, impassvel, com a suprema dignidade de um chefe.
- Filhos - dos meus parentes - Etenia viu passarem muitos Invernos, viu muitas luas atravessarem o cu sobre o deserto. Trabalhou muito, e  agora um homem rico. No deve nem sequer um boto de prata aos homens brancos. Nada deve aos ndios... Etenia no tem o entendimento dos deuses. Ele no sabe curar como os homens-medicina. A muita idade de Etenia ensinou-o a confiar nos homens mais novos. Assim ele escutou as palavras de Nophaie...
"O nosso Pai branco de Washington declarou guerra a um povo mau que vive para alm das guas extensas, onde o sol nasce. Esse povo mau  um povo de guerreiros. H muitos anos que eles trabalham nas artes da guerra - fizeram grandes espingardas; muitas balas e muita plvora, para se prepararem para a guerra... H j trs anos que eles combatem com os povos seus vizinhos - outros povos brancos que s queriam viver em paz.

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E esto a empurrar esses povos para longe dos seus "hogans", esto a matar homens, mulheres e crianas. Eles vencero a sua guerra se o nosso Pai branco de Washington no enviar muitos jovens guerreiros para alm das grandes guas.
"Ns temos ouvido mentiras. Os filhos de Etenia no so obrigados a ir para a guerra. Os homens brancos que espalharam essas mentiras so como as serpentes no meio das ervas. Os seus avs pertenceram a esse povo mau que s pensa na guerra. Esses homens mentirosos no so americanos. Eles no so amigos dos ndios.
"Foi pedido ao povo de Etenia que se registasse - que desse os seus nomes ao Governo - e dissesse qual o nmero dos seus cavalos e das suas reses. Etenia acredita em Nophaie e no comerciante branco. Estes dois homens no mentem. Nophaie ir a todos os pontos das reservas, para levar a verdade a todos aqueles que tm sido iludidos pela mentira. Etenia vai registar o seu nome. e diz aos seus filhos e a todos os ndios que faam como ele. Etenia mandar um dos seus filhos para a guerra, em companhia de Nophaie".
Ento Nophaie levantou-se por sua vez para falar, profundamente emocionado pelas palavras de Etenia. E, numa voz vibrante, ele condenou as foras do mal que agiam nas reservas, e revelou aos bronzeados e atentos "Nopahs" a verdade sobre o perigo que realmente os ameaava. No fez um apelo directo aos ndios, para que se alistassem. Mas concluiu o seu discurso com a clara afirmao do que ele prprio resolvera fazer.
- Nophaie ir para a guerra. Nophaie e todos os "Nopahs" so os primeiros e mais antigos dos americanos. Nophaie combater, e combater sabendo que a sua luta  tanto em defesa dos homens brancos como em defesa dos ndios e das suas terras!
Quando tiraram  sorte entre os filhos de Etenia,

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aconteceu que o designado para acompanhar Nophaie foi o mais novo, o favorito do velho "Nopah", aquele que era a alegria dos seus ltimos anos.
- Etenia diz que est bem... - declarou o pai com um orgulho simples.


* * *


Em Kaidab havia uma multido de ndios, e uma excitada inquietao totalmente nova e estranha no posto comercial.
Nophaie encontrou os brancos nervosos e perturbados, sob a tenso de emoes que nenhum deles conseguia dominar. A senhora Withers revelava sinais da preocupao geral, uma angstia de me em relao ao filho que partira e uma clera contida quanto  situao dos ndios, que a afligia. Os ndios estavam francamente excitados. Reuniam-se em grupos e falavam animadamente. Em cada hora chegavam mais "Nopahs" ao posto comercial, e Nophaie via-os mal dispostos, desconfiados, difceis de abordar. Se no fosse o seu recente acesso  dignidade de algum que devia ser escutado com respeito, Nophaie no conseguiria sequer que lhe dessem ateno. Uma subtil e poderosa influncia se havia exercido sobre eles. Nophaie adivinhara a sua origem, e descobriu como e por quem estava a ser feita essa propaganda. Compreendeu imediatamente que chegara demasiado tarde para convencer os ndios em conjunto, e que seria difcil persuadi-los a registarem-se, quanto mais a alistarem-se. Todavia no deixou que essa infeliz circunstncia o desviasse da sua grande tarefa.
Ao terminar as suas actividades desse dia, encontrou Shoie, o ndio que lanava os maus espritos sobre as "squaws". Ia seguir o seu caminho, com desprezo, mas bruscamente parou.

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Aquele ndio era forte, jovem, um bom batedor e um magnfico pisteiro, alm de hbil domador de cavalos. Tinha um gnero de mentalidade que rapidamente se adaptaria  guerra. Nophaie estava resolvido a no deixar desaproveitada qualquer oportunidade.
- Shoie, eu vou combater pelos americanos... - disse ele, em dialecto "Nopah". - s um guerreiro, Shoie. Queres acompanhar-me?
- Shoie lutar ao lado de Nophaie!... - respondeu o ndio, com um brilho intenso nos seus olhos negros.
Durante dias Nophaie permaneceu no posto comercial, interpelando todos os ndios que l apareciam. Os seus teimosos esforos conquistaram algum xito, mas nada que pudesse satisfaz-lo. Era sempre escutado com a ateno e o respeito que lhe eram agora devidos; mas esbarrava com uma muralha de dvidas que, uma vez erguida na mente de um ndio, era quase impossvel de derrubar. Um velho "Nopah" declarou-lhe: "- Todos os homens brancos so mentirosos!" Outro ndio disse-lhe: "- Nenhum branco pode enganar-me duas vezes!".
O plano governamental de registo deparou com uma oposio poderosa e subtil. Nophaie no conseguiu descobrir, entre os ndios, qual era exactamente o contedo da propaganda hostil. Averiguou, todavia, que a ideia do registo tinha sido falsamente apresentada aos ndios, sob o aspecto que mais fcil e profundamente se gravaria nos seus espritos.
Nophaie decidiu que o melhor que tinha a fazer era percorrer as reservas e suprimir a propaganda germanfila. Tinha pensado fazer isso mesmo em qualquer caso, mas via agora que precisava apressar-se. Custava-lhe, no entanto, deixar Kaidab tendo conseguido apenas a promessa de dezassete nomes para o registo - e s trs para alistamento. O comentrio de Withers, a tal respeito, foi significativo:
- Nophaie, fez o melhor que era possvel fazer.

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Foi nessa altura que recebeu outra carta de Marian, e essa carta agiu sobre ele como um acicate. Em Mesa, os assuntos relativos  guerra tinham atingido um ponto de incandescncia. Nophaie tinha de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para rebater a influncia germanfila entre os ndios. Marian sabia que ele havia de esforar-se da mais nobre maneira e que depois partiria para Frana, a defender a sua ptria. Ela tinha passado algum tempo em Flagerstown e sentia-se melhor do que nunca, quanto a sade e entusiasmo. Haveria agora, seguramente, trabalho para ela, na reserva. A guerra abrira novos campos de actividade para as mulheres. Mas, qualquer que fosse a tarefa que lhe coubesse, era preciso que Nophaie ficasse sabendo que ela iria ter com ele, se ele no pudesse reunir-se a ela antes da sua partida para o campo de preparao militar. De alguma maneira as palavras de Marian encheram de emoo o corao de Nophaie, com a ideia de que podia combater por ela durante a guerra.
E havia, na carta da jovem, um perodo final que fez ferver nas veias o sangue do ndio, numa raiva furiosa contra a srdida maldade daqueles que exerciam o poder em Mesa. Nophaie releu esse perodo.


"Nopah", o meu belo cavalo branco, morreu! Abateram-no a tiro. Oh! Senti que o corao se me partia!... Wolterson foi obrigado a fazer anlises de sangue a todos os cavalos ndios, para pesquisa de tuberculose. Ele declarou que nunca tocaria sequer em "Nopah". Mas Blucher viu o meu cavalo e mandou fazer a anlise. Wolterson f-la e concluiu que o sangue de "Nopah" estava perfeitamente so. Mas, do mesmo modo, Rhur veio e abateu-o a tiro".


Nophaie partiu para a sua misso no deserto, e poucos foram os "hogans" em que no entrou.

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Ser-lhe-ia impossvel percorrer toda a reserva, e no dispunha de muitas semanas antes de se apresentar ao servio do exrcito. Mas cavalgava depressa, longe e durante muitas horas. A maioria dos "Nopahs" das vizinhanas tinha ouvido falar da sua misso e estava pronta a escut-lo. Cada nome que se acrescentava  sua lista ia fortalecendo a sua causa. Pouco a pouco essa lista foi crescendo, e com ela a influncia de Nophaie. Se apenas ele tivesse podido antecipar-se ao alemo! Nophaie excitava-se, s de pensar nisso. Poderia ter conduzido para a guerra todo um regimento de "Nopahs" - fortes, jovens, corajosos e resistentes filhos do deserto. A ideia de ter chegado tarde demais era obcecante. Essa ideia impelia-o a ir sempre mais depressa e mais longe, para encontrar "Nopahs" que no houvessem ainda sido ludibriados.
Um aps outro, enquanto os dias passavam velozmente, ia encontrando jovens guerreiros dispostos a deixarem-se guiar por ele. Deu-lhes instrues, sabendo que eles permaneceriam fieis  palavra dada. Das centenas de "Nopahs" a quem falava, apenas um, aqui e alm, se deixava convencer. Aqueles que aceitavam as suas razes eram, na sua maioria, homens novos e livres, fartos das restries da vida na reserva. Grato porque eles o compreendiam e aumentavam a sua lista, Nophaie seguia o seu caminho, sempre mais longe. Deixou, em vrios "hogans", vrios cavalos estafados em troca de outros que lhe eram voluntariamente cedidos. Nunca os "Nopahs" se limitavam a dar-lhe as boas vindas, ao anoitecer. A sua misso era a de um guerreiro e de um chefe, mesmo quando os homens da sua raa no podiam acompanh-lo.
Assim o tempo decorreu, rpido como as patas dos cavalos que Nophaie montava, enquanto ele percorria gradualmente um territrio que lhe era ainda desconhecido, atravs do enorme planalto, para leste, onde o seu nome era ainda ignorado. Ali era-lhe menos difcil descobrir adeptos,

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mas a regio era muito escassamente habitada. A propaganda alem no criara razes entre aqueles "Nopahs".
Numa tarde, perto da hora do poente, Nophaie alcanou um pequeno posto comercial que era dirigido por um branco que casara com uma ndia. O ltimo ndio com quem Nophaie tinha falado, dissera-lhe que se dirigisse rapidamente para aquele posto. Havia um grande nmero de cavalos em frente do edifcio quadrado, de pedra e olhou o interior. Viu as costas e os "sombreros" negros de um numeroso grupo de ndios, todos atentos s palavras de um homem branco que estava sentado sobre o balco alto. O homem branco era Jay Lord.
Nophaie entrou sem ser visto e deixou-se ficar atrs dos ndios,  escuta. Lord estava a acender um cigarro. Ou tinha feito uma pausa na sua arenga, ou talvez ainda no tivesse sequer abordado o assunto. O antigo ar descuidado de Jay Lord parecia ter desaparecido. A expresso da sua cara redonda e morena no era de tranquilidade. Nophaie notou rapidamente que havia nele um ar de cansao e de irritao. E a excitao que se mostrava nos olhos de todos os homens brancos, naquela poca, no estava ausente dos olhos de Lord.
- ndios, escutem... - comeou ele a dizer em fluente dialecto "Nopah" - ... Blucher mandou-me por toda esta reserva para lhes dizer que no se registassem. No ponham os nomes, ou a marca dos dedos, em qualquer papel que lhes tragam. Se fizerem isso levar-lhes-o os cavalos e o gado, tero que ir para a guerra. No h nenhuma lei que obrigue os ndios a combater. Ningum os pode obrigar a ir. Mas se asssinarem algum papel, se se registarem, ficaro nas mos do Governo - e ento tero que ir. Essa ordem de registo no  o que parece.  uma velha artimanha do Governo, para os enganar.

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J foram enganados antes, todos vocs. Escutem os vossos verdadeiros amigos e no se registem.
Quando Lord acabou de falar, seguiu-se um impressionante silncio. Ento um velho "Nopah", magro, enrugado e sombrio, dirigiu-lhe a palavra.
- Que o homem branco explique porque foi que Blucher o enviou. Se o Governo mente aos ndios... para os obrigar a ir combater... ento esse Blucher mente tambm, porque o governo  ele, nesta reserva.
- Blucher  amigo dos "Nopahs"... - ripostou Lord. - Ele acha que este registo no  uma coisa honesta. O Governo fez uma lei para recrutar os jovens brancos e lev-los para a guerra. E no hesitou em intrujar os ndios, pela mesma razo.
O silncio que se seguiu de novo parecia impregnado da convico dos ndios. Bruscamente outro de entre eles adiantou-se e pulou para cima do balco. Era tambm um velho, com a face marcada por uma cicatriz, uma expresso feroz e sombria. Agitou a mo nervosa na direco dos rapazes que o olhavam.
- Hagoie matar qualquer "Nopah" destes stios que se registe!... - bradou ele.
Aquele grito pareceu pr fim aos discursos, porque todos os ndios comearam a falar excitadamente uns com os outros. Nophaie aproveitou-se da confuso geral para sair do posto. Era quase noite. Dirigiu-se para as cavalarias que havia perto da casa e sentou-se, para esperar a escurido e meditar. Estava resolvido a no deixar que Lord sasse dali sem que ele lhe falasse primeiro. Tinha notado que Lord trazia uma arma. Era portanto de boa guerra apanh-lo de surpresa. Nophaie concluiu tranquilamente que tinha boas razes para matar Lord, mesmo que no fosse em defesa prpria.
Em grupos de dois e de trs os ndios foram saindo do posto, montando os seus cavalos e afastando-se na escurido do deserto.

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Em breve Nophaie percebeu que podia aproximar-se da casa. No momento oportuno adiantou-se e ficou oculto na sombra mais densa da parede de pedra. Outros ndios saram, at que pareceu que apenas alguns,-poucos, estavam ainda l dentro. Ento, tal como Nophaie calculara, Jay Lord apareceu  porta, falando com o chefe do posto. Ouvia-se distintamente a voz deste ltimo. Era evidente que Lord se dirigia para o stio onde tinha deixado o seu cavalo.
- Est bem que eu seja casado com uma "squaw" "Nopah"... - dizia o comerciante num tom de raiva concentrada - ... mas no sou ndio... nem idiota. No gosto dessa sua conversa acerca da ordem governamental do registo!...
- Sim? Bem, tenha cuidado e guarde para si as suas opinies... - resmungou Lord. - De outra maneira arrisca-se a no ficar aqui por muito tempo.
O homem encaminhou-se para casa e Jay Lord aproximou-se da sua montada.
Nophaie deslizou atrs dele. E, exactamente quando Lord estendia a mo para as rdeas, ouviu decerto algum rudo porque se deteve, o corpo rgido. Nophaie encostou o cano do revlver ao flanco de Lord, e disse, numa voz rpida e contida.
- No mexa os braos. Se o fizer, mato-o!
- Nophay?... - murmurou Lord, em voz rouca.
- Sim -  Nophaie!
- Bem... o que quer voc?
- Escute. Ouvi-o falar aos ndios. Sei agora que tem exercido influncia sobre eles, em toda a reserva. Isso  propaganda alem - e voc  o porta-voz de Blucher. Voc no vale mais do que esse alemo.  um traidor! Est a ouvir-me?
- Caramba, eu no sou surdo!... - resmungou Lord,


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esforando-se para no mover os braos. A sua cara era agora uma mancha plida na sombra.
- Lord, o que voc tem andado a fazer  traio!... - continuou Nophaie. -  preciso que um ndio lhe faa ver isso?... Se eu tivesse tempo poderia conseguir que muitos "Nopahs", e tambm alguns homens brancos, me ajudassem a provar a sua culpa. Mas preciso de todo o tempo disponvel ainda para desfazer o seu sujo trabalho... Eu vou para a guerra - combater pelo seu pas... Mas escute, se voc no pra de espalhar essa propaganda de mentiras por conta de Blucher, eu parto imediatamente para Flagerstown e alisto-me. Depois voltarei a esta reserva. Serei ento um soldado americano, e estarei fora da vossa lei. Blucher no poder prender-me, nem tocar-me sequer... E eu mato-o, a voc - Lord - juro-lhe que o mato! Compreende-me?
- Compreendo... e no duvido que o faa... - respondeu Lord em voz rouca. - E se isso lhe interessa, sempre lhe digo que fico satisfeito por me obrigar a largar esta tarefa...
- Talvez... Monte a cavalo e fique de costas voltadas para mim! Vamos!... - ordenou Nophaie.
No instante seguinte, Lord, praguejando entre dentes, estava sentado na sela. Esporeou o cavalo. O animal lanou-se para a frente e foi engolido pela escurido.
Nophaie permaneceu no posto durante dois dias, mas todas as suas conversas com os ndios que por l passaram, foram inteis para anular o insidioso veneno espalhado por Jay Lord.

Com desgosto, Nophaie verificou que, quanto mais se internava por aquela zona da reserva, tanto mais frios se mostravam os "Nopahs" em relao aos seus argumentos.
Veio o tempo quente. O Vero do deserto estendia-se como uma manta enorme e espessa sobre o mato, os planaltos e a areia. Todas as manhs eram frescas e agradveis, sob um cu limpo e azul, inundadas pelo esplendor doirado do sol que se estendia sobre o deserto vasto e colorido... Mas logo que o sol surgia acima do planalto de leste, as ondas de calor comeavam a evolar-se da areia. Cerca do meio dia nuvens brancas e amareladas subiam no horizonte, alastrando, formando gigantescos castelos e escurecendo, deixando por vezes cair cinzentas cortinas de chuva que o vento impelia. Cada trovoada tinha o seu arco-ris, e havia ocasies em que Nophaie cavalgava ao longo do deserto com tempestades e arcos-ris em todo o horizonte  sua volta, e o sol brilhando sobre a sua cabea. Suportou muitas chuvas, grato pelas cordas de gua que o encharcavam at os ossos, aliviando o calor intolervel.
Por fim Nophaie conduziu a sua montada novamente para Oeste, para as regies que ele conhecia melhor. Cavalgou durante um dia inteiro ao longo da aresta de um profundo desfiladeiro azulado, antes de encontrar um ponto onde pudesse atravess-lo. Durante muitos dias sentiu fome, dormindo onde quer que a noite o envolvesse.
Nos "hogans" dos ndios a leste e a sul de Mesa, Nophaie encontrou condies com que nunca deparara antes. Ao mesmo tempo que a influncia da civilizao branca comeava a ser ali mais vincada, assim se intensificava a agitao resultante do estado de guerra. Os grupos de ndios excitados que Nophaie encontrava, no simpatizavam com a sua causa. Aqueles "Nopahs" que viviam mais perto do caminho de ferro e das fronteiras da civilizao, eram notavelmente diferentes dos "Nopahs" do norte distante. Haviam sido espalhados boatos por toda aquela zona - intensificao do recrutamento, confiscao dos gados e da l, apreenso de todas as armas de fogo.

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Os homens de Blucher tinham levado a bom termo o seu trabalho de sapa. Em poucos dias Nophaie encontrou mais ndios embriagados do que havia encontrado em todas as suas anteriores cavalgadas atravs da reserva. Alguns deles vendiam apressadamente a l aos comerciantes, ansiosos por se verem livres dela. A prosperidade dos ndios atingira o ponto mais alto. Mas uma sombra ameaadora se estendia sobre o deserto. Os ndios pareciam senti-la. Abandonavam os seus trabalhos. Grupos de ndios tomavam o caminho de Flagerstown e regressavam com uma enorme confuso nos seus espritos. A febre dos homens brancos contagiava os peles-vermelhas. Os homens-medicina prediziam terrveis perturbaes para os "Nopahs".
O apaixonado sonho de Nophaie, de conduzir milhares de ndios para a guerra, teve de ser abandonado. O seu trabalho incansvel tivera como resultado que pouco mais de quatro dezenas de "Nopahs" pusessem na sua lista as marcas dos seus polegares. Vinham-lhe notcias de vrias fontes de que os ndios estavam a alistar-se no exrcito, mas no lhe era possvel verificar a verdade dessas notcias enquanto estivesse no deserto. Sentia dentro de si prprio uma espcie de furioso azedume contra a aco do Governo. Em tempo de guerra, que sensatez havia em conservar num posto importante um espio germnico, com a possibilidade de destruir a f de milhares de ndios que poderiam tornar-se magnficos soldados? Que fantstica cegueira e que estranha ignorncia, da parte dos representantes do Governo! Blucher era culpado de fraude e de traio! O homem havia sido esperto bastante para compreender o facto de que os "Nopahs" quereriam e poderiam combater pela Amrica. E tinha-os ludibriado, acrescentando, ao seu desgostoso cansao, falsidade sobre falsidade. Nophaie via a verdade em toda a sua chocante nudez. Compreendia o que poderia ter sido possvel realizar com os jovens "Nopahs",

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altivos e corajosos. Uma grande pgina da histria da Amrica - um exrcito de ndios combatendo pela liberdade, lado a lado com os brancos - nunca seria escrita. Nophaie tinha a viso das coisas. Ele amava o seu povo - e conhecia as suas extraordinrias qualidades de combatente. Eles poderiam ter estabelecido - eles seguramente estabeleceriam - um glorioso "record", pagando ao Governo americano com o bem. Herosmo em troca de injustia! Eles teriam conquistado completa cidadania nos Estados Unidos. Que maravilhosa oportunidade perdida! Perdida! O corao de Nophaie ardia em dio contra o alemo que havia reduzido a zero a mais nobre oportunidade que se tinha deparado ao seu povo.
- Eu devia ter matado Blucher... - murmurou Nophaie - Nenhum servio que eu possa prestar agora ter sequer a milsima parte do valor e da grandeza desse servio.
Nophaie dirigiu-se a Mesa, para despedir-se de Marian. Durante muito tempo receara esse momento e tentara expulsar do esprito essa ideia. Mas agora, que havia terminado a sua tarefa e que se aproximava a data marcada para o seu alistamento e para o alistamento dos seus "Nopahs", ele tinha de pensar nesse dever.
Por muito que desejasse ver Marian, ficou grandemente tranquilizado ao saber, por intermdio de Paxton, que ela estava em Flagerstown, e l o esperava. Ela deixara para Nophaie uma breve nota, dizendo-lhe onde poderia encontr-la e pedindo-lhe para no se demorar excessivamente em Mesa.
Nophaie necessitava daquela espera, daquele intervalo. Nunca, em qualquer momento anterior da sua vida, ele havia sentido uma to tremenda e sombria depresso pesar sobre os seus ombros.

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A raiva que se apoderara dele quando do assassinato de Do Etin e da emboscada que lhe preparara o "Noki", ou da tragdia da pobre Gekin Yashi, no havia sido to intensa como a que lhe enchia agora a alma, ardente e amarga. A ideia da guerra havia libertado alguma coisa de latente e de profundo em si mesmo. A ameaa que estava suspensa sobre as claras praias americanas, que ele conhecia to bem, a aproximao sempre possvel de um inimigo feroz e sem escrpulos, tinham feito despertar e vibrar em Nophaie os instintos selvagens da sua natureza.
Foi nesta disposio de esprito que Nophaie entrou em Mesa, e a carta de Marian, assim como a proximidade de Blucher e de Morgan, tinham ainda acrescentado lenha  fogueira que ardia dentro dele.
Nophaie no fez qualquer esforo para se esconder. Em realidade, ele era j um soldado americano. Havia percorrido a cavalo milhares de milhas, em servio do exrcito. Agora no poderia ser preso em qualquer cadeia da reserva, ou de Flagerstown. Circulou livremente entre os ndios, no posto comercial.
Havia ali um nmero invulgar de "Nopahs" e de "Paiutes", alguns embriagados, todos eles excitados; alguns dirigiam-se para Flagerstown, levados pela mesma razo que levava Nophaie. O homem que transportava o Correio havia dado passagem a dois deles, e prontamente concordou em conduzi-lo tambm. Era uma jornada de cinco horas, no automvel. Nophaie sentia-se fundamente emocionado. Apenas cinco horas - e estaria ao lado de "Sob a Roch"! Do degrau de pedra do posto comercial, olhou as areias e os matos do planalto, e mais longe, sobre a dureza colorida do deserto, a linha ondulante das montanhas escuras. "Sob a Roch" estava alm-, para esses lados. J o sol comeava a cair para o ocidente,
quando ele tocasse a curva do horizonte - Nophaie estaria junto de Marian.
No deveria ir ver Gekin Yashi? O pensamento passou-lhe pela mente. No! Isso seria mais uma acha no lume do seu dio por Morgan e por Blucher.
Nophaie no tomou parte nas conversas dos ndios em redor dele; sentou-se mais atrs, sobre um dos degraus, com a cara oculta pela larga aba do "sombrero". Ficou a fumar um cigarro, em silncio, com o esprito carregado de pensamentos sombrios. Quando chegou a hora do recreio da escola, e os garotos ndios comearam a correr de c para l como pequenos autmatos uniformizados de ganga azul, Nophaie ficou a observ-los sob a aba do chapu. Qual seria o futuro deles? Mas quando, do outro lado da vedao, viu as faces escuras e os cabelos negros das rapariguitas ndias, cada uma das quais poderia mais tarde vir a ser a Gekin Yashi de um qualquer "Nopah" - deixou de olhar.
Um automvel barulhento apareceu na estrada que vinha de Copeinvashie, e parou um pouco antes do posto comercial. Ao lado do condutor vinham dois homens brancos. Um deles era Blucher. A sua cara redonda parecia ter emagrecido. Nophaie sentiu o sangue ferver-lhe nas veias. Blucher e o outro homem saram do carro e subiram os degraus de pedra do posto, conversando animadamente. Nophaie no conseguiu compreender qual era o assunto da conversa. Mas, quando o superintendente passou perto dele, Nophaie poderia ter-lhe tocado se estendesse simplesmente um brao.
Mat-lo, agora! O impulso percorreu o corpo de Nophaie, como um rastilho rpido, quase excluindo qualquer possibilidade de pensar. Poderia ele servir o seu povo e a prpria Amrica, de qualquer maneira melhor do que matando aquele alemo? No! A inteligncia de Nophaie no contrariava o seu impulso. Que importava que a civilizao, para alm do deserto,

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tudo ignorasse sobre a iniquidade daquele homem? Nophaie conheci-a. Havia razes mais fortes do que a razo, ou o interesse prprio. Mas ante os olhos de Nophaie, que o dio avermelhava, surgiu a recordao da face de "Sob a Roch". Nophaie dominou o seu impulso.
Naquele momento Blucher e o seu companheiro saram, acompanhados por Paxton que parecia falar de um assunto de farinha trocada por l. Blucher parou por um instante no limiar da porta. De novo Nophaie poderia tocar-lhe, estendendo a mo. Mas todo o fogo de inferno que havia no corao ndio, se apagara em holocausto ao seu amor por uma rapariga branca. Para lhe poupar uma dor ele sacrificou o nico e supremo impulso selvagem de toda a sua vida. Por uma vez ele fora quase completamente um ndio. Como seria fcil matar aquele homem! O pensamento trazia consigo uma inexplicvel sensao. Levantar-se - lanar fora o chapu - encostar o cano do revlver ao estmago do traidor - olh-lo com o dio de um ndio e o desprezo de um branco - e gritar livremente a sua raiva: "- Eh, alemo! Eu sou Nophaie! Este  o ltimo instante da tua vida!
Mas nenhum sinal exterior revelou a tempestade que se agitava no corao de Nophaie. E a tempestade passou, como um vento de morte. E Nophaie ficou a pensar nos estranhos acasos da vida. Ali estava Blucher, completamente inconsciente da presena do ndio que nada temia e que apenas a recordao de uma face de mulher impedia de cometer um crime. Tinha havido, e havia ainda, no mundo, homens maus que conheciam os riscos da sua vida mas que tinham nervos slidos bastante para enfrent-los. Blucher, porm, no era um desses homens. Morgan era uma criatura mais forte, pior, mas no entanto era tambm cego como um morcego - tambm ele ignorava a sede terrvel de justia que existe nos coraes de certos homens.

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O agente do governo e o missionrio da igreja eram apenas dois miserveis destruidores, vermes da maldade, com toda a sua vil e deformada mentalidade concentrada sobre eles prprios.
Antes do pr do sol, nesse dia, Nophaie estava em Flagerstown e tinha enviado um bilhete a Marian. Antes de ir encontrar-se com ela foi alistar-se no posto local de recrutamento - e tornou-se um soldado do exrcito dos Estados Unidos.
Ao fim de uma rua na periferia da cidade, Nophaie encontrou o nmero da porta que procurava. Quando subia os degraus da pequena vivenda, Marian abriu a porta. A sua face e os seus cabelos pareciam um claro doirado! Ele no podia v-la claramente, tanto a emoo o empolgava ao entrar. A voz dela tinha um som estranho. E ficaram ss, num pequeno quarto de paredes vagas. Ele havia sentido o medo prvio daquele encontro, mas no o havia compreendido. Apenas queria poup-la a qualquer desgosto. Aquela rapariga que lhe segurava as mos, que o olhava com olhos cansados e sombrios, era-lhe familiar pela face que ele tanto amava, mas todavia havia nela alguma coisa que lhe era estranha.
- "Sob a Roch"... - murmurou ele, numa voz mal segura.
- Nophaie... meu amor... meu ndio!... Vai... partir para a guerra... - sussurrou ela, lanando-lhe os braos ao pescoo.
Ao mesmo tempo que se debruava sobre a face plida e sobre os lbios de Marian, Nophaie compreendeu o significado do gesto dela, da singular ternura do seu abandono. Uma palavra bastara. "Guerra". E sentiu uma infinita pena dela, e amou-a como nunca a tinha amado antes, e compreendeu-a,

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e apertou-a contra o peito, beijando-a at que a jovem, plida e cansada, se abandonou nos seus braos. Para ele, os beijos de Marian, com toda a sua fogosidade doce, comunicavam apenas aos seus lbios a tristeza desgarradora de um adeus. Havia muito tempo que, no seu "Desfiladeiro das Muralhas Silenciosas", ele combatera o seu combate contra a tentao do amor. E ali estava, forte, tranquilo, grave, em face da fraqueza e da paixo de "Sob a Roch"..
- Nophaie - quando - parte?... - murmurou ela.
- Hoje, s dez horas da noite.
- Oh! To... to depressa!... Mas vai primeiro... para um campo de treinos?... - perguntou ela, ofegante.
- Sim.
- Pode ser que o no mandem para a Europa...
- "Sob a Roch", no se deixe embalar por falsas esperanas. Deve querer que eu parta. Estou pronto para combater, e os meus "Nopahs" no levaro muito tempo a tornarem-se bons soldados.
- Isso significa - a frente de batalha - as trincheiras
- as misses especiais... todos os postos mais perigosos!...
- disse ela, com uma palidez maior.
- Os ndios no procuram os lugares seguros, "Sob a Roch". Vamos partir sessenta e quatro "Nopahs" que, quase todos, foram alistados por mim.
Contou-lhe ento das suas longas cavalgadas, das suas dificuldades em desfazer a propaganda de Blucher, do seu fracasso quase total. Ela animou-se ao ouvi-lo e, na sua clera pela traio do agente e no seu orgulho por Nophaie, passou os instantes mais difceis do encontro.
- Eu sabia que ele era germanfilo... - disse ela, com os olhos brilhantes. - E  estranho que tenha, mesmo aqui, amigos. Esta cidadezita est enlouquecida, Nophaie. Como podero estar, agora, Filadlfia e Nova Iorque?


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Se h excitao entre os ndios, como no haver entre os brancos?... -- disse Nophaie. - Todo este ambiente de guerras  mau, terrvel, bravio. Mas eu nada tenho a perder, e tudo tenho a ganhar. Eu...
- Nada - a - perder!... - exclamou ela, num sbito soluar, envolvendo-o de novo nos braos. - Nophaie - tem-me a mim - a perder... No me ama j?
- Am-la! Criana, est fora de si... - respondeu ele ternamente. Via o caos da prpria guerra nas emoes dela, no abandono da sua reserva. - Hoje mesmo dei provas do meu amor por si, "Sob a Roch"...
E contou-lhe do momento em que Blucher estivera ao alcance da sua mo - esse momento crucial em que toda a selvajaria da sua natureza de ndio quase o dominara, e em que ele a havia dominado.
- Apenas o meu amor por si me impediu de mat-lo...
- concluiu ele.
- Oh! Sim,, Nophaie... - e de novo os olhos dela brilharam estranhamente, apaixonadamente. - Mas talvez esse homem devesse ser morto... - acrescentou, devagar.
Nophaie sentiu uma vez mais que havia naquela jovem branca uma complexidade de emoes que excedia talvez a sua compreenso. Ela, a quem Blucher devera a certa altura ter escapado com vida, teria agora, talvez, preferido saber que ele morrera s mos do homem a quem ela amava. O ambiente de guerra perturbava a sua mente.
- Nophaie - deixe-me acompanh-lo a Nova Iorque
-  Frana... - pediu Marian.
- Deix-la acompanhar-me?! Mas, "Sob a Roch" -. eu no poderia impedi-la, mas suplico-lhe que o no faa!...
- Eu nunca lhe desobedeceria... Deixe-me ir. Posso tornar-me enfermeira - a Cruz Vermelha - qualquer coisa...
- No. Se quer obedecer-me, fazer-me feliz - fique aqui

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e continue a ajudar o meu povo at que eu volte - ou...
- No! No diga isso!... - bradou ela, fechando-lhe os lbios com os seus. - No posso suportar sequer essa ideia. No, ainda no... Talvez que eu retome alguma coragem... depois da sua partida. Eu amo-o, Nophaie. Amo-o um milho de vezes mais, desde que vim para a sua terra. O deserto modificou-me. Escute-me. Depois de se ir embora eu irei durante algum tempo para Leste, mas prometo-lhe que voltarei aqui para trabalhar - e esperar.
- Tudo est bem, "Sob a Roch"... - disse ele. - Eu sinto que hei-de voltar... E agora vamos sair e caminhar. No posso despedir-me de si dentro de uma casa.
Nuvens de oiro e de prpura cobriam os ltimos degraus do poente - um cenrio maravilhoso ao longo das vertentes oeste das montanhas - como na velada fnebre de um deus pago. Ao fim de uma plancie erguia-se uma baixa salincia de rocha, o primeiro passo para as terras altas que ficavam alm da cidade. Ali cresciam pinheiros de alto porte; largamente separados, rugosos e castanhos, coroados de verde, eles exerciam uma estranha atraco sobre Nophaie. Caminhando sob eles, ao lado de Marian, o ndio sentia-se invadido por uma emoo profunda, bela, solene e esplndida. A fora dele parecia ter-se comunicado  jovem. Ela comeava a sentir-se mais calma, a compreender melhor a f e o misticismo que havia nele.
O ar morno do Vero foi-se afastando, e em vez dele envolveu-os o vento frio que vinha da montanha. A luz rosada do poente desaparecera, substituda por um tom de azul plido. Uma estrela solitria brilhava no cu, para oeste. Os grandes pinheiros silenciosos enegreciam contra os restos de luz crepuscular.
"Sob a Roch"... Quando os ndios dizem no fim das suas oraes, "Tudo est bem..." eles querem dizer exactamente isso que dizem.

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Os missionrios brancos nunca interpretam as Suas preces como uma submissa aceitao da vida, da natureza. As oraes dos brancos contm O medo da morte - e do que vem depois. Eu no tenho medo da morte nem do que vir depois dela - se alguma coisa vier. O nico medo que eu tenho  por si - e por aquelas, no meu povo, que so como Gekin Yashi. As mulheres da minha raa esto marcadas para o sofrimento. Eu sinto isso.  essa uma das minhas razes para o meu repdio de ateu em relao ao Deus dos homens brancos. H pouco mais de uma semana entrei num "hogan" onde vi uma mulher ndia morrer ao dar  luz um filho... As mulheres sofrem fisicamente muito. Pode compreender assim porque motivos eu recebo alegremente uma oportunidade para esquecer-me de mim mesmo numa guerra justa. Conheo a
natureza da luta - sei o que a violncia faz ao corpo--e,
se no morrer, ficarei curado das minhas angstias. Talvez que eu l encontre o Deus que no consegui achar nos meus desfiladeiros silenciosos. E h tambm em mim o homem - o ndio - a quem o combate excita e endurece. Se todos os alemes forem como Blucher, quero matar alguns deles... No deve ter uma s hora de infelicidade por minha causa, Marian, por causa de eu ir para a guerra. Pense em mim, apenas, como um soldado americano. A dor fsica nada  para mim. Joguei muitas vezes futebol em condies de sade que teriam forado um homem branco a internar-se num hospital. Aceito alegremente esta ocasio para justificar os ndios. Qualquer ndio que no tenha cristalizado na sua ancestral cegueira, poderia ser como eu agora sou. Por isso tudo lhe peo que no se sinta triste. Se eu viver para voltar  reserva, ento poder talvez ter razes para se entristecer por mim. Porque eu sei que a guerra vai trazer misria, e infortnio, e males de toda a ordem ao meu povo. Mas agora esteja alegre porque, com todas as minhas desventuras, eu consigo domin-las, dominar o dio e combater por si e pelos brancos.

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O meu amor por si salvou-me da vida dissoluta que  to estranhamente fcil para os ndios que vivem entre os brancos - salvou-me para lutar contra a minha descrena. E deu-me nimo para acreditar que, de algum modo, eu possa um dia vir a ser o nobre ndio que sonhou...


XVIII.


Depois da partida de Nophaie, Marian sentiu-se como se tivesse chegado ao fim de tudo. No tinha olhado para alm daquele ltimo encontro. E agora, com as suas pungentes e dolorosas experincias, sentia-se perdida, com o corao partido. O deserto chamava-a; a promessa feita a Nophaie era um dever sagrado; mas no se sentia capaz de voltar imediatamente para o seu trabalho entre os ndios. Decidiu ir passar algum tempo no Leste.
No momento em que chegou a Filadlfia compreendeu que, alm da sua necessidade de mudar de ambiente, e de encontrar velhos conhecimentos, outras razes havia para que ela se alegrasse de ter regressado.
Filadlfia, tal como outras grandes cidades, estava nos transes da preparao para a guerra. A febre emocional da guerra tinha-se apoderado de toda a gente. O equilbrio da quieta e tranquila cidade do amor fraternal, havia sido desfeito. Marian encontrou os seus parentes to mudados como se houvessem decorrido anos entre a sua partida e o seu regresso. Tinham-na esquecido. Cada qual estava obcecado pela ida de algum prximo parente para a guerra. O recrutamento de um filho, ou de um irmo, ou de um sobrinho, a procura das organizaes burocrticas relativas  guerra, o desenvolvimento dos negcios para fazer face s exigncias militares - todas essas atitudes pareciam pessoais e exclusivistas. Muitos dos conhecimentos de Marian, rapazes de menos de trinta anos, tentavam de uma maneira ou de outra furtar-se ao recrutamento.

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A atitude desses era posta em relevo pelo srio procedimento de outros, que no esperavam que os chamassem e se alistavam voluntariamente. As raparigas encontravam modificado o seu pequeno mundo. Todas as oportunidades lhes eram oferecidas, at o ponto de vestirem calas e conduzirem caminhes, em Frana.Marian podia ter escolhido entre uma centena de colocaes, todas mais remuneradoras do que qualquer outra que ela tivesse tido. Era uma poca de esforo. Era uma poca de extrema tenso emocional. Era uma poca em que a nobreza e o egosmo da natureza humana se mostravam cruamente. Era uma poca que despertava estranhos, profundos e poderosos instintos nas raparigas. Era uma poca em que muitos soldados davam mau uso  atraco exercida pelos seus uniformes.
Marian tinha as suas razes prprias para se sentir pessoalmente e tremendamente impressionada pela guerra. Isso tornou-a generosamente caridosa na sua apreciao dos outros. Mas no podia concordar com o desvairamento e a desorientao que via  sua volta. Podia no censurar as raparigas que precipitadamente corriam a casar-se com soldados - ela prpria desejara ardentemente casar com Nophaie - mas afrontava-a e desgostava-a o abandono de todas as convenincias, que ela via em muita gente nova. A guerra parecia hav-los atirado de cabea baixa e olhos fechados para qualquer coisa que ela no entendia o que fosse.
E no entanto Marian sentia, ela mesma, essa atraco estranha e terrvel.
Porque motivo sentia ela o seu corao bater com mais fora sempre que via um soldado? Porque se lhe enevoavam os olhos quando, da sua janela, via um comboio cheio de soldados a caminho de Nova Iorque? A espectacular venda dos "Liberty Bonds" (1), as corridas, os bazares, os bailes,


*(1)Ttulos de crdito emitidos pelo Governo americano durante a guerra de 1914/1918. - Nota do Tradutor.

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os teatros cheios de gente, o alistamento de metade dos alunos graduados da Universidade da Pensilvnia - no meio de toda esta estranha e exaltante atmosfera Marian encontrou as suas razes para sentir-se alegre por ter vindo. Nenhum americano devia deixar de ver e de sentir aqueles dias. O deserto havia afastado e isolado Marian, at o ponto em que lhe parecera que j no fazia parte daquela grande Repblica... Ela tinha tantos motivos como qualquer outra mulher - excepto, talvez, a me de um soldado - para se sentir terrivelmente arrastada para o caos daquela poca de guerra. Sempre que pensava em Nophaie sentia-se doente, estremecendo at o mais profundo do seu ser. Mas tinha nele um orgulho que ia sempre crescendo.
Marian desempenhou o seu quinho de tarefa comprando e vendendo "Liberty Bonds", trabalhando em organizaes de auxlio aos combatentes e na Cruz Vermelha. Se no fosse a promessa feita a Nophaie, de regressar  reserva, ter-se-ia deixado completamente possuir pelo entusiasmo da guerra, como tantas outras raparigas. Era difcil resistir  tentao de seguir para Frana.
As cartas de Nophaie eram poucas e espaadas, e no se pareciam com as que ele escrevera do deserto, mas com elas Marian vivia e alimentava a sua esperana. Em Setembro partiu para a praia, para fugir  unidade e o ar viciado da cidade, que, desde a sua estada no Oeste, lhe era difcil suportar. Precisava de repouso. Foi para Cape May e passou a aparecer, quase exclusivamente, nos lugares onde tinha estado com Nophaie.
O Atlntico, to brilhante e eternamente agitado! Marian nadou na rebentao das vagas e deixou-se estar durante longas horas estendida sobre a areia. Foi um perodo de descanso, ainda que singularmente vivo e penetrante. O grande rolar das ondas, o ribombar das guas sobre as rochas, a espuma branca e a nvoa dos salpicos, o grande
mar cavado e verde que se estendia at o horizonte - todos esses elementos lhe pareciam agora mais claros e mais ntidos, compreendidos atravs das suas recordaes do deserto. Mas ela preferia o deserto; e cada dia o apelo da imensa vastido colorida, do isolamento e de qualquer coisa que ela no podia bem definir, se fazia ouvir mais insistente dentro dela.
Assim foi correndo o tempo, e o Outono comeou a aproximar-se do Inverno. Foram precisas ainda algumas semanas para que Marian vendesse uma pequena propriedade que possua - e pouco depois chegou uma carta de Nophaie, dizendo-lhe em que data partiria de Nova Iorque para a Frana. Marian foi a Nova Iorque na esperana v de poder v-lo ainda. Tudo o que conseguiu foi ouvir o som da sua voz, no telefone. E sentiu, por isso, uma inexprimvel gratido. No mesmo instante em que ela respondera ao seu "al!", ele tinha murmurado: "Sob a Roch"?... Ento, trmula, fechada dentro da pequena cabina, ela escutara as suas breves palavras de amor e de despedida.
Ela era uma entre os milhares de mulheres no cais de Hoboken, quando o grande navio levantou ferro. Milhares de faces de soldados se confundiam ante o olhar de Marian. Talvez um desses soldados fosse Nophaie. Marian acenou largamente um adeus para eles - para ele. Ela era apenas uma entre os milhares de mulheres que ficavam, para sofrer e para esperar. Aquilo era mais difcil para Marian do que a despedida em Flagerstown.
Um mar branco e ondulante de lenos que acenavam! A mancha clara das caras dos rapazes que partiam! Tudo aquilo tinha um profundo significado - tudo aquilo era infinitamente mais do que um simples incidente da existncia.
O claro sol de Inverno brilhava sobre o cais onde as mulheres choravam, sobre o grande navio com o friso de fardas castanhas da sua carga humana, sobre o Rio Hudson,
de curtas ondas verdes, sobre a enorme cidade que ficava l atrs.
Marian regressou a Filadlfia com o esprito profundamente deprimido, e pela primeira vez na sua vida sentiu-se tomada por uma desesperana sem limites. Por outro lado o clima frio e hmido agia mal sobre ela, depois da sua estada no deserto. Esteve doente, e quando se restabeleceu dedicou-se s tarefas de guerra. Todos os seus apontamentos sobre a reserva e sobre a escola ndia permaneceram intactos. No se sentia com coragem para voltar a escrev-los, ordenando-os e arranjando-os para efeitos de publicao. Lia constantemente os jornais e revistas que falavam da guerra. Acabou por ter o esprito num caos. Pelo menos uma vez aconteceu-lhe impressionar-se de maneira especial, numa emoo de angstia e de terror.
Um jornal reproduziu uma narrativa das operaes em Frana, ao longo de um rio que ficava na frente de batalha. Por qualquer razo no indicada, era importante instalar um observador na extremidade de certa ponte que estava h muito sob o fogo dos alemes. Durante trs dias um soldado permanecera imvel, coberto de tinta branca para simular um pilar, na extremidade perigosa da tal ponte. As suas observaes foram de grande valor e ele conseguiu no atrair as balas do inimigo. Mas morreu, exausto e em consequncia da camada de tinta que o cobrira. O observador era um ndio americano.
- Ele - ele podia ter sido Nophaie... - murmurou Marian, numa tortura.
Na Primavera a jovem recebeu a resposta a uma carta que escrevera  Senhora Wolterson:


"Querida Marian:

H muito tempo que devia ter respondido  sua to apreciada e to interessante carta. Perdoar-me-, porque a minha desculpa  trabalho, trabalho
e trabalho. Imagine! De entre seis brancos e trinta crianas ndias, eu fui a nica pessoa que no adoeceu com a "influenza".
Em primeiro lugar a sua narrativa dos acontecimentos e das coisas da gente do Leste, emocionou-me profundamente e fez-me desejar voltar para a - porque eu tambm nasci no Leste - embora me fizesse dar graas a Deus por me encontrar nesta imensido aberta.
Fomos transferidos para aqui, como sabe, e deixmos Mesa sem saudades, a no ser quanto aos poucos amigos verdadeiros que tnhamos. Foi sorte para ns que meu marido no fosse simplesmente demitido. O mal que lhe foi feito por Morgan e por Blucher no foi ainda compensado, e nunca o ser.
Blucher - e sei que gostar de ler isto, sofreu um rude e inesperado golpe no seu confessado germanofilismo. Algum ou alguma coisa lhe meteu um grande susto. Os meus amigos dizem-me que a sua reaco a esse medo, qualquer que ele fosse, teve como resultado uma renovada aplicao ao seu trabalho na reserva. Mas no ser superintendente durante muito tempo. H-de ser "posto a andar".
Morgan, entretanto, continua o seu caminho triunfante, apoiado na sua Velha Lei. Que monstro  esse homem!  completamente incompreensvel que um demnio, fantico como ele , consiga dispor de tal fora entre os bons missionrios.
E aqui vai um feixe de notcias que nos toca mais de perto. Gekin Yashi desapareceu novamente. O Quartel-General declara que ela fugiu, mas o meu correspondente em Mesa no acredita nessa verso. No foi feita qualquer tentativa para encontr-la. Se ela tivesse fugido t-la-iam procurado,

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mas nem Rhur nem qualquer dos polcias chegou a sair de Mesa. Eu sei o que penso, e o mesmo acontece com Robert. Mas  prefervel no confiar as minhas suspeitas a uma carta. Algum dia se saber a verdade. Pobre Pequena Beleza dos "Nopahs"! Quando penso nela, e no pequeno prodgio, Evangeline, e no nobre Nophaie, sinto que me di o corao.
King Point em nada se parece com Mesa. Eu gostava de Mesa, apesar do que por l sofri. Este lugar  nas terras altas, no deserto, a mais de sete mil ps sobre o nvel do mar.  um stio nu, estril, frio, e os ventos so terrveis. No ltimo Inverno a neve e a areia foram ao mesmo tempo varridas pelo vento. Mas h aqui beleza. Grandes extenses de terra vermelha, cobertas de cedros e de dunas de areia a que o vento d em cada dia novas formas, planaltos amarelos e grandes vertentes de vales esbranquiados. Mas a solido, o frio e o uivar do vento so pavorosos. A epidemia de "influenza" atacou-nos no fim do Inverno, o que foi sorte. Se a Primavera no viesse to depressa, creio que toda a populao, de trinta e seis pobres criaturas, teria sido levada."
Assim mesmo adoeceram todos, menos eu. Poder imaginar a minha tarefa? Tive os doentes todos a meu cargo at aparecer o mdico, e depois de ele se ir embora. Os pobres pequenitos ndios estiveram to doentes! Eu mal tinha tempo para comer, menos ainda para dormir. E, quando comearam a restabelecer-se, eu j em verdade no podia mais.
No tenho quaisquer informaes directas sobre os estragos causados pela "influenza" nos outros pontos da reserva. Mas julgo saber que os "Nopahs" foram duramente atingidos.

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Nunca vi uma doena como esta - e agora receio o regresso do Inverno. Diz-se que o tempo quente destri os germes da doena, ou l o que  que a faz espalhar-se.
Se o mal reaparecer no princpio do Inverno, tremo ao pensar o que poder acontecer aqui na reserva.
Falava-me de voltar, na sua carta. Tivemos grande alegria ao saber isso. A Senhora Withers escreveu-me dizendo que tinha recebido uma carta de Nophaie, da Frana, em que ele dizia que a tinha visto, a si, no cais de Hoboken, no momento da partida do navio. Mas Marian no conseguiu v-lo. Como so estranhos os acasos da vida!... Tenho dois irmos em Frana, na frente de batalha. Sempre que penso neles, penso tambm em Nophaie.
Todos os melhores desejos para si, Marian. D-nos notcias."
Sinceramente,

Beatrice Wolterson.

Marian regressou  terra dos ndios, preparada para trabalhar independentemente pelo bem estar dos "Nopahs". Alugou, em Flagerstown, uma pequena vivenda perto dos pinheirais, de onde podia avistar os verdes declives e os pncaros cinzentos das montanhas. Desta vez, dispondo dos conhecimentos e dos meios de preparar a sua tarefa, arranjou um lugar confortvel para viver durante as suas ausncias do deserto.
A sua primeira jornada atravs do deserto levou-a a King Point, onde passou com os Woltersons um dia bem preenchido. King Point era, no Vero, um stio to fresco e agradvel como Flagerstown. Marian encontrou imediato antagonismo na direco da escola ndia local,

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ao ponto de qualquer dos seus projectos ser praticamente considerado irrealizvel. Alm disso no havia onde pudesse instalar-se. A escola era apenas uma pequena filial do sistema escolar geral, e no havia ndios que vivessem nas vizinhanas. O missionrio que l se encontrava tinha sido colocado por Morgan - e a mulher dele parecia olhar Marian com mal disfarada desconfiana.
Com desgosto, Marian verificou que as coisas tambm no corriam favoravelmente para os Woltersons. A inimizade de Blucher tinha as garras compridas. Wolterson havia encontrado ali as mesmas tcticas de toupeira de que fora vtima em Mesa. Por outro lado a altitude e o frio, conjuntamente com a miservel instalao que lhes fora atribuda pelo Governo, eram prejudiciais  sua sade. Marian aconselhou-o a abandonar o servio.
- Sim, tenho de fazer isso... - respondera ele. - Mas aborrece-me faz-lo nesta altura. Parece que fui corrido...
Antes de Marian partir, Wolterson fez-lhe uma sugesto que a deixou pensativa. Falou-lhe do pequeno aglomerado dos "Nokis"; em Copnewashie, e disse-lhe de como eles iam progressivamente empobrecendo em gua e em terras, e de como tinham em face deles um Inverno difcil.
-  mais que certo que no tero que dar de comer aos gados... - disse Wolterson.
- Porqu?... - perguntou Marian.
- Porque eles dispem de menos terras do que dantes, e de muito pouca gua. No podem obter luzerna em quantidade suficiente.
- E porque razo tm agora menos terras?
- Friel e Morgan deitaram a mo  maior parte das terras dos ndios.
- Oh! Sim, lembro-me... Mas como podem eles fazer isso? Parece-me absolutamente inacreditvel!
- Escute, e eu lhe direi como ... - volveu Wolterson.

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- Friel ou Morgan comeam por escolher o terreno que particularmente lhes interessa. Ento conseguem que o superintendente envie um relatrio para Washington, dizendo que esse terreno no  necessrio aos ndios. Trata-se, naturalmente, do pedao de terra mais rico e melhor. O Governo autoriza ento a utilizao de uma rea limitada para que possa construir-se uma igreja. Pouco depois, outro relatrio informa que a rea indicada no  suficiente para que o missionrio possa dispor de um jardim e de algumas pastagens para os seus cavalos. A autorizao  ento alargada para uma rea maior, que o relatrio declara estar tambm disponvel. Algum tempo depois Friel requer e recebe um registo do terreno. Outros registos esto pendentes. Com a terra -lhe entregue o direito de utilizar gua para valas de irrigao, e muitas vezes uma boa fonte  includa na concesso feita. Esta gua,  claro, tira-se simplesmente aos ndios, A gua, no deserto  escassa. O ano passado foi um ano de seca - e este ano deve ser pior ainda... Compreende agora?
- Oh!... - exclamou Marian. -  ento assim que esses homens adquirem as terras!?


* * *


Marian havia planeado ir logo depois para Kaidab. mas, influenciada pela sugesto de Wolterson -- e tambm sem coragem para encontrar to depressa as maravilhosas terras altas, cobertas de mato, que Nophaie tanto amava - decidiu ir primeiro observar as coisas em Copenwashie. Os Paxtons, em Mesa, receberam-na com alegria e, para lhe fornecerem um pretexto que poderia vir a ser til, confiaram-lhe o encargo de adquirir entre os ndios alguns cestos e mantas de que precisavam para o seu negcio.

Copenwashie ficava na orla do planalto, a duas milhas ou mais do posto governamental.

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Em qualquer poca do ano era um lugar estril e desolado, mas no Vero, sob um sol de chumbo, era impiedosamente hostil para uma pessoa de raa branca.
Os "Nokis" eram trabalhadores agrcolas e no nmadas como os "Nopahs". Durante muito tempo as duas tribos haviam sido inimigas. Uma velha "squaw" "Noki", to velha que j nem sabia a sua idade, tinha contado a Paxton de como se recordava do tempo em que os "Nopahs" assaltavam a povoao e precipitavam os "Nokis" do alto das penedias. As casas dos "Nokis" tinham telhados planos, eram construdas com pedra e com tijolos secos ao sol, frescas no Vero, quentes no Inverno, e representavam um tipo de construo largamente evoludo em relao aos "hogans" primitivos dos "Nopahs". Em muitos casos, grosseiros estbulos se erguiam ao lado das habitaes. Na sua primeira visita, Marian observou que as vrias ruelas da aldeia eram cheias de cor e de movimento, atravancadas de burros, ces, galinhas, vacas - e crianas ndias. O ar estava cheio do aroma penetrante do fumo de fogueiras onde ardia lenha de cedro. Isso trouxe ao esprito de Marian a recordao da fogueira do acampamento nas terras altas. Tnues e delgadas, subiam no ar tranquilo as colunas de fumo azul que se escapavam dos orifcios de invisveis chamins.
Marian percorreu as pequenas casas baixas, indo de porta em porta e perguntando em cada uma se tinham cestos para vender. Viu lareiras, casas e mquinas de costura que em nada se diferenavam das que poderiam ver-se em habitaes de brancos. Os quartos que ela pde espreitar eram brancos e limpos. Os "Nokis" eram, por via de regra, homens baixos e de cara larga, mais parecidos com japoneses do que com os "Nopahs", e todas as mulheres aparentavam um aspecto pesado. Falavam um bocadito de ingls, mas eram tmidos e reservados. Marian mostrava-se difcil de contentar na escolha dos cestos,

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mas pagava quase sem discutir o preo que lhe pediam. Assim foi cuidadosamente tacteando o seu caminho ao longo da linha de procedimento que havia adoptado. Quando saiu da aldeia e comeou a subir o declive que conduzia a Mesa, olhou uma vez para trs.
A povoao parecia um amontoado de cabanas feitas de pedra e de lama, erguido quase  beira de um precipcio. Em baixo havia um largo vale coberto de verdura, onde se viam ndios a trabalhar e fios de gua a correr aqui e alm. Para alm do vale subia uma larga muralha de rocha, de um tom vermelho-amarelado, que parecia marcar os limites do fantstico deserto.  direita do ponto onde Marian se encontrava, erguia-se uma imponente construo de pedra, com dois andares e uma torre. Ali vivia Friel. De algum modo Marian sentia-se indignada por aquela presena. Olhava para a casa com os olhos de um ndio. Pensou em Ramsdell, o vaqueiro missionrio que sempre vivera e dormira como os cavaleiros dos grandes espaos livres. Sabendo o que sabia, Marian tinha dificuldade em conter a clera que a invadira.
Paxton tinha-a conduzido a Copenwashie e dissera-lhe que no considerava seguro que ela andasse a p. As oportunidades de montar a cavalo eram raras, por isso Marian se havia adaptado a um processo lento de passar o tempo e ir conquistando a confiana dos "Nokis". Mas os seus dias comportavam outras ocupaes - estudar, ler, escrever cartas e manter-se em estreito contacto com tudo o que se referia  evoluo da guerra. O calor do meio dia no era, no fim de contas, absolutamente insuportvel, e Marian habituou-se a ele, embora tentando sempre ficar dentro de casa durante essas horas. Contratou com o ndio que transportaVa o Correio, e que a no esquecera, para que ele levasse as suas cartas para Flagerstown e fizesse alguns recados necessrios. Trs ou quatro vezes por semana visitava a aldeia dos "Nokis". Em cada viagem comprava cestos e deixava sempre rebuados,

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bonecas e brinquedos com msica para as crianas. Quando uma mulher "Noki" lhe perguntou, certa vez, se ela era missionria, Marian convenceu-se de que a sua resposta claramente negativa marcara um ponto a seu favor.
Previa situaes embaraosas e estava preparada para elas. Jay Lord, durante as noites de Vero, costumava sentar-se nos degraus da porta do posto comercial. Morgan havia perguntado a algum "o que fazia ali aquela gata-de-cara-branca?". Friel soubera tambm da sua presena. Mas, at quele momento, Marian tinha sido bastante hbil ou bastante afortunada para evitar encontrar-se cara a cara com qualquer deles. Todavia no se preocupava por a alm com essa possibilidade.
Se pudesse sentir-se feliz, a felicidade seguramente estaria com ela naquele deserto que tanto a havia modificado e onde executava uma tarefa que ela prpria havia escolhido. Mas no podia, em verdade, sentir-se feliz. As cartas de Nophaie, que se encontrava "algures em Frana", eram raras. A censura abria-as, e ele escrevia pouqussimo acerca de si mesmo. Marian vivia no pavor constante de deixar de receber notcias - no pavor de que ele morresse. No a torturava a possibilidade de Nophaie ser ferido - porque sabia que ele era um daqueles ndios para quem a dor pouco significa. No podia abandonar o mrbido costume de ler notcias da guerra. Tinha pesadelos terrveis. Odiava cada vez mais os alemes. Mesmo a tranquilidade do deserto e o seu maravilhoso poder de acalmar, no atenuavam as suas emoes no que se referia  guerra. A vida no se detinha, mas por vezes parecia-lhe que o seu corao parava. Ia resistindo, tirando o melhor partido possvel das suas oportunidades entre os "Nokis", tentando no perder a esperana nem a f. O longo Vero ardente arrastava-se, aliviando apenas por uma nica e breve visita s frescas e montanhosas altitudes de Flagerstown.

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Com o fim do Vero, pareceu chegar tambm o fim da sua vida de espera, montona e vazia.
Withers veio um dia procur-la e levou-a no seu carro para Kaidab. A Senhora Withers estava doente, precisava de uma mudana de clima e pedia a Marian que a acompanhasse numa curta visita  Califrnia. Marian acedeu alegremente e, enquanto se faziam os preparativos da viagem, percorreu a cavalo as alturas do grande planalto, para rever o pas de Nophaie. Tudo o que conseguiu foi avistar de longe as grandes agulhas vermelhas do Vale dos Deuses. Mas sentiu por isso, uma infinita gratido. Olhando atravs daquele imenso e maravilhoso deserto de muralhas de pedra, com as grandes manchas verdes das terras baixas, Marian pensou no rapazinho ndio que nascera ali, guiara o seu rebanho ao longo da solitria vastido, escutando as vozes misteriosas dos espritos ndios - e que combatia agora em Frana, pelos homens brancos e pela Amrica. A antiga fora de Marian parecia voltar ao seu corao. Era como se tivesse estado doente, isolada, meditando, suspirando por Nophaie. Precisava de amor. Mas compreendia o seu egosmo, em contraste com a nobreza de Nophaie. A viso das terras altas bastara para fazer reviver dentro dela o antigo e corajoso impulso.Era preciso no sucumbir, no mostrar a sua angstia, nem os seus desejos. Em cada dia encontrava novo alento. Parecia-lhe que o frio retemperava as suas energias.
Withers concluiu que a ocasio era propcia para uma curta ausncia de Kaidab. Colman, o seu scio, pensava que os negcios tinham tendncia para piorar, em vez de melhorar. Havia principiado o declnio da riqueza dos "Nopahs". O preo das ls baixava constantemente. No existia procura para as mantas, nem para os cestos. Os ndios tinham sido prdigos em todas as coisas. Nunca tinham constitudo reservas fosse do que fosse.

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E no compreendiam a baixa dos preos das ls, ao passo que os preos de tudo o que se vendia nos postos comerciais iam subindo sempre.
- Vo deparar com o Inverno mais difcil que tem havido neste deserto... - comentou Colman,  maneira de concluso.
- Voc diz isso... - respondeu Withers, pensativo. - E se essa epidemia de "influenza" atacar a reserva quando chegar o frio...  o fim de tudo...
- Nunca mais acabar a guerra? - suspirou a Senhora Withers.
- Acabar? Est praticamente terminada. Os alemes esto liquidados. Agora s tentam ganhar tempo... - volveu o comerciante, com um brilho vivo nos olhos. - Nunca podero aguentar outro Inverno. Quase desejo que eles continuem a resistir. A Frana est agora a dominar a situao. Deviam deixar que o marechal Foch varresse os alemes da face da terra. Se o no fizerem, os alemes ho-de recompr-se de qualquer maneira,  custa de qualquer habilidade, e voltaro  luta no futuro, piores do que nunca.
Ted, o filho de Withers, tinha sido enviado para Frana mas estava ainda entre as tropas de reserva, longe da frente de batalha. Este facto, aparentemente, irritava o homem do Oeste. Ele desejava que o filho combatesse. A Senhora Withers, por seu lado, dava graas a Deus por ter poupado at quele momento o seu nico rapaz. Mas a irm de Ted partilhava as ideias guerreiras do pai. Marian sentia o intolervel cansao da guerra. Para ela, todo o terrvel, inacreditvel e monstruoso cataclismo se desenrolava em torno de Nophaie. E no recebia notcias dele havia j tantas semanas.
No ltimo dia da sua permanncia em Kaidab, Marian levou a filha de Withers a um passeio a cavalo, com a ideia de alcanarem o ponto mais alto onde lhes fosse possvel chegar.

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Withers mandou um ndio acompanh-la. Foi uma longa, difcil e magnfica cavalgada. Do alto de uma enorme escarpa, Marian pde avistar toda a imensa vastido do Vale dos Deuses - as sentinelas vermelhas do deserto - isoladas e gigantescas entre a neblina da distncia. Viu o sombrio planalto em forma de rgo, sob cuja sombra nascera Nophaie. Depois, mais longe ainda para oeste, para alm dos colossais degraus de rocha, entreviu de relance a linha verde dos cedros e a mancha prpura dos matos das terras altas, dominadas pela cpula imensa de Nothis Ahn.
Marian sentiu um estremecimento que era mais do que simples excitao. O seu peito arfava, os seus olhos enchiam-se de uma nvoa de lgrimas. Bravia, solitria, magnfica terra de matos e de desfiladeiros! Amava aquela terra. O melhor aprendizado da sua vida tinha sido feito ali, sob aquele encantamento. Ansiava por escalar a rude e interminvel trilha que conduzia s muralhas silenciosas de Nophaie. Para ela, essas muralhas no eram em verdade silenciosas.
O dia tinha sido cheio, pungente, num renascer das antigas vagas emocionais. Quando Marian caminhava atravs da extenso plana do deserto cinzento, pouco antes de Kaidab, o poente doirava as arestas dos planaltos distantes. As depresses das muralhas pareciam reter uma nvoa com tons de lils e de rosa; a interminvel vastido arenosa, cortada pelas manchas de relva, ondulava na lonjura sob a luz doce e doirada.
Withers esperava, junto do porto, o regresso das raparigas e do ndio. Tinha uma expresso alegre, excitada, que Marian no lhe conhecia. Que coisa poderia ter assim perturbado o auto-domnio daquele homem tranquilo? Marian sentiu uma sensao de fadiga.
- Desmontem e venham c!..., - bradou o comerciante. - Aviem-se! Tenho novidades!

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Marian desmontou, sentindo as pernas trmulas mas correu atrs da filha de Withers, que gritava:
- Oh! O Pai recebeu carta de Ted!
Era realmente uma carta de Ted. A Senhora Withers tinha estado a chorar, mas tinha agora uma expresso de radiosa alegria. O comerciante segurava entre os dedos uma quantidade de folhas de papel, cobertas por uma letra firme e cerrada.
- Depois hs-de ler isto tudo, menina... - disse ele para a filha. - O Ted est bem, mas furioso porque no viu ainda um combate a valer. Ele confirma o que eu tenho dito aqui - que os alemes esto arrumados. Caramba!...! Vocs sabem que eu escrevi a Ted j h meses, pedindo-lhe que tentasse obter informaes dos nossos ndios. J no esperava receber resposta a isso. Mas o rapaz conseguiu saber uma data de coisas, que eu vou ler. Marian, o seu Nophaie recebeu a medalha dos D. S. (1) Sabia alguma coisa a este respeito?
Marian no conseguiria falar nem que a sua vida dependesse disso. Parecia sentir-se mergulhada num mar de emoes - emudecia pelo mais doce, mais profundo, mais intenso - quase mais doloroso - instante da sua vida.
O comerciante passava entre as mos as folhas da carta. Os seus dedos tremiam visivelmente.
- C est! Esta carta vem menos cortada pela censura do que qualquer outra das que temos recebido. Ted diz assim:



"Tive um bocado de sorte. Aconteceu encontrar um soldado que tinha estado num dos pontos mais difceis da frente de combate, em companhia dos nossos ndios. Tinha muito que contar a respeito deles, e falou  vontade. O homem conhecia Lo Blandy,


*(1) D.S., "Distinguished Services" (Servios Distintos) - Uma das mais altas condecoraes militares americanas. (Nota do tradutor).


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nos tempos em que ele jogava futebol pela Universidade. No h, portanto, que ter dvidas de que se trata realmente do nosso Nophaie. Fizemo-nos amigos. Chama-se Munson, e  de Vermont. No esteve apenas nas trincheiras, com os nossos ndios, esteve tambm no hospital com alguns deles. Esqueci-me dos nomes dos stios de que ele falou. Esta lngua francesa  difcil para mim. Munson contou-me que um oficial lhe disse que havia milhares de ndios americanos no exrcito. No sabia nada disso, e a notcia surpreendeu-me.
Muitos ndios morreram em combate. No sei se algum deles era da tribo dos "Nopahs". Mas o ndio que usava a armadilha dos ursos,  o nosso conhecido maluco, o Shoie, o homem dos feitios. Munson disse-me que era esse o nome que lhe davam, e corresponde exactamente  descrio que eu lhe fiz do personagem. Ao que parece, quase todas as noites o Shoie trazia para as nossas trincheiras um alemo mais ou menos aleijado, com uma perna ou um brao partidos e terrivelmente lacerados. Shoie nunca falou muito a esse respeito. O pai conhece-o. Mas, tal como todos os outros ndios,  um batedor magnfico, e assim dispunha de muito maior liberdade do que os soldados brancos. Os peles-vermelhas no tm mais medo da Terra de Ningum do que de atravessar de noite o seu deserto. Descobriu-se mais tarde que o Shoie arrastava os alemes para as nossas trincheiras com o auxlio de uma armadilha nmero quatro, para ursos, que ele amarrava com um arame slido e comprido. Shoie saa das trincheiras durante a noite - dizem que ele escolhia sempre os lugares exactos onde os alemes pretendiam instalar atiradores especiais - e preparava a armadilha.

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Depois voltava para a trincheira e punha-se  espera. Quando apanhava algum alemo, sabia-se logo do caso, ao longo de toda a linha, porque o pobre diabo berrava como um danado. Qualquer homem faria o mesmo, desde que fosse apanhado numa armadilha nmero quatro. Tudo o que o Shoie dizia, era: - "Mim apanha todos malvados assim!..."...Mas creio que os prisioneiros lhe eram tirados das unhas antes que ele acabasse a tarefa.
E agora notcias de Lo Blandy. Munson esteve com ele no hospital, e soube que o nosso Nophaie foi ferido quatro vezes, da ltima com muita gravidade. Mas parecia estar quase completamente restabelecido, h coisa de trs semanas. Blandy - ou Nophaie - estava para receber baixa do exrcito e ser enviado para casa, como invlido, incapacitado para qualquer servio. Sofreu tudo quanto  possvel sofrer na guerra,  excepo de morrer. A morte parecia no querer nada com ele. Munson contou-me que Nophaie era indiferente ao perigo e  dor. Mas estava afectado por choque provocado por estilhaos de granada, e tinha os pulmes atacados pelos gases. Mas, na opinio de Munson, Nophaie est longe de ser um homem liquidado. Parece-me que Munson me disse que ele havia sido enviado para Chato Terry (1) (ser assim que se escreve?) e que um oficial lhe deu a medalha dos D. S., que tirou do seu prprio peito. Os oficiais s procedem assim para com os autnticos heris, podem acreditar.
Seja como for, Nophaie e alguns outros ndios devem ir agora a caminho de casa. Estou contente por isso.  um orgulho para ns ouvir contar as proezas dos nossos ndios durante esta guerra.


*1. Chateau Thierry, em Frana.


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Penso que nunca, pessoalmente, liguei grande importncia aos "Nopahs". Mas tenho a certeza de que milhares, ou milhes, de americanos, incluindo eu prprio, tero daqui em diante uma ideia diferente a respeito dos peles-vermelhas.
As minhas possibilidades de tratar da sade a um Fritz (1) so cada vez mais diminutas. Por isso tenho cada vez mais saudades de todos vocs, e do cheiro das ls, e do fumo azul e perfumado da lenha de cedro a arder na fogueira".


XIX.


As notcias do armistcio s chegaram a Mesa ao anoitecer desse memorvel dia de Novembro. Foi o ndio do Correio quem as levou. No o acreditaram. Paxton correu ao telefone, mas as comunicaes estavam interrompidas, entre Mesa e Flagerstown. Um numeroso grupo de ndios reuniu-se em volta do homem do Correio. Eles acreditavam na notcia. S os brancos se mostravam cpticos.
- Oh!  bom demais para ser verdade!... - disse a Senhora Paxton a Marian.
- No deve tardar... - murmurou Marian, tensamente. Tinha no peito uma carta de Nophaie, em que ele lhe contava da desagregao moral dos restos do exrcito inimigo.
Paxton regressou a casa meio tonto, partilhado entre a esperana e a dvida. Quase que caiu por cima do filhito. Abraou a mulher e beijou-a - mas logo a seguir fez troa da sua credulidade e das suas esperanas.
Marian atravessou o armazm, desceu os degraus de pedra e foi juntar-se ao grupo de ndios que rodeava ainda o homem do Correio.


*(1) Fritz, nome caracteristicamente alemo, diminutivo de Frederico.


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Era um grupo formado por "Nopahs" e por "Nokis". Havia uma grande excitao em todos eles. Falavam apressadamente, todos ao mesmo tempo, no seu dialecto spero e gutural. Marian sentiu o cheiro do "whisky". Mas, abrindo caminho resolutamente, aproximou-se do ndio que trouxera a notcia.
- O que foi que voc ouviu dizer, ao certo?... - perguntou ela em ingls.
- Guerra acabada - alemes no mais tiros - eles fugir - pedir para juntar grande conselho para fazer paz... - respondeu o ndio.
- Quem disse isso?
- Notcia vir nos fios... Grande conversa sobre os fios... Homens andar s voltas, contentes... muitos beber... e "squaws" brancas fazer gritaria muito-.. Tudo parar trabalhar... tocar sinos..., apito serrao madeira tocar muita fora... Grande barulho...
E o ndio indicava, com expressivos gestos, as duas orelhas, apertando depois a cabea entre as mos para dar uma ideia da confuso, do clamor e da alegria que reinava em Flagerstown.
Marian voltou, a correr, para casa dos Paxtons.
- Meus queridos amigos, esse ndio est a contar a verdade. H uma extraordinria alegria em Flagerstown. Que outro motivo poderia haver para isso, a no ser a paz?
- Oh!  demasiado bom para ser verdade... - repetiu a Senhora Paxton.
Nesse momento exacto o empregado de Paxton entrou, a correr. EstaVa plido e parecia quase sufocado.
- Ekersall ao telefone... - rouquejou ele. - A guerra acabou!... Friel trouxe a notcia - ele e Leamon. Chegaram agora mesmo da cidade. Est tudo maluco!
Eckersall era o inspector agrcola do Governo em Copenwashie, um velho homem do Oeste, pouco dado a exageros.

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Paxton sentou-se bruscamente, como se tivesse perdido a fora das pernas. A mulher dele apertou ao peito o filho, beijando-o e murmurando:
- Graas a Deus!...
O empregado voltou para o armazm e Paxton l conseguiu levantar-se para ir atrs dele. Marian e a Senhora Paxton choravam, apertando as mos uma  outra. E essas singelas reaces pareceram ser precursoras de uma hora de excitao crescente. Ningum pensou em jantar. Na rua, em frente do posto comercial, a multido engrossava rapidamente, e agora os brancos misturavam-se com os ndios.O automvel de Friel apareceu na estrada, ronronando; trazia mais trs homens brancos, e alguns ndios tambm. Estes ltimos pularam para o cho enquanto Friel continuava a aproximar-se com o carro. O missionrio avistou Marian, de p sobre os degraus, e acenou com a mo, exclamando: - "Acabou a guerra!" Marian acenou em resposta - e foi a nica vez na sua vida em que ela sentiu satisfao por ver Friel. Ele trazia abenoadas notcias. Friel seguiu com o automvel, evidentemente com pressa de alcanar as instalaes dos servios do Governo.
O ar de Novembro era spero e frio. Marian sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Entrou para a sala-de-estar dos Paxtons e sentou-se perto da janela. O comerciante apareceu e abriu de par em par os batentes.
- No perca o espectculo! Vai haver complicao. Blucher prendeu alguns "Nopahs", mas aposto que eles nem chegam a entrar na cadeia!
Marian debruou-se, atenta. O comerciante andava de um lado para o outro, com a mulher atrs dele. Ela estava a tentar impedi-lo de sair de casa. Todavia, durante alguns momentos, nada de anormal se passou na rua. A multido era agora composta por mais de uma centena de ndios, um aglomerado de faces escuras que se juntavam em pequenos grupos - cada um dos quais, ao que parecia,

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rodeava um ndio que tinha uma garrafa na mo. Os brancos
tinham-se afastado.
O dia tinha sido sombrio, com o cu coberto por grossos rolos de nuvens que se acastelavam a oeste. Faltava talvez uma hora para se pr o sol. No horizonte ,a cortina de prpura e de cinza formada pelas nuvens ,abriu-se e deixou passar um claro avermelhado que iluminou o deserto e tingiu o docel de neblina. No havia os tons habituais de prata e de oiro. A luz vermelha parecia uma labareda contra o poente purpurino, numa espcie de estranho, fantstico e magnfico cenrio do fim do dia.
Marian viu um ndio que descia a correr a avenida, entre as rvores. Alguns dos outros, que estavam a observar, lanaram brados. O "Noki" vinha visivelmente assustado, porque olhou para trs vrias vezes antes de se misturar entre os amigos.
O carro de Friel apareceu de novo, trazendo os mesmos homens. Marian reconheceu dois deles. O missionrio parou o automvel em frente dos degraus do posto, e logo a seguir desceu. Ia evidentemente encaminhar-se para a janela onde estava Marian, quando um dos outros, chamou: - Espere, Friel!
O missionrio voltou-se com um gesto de impacincia, ante o imperioso chamado. Os ndios estavam outra vez a olhar ao longo da avenida. Marian ouviu o rudo da aproximao de outro carro, mas, antes que ele entrasse no seu campo de viso, surgiram quatro homens brancos correndo apressadamente. O que vinha  frente era Rhur, o polcia, e os dois ltimos eram Glendon e Naylor. Marian no reconheceu o segundo homem. Pareciam excitados e colricos, mas tinham ao mesmo tempo um ar cauteloso e atento. Foi ento que o segundo carro se aproximou. Sam Ween, o intrprete, vinha ao volante. Morgan estava de p sobre o estribo, e Blucher dentro do carro, tambm de p. No foi difcil, para Marian, compreender o estado do esprito de ambos.

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Quando o carro parou, Morgan saltou para o cho. Blucher seguiu-o.
- Prendam esse ndio!... - gritou ele.
Rhur, aparentemente, no hesitou em abrir caminho por entre o grupo de ndios, agora silencioso, e um dos seus acompanhantes, o homem que Marian no sabia quem era, seguiu-o logo depois, embora mais devagar. Glendon e Naylor deixaram-se ficar para trs, o que aumentou ainda a fria de Blucher. Morgan tambm tinha ficado a distncia do grupo hostil formado pelos ndios. Bruscamente o grupo abriu-se para dar passagem a Rhur, que arrastava um ndio com ele - o "Noki" que se havia escondido pouco antes. Blucher correu para o ndio e algemou-o.
- Para que est voc a algemar o homem, imbecil!?... - bradou Morgan. - Os ndios detestam isso, e eu j o avisei de que eles esto enfurecidos. Alguns andaram a beber!
- Quem  que d ordens aqui?... - rouquejou Blucher.
Os ndios mais novos, e possivelmente tambm os mais embriagados, avanaram em grupo, rodeando Blucher e os seus homens. Apertavam o cerco em volta deles, soltando brados.
- Deixe ir esse ndio em liberdade!... - gritou Morgan com toda a fora dos seus pulmes.
- Hei-de mand-lo para o inferno antes disso!... - gritou Blucher em resposta.
Nessa altura a multido tornou-se ainda mais ruidosa e violenta, francamente ameaadora. Marian perdeu de vista os homens brancos, no meio da confuso. Sentiu o seu corao bater, de excitao e de medo. Os ndios no estavam dispostos a deixar-se dominar daquela vez. Havia uma sombria deciso nas suas faces bronzeadas. O grupo formava agora uma massa compacta. Abriu-se no entanto outra vez, mas mais violentamente, para deixar passar os brancos,

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desalinhados, plidos e visivelmente assustados. Os ndios haviam forado Blucher a tirar as algemas ao "Noki" que ele tinha prendido. Atiravam-lhe insultos. Mos morenas e nervosas erguiam no ar dezenas de garrafas. - "Whisky"!... - gritavam alguns dos ndios. Vrios de entre eles levaram as garrafas  boca e beberam em r de provocao, nas barbas de Blucher. Obrigaram-no a recuar na direco do posto comercial, por acaso junto da janela por onde Marian espreitava, curvada.
- Cabea de pau embrulhada em pele!... - berrou um "Noki" que sabia falar ingls.
Logo a seguir os "Nokis" e os "Nopahs" repetiram o brado, cada qual na sua lngua. Naquele insulto havia provocao, dio, desprezo, ameaa e aviso.
Ento os ndios mais sbrios e mais velhos comearam a intervir, levando os exaltados para trs, para longe do posto comercial. A tarefa era flagrantemente difcil, mas os mais prudentes acabaram por dominar a situao. Era todavia certo que Morgan e Blucher tinham escapado  justa de serem maltratados.
- Que lhe disse eu?... - exclamou o missionrio, rouco de fria.
Blucher no respondeu. Tinha a cara plida e coberta de suor, contrada numa expresso rgida e estranha. Marian pde observ-lo  vontade quando ele se encaminhou para o automvel. Parecia caminhar sob o domnio de um pesadelo. Os ndios nada significavam para ele. Todos os seus brados, todas as suas ordens furiosas, toda a sua violncia no eram mais do que exploses de uma raiva indominvel e terrvel. Alemo dos ps  cabea, orgulhoso, teimoso e agressivo, as notcias da derrota do seu povo haviam-no enlouquecido quase completamente.
Marian avistou tambm a cara de Morgan, onde parecia haver uma expresso malvola e sardnica.

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Ou era a sua prpria imaginao que a fazia ver daquela maneira o estranho personagem? O missionrio causava-lhe uma espcie de pasmo. Assustava-a, como se se tratasse realmente de um monstro horripilante, vestgio feroz e brbaro de outras Idades. Estaria errada? Mas Marian tinha a certeza de que a mente daquele homem era um abismo to negro como o inferno, e que na sua alma s existiam paixes ms e bravias.


* * *


Chegou o ms de Dezembro, sombrio e spero mas sem trazer consigo as intempries que tornavam o deserto impossvel para os brancos. Receberam-se notcias de que existiam focos de "influenza" em vrios pontos largamente distanciados uns dos outros. Mas nenhum esforo foi feito para deter a doena ou para fornecer medicamentos aos ndios, com excepo das crianas das escolas. A epidemia no era ainda considerada grave.
Marian compreendeu certo dia que havia conquistado a confiana dos "Nokis". Muito tempo antes da altura em que contara poder conseguir isso, verificou que era alegremente recebida nas casas dificilmente abordveis daquele estranho povo do deserto. Eles eram, no fim de contas, muito humanos, muito sensveis  gentileza e  bondade. Aceitavam os presentes e as ajudas, mas os dons materiais no eram o caminho mais seguro para os seus coraes. Marian s descobriu este facto depois de ter ganhado a simpatia deles.
Ento tornou-se claro para ela que eles a tinham vindo a observar com to inteligente e atento cuidado como aquele que ela prpria lhes dedicara. Haviam-na julgado pelas suas palavras e pelas suas aces, mas tambm pelos factos e pelas atitudes que comprovavam a sua maneira de ser.

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Logo que Marian tomou contacto com as verdadeiras condies de existncia daqueles ndios, disps-se a trabalhar  sua maneira para ajud-los. Havia crianas e velhos que pouco a pouco cegavam em consequncia de tracomas; outras crianas sofriam de citicas congnitas; encontravam-se sempre cavaleiros feridos e mulheres doentes; finalmente toda a aldeia era pobre - e empobrecia cada vez mais.
A guerra tinha acabado, mas as suas consequncias apenas comeavam. Havia vrias indicaes que justificavam mais do que largamente as sombrias previses de Withers.
Marian nunca vira que o mdico da escola governamental desperdiasse o seu tempo numa visita a Copenwashie. Levou um clnico de Flagerstown. As vrias visitas do facultativo, acompanhadas pelos cuidados da jovem, aliviaram muitos males. Quando os cpticos "Nokis" verificaram que nada lhes era pedido em troca, que nenhuma exigncia lhes era feita, que nada mais havia em tudo aquilo, alm da bondade de "Sob a Roch" foram mudando subtilmente, quase imperceptivelmente. Os velhos "Nokis" aprenderam a sorrir de leve, deixando as suas atitudes hirtas e sombrias; as crianas alegravam-se quando Marian chegava, mais pela sua presena do que pelas prendas que ela sempre lhes trazia.
Era muito difcil para Marian manter-se por mais de meia hora no interior das pequenas casas dos ndios, por causa do fumo acre das lareiras destapadas. Isso acabou por lhe afectar gravemente os olhos e a garganta. Sentia sempre um alvio enorme quando saa para o frio cortante do deserto. Mas trabalhava o mais que podia, grata por ver que os seus esforos no eram vos e inteis.
Paxton abandonou um tanto a sua rotina para ajud-la. Eckersall,  sua maneira rude e resmungona, no perdia uma nica ocasio de servi-la e de louv-la. Era rarssimo que um dos dois no arranjasse maneira de aparecer para lhe evitar a caminhada de quase duas milhas,

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atravs das veredas varridas pelo vento que separavam Mesa de Copenwashie. Marian no teve quaisquer contactos com Morgan ou com Blucher e, tanto quanto ela sabia, eles no se preocupavam com as suas ocupaes. Este facto, todavia, no impedia Marian de os considerar perigosos. Eles eram como os vermes da terra, que abrem o seu caminho na escurido.
Aconteceu naturalmente que as relaes de Marian com os "Nokis", cada vez mais estreitas e confiantes, tiveram como consequncia que os ndios a tomaram por conselheira, abrindo-se com ela. E, pelos meados de Dezembro, a maioria dos "Nokis" que eram donos de cavalos e de gado, especialmente os que se dedicavam aos servios de transportes, comeou a ter grandes dificuldades para alimentar os animais que possua. Marian emprestou dinheiro aos mais necessitados, mas a situao no podia ser resolvida com os poucos meios de que a jovem dispunha. Marian falou com Eckersall sobre o assunto.
- H muito tempo que eu estava a ver chegar este momento... - foi a resposta de Eckersall. - Os "Nokis" vo ver-se a contas com um Inverno levado de todos os diabos - se  que desculpa a minha maneira de falar, "miss" Marian.
- Quanto custar a compra de feno para todo o Inverno?... - perguntou Marian.
- S os cavalos dos carros comem para a uns mil dlares de feno, at chegar a Primavera...
- Oh! Tanto! No posso dispor desse dinheiro!
- Claro que no pode! Aquilo que a menina est a fazer j  muita coisa...
- Onde  que poderamos conseguir ajuda?... - disse Marian.
- No fao ideia... Tem alguns amigos a quem se possa falar?

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- Creio que no... Estou a pensar se "Mr." Withers
no poderia dar uma ajuda...
- Withers!? No me parece. Ele vai perder muito
dinheiro com os ndios, neste Inverno. Note bem o que eu lhe digo. Encontrei Withers em Red Sandy, a semana passada. Perguntei-lhe como iam as coisas em Kaidab- e a sua resposta foi levantar as mos ao cu.
- Eckersall, quem  que dispe da luzerna ceifada por aqui no ltimo Vero?... - perguntou Marian, interessada.
- Friel tem a maior parte...
- Ah! E Blucher dispe de algum feno?
- Muito! Uma parte foi apanhada aqui, outra veio da cidade.
- Ento... no podero os ndios obter algum desse feno?
- Hum!... Tero de pag-lo por alto preo. E agora a ocasio  m. Blucher est furioso por causa do negcio da carne...
- Que negcio  esse?
- Bem, "miss", eu no sou mais do que um funcionrio do Governo, e a minha obrigao  estar calado.  claro que posso confiar em si... mas no  disso que se trata... Eu lhe digo o que vou fazer. Vou ter com o agente e conversar a srio com ele, a respeito dos "Nokis".
- Obrigada, Eckersall.  bondade sua. Talvez que se possa conseguir alguma coisa...
Mas Marian no tinha grandes esperanas. E quando, atravs de outras fontes de informao, soube o que se dizia a respeito do tal negcio das carnes, ficou ainda menos esperanada. Ao que parecia, no princpio do Inverno, Blucher tinha pretendido adquirir carne aos "Nokis" e aos "Nopahs", mas oferecendo um preo baixssimo pelas reses. Em consequncia disso os ndios apenas tinham vendido pequenas quantidades,

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e as crianas da escola estavam reduzidas a uma dieta muito menos do que suficiente. Marian sabia que o Governo havia adiantado uma quantia que permitiria a Blucher pagar a carne a preos bastante mais altos. Ele, todavia, no queria pagar mais do que aquilo que dissera. No era preciso ser muito inteligente para adivinhar as razes do seu procedimento, ou o destino que Blucher pretendia dar  diferena de verba.
Decorreram alguns dias antes que Marian falasse novamente com Eckersall.
- Bem, parece que a menina e eu estamos do lado mau da barricada... - disse ele com um ar aborrecido, em resposta  pergunta da jovem.
- Porqu?
- Por nos preocuparmos com esses pobres diabos dos ndios... "Miss" Marian, eu fui ter com o nosso germnico superintendente e fiz-lhe o maior discurso de toda a minha vida. Descrevi-lhe as relaes dos "Nokis" e a fome dos animais, com palavras que ele nunca tinha ouvido antes. Disse-lhe que ele obrigava os "Nokis" a transportarem os abastecimentos da cidade... e que no lhes pagava como devia ser; disse-lhe que essa pobre gente no tinha outro modo de ganhar a vida. Respondeu-me simplesmente que no tinha feno disponvel a vinte dlares cada tonelada. Que fosse falar com o missionrio. Fui ter com Friel... e ele pediu quarenta dlares por tonelada de feno!... Os "Nokis" no podem pagar esse preo. Voltei a falar com Blucher - e ele berrou: - "Se Friel pede quarenta dlares pelo feno, ento os ndios no tm outro remdio seno pagar os quarenta dlares!".
Pouco tempo depois, Marian encontrou um dos carros de transporte no sop do planalto. O carro vinha completamente cheio de caixas e de volumes diversos,

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que constituam uma carga enormssima a transportar atravs do terreno arenoso e ao longo das encostas das colinas do deserto. Trs parelhas de cavalos puxavam o veculo. Seis pequenos cavalos! Os pobres animais pareciam ter apenas pele e osso. Pareciam meio mortos, esgotados pela fome e pelo esforo. As costelas deles quase furavam a pele, como postes de uma vedao. Tinham os dorsos feridos pelo atrito dos arreios.
Os condutores do carro, dois jovens "Nokis", iam a p. Um segurava as longas rdeas; o outro seguia  frente da parelha dianteira. Pareciam to cansados como os cavalos. Vinham a caminhar desde Flagerstown - uma distncia de quase oitenta milhas - para pouparem os animais. Marian interrogou-os e, embora lhe respondessem com bons modos, sorridentes, as respostas traduziam bem a depresso que os acabrunhava.
Depois desse encontro, Marian teve conhecimento de um facto igualmente elucidativo. Friel dissera por vrias vezes a um inteligente "Noki": - "O feno e os gros ho-de ser proporcionados por Deus - se acreditares em tudo quanto eu te digo!..." O missionrio deixava os seus dois cavalos esfomeados a pastar perto do posto comercial. Um dia o inteligente "Noki" ia a caminho de casa, levando no seu carro algum feno para os cavalos que possua. Quando o "Noki" parou junto do posto, os animais pertencentes a Friel aproximaram-se do carro e comeram o feno. Ao ver o que se tinha passado, o "Noki" observou secamente :
- Pois , alguns missionrios andam a a pedir a Deus que mande feno - e os cavalos deles roubam e comem o feno que me pertence...
Os "Nokis" compreendiam que estavam a ser gradualmente espoliados das terras que lhes pertenciam,

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e naquele Inverno comearam a mostrar-se inquietos e sombrios. Em anos anteriores eles haviam sido autorizados a plantar luzerna numa certa extenso dos terrenos que pertenciam  fazenda da escola, mas esse privilgio fora-lhes agora retirado. Se o Governo utilizava todo o feno que produzia, e se os missionrios pediam preos exorbitantes por aquele de que dispunham - ento o que os "Nokis" tinham de fazer era suspender o transporte de abastecimentos entre Flagerstown e Mesa. Os seus cavalos estavam fracos demais para puxarem os carros.
O Inverno chegou, cortante e gelado, e o deserto tornou-se uma temerosa vastido. Dia aps dia as nuvens escuras iam-se acumulando, ameaando tempestade.
Com o Inverno vieram as privaes, e muitas das famlias dos "Nokis" comearam a sofrer profundamente. A falta de comida para os homens e para os animais era em verdade desencorajante. Marian comprava quantidades de abastecimentos a Paxton - que recebia por eles exactamente o preo pelo qual os pagara - mas isso no podia durar muito tempo, nem servir de muito.
Foi ento que se deu o incidente que lanou lenha no lume do ressentimento dos "Nokis".
Friel tinha feito uma rpida viagem a Flagerstown, e soubera que o preo da farinha havia aumentado de cerca de dois dlares em cada cem quilos. Aconteceu tambm que, no seu caminho de regresso, encontrou os lentos carros de alguns "Nokis" que iam comprar farinha a Copenwashie. De posse destas informaes, conduziu rapidamente o seu automvel e, nos postos comerciais de Copenwashie e de Mesa, comprou toda a farinha de que os comerciantes dispunham, num total de cerca de dois mil dlares, aos antigos preos.

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Antes deste incidente, Friel havia j atrado a inimizade de quase toda a gente. Daquela vez, porm, a sua aco fora alm da estica pacincia dos "Nokis".
O missionrio obtivera autorizao do agente para pregar s crianas da escola depois de, em cada dia, elas se reunirem na sala de aulas. Foi assim que escolheu a primeira hora da sesso da manh e falou s crianas sobre a sua interpretao da Bblia. Os "Nokis" levantaram protestos contra o facto de Friel ocupar o tempo dos trabalhos escolares para impor a sua doutrina s crianas, e queixaram-se ao agente. Nada conseguiram, e o seu ressentimento aumentou. Levantaram-se discusses. As actividades dos "Nokis" provocaram relatrios dirigidos ao Governo, e um inspector foi enviado ao local. Ficou resolvido que as pregaes, durante as horas de aula, no continuariam a ser feitas. Mas, logo que o inspector partiu, soube-se que Friel teve uma conferncia com Morgan e Blucher. O resultado dessa conferncia foi a continuao das pregaes durante as horas proibidas.
Os "Nokis" reuniram-se em conselho para deliberarem sobre o aspecto do assunto, que constitua uma flagrante usurpao dos seus direitos. O prprio chefe foi procurar Marian e pediu-lhe que lhe lesse os termos exactos do regulamento que fora estabelecido pelo inspector. A jovem assim fez, lendo-o em ingls e em dialecto "Nopah", que o chefe entendia igualmente bem.
- "Sob a Roch", no acha que ns devemos matar esse homem?... - perguntou simplesmente o "Noki".
Marian, chocada com a ideia, explicou-lhe com veemncia que um crime s serviria para aumentar ainda as dificuldades do problema com que eles se debatiam.
- Mas no acha que era melhor mat-lo?... - repetia o chefe, depois de ouvir cada um dos argumentos de Marian.
- No, no, no acho!... - protestava ela. - Experimentem mandar uma delegao para falar com Friel.

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Mostrem-lhe o regulamento do inspector e digam-lhe que esse regulamento j foi lido por vrios brancos da reserva...
- Mas no seria melhor matar o Friel?... - perguntou mais uma vez o "Noki".
Todavia, no dia seguinte, enquanto Friel pregava s crianas, a delegao sugerida por Marian reuniu-se na praa da povoao.
Era um dia frio, o cu coberto de nuvens baixas e um vento em rajadas a varrer o deserto. Na aldeia o vento varrera a neve das ruas, com excepo dos recantos abrigados das paredes de pedra. Marian tinha tido o pressentimento de que alguma coisa ia acontecer, e pedira um cavalo emprestado para ir de manh cedo a Copenwashie. Era necessria uma certa coragem para fazer aquela jornada. Quando se aproximava da aldeia viu um grupo de "Nokis" a cavalo, que vinha pela trilha de Red Sandy. E, quando alcanou a beira do planalto, descobriu outras causas para a sua excitao.
A delegao era composta por todos os homens "Nokis" e por algumas mulheres, com um numeroso reforo de "Nophas". Os olhos de Marian alegraram-se ao ver os altos, esbeltos, e pitorescos cavaleiros "Nopahs", embrulhados nas suas mantas. Era evidente que havia alguma coisa no ar. A multido encaminhava-se, a p e a cavalo, na direco da escola. Marian seguiu-a. A distncia era relativamente longa, e durante o caminho outros cavaleiros se iam juntando  delegao. O que mais excitava e surpreendia Marian era o facto de os "Nopahs" se aliarem ao protesto. Mas, para Marian, aquilo parecia-lhe conter uma ameaa mais grave do que a simples e formal apresentao de uma reclamao. Os "Nokis" estavam firmemente resolvidos a pr fim s pregaes, que eles consideravam uma usurpao do tempo e atenes que as crianas deviam dedicar aos trabalhos escolares.
- Friel, venha c fora!... - bradou uma voz clara,

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em bom ingls. Marian ouviu-a nitidamente. Era, flagrantemente, a voz de um ndio. Mas seria um "Noki"? A jovem teve de dominar uma estranha agitao que se apossava dela. Tentou convencer-se de que estava nervosa e, por isso mesmo, sujeita a imaginar coisas. Mas pensou que os seus olhos no a enganariam e impeliu o cavalo para a frente, at uma centena de metros da escola,
Friel no apareceu to prontamente quanto os "Nokis" queriam, e da multido elevaram-se gritos. Alguns homens comearam a bater com fora na porta. Ento fez-se ouvir novamente a voz alta e clara que dominava as outras, fazendo-as calar-se.
- Venha c fora, ou ns entraremos! A porta abriu-se e Friel surgiu. Tinha a cara congestionada. A sua figura, que era semelhante  de Morgan, parecia impregnada de intolerante autoridade. Apesar disso, porm, via-se claramente que ele no se sentia seguro. - Que querem?... - perguntou.
- Que se v embora e acabe com as pregaes!... - respondeu o chefe da delegao. Ouviram-se brados a confirmar a resposta.
- No irei!... - berrou Friel, furiosamente. - Blucher autorizou-me a pregar! Hei-de continuar a faz-lo!
- Leia as instrues de Washington! O missionrio repeliu com um gesto o papel que lhe agitavam diante do nariz. O papel, ao que parecia, estava nas mos de um "Noki" de baixa estatura, junto do qual se encontrava um alto e esbelto "Nopah". Este ltimo usava um largo "sombrero" que lhe ocultava a face. A multido de ndios agitou-se, aproximando-se mais. Ouvia-se um murmrio crescente de vozes.
- Venha. Vamos procurar Blucher. Ouviremos o que ele diz. Temos de nos entender a este respeito e  preciso acabar com as pregaes na escola!

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- No!... - bradou Friel, exaltado. - No deixarei de pregar! E no irei falar a Blucher!
Um dos cavaleiros "Nokis" atirou o seu "lasso", envolvendo o pescoo de Friel. A multido comeou a soltar brados selvagens.
- Arrastem-no!... - gritou o chefe.
Ento o "Noki" obrigou o cavalo a dar meia volta e distanciou-se da escola, apertando o "lasso" em redor do pescoo de Friel e arrastando o missionrio para o meio da multido. A cara de Friel parecia lacre. Agarrava furiosamente com ambas as mos a corda que o estrangulava. A inteno do "Noki" tinha sido simplesmente a de arrast-lo, preso pelo "lasso",  presena de Blucher. Mas um outro "Noki", bravio e jovem, aproximou-se dele e fez empinar a montada, que agitou no ar as patas dianteiras.
- Enforquem-no!... - gritou ele.
A multido reagiu. Num abrir e fechar de olhos a sombria determinao dos ndios cedeu lugar a uma exploso de instintos selvagens. Os tempos eram maus. A opresso e a excitao da guerra haviam estado muito tempo reprimidas nas almas daquela gente. As ofensas recebidas clamavam por vingana. Alguns de entre eles estavam ainda mais enfurecidos pelo lcool. Mas um homem reconheceu o perigo que Friel corria, e decidiu evit-lo. Soltou um brado forte e abriu caminho atravs do grupo de ndios que rodeava o missionrio.
O brado no teve apenas por efeito fazer calar a multido; causou em Marian o maior choque da sua vida. Ela reconhecera a voz.
O alto Nopah abeirou-se de Friel e os seus braos compridos apanharam o "lasso". Um nico puxo bastou para derrubar o "Noki" de cima do cavalo que montava.
Aquele vulto esbelto! Aqueles movimentos geis e poderosos! Marian pensou por instantes que havia enlouquecido.

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Mas nesse momento o "Nopah" ergueu a cabea, mostrando a cara.
"Nophaie!" Marian gritou o nome, mas nenhum som saiu da sua garganta. Cambaleou na sela, agarrada ao aro. O corao batia-lhe no peito com tremenda fora, e sentia o sangue latejar ao longo de todas as veias do seu corpo.
O largo movimento dos compridos braos arrancou a corda que rodeava o pescoo de Friel, cuja cara estava agora lvida de terror. E o missionrio deixou-se cair contra o peito do ndio, ou porque estivesse sem foras ou porque fingisse um desmaio.
O ndio agarrou-o pelos ombros, sacudiu-o violentamente e levou-o, meio empurrado, meio arrastado, atravs da multido, largando-o em frente da porta da escola. Friel desapareceu, cambaleando no limiar. Quando o ndio se voltou para encarar os outros, alto, movendo-se com singular leveza, Marian teve a absoluta certeza de que era Nophaie. Ele, entretanto, comeara a fazer recuar os ndios que, entre a multido, se aproximavam outra vez da porta. Outros homens, seguindo o seu exemplo, formaram um cordo para evitar novas violncias, e ao cabo de algum tempo toda aquela gente, de olhar turvo e ainda gesticulando, foi empurrada na direco da aldeia.
Era ao entardecer, e Marian, na sala-de-estar dos Paxtons, esperava Nophaie.
Tinha encontrado Withers no posto comercial. Ele tinha vindo de Mesa, com Nophaie, para lev-la de volta a Kaidab. Precisavam dela. L fora o dia cinzento tornara-se mais escuro e mais frio. O cho comeava a estar coberto de neve. O vento gemia. Withers tinha dito que Nophaie parecia bastante bem de sade. Ningum o poderia afirmar! Ele alcanara a reserva a leste de Flagerstown, num ponto do caminho de ferro.

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Dois dias inteiros! Havia quarenta e oito horas que ele se encontrava no deserto, sem que ela soubesse! Tinha ido a cavalo at  povoao, para encontr-la. Naquele dia, em verdade, Deus sorrira ao missionrio. Um "Nopah" tinha-lhe salvo a vida.
Nophaie nunca mais viria? Withers partira, para ir busc-lo. Mas Marian no podia esperar mais. Se ao menos o visse, lhe tocasse, pudesse ter a certeza de que no se tratava da loucura de um sonho - ento acalmar-se-ia, inexprimivelmente grata a Deus, forte bastante para suportar todos os choques.
Subitamente distinguiu um rumor de passos. Passos leves, rpidos, macios, passos de ps calados em mocassins! O corao de Marian parou de bater. Nophaie entrou. Ele era o ndio de quem ela se lembrara em todos os instantes!
- "Sob a Roch"... - murmurou ele, numa voz quente e feliz.
Ela estendeu os braos e os lbios antes que as foras a abandonassem. Ento ele apertou-a contra si, e Marian nada mais precisou do que senti-lo prximo. Um relance, um rpido relance de olhos de mulher - a face morena e ntida, mais magra, mais fina, mais bela no seu bronze macio, - e no viu mais nada. Mas sentia, sentia os braos musculosos que a envolviam como fitas de ao. Apertada contra o seu largo peito, sentia o bater do corao dele. E os seus lbios.
- Oh, Nophaie! Parece estar bem! Est realmente bem?... - murmurou ela, algum tempo mais tarde, parecendo-lhe que repetia a pergunta pela centsima vez.
- Bem - sim - mas creio que nunca mais poderei escalar a encosta norte de Nothsis Ahn... - respondeu ele com um sorriso triste.
- Nophaie! Nem me sinto em mim... - sussurrou ela.

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- Sente-se forte - parece estar como era... No, h uma estranha mudana... Os seus olhos, Nophaie! A sua boca! Parecem tremer...
-  simplesmente uma consequncia do choque nervoso provocado pelos ferimentos... - disse ele. - Considerando tudo, estou relativamente bem.Os gases asfixiantes atacaram-me os pulmes, mas no tenho sentido qualquer perturbao, por enquanto. As minhas boas e velhas terras altas, com o cheiro do mato e dos cedros, ho-de curar-me.
Marian quase no podia acreditar nos seus olhos. Tinha receado v-lo mutilado, envelhecido, alquebrado, transformado numa runa humana - mas nada disso acontecera. Compenetrava-se lentamente do milagre. E ento viu a medalha que ele trazia no peito da sua camisa de veludilho escuro. A D. S.! Como a conquistara ele? A sua curiosidade feminina arrastou-a. Fez a pergunta.
- "Sob a Roch" minha muito querida, eu no estive em verdade num daqueles chs cor de rosa para onde costumava levar-me em Cape May... - respondeu ele, com um riso alegre que a fez estremecer de alegria.
- Combateu como um heri! Oh, eu sei!... - exclamou ela, com um sorriso que continha lgrimas. - O filho de Withers escreveu aos pais. Ele tinha encontrado um soldado que o conhecia a si, Nophaie - e que lhe falou de si... Munson!
- Sim, encontrmo-nos l. Mas os soldados costumam falar pouco de si mesmos, para enaltecerem os companheiros.
- Nophaie - perdoe-me - mas h dentro de mim alguma coisa que tem sede de saber... - disse ela, incapaz de reprimir a sua estranha emoo. - Eu penso que por am-lo - e por viver aqui - me tornei um bocado mais americana do que era... Mais ndia! Tambm jogou futebol com os alemes?
Ele ria outra vez. mas de um modo diferente.

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Por um instante pareceu transformar-se numa criatura estranha...
que j no era Nophaie.
- "Sob a Roch"... - sim - eu fiz isso. Entrei uma vez num campo onde estavam alemes - espalhados - correndo como os antigos jogadores de futebol... Mas eu tinha uma baioneta!


XX.


Quando Marian chegou a Kaidab, os rigores de Janeiro pareciam ter-se de algum modo atenuado. Withers tinha-lhe dito:
- Ns formamos agora um grupo bastante desencorajado, e precisamos um bocadinho da sua primavera. Todos ns, com excepo de Colman, fomos atacados pela "influenza". A sr.a Withers j no  a mesma que era. Esse  o pior aspecto desta estranha doena. Metade das pessoas que so atacadas por ela, fica a sofrer de qualquer enfermidade. Precisamos de si, e eu penso que se sentir melhor e certamente mais feliz em Kaidab. Se procura trabalho entre esses pobres ndios - pois bem - vai ter bastante que fazer. Porque este inverno comeou de maneira a apavorar toda a gente.
Ao princpio Marian encontrou justificao para as sombrias afirmaes do comerciante. A sr.a Withers estava plida e enfraquecida, mas parecia ir melhorando e estava com certeza bastante animada. O filho dela continuava em Frana, mas agora longe de perigo, pelo menos no que dizia respeito aos alemes. Colman tinha emagrecido e estava mais sorumbtico, no entanto parecia de perfeita sade. Os criados ndios tambm no mostravam diferenas desde quando Marian os vira pela ltima vez. No entanto a jovem sentia que no podia entusiasmar-se muito em relao ao bem-estar da famlia Withers. Adivinhava, mais do que via, uma sombra alastrar sobre eles.

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Nophaie no dispunha agora de um lar, a no ser nos desfiladeiros, e Withers forou-o a aceitar cama e mesa em sua casa. Marian tinha a certeza de que um dos motivos pelos quais Withers dissera precisar dela, era para que o ajudasse a impedir que Nophaie voltasse para os "hogans" do seu povo. Se ele partisse em pleno Inverno, isso ser-lhe-ia certamente fatal.
A tarde da chegada de Marian a Kaidab, no foi desprovida de alegria e de felicidade. A nuvem de sombra pairava para alm do horizonte dos espritos. Marian trouxe consigo animao e vida, porque sabia que seguramente devia isso quela boa gente. Simultaneamente a proximidade de Nophaie excitava-a mais do que ela confessaria a si prpria.
- Marian, devia ver Nophaie com o uniforme que trazia quando aqui chegou... - disse a senhora Withers.
- O uniforme de combate?... - perguntou Marian, interessada.
- Sim, e com sinais de combate...
Marian sentiu no mesmo instante uma irresistvel curiosidade de ver Nophaie com a sua farda de soldado. Pediu-lhe que a vestisse. Ele recusou. Ela insistiu, mas apenas para receber nova recusa. Nophaie parecia reagir estranhamente a esse respeito. Mas Marian no se importou e, persistindo, seguiu-o para o comprido corredor, decorado com motivos ndios, e no o deixou passar.
- Por favor, Nophaie, vista o seu uniforme para eu ver... - pediu ela. -  apenas um capricho sentimental de rapariga, mas no me importo que seja. Trata-se de uma rapariga que o ama!
- "Sob a Roch", odeio esse uniforme, agora!
- Oh! Porque?
- No sei! No me acontecia isso at voltar para aqui - para o deserto - para casa.
- Oh! Est bem, mas no voltar a vesti-lo mais,
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depois desta vez. ! s agora, para mim! Quero tirar-lhe o retrato. Lembre-se - tenho fotografias suas com o equipamento de futebol - com o equipamento de "base-ball" - com o seu trajo de ndio... e quero ter uma com o uniforme de soldado - de soldado americano!
Faz-me isso?
Os lbios e os braos de Marian ajudaram as suas palavras - e ele deixou-se imediatamente convencer.
-  mesmo uma rapariga branca!... - disse ele, com
uma gargalhada.
- Branca? Com certeza, sou a sua rapariga branca!
Ela sentia de algum modo a necessidade de lhe demonstrar por todas as formas o seu amor e a sua ternura, como para compens-lo de tudo quanto lhe devia. Mas quando o viu aparecer com o uniforme vestido, ps logo de parte os seus ares de amorosa provocao. Foi como se, ao v-lo, ficasse subitamente paralisada. O trajo de ndio, solto e descuidado, no fazia justia a Nophaie. Como soldado, era magnfico. Marian levou-o para fora, para a luz do sol, e fotografou-o de todos os ngulos. Depois, durante o resto da tarde que passaram na sala-de-estar, sentados em frente da lareira acesa, ela permaneceu muito quieta, calada, a olhar para ele.
Depois do jantar ele foi ao seu quarto e voltou novamente vestido de cordovo e veludilho, com os seus mocassins e o seu cinto de fivela de prata. Era outra vez Nophaie! O uniforme, cheio de to emocionante significao, tinha-a obcecado. Marian sentiu-se contente.
Withers parecia ter-se libertado dos cuidados do presente e das preocupaes do futuro. Brincava com Marian, insistindo com Nophaie para que contasse alguma coisa acerca da guerra. Marian juntou os seus pedidos aos do comerciante, mas Nophaie recusou-se a falar de si prprio. Contou da morte de quatro dos seus "Nopahs" que todos tinham perecido na frente de batalha. Cada uma das narrativas tinha,

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para Marian, um significado trgico. Depois falou de Shoie, que se havia revelado alguma coisa mais do que um caador de alemes - com armadilhas para apanhar ursos. Os oficiais americanos tinham acabado por descobrir os notveis dons de Shoie para ver e encontrar os pontos fracos na frente de combate alem, quando o regimento atacava. Nophaie explicava que o facto se devia sobretudo ao penetrante olhar dos "Nopahs". De qualquer modo Shoie era a cada instante enviado como batedor, quer de dia quer de noite. Podia ocultar-se em qualquer terreno, mesmo que no existissem troncos nem pedras. No precisava de mais abrigo do que um coelho. Tinha o instinto dos ndios, silencioso e furtivo. Shoie no regressara de uma daquelas misses de explorao. Incluiram-no na lista dos desaparecidos. Mas, no decorrer da quarta noite da sua ausncia, ele voltou rastejando s trincheiras americanas. Uma sentinela descobrira-o, ao tropear no seu corpo. Shoie no podia falar, estava coberto de sangue e provavelmente ferido com gravidade. O exame mdico revelou que ele tinha estado pregado de ps e mos a uma parede, e que lhe haviam cortado a lngua. Como Shoie no sabia escrever o seu prprio dialecto, e pouco entendia a linguagem dos brancos, era difcil averiguar o que lhe havia acontecido. Mas, pouco a pouco, outros ndios da sua raa conseguiram reconstituir a verdade provvel da sua aventura. Ele tinha-se internado longe demais, e havia sido aprisionado. Os alemes tentaram faz-lo falar, ou indicar por sinais a posio do seu regimento e das trincheiras de onde viera. Mas eles no compreendiam os ndios. Shoie respondeu-lhes com caretas. Espetaram-lhe estacas nos ps e nas mos e deixaram-no pendurado de uma parede, durante um dia inteiro. Depois tentaram de novo faz-lo dizer o que eles queriam saber. Shoie deitou a lngua de fora aos seus carrascos alemes. Ento cortaram-lhe a lngua e deixaram-no ficar ainda suspenso da parede.

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Nessa noite Shoie esticou as mos at que as estacas passaram completamente atravs delas, e depois arrancou as que lhe tinham cravado nos ps. Ento arrastou-se ao longo da Terra de Ningum, at alcanar as trincheiras americanas. E curou-se dos seus horrveis ferimentos.
- Oh! Os monstros!... - exclamou Marian. - Podiam, ao menos, mat-lo de uma vez!
- "Sob a Roch", alguns dos alemes eram como Blucher... - respondeu Nophaie.
Foram as nicas palavras que ele disse contra os alemes, a nica vez que falou neles.
- E Shoie est aqui?... - perguntou Marian, interessada.
- Bem,  verdade que est... - respondeu Withers. - Esteve hoje no armazm a pedir tabaco.  um espectculo horrvel, quando tenta falar. Os ndios tm mais medo dele do que nunca. Pensam que ele ofendeu os maus espritos e que foram eles que lhe cortaram a lngua para castig-lo por lanar feitios. H alguma coisa de estranho no que aconteceu a Shoie...
Era intensamente interessante ouvir Nophaie falar de Paris, das suas viagens de ida e volta atravs do Atlntico nos transportes de tropas, e do seu regresso a Nova Iorque. Marian no podia ter a certeza, mas adivinhou que as mulheres haviam constitudo um dos incompreensveis aspectos subsidirios da guerra. Sentiu invadi-la uma onda de cime, ardente como fogo, mas acalmou-se ao pensar no total desprendimento de Nophaie.
- Withers, isto interessa-o a si de maneira especial... - disse Nophaie - ... porque diz directamente respeito ao problema ndio... Em Nova Iorque encontrei um dos meus antigos professores da Universidade. Lembrava-se bem de mim, e no ficou de modo algum surpreendido ao ver-me com o uniforme

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do Tio Sam (1). Ficou contente ao saber que eu tinha feito alguma coisa. Convidou-me para jantar e conversmos dos tempos da escola e dos meus jogos de futebol. Perguntou-me o que ia eu fazer, se gostaria de arranjar um emprego. Disse-lhe que voltava para aqui, para trabalhar entre a minha gente. Ele tomou ento um ar grave, e disse-me: "O trabalho que  agora necessrio entre os ndios, est enquadrado na linha geral de cidadania. O departamento governamental das reservas  uma coisa arcaica. O mito ndio  como um balo furado. Quando os ndios protestam contra as tentativas feitas para civiliz-los, o facto deve-se exclusivamente  influncia dos funcionrios das reservas e dos polticos que pretendem continuar com o seu processo fcil de ganhar dinheiro. Esses intrujes encorajaram a crena de que o problema ndio continua a ser grave, e de que o Governo deve mant-lo sob "controle". Quase todos os ndios agora existentes, nasceram j sob o regime dos departamentos administrativos. Tm sido sempre dirigidos pela burocracia poltica. A maior parte deles foi acostumada a depender do Governo. Nada sabem dos sistemas dos brancos... o que  seguramente uma pedra negra a marcar a aco do Departamento
ndio.
"A presena dos ndios nos servios militares, trouxe, para todos os pensadores americanos inteligentes e honestos, uma noo de significado vital. Os ndios no eram obrigados a combater. Mas alistaram-se, talvez uns dez mil. Muitos morreram em combate. Havia ndios em todos os sectores. Tenho absoluta certeza de que esses soldados ndios no gostaram da ideia absurda de adoptar generais americanos como membros das suas tribos. Foi ainda uma reles habilidade dos polticos para manterem as reservas sob o "controle" do Governo,


*(1) Tio Sam (Uncle Sam) personagem de fico popular que representa os Estados Unidos da Amrica do Norte, tal como John Bull representa a Inglaterra. - Nota do Tradutor.


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e conservar os ndios nos limites dos seus desertos.
"E isto no  apenas injusto para com os ndios,  tambm uma injria e uma diminuio para o Governo e para o povo. Se no o haviam conquistado antes, pelo menos agora os ndios conquistaram o direito de viver entre os brancos, se assim o desejarem, ou de ficarem inteiramente livres nas suas terras livres tambm. Se esses homens do Departamento ndio fossem honestos no seu trabalho para civilizar os ndios, dar-lhes-iam completa liberdade e todos os direitos de cidadania. Suponha que o Governo impunha restries aos estrangeiros e imigrantes que se estabelecem na Amrica. Nunca eles se tornariam verdadeiros americanos, como agora acontece com a grande maioria.
"Os verdadeiros benefcios para os ndios tm sido subordinados a um interesse capital... que  constitudo pelos salrios pagos a cerca de oito mil funcionrios do Governo. Trata-se de um desperdcio de dinheiro. E, de facto, a maior parte desse dinheiro  atirada  rua."
Withers fez alguns comentrios que eram bastante mais veementes do que elegantes de expresso; e concluiu a sua exploso de fria perguntando a Nophaie se o professor com quem ele falara se tinha referido a Morgan.
- No... - respondeu Nophaie. - Bem, quando eu lhe disse de que maneira esta reserva era governada pelo missionrio escudado na Velha Lei, ele ficou atnito.
- Nophaie, como resolveria "voc" o problema ndio?... - perguntou Withers. - Eu vivi entre os ndios toda a minha vida, a bem dizer, e minha mulher conhece os ndios melhor do que qualquer outra criatura branca de que eu tenha ouvido falar. , para ns, um problema. Como diz o velho Etenia, voc tem sangue ndio e inteligncia de branco. Diga-nos a sua opinio.
Nophaie encostou-se ao rebordo da lareira, empurrando lentamente com a ponta do mocassim uma acha que tinha rolado para o cho.

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Parecia calmo e triste. Tinha uma expresso pensativa. Os seus penetrantes olhos negros, som brios, como os de quase todos os homens da sua raa, tinham um brilho diferente, uma luminosidade estranha, e era talvez por essa luz indefinvel que Marian o amava mais. Ela parecia ver nessa luz a alma do ndio - alguma coisa em que os homens brancos no acreditavam. EstaVa curiosa por saber qual seria a resposta de Nophaie  sria pergunta do comerciante, mas no pensava que ele desse realmente resposta.
- Eu poderia resolver o problema ndio. Comearia por excluir os missionrios do tipo de Morgan... - respondeu ele com uma estranha e sombria amargura. - Depois daria terras e liberdade aos ndios. Deix-los trabalhar e viver como entendessem... enviar os filhos  escola... misturar-se com os homens brancos e trabalhar com eles e para eles. Deixar os ndios casar com mulheres brancas, e os homens brancos casar com raparigas ndias. A raa tornar-se-ia mais viril e mais forte. Nenhum povo pode vencer os obstculos que nos so agora impostos. No pode fazer-se muita coisa para melhorar ou modificar os ndios de idade madura. Mas esses esto bastante bem como so. Esses ndios no querem saber dos processos e maneiras dos brancos. Apenas se importam com o seu deserto e com a sua gente. Odeiam qualquer gnero de dependncia. Deix-los trabalhar ou preguiar como entenderem, entre eles. Com o decorrer dos tempos tornar-se-iam bons trabalhadores. As crianas ndias deveriam ser educadas. Sim! Mas no ensinadas a desprezar os pais e a renegar a sua religio. As crianas ndias deviam estudar... como eu tambm estudei. O que fez o meu mal foi tornar-me um infiel. Deixem em paz a religio dos ndios... O ndio no  diferente do branco... a no ser pelo facto de estar mais perto da vida elementar... dos instintos primitivos. O exemplo dos melhores meios de vida dos brancos,

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frutificaria inevitvelmente a seguir  comunho das raas. O ndio tem capacidades de adaptao e de absoro, se no tentarem engan-lo e for-lo... Eu penso que a Regra de Oiro dos brancos  a sua religio melhor. Se eles a praticassem, o problema dos ndios seria fcil de resolver.


At tarde nessa noite, depois de Withers e os seus se terem recolhido, assim como as outras pessoas da casa, Marian ficou sentada ao lado de Nophaie, em frente do lume que ardia na lareira.
Essa hora foi realmente a mais feliz e a mais bela, a mais rica de ensinamentos, de todas as que ela tinha vivido com ele. Muito da amargura de Nophaie se havia dissipado. Se ele tinha sido estranhamente profundo e atraente antes de partir para a guerra, o que era ento agora? Marian apenas podia sentir-se pequenina, humilde, em apaixonada adorao ante aquela estranha personalidade de homem. Para Marian, ele era agora um amor maior do que nunca havia sido. Marian sentia-se estremecer intimamente, quase assustada mesmo naquela hora de bno. Porque abandonara ele a sua concentrao de ndio? Que sabia ele, que ela no soubesse? Se Nophaie se houvesse libertado do fardo que pesava sobre a sua alma... a sua descrena... ter-lhe-ia dito. Mas ela t-lo-ia adivinhado. Nophaie estava, ao mesmo tempo, mais perto dela do que nunca... e mais distante. Tudo o que ela podia fazer era agarrar pelos cabelos aquela hora feliz, excitante, to cheia de pensamento e de emoo. Aquela hora continha em si mesma qualquer coisa de simultaneamente efmero e definitivo - palavras em face da vida, palavras em face da morte, como uma orao fnebre, como um "Requiem..."
No dia seguinte Marian encontrou Shoie. Pareceu-lhe que Withers tentava desviar a sua ateno para longe dos ndios

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que se encontravam no posto comercial, mas a sua manobra no teve xito.
A jovem entrou no armazm, por detrs do balco, e aproximou-se do heri ndio que havia sido mutilado na guerra. No reconheceu Shoie. Parecia um ndio diferente, como os maus espritos que ele um dia dissera possuir. A sua cara estava estranhamente lacerada, e ele parecia uma criatura distorcida por um riso diablico. Shoie era uma runa fsica. O seu trajo ndio, que flagrantemente havia pertencido a um homem de maior estatura, estava em farrapos e pendia-lhe, solto, dos ombros curvados. Marian no compreendeu como ele conservava algum calor, porque nem manta usava. Viu-o aproximar-se do fogo. A certa altura Shoie notou que Marian estava a observ-lo. Ningum poderia dizer se ele ficou alegre ou triste por isso. Abriu a boca. Os seus lbios, cortados de cicatrizes, moveram-se deixando escapar um estranho som, que em nada se parecia com palavras. Era flagrante que ele tentava falar. Mas, daquela cavidade sem lngua, saa apenas uma espcie de rugido. Marian no pde suportar aquilo mais tempo. Fugiu.
Nesse dia chegaram ms notcias, simultaneamente com um tempo mais spero, sob um cu nevoento. Mensageiros "Nopahs" e viajantes brancos falaram do alastrar da epidemia nas seces do deserto que tinham atravessado.
- Chegou o momento... - disse Withers em voz baixa, sombrio como um ndio.
Durante toda a noite o vento do deserto gemeu ao longo dos beirais do telhado da casa. Marian no conseguiu conciliar o sono. Que agoirento gemido! Fazia-se ouvir por vezes baixo e lento,

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subindo gradualmente at se transformar num uivo impressionante, para logo se reduzir de novo a um lamento baixo. Marian tremia, ao ouvi-lo. O som parecia de um outro mundo, vindo de alm do mundo. E significava tempestade, frio, desgraa, peste, morte e desolao.
Ao amanhecer o vento soprava em rajadas. Neve, areia e p turbilhonavam ao longo das escarpas, entenebrecendo o planalto. Soprou assim durante dois dias, para depois se transformar em chuva fria, que derreteu ou varreu toda a neve. E novamente veio a morrinha, seguida por um frio mais cortante. No se via o sol. De noite a lua e as estrelas permaneciam escondidas. Um rolante docel de nuvens cor de chumbo obscurecia o cu.
Nophaie percorria os ranchos, a cavalo. Nem Marian nem Withers conseguiam det-lo. E a ltima semana daquele ms trouxe a catstrofe que Withers previra.
Os ndios foram apanhados como ratos numa ratoeira. Era impossvel combater a epidemia, nos seus "hogans". Trs meses de progressivo empobrecimento haviam culminado bruscamente numa situao terrvel. Esses ndios no tinham economizado dinheiro. Possuam apenas caValos, ovelhas e milho. O preo da l baixou a um nvel nfimo. Withers arranjou as coisas de maneira a manter muitos dos teceles de mantas a trabalhar para ele. Sustentava-lhes as famlias. E nenhum ndio saa do armazm com as mos vazias. Carne e milho eram quase tudo o que os "Nopahs" tinham para comer, e chegou o tempo em que nem disso dispunham. Em seis meses aquele povo prspero tinha-se transformado num povo de esfomeados,  merc de uma epidemia que se revelava fatal para muitos deles. Morriam depressa. Os que escapavam ficavam enfermos, cegos ou surdos.
Durante o ms de Fevereiro centenas de ndios sucumbiram  epidemia, num raio de cinquenta milhas em volta de Kaidab. Famlias inteiras eram atacadas. Por muitos dias ainda o sol no brilhou, e as noites eram de uma escurido total.

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Os ndios pensavam que o sol e a lua os tinham abandonado. Os homens-medicina influam sobre eles para que acreditassem que a nica coisa que podia ainda salv-los era comerem carne de cavalo. Foi assim que os ndios abateram e comeram grande nmero dos melhores cavalos que possuam.

Certa manh Colman encontrou um ndio morto, estendido ao lado do fogo no posto comercial. O homem tinha-se provavelmente escondido por detrs do balco quando o comerciante fechara a porta, no dia anterior. Aparentemente no estava ainda doente, nessa altura. Mas a "influenza" atacara-o durante a noite, e matara-o.
Essa misteriosa e terrvel aco da epidemia espantava os ndios. No podiam encar-la como uma doena natural. Era um castigo do esprito do mal. E seguramente no era uma doena que os ndios comunicassem uns com os outros, embora a certeza do contgio pudesse afirmar-se com a mesma segurana. Atacava aqui e alm, por toda a parte. Pastores isolados, que no tinham contacto, durante semanas, com outros "Nopahs", eram encontrados mortos. Por vezes, descobriam-se "hogans" onde s havia cadveres. Novos e velhos pereciam igualmente, mas os guerreiros saudveis e fortes, na primavera da vida, eram os que morriam mais rapidamente. Os estragos causados pelo mal eram particularmente cruis e brutais. Chegavam sem ser esperados, como um raio fulgurante. E os ndios, bruscamente atacados de paralisia e de febre, sucumbiam logo. Sentiam-se como lobos apanhados na armadilha, vencidos, desencorajados, prontos para morrer. O esprito altivo dos "Nopahs" curvava-se sob o ferrete dos deuses do mal.
- "Influenza"... pneumonia?... - perguntava Withers, amargamente. - O inferno!  uma peste. Uma peste negra.

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Uma peste da guerra! No conheo eu estes ndios? Para eles, as gripes e as pneumonias nada so. Mas esta danada doena  um bicho do inferno. No me falem de germes. Isto no  coisa de germes. O mal vem do ar, abate-se em cima das vtimas. Deve ser consequncia desse gs diablico que os alemes espalharam sobre o mundo. De que outro modo podemos explicar a maneira pela qual a doena actua? Ontem passaram por aqui alguns Mormons. Disseram que tinham encontrado sete "Nopahs" na trilha. Os "Nopahs" estavam de boa sade, mas no dia seguinte foram-se todos abaixo. Mandei l uns homens, ver o que se passava. Seis dos "Nopahs" estavam mortos. S tinha escapado um rapazito meio sufocado debaixo dos corpos dos outros. O velho Etenia caiu do cavalo e morreu em menos de duas horas. Da famlia dele poucos esto ainda vivos. Os "Nopahs" morrem no caminho para c. Imagina que eles j estavam doentes quando partiram? Isso  o que me espanta... a maneira como a doena ataca os ndios e a rapidez com que os mata! Um homem branco luta ainda contra a morte, mas o ndio no. No com esta praga infernal! Isto arrasa as reses, como dizem os vaqueiros...
No meio daquela trgica poca, Withers recebeu a notcia de que Gekin Yashi tinha sido atacada pela terrvel doena. Um ndio doente trouxe a notcia, revelando ao mesmo tempo o que se havia passado com a Pequena Beleza. Ela tinha casado com Beeteia, um jovem chefe "Nopah" que estivera a combater em Frana mas que nunca dissera a Withers uma palavra sequer que tivesse podido esclarecer o mistrio da desapario da rapariga.
- O autntico modo de proceder de um "Nopah"!... - comentou o comerciante. - O caso  que Gekin Yashi est com a "influenza".  quase certo que no escapar. Talvez a pudssemos trazer ainda a tempo. O marido dela  um ptimo "Nopah". O seu "hogan" fica para os lados de Nugi Canyon. Mandei ndios com cavalos para a entrada do desfiladeiro.

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Levarei o carro. Talvez possa ir at  passagem... ou mesmo at o prprio desfiladeiro... Dem-me remdios
e "whisky".
Tinha estado a falar com Colman e com a mulher. Marian estava sentada ao p da lareira, impressionada e mergulhada num silncio triste. Nophaie entrou bruscamente, tirando a manta dos ombros. O seu chicote pendia-lhe do pulso. Tinha o "sombrero" coberto de flocos de neve.
- Ah! Aqui est Nophaie... - exclamou Withers. - Estava a desejar que viesse. Sabe o que se passa com Gekin Yashi?
- Sei. Temos de nos apressar. Ela est a morrer... e
tem um filho.
Marian ergueu-se de um salto, pronta para agir.
- Deixe-me ir consigo!... - pediu ela.
Nophaie mostrou-se ainda menos disposto a lev-la do que Withers. Mas Marian, ajudada pela senhora Withers, varreu as objeces.
- Agasalhe-se bem... - disse a boa senhora. - Leve uma pedra aquecida para pr debaixo dos ps, e cuide de no sentir frio nem demasiado calor. Est um dia de muito vento - sol e tempestade.
- No conte muito com o sol... - comentou Withers. - Vamos ter de andar contra o vento. Acho que no se esquecer to cedo desta jornada.
A viagem no automvel, com os ps em cima de uma pedra aquecida e pesadas mantas a defenderem-lhe o corpo e a cara, no foi muito dura para Marian. Mas quando teve de montar a cavalo, e galopar contra o vento, as coisas modificaram-se por completo.
O dia no ia muito adiantado, e o cu parecia dividido em seces de neblina cinzenta, de nuvens purpurinas, e de azul.


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O sol brilhava. A princpio o frio no era muito spero, embora o vento cortasse como uma navalha.
Nem a triste jornada, nem o inevitvel desconforto podiam impedir Marian de ser sensvel a outras impresses. A entrada de Nugi Canyon abria-se largamente, como um rude e gigantesco portal de muralhas vermelhas onde sobressaa a brancura dos bancos de neve e o negrume dos troncos dos cedros. As enormes faces de pedra reluziam, hmidas. Um ribeiro profundo corria sinuosamente ao longo do desfiladeiro. Fria e invernosa como era, a paisagem fascinava Marian; e, ainda que de nenhum modo to belo como o Desfiladeiro dos "Paiutes", o Nugi era de uma beleza impressionante. As torres de rocha subiam para o cu, escavadas, esculpidas, rugosas, amarelas sob a luz do sol, vermelhas nas manchas de sombra, brancas nos pncaros nevados.
Uma sensao ao mesmo tempo estranha e familiar envolveu Marian - qualquer coisa que, a princpio, ela no conseguia definir. Acabou, no entanto, por associar essa sensao com o ar gelado, cortante, quase palpvel - e partindo dessa ideia descobriu um vago aroma de mato. Voltava assim a estar em contacto com a mais significativa caracterstica das terras altas. Mas no conseguia avistar mato em parte alguma, e concluiu que devia estar mais longe.
A ameaa de tempestade continuava suspensa, e o vento parecia moderar-se, cair. Marian comeou a sentir-se confortvelmente instalada na sela, aquecendo com o exerccio. E quando as nuvens se abriram e o sol brilhou francamente, ela pde finalmente observar o desfiladeiro.
Parecia ser um enorme prtico aberto ao vento na slida massa rochosa das terras altas, por onde se alongava o deserto. O Desfiladeiro dos Paiutes era demasiadamente profundo, e largo, e tremendamente difcil de abarcar. Este desfiladeiro, numa escala menor, no embotava as faculdades de observao.

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Tinha uma nobre linha de arestas, a cada passo cortada por espirais, cpulas, salincias, picos, monumentos, escarpas e promontrios; e as gargantas laterais que partiam dali eram demasiadamente numerosas para que pudessem contar-se. Parecia ser essa a sua caracterstica mais singular. A certa altura Marian atravessou um largo espao aberto que poderia ser considerado o eixo de uma roda fantstica, do qual muitas gargantas rochosas partiam em todas as direces. Visto de cima, Nugi Canyon devia ter a forma de uma centopeia, cujo corpo fosse constitudo pelo grande desfiladeiro central, e cujas pernas fossem desenhadas pelos desfila deiros menores que irradiavam daquele.
Cerca de cinco a seis milhas ao longo do Nugi, a paisagem mudava de forma. Alargava-se, entre muralhas mais baixas, e as perspectivas eram mais extensas porque desaparecera a sensao de esmagamento provocada pelas altssimas penedias. Marian, agora mais afastada das muralhas, podia v-las melhor.
Largas planuras subiam gradualmente desde o leito profundo do ribeiro, formado de terra vermelha. A corrente lamacenta corria entre essas planuras, orlada de conchas de gelo coloridas de p. Atravessar o ribeiro, o que se tornava repetidas vezes necessrio, era uma provao para Marian. As conchas de gelo quebravam-se sob as patas dos cavalos; tinham ento de avanar ao longo da gua, para evitar as areias movedias. As trilhas inclinadas, sobre macios bancos arenosos, comearam a preocup-la mais adiante. Tinha de agarrar-se ao aro da sela e s crinas do cavalo para no cair; pior ainda quando descia, porque escorregava quase at ao pescoo da montada.
- "Sob a Roch"! V que no h aqui pastagens para os cavalos ou para as ovelhas?... - perguntou Nophaie, voltando-se e apontando com o brao para as planuras.

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- Este era o mais frtil dos desfiladeiros. Dois anos de seca! V os "hogans" abandonados?
Marian no notara ainda qualquer desses dois aspectos. Mas agora impressionavam-na fortemente. Que estril, aquele solo! No havia sequer uma folha de erva, embora seca. Razes mortas, cinzentas, rivalizavam com os cedros e com alguns carvalhos de ramos retorcidos e torturados, na v tentativa de alegrar a aridez do desfiladeiro. Longos declives de areia amarela, marcados por sinais de patas de cavalos, subiam desde os terrenos aluviais. Encostas cobertas de neve alvejavam nas vertentes protegidas do vento.
A trilha ia subindo gradualmente, e gradualmente o desfiladeiro crescia em beleza, diminuindo de amplido. As cores tornavam-se mais vivas. Manchas de mato purpurino destacavam-se, num belo contraste, das muralhas vermelhas. O aspecto mais doce da paisagem acentuava ainda mais o isolamento e a desolao dos "hogans" abandonados. Os buracos escuros das entradas sem portas, como rbitas vazias, voltadas para leste, eram alucinantes. No mais os ndios se ergueriam, ali, para ficarem de p no limiar dos "hogans", a olhar o sol nascente! Uma quietao triste impregnava a atmosfera do desfiladeiro. Nenhum som, nenhum sinal de vida! O Inverno empolgara o desfiladeiro nas suas garras geladas, mas havia alguma coisa mais do que o Inverno, naquela solido e naquele abandono.
Uma nuvem cinzenta, baixa, envolvia agora o desfiladeiro, descendo sobre ele, inundando-o num nevoeiro espesso. Aproximava-se uma rajada de neve. As penedias, as gargantas de rocha, as torres e muralhas de pedra, obscureciam-se pouco a pouco. Mas Marian podia ainda ver as arestas mais altas, massa lisa, rolante e cinzenta a destacar-se no azul do cu.
Withers encaminhou-se para a esquerda,

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ao longo de um dos desfiladeiros laterais. Era uma abertura estreita, entre muralhas verticais, triste e misteriosa sob a ameaa da tempestade prxima. Quando a neve comeou a cair sobre Marian, a jovem teve alguns momentos de encantamento sob a leveza da brancura alada; mas logo os flocos se tornaram mais densos e mais frios, e ela protegeu a cara e concentrou toda a sua ateno na trilha que seguia.
O caminho parecia ainda mais acidentado do que os outros que haviam percorrido antes. Marian seguia, subindo e descendo, at o ponto em que j no se sentia segura do seu equilbrio. Finalmente a trilha chegou ao fundo de uma passagem onde corria um ribeiro, uma polegada de gua clara entre um leito de areia e delgadas lminas de gelo rebrilhante. As rajadas de neve tinham perdido a sua fora, adelgaavam-se, afastavam-se tal como tinham vindo.
Ento Marian viu uma estranha radiao. A neve caa ainda, em largos flocos brancos distanciados uns dos outros, mas parecia ter tomado um estranho e complicado colorido. Azul -- branco - doirado! Ou seria apenas um efeito da luz? Marian nunca vira nada semelhante quilo. O sol brilhava para alm, em algum stio, e atravs do maravilhoso vu ondulante da neve, entre as altas muralhas de pedra, luzia o cu azul. Que irreal e estranho espectculo! Ento, a neve tornou-se mais transparente, revelando em cima as arestas doiradas do desfiladeiro, transfigurando uma agulha de rocha numa Babel de mosaicos de cor. A luz tornou-se mais intensa, mais clara, mais ambarina; e em breve as encostas de mato prpura se estenderam desde o leito do ribeiro at aos bancos de neve sob as rochas. Ali o mato exalava um cheiro pungente, demasiadamente forte e espesso para ser simplesmente aroma. Era como um frio bafo, penetrante e embriagador. A tempestade afastava-se, coroando os altos cumes e enchendo a estreita garganta que ficava para trs.

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Em frente a paisagem recortava-se, outra vez ntida - o cu azul - os pncaros doirados - brilhando acima da apertada fenda ao fim do desfiladeiro. Era um lugar selvagem, belo, cercado pelas penedias rebrilhantes de humidade, orladas pelos troncos escuros das rvores, de vertentes cobertas de mato e de neve.
Quando Withers conduziu o cavalo para o alto de um pequeno declive onde havia um bosque de cedros, e desmontou em frente de um "hogan", Marian descobriu com surpresa que tinham chegado ao fim da jornada. Quase esquecera o triste motivo que a levava ali.
Nophaie pulou para o cho e, desembaraando-se da manta que lhe envolvia os ombros, curvou a sua alta estatura e entrou no "hogan". Withers ordenou aos dois ndios que trouxera com ele, que acendessem uma fogueira sob os cedros.
- Desmonte e faa um bocado de exerccio... - disse ele a Marian. - No tarda que tenha um bom lume para se aquecer...
- No... no posso ver Gekin Yashi?... - perguntou Marian, hesitante.
- Sim... mas espere... - respondeu Withers. E, pegando num saco que trouxera pendente da sela, entrou apressadamente no "hogan".
Marian apenas tivera tempo de desmontar quando o comerciante apareceu de novo, com uma expresso que obrigou a jovem a parar bruscamente, chocada e surpreendida.
- Demasiado tarde!... - disse ele, numa voz sacudida. - Gekin Yashi morreu durante a noite. A me de Beeteia foi-se embora tambm, ontem... E...
- Algum disse que havia aqui uma criancinha... - exclamou Marian, ao ver que Withers hesitava.
- Venha para perto do lume... - respondeu o comerciante. - Tem a cara azulada de frio... Sim, h uma criana...

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e tem a pele quase branca, como qualquer pessoa pode ver... Est quase morta, tambm. A nica coisa que posso fazer por eles  esperar - para sepult-los.
- Oh! Withers, deixe-me entrar no "hogan"!... - pediu Marian.
- Para qu? No  um espectculo agradvel... sem falar no risco.
- No tenho medo do risco nem do espectculo! Por favor! Sinto que  um dever. Eu gostava de Gekin Yashi...
- Acho que isso  mais uma razo para que fique a record-la - tal como ela era... Meu Deus! Todos os homens brancos que abusaram de raparigas ndias... deviam ser obrigados a olhar agora para Gekin Yashi!...
- Nunca hei-de esquecer a Pequena Beleza dos "Nopahs"... - murmurou Marian, tristemente.
- Est bem... pode ir. Mas espere... - disse Withers. - Preciso dizer-lhe uma coisa. Beeteia era um dos melhores, entre os jovens "Nopahs". Amava Gekin Yashi desde os tempos em que ela era ainda uma criana. Mas ela no o amava, e Do Etin no a obrigaria a casar com ele. Ela fugiu da escola de Mesa - por vergonha. Gekin Yashi era to boa quanto bonita. Mas a sua fuga foi tornada fcil para ela. Beeteia encontrou-a - um irmo dele, que est connosco, contou-mo - levou-a para casa e desposou-a. O beb mestio foi tambm acolhido por ele. E agora o pobre Beeteia est ali, no "hogan", embalando nos braos a criana moribunda - como se ela fosse do seu prprio sangue.
Marian precisou de apelar para toda a sua coragem antes de se encaminhar para o "hogan" - e entrar. O lume da fogueira estava quase apagado. Viu Nophaie sentado, de cabea curvada, ao lado de um jovem "Nopah" - um jovem igual a tantos que ela vira - que tinha nos braos um beb de quatro ou cinco meses.
Nophaie no levantou os olhos para Marian;

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o outro ndio tambm no. Marian debruou-se sobre o pequenino vulto da criana e olhou a facezinha convulsionada. Naquele mesmo instante operou-se uma mudana naquela pobre carita sofredora - como se alguma coisa indefinvel tivesse chegado ao seu termo... e repousasse. Marian pensou que aquele tinha sido o derradeiro instante de uma vida. Sentiu uma impresso de repulsa instintiva, como se um frio sbito lhe invadisse o corao. A mo de Beeteia parecia muito escura, junto  face da criana.
Para alm dos dois homens sentados, perto da parede do "hogan", estava um corpo estendido, embrulhado numa manta. Lembrava a definitiva imobilidade de uma pedra. A neve entrara atravs da cobertura do "hogan" e manchava de branco a manta estendida. Por detrs de Marian, junto  outra parede, estava outro vulto estendido, mais delgado e no completamente tapado. Marian viu um cabelo negro de azeviche, e um feitio de cabea que lhe pareceu reconhecer.
- Nophaie... - murmurou ela - ...  -  Gekin Yashi?
- Sim... - respondeu o ndio, levantando-se e afastando a manta que cobria a rapariga morta.
Num relance Marian reconheceu Gekin Yashi - embora no parecesse ser ela. Poderia ser aquela a face de uma rapariga de dezasseis anos? A doena e a morte haviam-na escurecido e convulsionado, mas no era s essa a diferena que Marian julgou ver. A alegria, e os sonhos, e os ideais de Gekin Yashi tinham morrido antes da sua carne. Parecia uma "squaw" idosa, amadurecida. Tinha regressado  maneira de sentir e de pensar dos ndios, sombria, mstica; sem amargura nem esperana, talvez brbara e pag, tornada infinitamente pior pelo seu contacto com a civilizao.
Marian saiu apressadamente do "hogan", voltou para junto da fogueira que ardia sob os cedros.

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Sentia-se possuda por uma espcie de horror - no sabia de qu. A sua prpria f, a sua prpria religio tremiam nos seus fundamentos. A peste e a morte eram terrveis, mas no to terrveis de contemplar como a natureza humana, a paixo, o dio, a vida. Gekin Yashi tinha morrido. Era melhor assim. Pobre flor do deserto, to magoada e pisada! No havia ela dito um dia: "Agora nunca ningum me diz coisas boas..." Que quereria dizer aquele grito de alma? At que ponto havia sido grande o potencial daquele esprito que despertava?
As pungentes reflexes de Marian foram interrompidas pela voz de Withers, no interior do "hogan".
- Nophaie! O beb morreu. Faa com que Beeteia o largue. Temos de enterrar todos estes mortos e afastar-nos daqui, depressa.
Marian estendeu para o lume as mos geladas, trmulas. De algum modo as palavras sensatas e decididas do comerciante, haviam-na arrancado aos seus profundos pensamentos. Homens como Withers carregavam os fardos mais pesados da vida, desempenhavam as mais duras tarefas. Ele tinha bondade e simpatia, mas enfrentava friamente os factos mais desagradveis. Estava a empobrecer voluntariamente para ajudar os "Nopahs", e trabalhava como um forado das gals, arriscando a sua vida. Atravs dele Marian descobriu uma verdade mais profunda. E isso acordou dentro dela uma revolta - contra a fraqueza e a exagerada inclinao para o idealismo - e tambm naquele momento, contra a cruel e pavorosa epidemia de "influenza".
Nophaie podia ser atacado pela doena. S-lo-ia seguramente se continuasse a percorrer a cavalo os ranchos do deserto, e as montanhas, exposto ao mau tempo e aos contgios. O medo inundou o corao de Marian... e ficou. Sacudia-a, fazendo-a estremecer. Se dentro dela havia algum instinto de leoa, esse instinto despertou.


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Withers apareceu  porta do "hogan", acompanhado pelos ndios.
- Agarrem nas ferramentas... - disse ele, apontando para os volumes que trouxera.
Nophaie ficou junto da porta do "hogan", a cujo limiar Beeteia se apoiava - uma trgica, estranha, impressionante figura. A angstia e a dor pesavam sobre ele, como fardos imensos. Parecia no ouvir as palavras de Nophaie, nem ver a alta silhueta a seu lado. Marian sentiu que no corao do ndio se agitava uma tremenda revolta.
Para alm do "hogan", numa extenso de mato entre um semi-crculo de cedros, Withers mandou os ndios abrir os covais. Ento, encaminhou-se para o "hogan", empunhando um machado, e comeou a abrir um buraco atravs da terra batida e dos troncos entrelaados. Marian recordou-se de que os corpos dos ndios mortos no podiam ser transportados pelas portas. Era evidente que, sempre que isso lhe era possvel, Withers no se esquivava a seguir as tradies do povo do deserto.
Beeteia afastou-se de Nophaie e voltou para junto dos seus mortos... Marian chamou Nophaie e levou-o consigo para alm do bosque de cedros, onde os cavalos pastavam no meio do mato. A mente de Nophaie parecia mergulhada numa espcie de nvoa. Marian pegou na mo dele, tentando dominar uma excitao crescente. O sol ocultara-se por instantes, coroando de oiro as agulhas de rocha. O tom prpura do mato parecia mais intenso.
- "Sob a Roch", no devia ter vindo... - disse ele, com pesar.
- Alegro-me por ter vindo. Magoou-me - fez-me alguma coisa mais do que isso... - respondeu ela. - Eu estava doente - doente no mais fundo da minha alma. Mas agora isso passou, creio... e quero falar-lhe.
- Mas... est to plida... treme!... - exclamou ele.

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-  estranho isso? Nophaie, eu amo-o... e estou apavorada... Esta horrvel epidemia!...
Ele no respondeu, mas as suas mos apertaram mais as dela, e os seus olhos pareceram dilatar-se. Marian tinha aprendido a sentir nele o mstico, o ndio, quando se excitava. Libertou as mos e lanou os braos em volta do pescoo de Nophaie. O gesto libertou e aumentou ainda a tempestade que rugia dentro dela. O que ela havia querido exprimir veementemente, na sua nsia de salv-lo e de for-lo a lev-la para longe do deserto - ultrapassou, como numa exploso, todas as fronteiras da subtileza e do desejo femininos. O que ela disse nesse louco instante em que tentava apenas defender-se, excedeu a sua prpria compreenso. Mas teve a sbita e terrvel conscincia de que acordara o selvagem que existia em Nophaie.
Ele apertou-a entre os braos, quase a esmag-la, e curvou-se sobre a cara dela, fitando-a com os seus olhos negros e intensos, que pareciam de fogo. No a beijou. Essa no  a maneira dos ndios. Ternura, gentileza, amor, no representavam qualquer papel na sua reaco perante a atraco dos encantos de mulher com que ela o havia tentado. O seu domnio viril era o do homem primitivo que ele tentara apagar em si mesmo; a sua fora brutal quase atingiu o ponto de mago-la gravemente. Se no fosse a sua prpria alucinao apaixonada - o irresistvel recuo para a intensa e aguda excitao dos sentidos - ela teria gritado de dor. Porque ele empolgou-a, dobrou-a, baloiou-a e ergueu-a, esmagou-lhe o corpo como o poderia fazer um selvagem na brusca posse de uma at ento inconquistvel e inatingvel mulher da selva.
Deitou-a, como um saco, sobre a sela, com a cabea e os ps pendentes e oscilantes. Mas Marian, logo que ficou parcialmente livre dos seus braos de ferro, debateu-se e levantou-se, colocando-se em melhor posio sobre o cavalo. Apoiou-se a Nophaie. Mal podia v-lo,

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mas sentiu que os msculos dele se afrouxavam. Alguma coisa o deteve, e a sua face indistinta tornou-se mais ntida - aproximou-se - at encostar-se ao peito dela.
- Mulher branca - ias fazer de mim - um ndio... - ofegou ele, num ardor cansado e rouco.
Marian sentiu-se profundamente emocionada. Que apelo mais estranho e incompreensvel poderia ele ter feito? E, todavia, como esse apelo a impressionava! Tinha sido ela - ela que amara e exaltara a nobreza do ndio - quem o havia arrastado desde as alturas! Que tinha usado o seu encanto fsico, a sua atraco, o seu poder, numa exploso de egosmo supremo! Era horrvel. Mostrava-lhe a sua indominvel natureza de mulher. Apavorava-a. E lutou contra si mesma. S a tragdia dos ndios poderia ter vencido a mulher naquele instante. Gekin Yashi, o pobre Shoie demente, Beeteia e o seu desgarrador sentido de abandono, Do Etin e Maahesenie -- todos esses estranhos vultos pareciam agitar-se em redor de Nophaie. Foi um momento terrvel. Ela podia impor a sua vontade a Nophaie. A natureza fizera o homem mais forte, mas a vitria final  sempre da mulher. Mas - e a alma? Podia ela neg-la, esmag-la, repudi-la?
- Nophaie - perdoa!... - sussurrou ela, rodeando a cabea dele com os braos e apertando-a mais contra o corao. - Eu - eu estava fora de mim. Esta doena, esta morte, tornou-me cobarde. E eu tentei for-lo a...
- "Sob a Roch", creio que tudo est dito... - respondeu ele, erguendo a cabea e sorrindo-lhe entre as lgrimas que molhavam a sua face de bronze.


Uma hora mais tarde, a triste tarefa de Withers ficou acabada. Beeteia recusou-se a partir com o grupo. A ltima viso que Marian teve dele, foi uma que ela nunca mais poderia esquecer

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- o ndio de face escura, de p em frente do "hogan" onde nunca mais poderia entrar, olhando para as sepulturas da me e da mulher que amara, para a sepultura do mal nascido beb a quem ele se propusera servir de pai - atravs do mato acinzentado e, mais alm para as silenciosas muralhas de pedra. O que via ele? O que ouvia ele? De onde vinha a sua fora?
iWithers resmungava ao passar adiante de Marian, para tomar a conduo do grupo.
- Nada posso fazer mais. Ele no quer vir. Esse "Nopah" vai fazer qualquer coisa terrvel. Preocupa-me... Bem, a viagem vai ser dura. Vamos a andar. Acorda, "Buckskin"!...
A neve recomeou a cair e o desfiladeiro tornou-se cinzento, como num crepsculo. Marian seguia os outros, no trote vivo do cavalo. O ar estava mais frio. Quando alcanaram o espao aberto do desfiladeiro maior, um vento cortante apanhou-os pela frente, e era difcil avanar contra ele. O Nugi prolongava-se entre as penedias de rocha, cinzento, triste, sombrio, com os flocos densos da neve que rodopiava ao cair, empurrada pela ventania que gemia entre os troncos dos cedros. A neve, hmida, pegava-se ao fato de Marian, cada vez mais espessa. Dificilmente podia ver o caminho que o cavalo seguia. E o frio torturava-a.
As rajadas de neve afastaram-se, permitindo uma viso mais larga do triste desfiladeiro, com as suas agulhas sombrias, as suas arestas nevadas, as suas grutas escuras, as suas vertentes ridas e nuas. Outra tempestade, com grandes mantos cinzentos varrendo as penedias, passou ao longo do desfiladeiro. O vento e a neve gemeram de novo, uivaram atravs dos ramos dos cedros. Por mais que Marian sacudisse a neve que lhe caa em cima, ela amontoava-se sempre. Por fim, cansada e gelada, a jovem desistiu de lutar. Os ramos dos cedros tocavam-lhe na cara, como esguios dedos,

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hmidos e frios. Quando chegaram finalmente ao termo da cavalgada, Marian sentiu-se contente por Nophaie a tomar nos braos, tirando-a da sela.
O automvel foi abrindo caminho para casa, atravs da neve e da lama, descendo a passagem at alcanar a planura do vale. Os grandes rolos de nuvens cinzentas abriram-se outra vez, espalhando-se e afastando-se.
Marian relanceou o olhar pelas altas salincias inclinadas, to grandes como montanhas, pela negra sentinela isolada que se erguia acima da muralha vermelha do norte, pelas colinas arredondadas que fechavam o horizonte a leste, pela cinzenta, hmida - e fria vastido do deserto.


XXI.


Trs milhares de "Nopahs" sucumbiram  epidemia e, de um extremo ao outro da reserva, um povo ferido, espantado, esmagado, curvava a cabea. A forma excepcionalmente maligna da "influenza", e as supersticiosas crenas dos ndios fatalistas, uniram-se para criar um ambiente perigoso. Quando veio a Primavera, com o sol quente, dissipando o estranho sopro de morte, os ndios sobreviventes comearam a acreditar que tinham escapado em consequncia de haverem comido carne de cavalo.
Pouco a pouco, as garras do medo foram-se desprendendo do corao de Marian. Pouco a pouco o longo e estranho feitio da tristeza foi-se transformando numa esperana, animada pelo sol e pelo rpido declinar da mortalidade entre os "Nopahs". Mas a antiga alegria e a antiga coragem de Marian no voltaram completamente. Havia qualquer coisa de que ela no conseguia libertar-se - qualquer coisa de vago, de tenaz, de incompreensvel - qualquer coisa que ela sentia todas as vezes que via um sorriso de Nophaie.

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Trabalharam todos, para aliviarem o sofrimento dos ndios. Se alguma vez Withers realizara algumas economias, perdeu-as todas, e mais ainda, durante esse Inverno. As reservas de Marian haviam-se reduzido a pouco mais do que nada. A civilizao parecia distante, ocupada com os seus prprios problemas. Os assuntos da reserva continuavam como sempre. E o pequeno grupo de brancos que vivia em Kaidab, mantinha-se fiel a alguma coisa que os ndios lhe haviam inspirado, e de que o mundo em redor se esquecera.
Maro, com o seu ltimo Sopro gelado de Inverno, cedeu o lugar a Abril, com as suas tempestades de areia.
O vento uivava furiosamente nuns dias - e os dias seguintes eram calmos, quentes, com Primavera no ar. Apenas se tinha notcia de poucos casos de "influenza", e as mortes eram raras.
Mas Marian no conseguia sentir-se libertada do medo. Os tentculos de uma emoo profunda, mais estranha que o amor, apertavam ainda o seu corao.
Nophaie tinha ido a Oljato, e quando ele no regressou no dia seguinte, essa coisa sem nome, que no era sensao nem pensamento, estreitou a alma de Marian na sua mo de gelo.
Trabalhou na escrita de Withers, durante todo o dia; escreveu cartas h muito tempo adiadas; ocupou-se, por uma hora inteira, com o seu guarda-roupa usado e reduzido; foi, a cavalo, at s arestas de rocha que dominavam Kaidab, e cansou os seus olhos a espreitar o caminho de Oljato.
Mas esse dispndio de energia no lhe acalmava os nervos, nem embotava o seu sexto sentido feminino. Experimentou ir para o armazm, que nos ltimos tempos lhe era difcil suportar. ndios magros e esfomeados entravam
e ficavam por ali, olhando com os seus grandes olhos negros, at que Withers ou Colman lhes davam alguma coisa que comer. A tribo, agora, morria de fome.
Marian viu ndios usando arco e flechas, um uso esquecido mas que haviam retomado porque eles tinham vendido as suas espingardas, ou no podiam comprar munies. A l havia praticamente deixado de ser considerada um instrumento de troca. Pelo preo que lhes era oferecido, os ndios no queriam tosquiar as ovelhas. S apareciam algumas peles de cabra e, ocasionalmente, mantas. Era impressionante observar as "squaws" que traziam mantas pobremente tecidas -- de que Withers no precisava e que no conseguiria vender - e discutiam um preo que era ruinoso para o comerciante, mas que ele oferecia. Era deste modo que Withers ia mantendo os ndios do seu distrito. Nenhum lhe agradecia, porque nenhum compreendia a esmola que lhe era feita.
Nesse dia Marian encontrou novamente Shoie, e apesar da sensao quase de horror que ele lhe provocava, no se afastou e ficou a observ-lo. O companheiro de Shoie era um jovem "Nopah" de pele muito escura e aspecto bravio, sujo e andrajoso, com um p aleijado. Havia nele qualquer coisa que impressionou a sensibilidade de Marian, mais ainda do que Shoie. Ele olhava os sinais e as contores dos lbios lacerados de Shoie, que tentava dizer no se sabia o qu. Withers notou a perplexidade de Marian e deu-lhe a sua interpretao.
- Esse "Nopah" aleijado  um dos poucos criminosos da tribo. Foi ele quem tentou violentar uma das filhas mais pequenas de Etenia. Agarraram-no e expuseram-lhe o p  chama de uma fogueira, at que ficou queimado como um cepo. Foi esse o seu castigo. Hoje  um exilado da tribo. Creio que Shoie est a tentar dizer-lhe que vai lanar um feitio sobre ele.
Durante uns momentos Marian conseguiu esquecer-se de si mesma,

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olhando aqueles dois ndios. Eram criaturas estranhas, no ltimo degrau da escala humana, mas fixaram os pensamentos dela sobre o mistrio da vida. Uma monstruosidade que ela vira em Copenwashie, um ndio albino, de cabelo branco e olhos rosados, horrvel de ver, no a tinha horrorizado tanto como aqueles dois "Nopahs". Comparou-os com MaaHesenie e com Nophaie. Mas, quando pensou em Nophaie, sentiu que no podia estar ali mais tempo.
L fora arrefecia. O sol desaparecera no horizonte, e um claro vago envolvia as muralhas acidentadas, a oeste. Ouviam-se os uivos dos coiotes. Marian caminhou durante algum tempo, no crepsculo que descia. O crepsculo parecia-lhe uma coisa imensa e viva, estendendo-se sobre o deserto. Sentia um peso a oprimi-la. Como era escura e vazia, a amplido enorme! As muralhas de pedra que limitavam a vastido do deserto, como que comunicavam uma ameaa ao seu esprito.
Withers parecia desusadamente quieto, naquela noite. A mulher dele conversou um pouco, na sua voz baixa e contida que acabara por se parecer com a dos ndios. Mas o comerciante no tinha que dizer. Marian estava sentada ao lado da lareira, com os olhos fitos nos reflexos brancos e doirados da lenha que ardia. De sbito foi arrancada aos seus sonhos.
- O que foi isto?... - perguntou ela.
- Um cavalo. Talvez Nophaie esteja de volta... - disse o comerciante, num tom de profundo alvio.
Marian ficou quieta,  escuta. Mas sentia o corao bater muito depressa. Por fim a porta abriu-se, empurrada do exterior. Nophaie! Tinha os seus olhos de ndio, mas a sua face parecia a de um homem branco. Cambaleou ligeiramente enquanto fechava a porta e se encostava a ela.

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Todo o seu corpo estremecia, vibrava como o corpo de um atleta prestes a saltar. O seu olhar penetrante desprendeu-se de Marian para fitar-se em Withers.
- John - d-me um quarto para morrer!...
Withers abriu a boca, como sufocado, e pareceu encolher-se. A mulher dele soltou uma espcie de gemido, compassivo e assustado.
- "Apanhei a doena"!... - sussurrou Nophaie.
O terror de Marian deu voz aos pressentimentos do seu instinto at ento indefinido.
- Oh! Meu Deus! Nophaie!... - gritou, correndo para ele.
Nophaie apoiou-se a ela. O domnio do seu esprito sobre o seu corpo, parecia intenso, desesperado. Poisou as mos sobre os ombros de Marian, afastando-a dele.
- "Sob a Roch"... eu j devia estar morto... h algumas horas... Mas tinha de v-la... Tinha de morrer... como um homem branco!...
Marian estremeceu sob o estranho contacto das mos dele. Sentia-as a arder em febre, atravs do tecido da blusa.
- Mulher branca - que salvaste Nophaie - volta para o teu povo... Tudo - est - bem...
Caiu sobre Marian, e o comerciante amparou-o. Tiveram de o transportar quase em peso para o seu quarto; estenderam-no sobre a cama. Comearam ento a cuidar dele, com uma espcie de frenesi. O calor da sua face, a palidez marmrea, o pulso apressado, os pulmes congestionados, o bater precipitado e irregular do corao, tudo indicava a terrvel doena.
De uma vez,  luz vaga da lmpada, quando Marian estava ajoelhada junto da cama, numa agonia, chamando "Nophaie - Nophaie!" ele abriu os olhos - olhos sombrios, assustadores, onde j no brilhava o seu esprito indomvel; e ela julgou ver um fugidio sorriso, a antiga e bela luz, que velava por um instante a sua alma trgica - e a abenoava.
Depois Marian teve a impresso de que um inimigo traioeiro, torvo, de negra malvadez, lhe disputava a vida de Nophaie, afastando-a dela. E comeou uma batalha, inconsciente da parte da vtima. Um fogo venenoso parecia aspirar o sangue da sua vida. Aquilo no era uma doena - no era uma epidemia - era um vento de morte que arrastava o esprito para longe e espalhava uma corrupo devastadora sobre a carne. Mas a vitalidade do ndio fazia-lhe frente.
Withers tentou convencer Marian a afastar-se ,por momentos da cama, e por fim arrastou-a para a sala-de-estar. Ali Marian deixou-se ficar encolhida diante do lume, sentindo doer-lhe a alma. Oh! Seria possvel que tudo terminasse com o fim intil da vida de Nophaie e do seu amor!? A senhora Withers ia e vinha, sem palavras, acariciando-lhe por vezes os cabelos com as suas mos carinhosas e leves. L fora o vento gemia, no silncio da noite morta. Ouviam-se rumorejar as folhas tenras das rvores, junto  casa.
Nas ltimas horas da noite Withers aproximou-se de Marian e tocou-lhe de leve num ombro.
- Marian... - disse ele numa voz baixa, enrouquecida, estranhamente doce.
- Nophaie... ele... ele morreu?... - perguntou Marian num sopro, levantando-se.
- No. Est inconsciente, mas parece-me mais calmo, mais forte - a no ser que eu esteja doido... Tenho de contar-lhe uma coisa estranha. Muitos destes "Nopahs" que morreram da peste, ficavam negros... Nophaie, no seu delrio, falava em tornar-se "branco". Foi a delirar, sem dvida, mas impressionou-me.  to estranho como aquilo
que ele disse: - "John - d-me um quarto para morrer!" - Marian isto pode significar que ele quer finalmente manter-se fiel - ao esprito -  alma que cresceu dentro dele, embora a sua vida aqui fosse uma interminvel luta para continuar a ser ndio como nasceu. Mas no creio que Nophaie morra. Ele j venceu a crise  qual tantos sucumbiram. Nunca vi um to grande poder do esprito sobre a doena. O mal no consegue venc-lo.
Marian embrulhou os ombros numa manta e saiu para a noite. O vento frio do deserto batia-lhe na cara, levantando-lhe os cabelos. A madrugada no vinha longe. As estrelas comeavam a empalidecer, e aproximava-se o instante mais escuro da noite do deserto. A vastido, o cu, as sombras, o vento lamentoso, o silncio - tudo parecia guardar o seu segredo. Mas a vida estava aqui - e a morte alm, apenas a um passo de distncia. "Tudo est bem!...", murmurou ela, repetindo as palavras de Nophaie. A sua alma parecia inundada de uma infinita gratido. Talvez que o tremendo conflito que se desencadeava em Nophaie pusesse em jogo mais alguma coisa alm da vida. A Sua f em Deus dizia-lhe isso. A imaginao levou-a outra vez, ao lado de Nophaie, s alturas das Rochas Andantes. Teria a negra proximidade da morte iluminado a sua descrena?
O deserto seria sempre o seu lar, em esprito e em sonhos. Seria sempre uma irresistvel influncia no seu pensamento, para o seu bem, para a claridade da sua vida. Estremeceu de felicidade ao adivinhar que veria sempre as terras altas cobertas de mato prpura, as agulhas de rocha coroadas de oiro, adormecidas na luz do sol, os longos e suaves declives verdes, as sombras das muralhas silenciosas e, em algum ponto dessa paisagem maravilhosa, Nophaie, o ndio.


XXII


O regresso de Nophaie a um estado de conscincia deixou-lhe uma espcie de vaga recordao de negras e pavorosas profundidades, onde alguma coisa inexplicvel, dentro dele, havia precipitado legies de demnios.
Tinha esperado a morte, mas sabia agora que viveria. No tinha ele aceitado completamente a morte? Tinha havido um grande combate com a sua existncia fsica. Parecia-lhe, vagamente, que lutara de terrvel maneira com o demnio, disputando-lhe a posse da sua alma. Pensamentos alucinantes sobre essa estranha coisa ocupavam as suas horas de viglia e enchiam os seus sonhos. A satisfao dos Withers e a alegria de Marian pela sua convalescena rpida, davam a Nophaie uma sensao de melanclica felicidade. Eles amavam-no. Eles no reconheciam a existncia de qualquer barreira entre ele e "Sob a Roch". Haveria realmente uma barreira? E qual era? Passou horas tentando reagrupar os vagos factos sobre que formara anteriores convices, votos, deveres. Escapavam - lhe. Tornavam - se cada vez mais vagos. Alguma coisa acontecera  sua alma... ou talvez que a doena lhe houvesse perturbado o esprito.
Nophaie estava de p e a andar no quarto dia depois da crise aguda da sua doena. Evitava o contacto com os ndios e tambm com os seus amigos brancos, tanto quanto lhe era possvel sem ser descorts. Eles, por sua vez, pareciam compreend-lo e ajud-lo. Mas sempre, quando ele estava sentado sob o doce calor do sol de Maio, ou quando passeava sob as rvores reverdecidas, sentia que o olhar de Marian o acompanhava. Sentia-o nitidamente. E quando os seus olhares se encontravam, de perto, via nos olhos dela uma bela luz alegre. Isso fazia-o estremecer, enchia-lhe o corao,

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mas compreendia que chegaria o momento em que teria de resolver esse problema.
Poucos dias mais bastaram para que Nophaie recuperasse as suas foras e estivesse em condies de sair de Caidab. Assim, em certo momento, quando se encontrava s com os Withers e com Marian, ele falou do seu plano.
- John, seria possvel pedir-lhe para me arranjar um embrulho com um pouco de comida?
- Para qu?... - perguntou Withers, surpreendido.
- Preciso ir at o mato... s... e at os desfiladeiros... - respondeu Nophaie, pensativamente.
Marian deixou o seu lugar perto do lume e aproximou-se, plida, com uns olhos obscurecidos e pasmados.
- Nophaie sente-se bastante forte para isso?... - perguntou ela, assustada.
- Curar-me-, ou matar-me-... - respondeu ele com um sorriso, pegando-lhe na mo.
- Acho que no  m ideia... - disse Withers, dirigindo-se mais  mulher do que aos outros. Ela calou-se, o que significava o seu acordo. Ento o comerciante voltou-se para Nophaie: - Arranjar-lhe-ei tudo o que quiser. Quando parte? Amanh? Mandarei buscar o seu cavalo, ou dar-lhe-ei um dos meus.
- Sim, irei ao nascer do sol, antes que "Sob a Roch" se levante... - respondeu Nophaie.
- Vai partir s... e estar s?... - perguntou o comerciante.
- Palavra de ndio... - volveu Nophaie.
- Bom. No me importo de lhe dizer que estou um tanto preocupado... - continuou Withers, passando a mo pelos cabelos despenteados. - Beeteia est a preparar o inferno com os ndios.
- J sabia isso... - disse Nophaie.

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- Beeteia?... - exclamou Marian. - No  o ndio que foi marido de Gekin Yashi? O jovem chefe que eu vi l em cima?
-  esse mesmo...) - confirmou Withers.
- Beeteia  do melhor sangue dos "Nophas" - explicou a senhora Withers. - Descendente da primeira tribo.  realmente um grande chefe.
- Hum! Ento o caso significa mais do que eu pensava... - disse o comerciante. - Ele anda a excitar os ndios contra Blucher e Morgan. Ouvi dizer que... que ele se transformou num magnfico orador... de qualquer modo no conseguiu esquecer a amargura causada pela morte de Gekin Yashi. Est a tentar provocar uma revolta dos ndios contra os brancos. No , evidentemente, uma tentativa indita, nesta reserva. Destina-se com certeza a um malogro, como sempre acontece. Mas, em todo o caso,  possvel que ele chegue ao fim, ao fim que pretende atingir. No gosto da influncia de Beeteia.  possvel faz-lo parar, Nophaie?
- S se o matarem... - respondeu Nophaie.
- Hum!...Bem, tudo o que podemos fazer  ter esperana de que as coisas no vo longe demais... - disse Withers, levantando-se.
A senhora Withers saiu logo atrs do marido, deixando Marian e Nophaie um com o outro. Ela continuou de p ao lado da cadeira onde ele se sentava, e fitava-o.
- Nophaie... para onde quer ir?... - perguntou ela.
- Para Naza...
- To longe!... - murmurou ela, com uma expresso de surpresa.
- Para mim no  longe...
- Mas porqu Naza... se apenas deseja isolamento... os matos e os desfiladeiros?... - continuou Marian, sria.
Nophaie soltou-lhe a mo e rodeou-lhe a cintura com um brao. Sentiu que ela tremia, como se um sbito choque a percorresse.
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Nunca a doura e a significao da presena dela lhe pareceram to fortes. Havia uma diferena nas relaes de ambos - mas ele no saberia dizer qual. Era outra coisa que tinha de aprender. Ele prprio se sentia mais fraco, menos capaz de mago-la.
- "Sob a Roch", eu no tenho a certeza... mas creio que vou a Naza porque  o maior de todos os deuses dos "Nopahs".
- Oh! Nophaie!... - exclamou ela. - Continua nessa tortura? Disse-me que todos os deuses "Nopahs" o haviam abandonado... que mesmo Nothsis Ahn era apenas uma fria e cinzenta montanha, sem voz para a sua alma.
- Sim, lembro-me, Marian. Mas no me sinto torturado, ou arrastado como me sentia quando escalei a muralha norte de Nothsis Ahn.  uma coisa que eu no sei explicar. Nem sequer sei se o meu desejo de ir  qualquer coisa mais do que um impulso fsico. Mas sinto-me estranho. Preciso de solido... e, de algum modo, sinto o apelo de Naza. H uma luz... talvez haja uma fora para mim, no silncio desses desfiladeiros.
- Oh! Se ao menos pudesse encontrar a paz... - murmurou Marian.


Nophaie partiu de Kaidab antes do nascer do sol, e cavalgou atravs do deserto na luz cinzenta e melanclica da madrugada. O zurrar discordante de um burro era o nico som que quebrava o silncio.
Numa elevao de terreno voltou-se sobre a sela e olhou ainda uma vez para o posto comercial. Alguma coisa, um pequeno objecto branco que se agitaVa no rectngulo escuro de uma janela, atraiu-lhe o olhar. Marian acenava-lhe um adeus. Ele devia ter esperado aquilo. Detendo o cavalo no alto do terreno, olhou durante um longo momento, enquanto o seu corao se enchia de emoes contraditrias. Ia acenar tambm,

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seguramente. O pequeno leno branco agitava-se mais depressa, agora. Marian tinha compreendido que ele a olhava. Ento levantou um brao e acenou largamente, num gesto lento, no gesto habitual do ndio que parte para percorrer a montanha, para algum lugar que o chama e que em breve voltar. Pareceu-lhe ver brilhar a face de Marian, e imaginou a luz acesa, que a iluminava. Depois impeliu o cavalo, desceu o outro declive do terreno e passou para alm do campo de viso da janela, forando a recordao de Marian a passar tambm para alm do seu esprito.
A montada de Nophaie era um dos melhores cavalos de Withers, um baio grande e forte, de trote fcil e incansvel. No parecia sequer sentir o peso adicional do volume e das mantas amarradas por detrs da sela. Nophaie sentia-se meio tonto e inseguro, mas atribuiu isso  sua fraqueza. Mais tarde ou mais cedo essa sensao havia de deix-lo; por agora deixava seguir o caValo simplesmente a passo. Assim que perdeu de vista as vedaes e os currais de gado, comeou a sentir-se descontrado, a sentir que mudava, que se libertava de antigas impresses e mrbidos pensamentos como se eles fossem escamas secas e mortas. Aquela jornada seria a mais importante de toda a sua vida. Adivinhava isso, mas no poderia dizer porqu. Seria Naza, em verdade, um altar? Ento sucumbiu ao desejo de abandonar-se inteiramente  exclusiva percepo dos seus sentidos.
Uma luz rosada espalhava-se pelo azul-cinzento do cu, sobre as muralhas de leste, a lguas de distncia para a direita de Nophaie. Para o norte podia ver a ponta de uma agulha de pedra, vermelha, erguendo-se acima da rocha amarelada, ponteada pelos troncos escuros dos cedros. O grito de um pssaro, o uivo de um "coyote", o perpassar de um animal por entre o mato, davam notas de vida  paisagem do deserto. Nophaie sentiu o cheiro da lenha que ardia nos "hogans dos ndios; viu "Nopahs", embrulhados em mantas,

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que (c) observavam do alto de uma escarpa onde se erguiam cedros; ouviu a voz gutural de um pastor que cantava, guiando o seu rebanho. Afastou-se das trilhas batidas, para no ter de encontrar algum do seu povo. Queria no trocar uma nica palavra com qualquer criatura viva, durante a sua peregrinao.
Atravessou uma funda depresso, subiu pelo lado oposto e, seguindo ao longo do declive ascendente, de rocha escavada e varrida pelos ventos, alcanou um ponto de onde poderia ter avistado Kaidab, l para trs; mas no voltou a cabea, atentos os olhos  primeira viso do grande vale rochoso onde os monumentos de pedra dormiam o seu sono milenrio.
Em breve avistou, do cume para a base, uma colina vermelha, macia, com colunas que lembravam os tubos de um rgo, destacando-se no deserto, em frente da grande muralha das terras altas. Estava ainda distante, mas Nophaie esperava acampar ali nessa noite, e renovar conhecimento com os suaves declives cobertos de mato onde, quando pequeno, tinha pastoreado os rebanhos de seu pai. Atravs dos seus sentidos perpassou uma pasmada interrogao: porque desejaria ele ver agora esses stios, dos quais, desde o seu regresso  reserva, se havia mantido afastado, evitando os vvidos cenrios da sua infncia? No respondeu; recusou-se a pensar.
Era sempre, para ele, como se visse o deserto com olhos novos. Todos os velhos pontos de referncia lhe pareciam ampliados. As muralhas e pirmides que por centenas de anos haviam abrigado os espritos da sua raa, pareciam glorificadas aos seus olhos, embora no fossem dolos ou deuses perante os quais houvesse que ajoelhar ou rezar. Atravs delas os seus sentidos colhiam uma diferente significao da beleza e do tempo, da natureza e da vida.
Nophaie desceu at um largo vale de muralhas amareladas e depois subiu um lento declive arenoso onde o sol
batia em chapa, mais quente, e a poeira rodopiava, levantada pelo vento. O extenso horizonte desaparecera, fechado pelas penedias irregulares, de longas linhas quebradas. Durante horas Nophaie seguiu ao trote da montada, sentindo o sol e o vento, embalado pelo baloiar do cavalo e pelo "clap-clap" das ferraduras, avanando ao comprido do vale e entre as muralhas de um amarelo avermelhado, que pareciam caminhar com ele. Ao fim da planura galgou uma passagem baixa, onde uma colossal agulha de rocha se erguia para o cu - e da contemplou o vale dos "Nopahs", o vale dos monumentos, onde o seu povo vivera e onde ele tinha nascido. O espectculo deteve-o por instantes.
A sua meta, para aquele dia, era o planalto que parecia esculpido em tubos de rgo e que aparecia agora, sobranceiro, a uma distncia de dez milhas, guardando a entrada do vale sagrado onde cada um dos monumentos de pedra era um deus para os "Nopahs". Sentia-se cansado, quase exausto. Mas isso nada significava para ele. S a morte ou o esgotamento total o impediriam de continuar.
Quando alcanou o planalto magnfico, o poente envolvia as penedias e os monumentos em tons de oiro e de rosa. O solo do deserto era cinzento perto dele, prpura na lonjura. Por cima da encosta vermelha que teria de escalar no dia seguinte, um fantstico cortejo de nuvens atraiu o seu olhar, enquanto ele ofegava.
Um delgado fio de gua cantava, brilhando, sobre o leito de areia um sulco cavado nas rochas, reflectindo as cores das nuvens e dos montes. Nophaie tirou a sela do cavalo, deu-lhe a comer a cevada que trouxera com as suas prprias provises e, peando-o, soltou-o. Ento ocupou-se de si mesmo, das suas pequenas e simples necessidades. No sentia fome, mas forou-se a comer. A dura jornada que empreendera em breve reanimaria os seus instintos naturais.
Um crepsculo macio e cinzento descia das muralhas vermelhas quando Nophaie alcanou o stio onde, quando rapaz,

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tantas vezes se sentara a vigiar o rebanho. Era uma longa eminncia de terreno, a curta distncia da montanha. A relva e o mato eram espessos ali, tal como antigamente. O cheiro do mato invadiu-lhe as narinas, enquanto uma saudade triste e doce lhe enchia lentamente a alma. Encontrou a rocha lisa e vermelha onde ele e sua irm costumavam sentar-se lado a lado. H quanto tempo! Ela tinha morrido. Toda a sua famlia desaparecera.
Nophaie olhou, atravs do vale cinzento, para uma abertura na muralha do sul, uma garganta que se abria como um V. O estreito curso de gua saa, como uma fita de prata, das profundidades dessa garganta. Alm, onde a passagem se internava por entre as altas muralhas apertadas, ele havia nascido. As recordaes de Nophaie levavam-no at o tempo em que ele tinha apenas trs anos.
-  o ndio que fala, dentro de mim... - monologou ele. - Talvez houvesse sido melhor que eu tivesse morrido da epidemia. Aquele buraco na muralha era o meu lar - o vale era o meu quintal. Acabou-se o lar, a famlia, acabaram-se os folguedos de ento. As proezas dos ndios acabaram. Os seus sonhos de glria desapareceram. O seu caso chegou. Aqueles que sobreviveram  doena,  misria,  embriaguez, que se abateram sobre eles, devem ser inevitavelmente absorvidos pela raa que os destruiu. O sangue dos brancos e dos vermelhos! Isso significa que a raa branca dominar, que os ndios desaparecero... Nophaie ainda no tem trinta anos, mas sente-se como se fosse um velho. Arruinado, perdido. Ele tambm deveria desaparecer. A sua campa podia abrir-se neste lugar. Sob o mato!... Morte, sono, descanso, paz!

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Mas a inteligncia de Nophaie repudiava aquele fatalismo de ndio. Podia corresponder aos seus instintos, mas no correspondia ao seu esprito. Ele era ainda um homem novo. A guerra no o destrura. A epidemia no podia venc-lo. O seu corpo era forte como o cedro do deserto, o seu esprito to indominvel como a luz do sol. Em cada um dos dias da sua vida poderia mitigar de algum modo a misria da sua raa, se quisesse faz-lo. Mas o seu dio - o seu dio por Morgan e por Blucher, por todos os brancos que haviam feito mal aos ndios - esse era o grande fardo que lhe pesava sobre a alma... Nem uma vida instintiva de ndio, nem uma vida dominada pela sua educao de branco poderiam ser felizes enquanto esse dio fervesse no seu sangue. Ento brilhou dentro dele, como um claro, o pensamento de que o amor de Marian, que lhe era oferecido com toda a maravilhosa fora e generosidade de um corao de mulher branca, venceria o dio, compensaria todos os seus sofrimentos, elev-lo-ia a um estado de alma largamente acima de ideias de amargura ou de vingana. Ela pagara-lhe por todos os males que lhe haviam sido feitos pela sua raa.
Mas nesse ponto Nophaie sentiu a ignomnia do seu azedume. O seu amor por "Sob a Roch", o amor dela por ele, parecia-lhe no ter poder sobre o seu dio. Era preciso mais. E subitamente compreendeu a significao da sua estranha jornada - da sua peregrinao a Naza.
Durante muito tempo Nophaie permaneceu estendido, na treva que se adensava. No cu, estrelas brancas pareciam espreitar sobre as escuras runas. O vento frio da noite comeou a soprar, gemendo por entre o mato. Os reflexos do lume da fogueira danavam sobre a superfcie negra das rochas.

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Da distncia, de para alm do vale, chegou at ele o eco de um balir de ovelhas, vago, triste, lamentoso, como um eco da vida na solido do deserto.
Na manh silenciosa e rosada, sob a luz do sol que surgia l para trs, Nophaie ia cavalgando atravs de uma trilha estreita e mal desenhada que subia das terras baixas e escalava a primeira colina vermelha, seguindo depois por uma regio plana, de rochas e de terrenos de aluvio, e voltando a subir ainda mais, para as terras altas onde cresciam os cedros, os pinheiros e o mato. Para a sua retaguarda as grandes agulhas e monolitos emergiam das terras baixas, erguendo-se at o nvel do terreno que Nophaie percorria e que era formado pela mesma camada vermelha e rochosa. Por vezes ele voltava-se e olhava para trs, para ver as silhuetas escuras e majestosas que se recortavam contra as nuvens brancas.
Nophaie sentia que o ambiente lhe restitua as foras, tal como o cheiro picante que vinha no vento - e a ideia que lentamente se formava dentro dele, de que as suas angstias iam ficando para alm, ao longo das milhas percorridas. No era como um regresso a si mesmo - embora o mato prpura e Nothsis Ahn estivessem quase  vista; era antes porque lhe parecia que ia encontrar alguma coisa nova, bastante forte para amparar-lhe a alma.
Transps um declive de rochas nuas, de cerca de uma milha de extenso, ondulante e acidentado por elevaes e colinas, covas e gargantas, tudo feito da mesma pedra amarela e estril. Depois rodeou uma larga curva da muralha e deixou de ver a paisagem que ficava para trs.

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Em frente estendia-se a pradaria ponteada de cedros, milha aps milha, cortada de rochas vermelhas e de manchas verdes de relva rasteira. Nophaie seguia agora a trote, atravessando a plancie at que finalmente se abeirou de um fundo desfiladeiro. Abria-se diante dele, com perto de meia milha de profundidade, entre costas to rudes que s um ndio poderia percorrer a trilha. Nophaie caminhava agora, conduzindo o cavalo  rdea. A descida para o desfiladeiro seco e abrasado, sob as arestas speras, atravs do labirinto formado pelos grandes blocos de pedra vermelha, rumo s regies de calcrio colorido e poeirento, foi para ele uma crescente alegria. O antigo impulso fsico, o instinto de proeza muscular, a resistente luta contra obstculos ignorados, reviveram em Nophaie. A escalada da muralha oposta foi uma rija tarefa. Do alto, a pradaria alongava-se de novo, interminvel, na direco da grande barreira de montanhas, agora tingida de vermelho, de amarelo e de violeta.
Nophaie alcanou a base da muralha  hora do crepsculo, e acampou num pequeno bosque de cedros coroados de verdura sombria. Estava agora bastante longe da reserva ndia. Pequeno era o risco de, da por diante, encontrar fosse quem fosse. Sentiu um estranho alvio, que quase o envergonhou. Estava ele realmente a fugir dos homens da sua raa, a afastar-se deles por todas as maneiras? Vinte e quatro horas de jornada e cinquenta milhas percorridas haviam-no isolado dos cenrios familiares, das emoes j sentidas. Comeou a tornar-se mais fcil para ele a concentrao na atenta percepo dos sentidos, de onde vem a felicidade. Se ao menos pudesse abandonar-se por completo a esse instinto! A noite estava fria, o vento gemia entre as ramadas, ouvia-se  distncia o uivo dos "coyotes".
Na manh seguinte, Nophaie escalou a vertente nua da montanha, que parecia intransponvel.

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Parecia-lhe uma barreira contra as paixes humanas. Exausto, ardendo em calor, escorrendo em suor, deixou-se cair no cho, sobre a aresta mais alta, e ficou a ofegar. Dez dias antes havia abandonado a sua tribo, sentindo-se morto. Mas os seus amigos tinham cuidado dele. A mulher branca, a quem amava e que o amava, rezara por ele a Deus. Ela no lho tinha dito, ningum lho dissera, mas ele sabia-o. Estava vivo! Era um homem!
Ergueu-se penosamente e montou a cavalo. Alguma coisa de inefvelmente doce e precioso parecia flutuar  sua volta. Mas no podia compreender o que era.
Durante horas cavalgou entre os cedros e o mato. Ao meio-dia o tremendo abismo dos "Nopahs" abria-se na sua frente. Era largussimo e profundo, marcado por taludes de muitas cores - de lils, de helitropo e de malva. No havia vegetao - apenas um rido abismo de eroso e terras mortas. Abria-se num precipcio enorme e colorido, onde tudo parecia vago, nevoento, vasto e vazio. Olhando para baixo, Nophaie sentiu uma impresso excitante. Atravessaria aquele desfiladeiro, onde poucos "Nopahs" haviam penetrado.
A dura faanha ocupou-lhe o resto do dia. Nophaie esqueceu-se de si mesmo, absorvido pela vertente e pela descida, pelas encostas escorregadias, pelas rochas poeirentas e gastas da passagem dos sculos, pelo calor das pedras e pelas suas reverberaes vermelhas, pelas rvores raquticas, de um verde intenso, pela gua que corria e saltava de rochedo em rochedo, pela gigantesca muralha sobranceira e pela escalada, outra vez, arrastando-se como um lagarto.
A sua recompensa foi a rolante extenso do planalto, com o verde dos cedros e a prpura dos matos, coroado pelo maravilhoso Nothsis Ahn. Rochas amarelas, frisos de troncos negros, brilho ofuscante da neve - assim a Montanha de Luz aparecia a Nophaie...

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Ela era sempre igual. S ele havia mudado. Como poderiam afectar Nothsis Ahn as guerras provocadas pelo egosmo dos homens? Que lhe importava a angstia de Nophaie? Enquanto olhava para o alto, percorreu-o a ideia sbita de que a angstia no existia. Mas essa ideia parecia ser a calma, a fora, a prpria alma da montanha.
O sol descera para oeste. Nophaie escolheu uma extenso de mato aberto, por detrs da qual se erguia um grupo de cedros, e acampou a, sob a face tutelar de Nothsis Ahn.
Dois dias mais tarde Nophaie havia atravessado as terras altas, descido a encosta norte da grande montanha - e internava-se mais e mais pelos desfiladeiros.
L em baixo era Vero. O ar quente e perfumado era docemente agitado por uma brisa leve. A verdura das rvores e da erva, as flores claras, orlavam as estreitas superfcies planas, entre as muralhas vermelhas. Mato rasteiro, o mato ndio, juntava vermelho e ocre  paisagem colorida. Nophaie continuou a sua descida entre as muralhas rebrilhantes, sob o sol intenso e na frescura da sombra, ao longo e atravs dos regatos, ladeando extenses de musgo ambarino e de lrios alvssimos, no meio de bosques de arbustos verdes - at alcanar o lugar que tanto se lhe gravara na memria e na alma, o lugar onde vivera tanto tempo no isolamento e na solido, o seu Desfiladeiro das Muralhas Silenciosas.
Nophaie descansou ali nessa noite e durante o dia seguinte. Naquele fundo desfiladeiro onde a gua e a relva eram abundantes, o cavalo de Nophaie aproveitou o repouso. Quanto a Nophaie, lutou bravamente para tornar as suas horas de cio semelhantes s de um ndio a quem bastasse as coisas naturais.

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Mas sentia-se invadido por uma larga onda de emoo. Alguma coisa parecia estalar dentro dele, como um dique prestes a quebrar-se. Sabia no entanto que em cada momento que passava ia ficando mais distante e acima de paixes semelhantes  que se apossara de Beeteia. Uma fora, de cuja aco ele tinha conscincia, parecia ir gradualmente tomando posse da sua alma.
Recomeando a sua peregrinao ao pr do sol, Nophaie cavalgou durante toda a noite na direco de Naza Boco, o desfiladeiro nas distantes profundidades do qual se escondia o grande deus dos "Nopahs".
Aquela jornada parecia uma viglia. A luz do dia t-la-ia despojado de uma parte da sua estranha essncia espiritual. As sombras, sobre as grandes muralhas, tinham tons de negro e de prata. A estreita linha de cu entre as altas arestas, recamada de estrelas, ia ficando mais alta e mais distante ao passo que ele se internava nas silenciosas entranhas da terra, em meio das rochas. Cada hora aumentava a sua sensao de alguma coisa grande, misteriosa, definitiva, que esperava por ele ao fim da sua peregrinao.
A madrugada veio, trazendo com ela uma imperceptvel mudana do negro para o cinzento. A luz do dia veio depois, vagarosa, hesitante, mostrando a Nophaie as muralhas extraordinariamente altas de Naza Boco. O sol anunciou a sua apario coroando as arestas de vermelho e doirado. Depois, gradualmente, a luz comeou a descer pelas vertentes.
Nophaie levou o seu cavalo para alm de um cotovelo da muralha - e parou, subjugado.
Naza! A ponte de pedra - deus dos "Nophas", arqueava-se maravilhosamente diante dele, doirada sobre o fundo azul do cu.

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Ficou a olhar durante longo tempo, como num encantamento, e s depois continuou a avanar. Ao princpio tudo lhe havia parecido irreal. Mas, embora Naza se erguesse, gigantesca, era apenas uma obra-prima da natureza, manchada de vermelho, riscada de negro, sulcada de grutas, escavada de longas cicatrizes, esculpida pelo tempo. O vento e a chuva, a areia e a gua eram os deuses que tinham criado Naza. Mas para Nophaie, o facto de a sua educao lhe permitir compreender o lento trabalho dos elementos, no diminua aos seus olhos o seu infinito poder.
Impeliu o cavalo para a frente, sob a ponte - uma coisa que nenhum "Nopah" havia feito antes dele. As grandes muralhas no estremeceram; a fita azul do cu no escureceu; Nothsis Ahn, que mostrava a sua cpula branca e negra acima do desfiladeiro, no trovejou sobre Nophaie - por aquilo que teria sido um sacrilgio para qualquer "Nopah". Nada aconteceu. O stio era belo, solitrio, silencioso, seco e perfumado, estranhamente grande.
Lentamente Nophaie tirou a sela do cavalo e aliviou-o dos volumes que trouxera,  sombra de um cedro. O desfiladeiro j abrasava. O ambarino cristal da corrente de gua convidava ao alvio da sede e do calor.
Nophaie ocupou o longo e solene dia olhando a ponte de diversos ngulos, esperando fosse o que fosse que devia acontecer-lhe.
Ento comeou o vagaroso pr-do-sol, uma estranha coisa ali, nas profundidades do desfiladeiro. Nophaie observou as maravilhosas mudanas da cor, desde os tons irisados da pedra at o doirado das muralhas e o rseo brilho da cpula nevada de Nothsis Ahn. O crepsculo era mais lento do que em qualquer outro lugar de que Nophaie pudesse recordar-se. Era uma hora cheia de beleza, cheia do significado de alguma coisa prestes a acontecer.
Caiu a noite.

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O murmrio baixo da corrente de gua parecia acentuar a solido. A longos intervalos os mochos faziam ouvir o seu melanclico estribilho. Naza erguia-se, escura e triunfante, recortada em silhueta sobre o fundo do cu, coroada de estrelas prateadas. Nophaie viu o abismo, de baixo para cima.  noite a ponte tomava um aspecto misterioso e espectral. A noite aumentava a sua grandeza.
Nophaie no dormiu. Nem sequer fechou os olhos. Cada momento o aproximava daquilo que ele adivinhava ser uma luz a invadir-lhe o esprito.
Perto da madrugada uma vaga de luz verde brilhou nas muralhas voltadas para o sul. A lua subia no firmamento. Algum tempo depois o brilho tornou-se mais intenso. Em breve a sombra da ponte se estendeu, curvada, na muralha oposta, e sob o arco o luar brilhou, tnue, fantstico e belo.
Depois de vinte e quatro horas de viglia sob o altar, Nophaie orou. Com todo o ardor da sua alma recordou as preces dos "Nopahs" e disse-as em voz alta, de p, com a face inclinada sobre o luar. O seu impulso havia sido mstico e incontrolvel. Vinha-lhe do passado, das nebulosas recordaes da sua infncia. Era o ltimo e moribundo claro do misticismo e da superstio dos ndios. A honestidade e a sinceridade do seu desejo, no tinham paralelo em todos os complexos apelos do passado. Mas Nophaie permaneceu frio. O desencanto acorrentava-lhe a alma. Depois essas correntes afrouxaram estranhamente o seu gelado amplexo. Nophaie estava livre. E compreendia que o estava.
O tempo parou, para Nophaie. A terra e a vida pareciam ter-se imobilizado. Voltaria a chegar de novo a madrugada? Como ele se sentia fechado nos confins rochosos da terra!

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Por fim sentou-se sobre uma pedra solta da muralha e ficou a olhar com renovados olhos. Qual era o segredo de Naza? O nome era apenas ndio, trazido por aqueles remotos antepassados dos "Nopahs", que tinham vindo do norte. Haveria algum segredo? O esprito oculto naquela ponte magnfica tinha-lhe sido dado pela alma de um homem. A mente dos ndios debatia-se ainda para trs, na distncia, no princpio das trilhas incertas do progresso da civilizao. Muralha negra e lisa de um lado, muralha de mrmore enluarado do outro, com um brilho plido sob o cu azul, recamado de estrelas; e, atravs do espao negro, arqueava-se o espectral monumento de pedra, ampliado pelas sombras da noite.
Nophaie via-o agora como se espessas escamas houvessem cado dos seus olhos - via-o na nudez da sua fora, na sua surpreendente beleza, na sua estranheza aterradora. Mas ele tinha-se tornado uma coisa fsica, inanimada, esttica. Era necessria a tremenda grandeza das muralhas para apoiar o arco gigantesco. A beleza amparada pela rocha! A sublimidade esculpida pelos cinzis do vento e da gua! A tarefa elementar das Idades! Um monumento ao esprito da natureza! Mas no era um deus...
Naza! O deus "Nopah"! Uma ponte de pedra! Ali, na frente de Nophaie. Como eram enormes as muralhas que ela unia! Essas muralhas tambm haviam sido cortadas pela gua e pelo vento. Milhares de milhes de toneladas de areia tinham sido levadas pela eroso - para que Naza pudesse ali ficar, to magnificamente encurvada, parecendo eterna. Mas no seria eterna. Tinha traada a curva fechada do seu destino. Cairia, ou se desintegraria. Toda aquela maravilhosa beleza de linha e de cor, toda aquela silhueta enorme, gigantesca, com o decorrer do tempo havia de transformar-se em impalpveis gros de areia, que o curso de gua levaria para longe, murmurando docemente.


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foi ento que Nophaie descobriu o segredo do seu encantamento.
No era simplesmente feito de beleza e de mistrio, de grandeza ou de imensidade! Isso era apenas uma parte do seu feitio. Para Nophaie, ele significava paz. A glria da natureza abriu-se sobre Nophaie, como uma clara madrugada. Enquanto ali permanecesse sentir-se-ia livre, saciado. Mesmo a amargura era doce. A recordao da mulher branca a quem amava, enchia-lhe a alma de uma plenitude tranquila.
O mundo dos homens, raa contra raa, o mundo dos homens e das mulheres, de luta e ambio, de dio e sensualidade, de injustia e sordidez, o materialismo da Grande Guerra e as suas horrveis consequncias, o mpeto, e a febre, e a ferocidade da idade moderna, com a sua msica infrene, a sua licenciosidade, a sua embriaguez e a sua cegueira - o seu paganismo - nada disso existia na sombra calma e gigantesca de Naza. Naquele silncio no existiam homens com faces de lobo! Tambm no existiam belas faces pintadas de mulheres. No havia o espectculo das tribos ndias, expulsas das verdes pastagens e dos rios claros que tinham sido dos seus antepassados, encurraladas nos espaos desertos da terra. O homem branco ainda no fizera de Naza um alvo para o seu esprito de destruio. No existiam as doenas do esprito e do corpo as distorcidas imagens da espcie humana, a incompreensvel estupidez, a ptrea indiferena perante a natureza, a bondade, a beleza e o ideal - nada disso existia ali, naquele desfiladeiro inundado pela luz calma do luar.
Enquanto pudesse, Nophaie deixar-se-ia ficar ali, sob as silenciosas muralhas rebrilhantes, com os seus tons irisados e as sombras purpurinas dos poentes, os clares rseos e doirados das manhs. Passariam os dias, no seu cortejo solene, passariam as noites povoadas de sonhos.

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A paz e o Silncio remariam ali. A beleza seria igual  austeridade.
Quando a luz do sol varreu as sombras da noite, o encantamento de Naza limpou a mente de Nophaie de todas as supersties ndias, da dvida e dos mrbidos temores. O trgico destino do americano desaparecido, tal como ele o havia embalado na tristeza do seu corao, deixou de existir.
Para Nophaie, o ar doce e parado do desfiladeiro parecia sobrecarregado. Naquele desrtico e alucinante vestbulo da terra, a paz, a f, o ressurgir da vida, envolviam simplesmente a sua alma. A confirmao da imortalidade - a aproximao de Deus! Aquela luta ntima, que durante tanto tempo havia sido uma batalha entre as supersties ndias da sua infncia, e os ensinamentos que lhe tinham sido impostos pelos brancos, terminava para sempre na sua compreenso de Deus - o Deus Universal que era o mesmo para os ndios e para os brancos.


XXIII



No posto comercial de Kaidab, Marian olhava o deserto com olhos angustiados.
Nophaie tinha partido havia duas semanas. E os acontecimentos dos ltimos dias e das ltimas noites haviam de algum modo perturbado a rotina habitual da casa dos Withers. Certa noite, em todos os pontos altos ao redor de Kaidab, tinham surgido fogueiras de aviso e de sinal. No dia seguinte grupos de ndios passaram a cavalo, silenciosos e hostis, mal se detendo no posto comercial. Este ltimo facto no tinha precedentes. Nem mesmo a senhora Withers conseguiu arrancar a qualquer dos ndios a menor informao sobre o que se passava. Mas o comerciante declarou que no precisava ser informado.

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- Vai haver complicaes em Mesa... - disse ele, com os olhos brilhantes. - J no via os ndios assim desde os tempos em que mataram o meu irmo, h anos...
Nessa tarde, Withers partiu no seu automvel.
E  noite acenderam-se novas fogueiras. Marian, com a senhora Withers e outras pessoas, foi ver o maravilhoso espectculo dos sinais de fogo nos "Echo Peaks". Para Marian, parecia-lhe que o cu estava em chamas. Tanto ela como a senhora Withers se mantiveram silenciosas, sem se juntarem ao pasmo e s ruidosas exclamaes dos seus companheiros. A mulher do comerciante tinha vivido toda a sua vida entre os ndios, e a sua expresso era um augrio de catstrofe.
No dia seguinte numerosos "Nopahs" passaram pelo posto. Depois, com o anoitecer, o magnfico panorama das fogueiras repetiu-se. Apagaram-se perto da meia-noite.
Marian deitou-se, sem dormir, na escurido do seu pequeno quarto. Algum tempo depois o rudo do motor de um automvel aproximou-se do posto, alarmando-a. Era decerto Withers que voltava, e o seu regresso parecia dever ser de boas novas. Mas o automvel passou apenas pelo posto e seguiu, em grande velocidade. Esse facto assustou Marian. Nunca tinha acontecido tal coisa. Kaidab era quase uma paragem obrigatria para todos os carros, a qualquer hora que fosse. Aquele incidente significava seguramente um perigo, uma ameaa. Pouco depois, vencida pelo cansao, Marian adormeceu; mas o seu sono foi povoado por estranhos sonhos.
Na manh seguinte a jovem sentia-se  beira do desespero. A fatalidade decerto se abatera sobre Nophaie, porque se assim no fosse ele j teria regressado h muito. Estabeleceu ligao entre a suaprolongada ausncia e o levantamento dos "Nopahs". No entanto, incansavelmente,
observou o horizonte do deserto, para o lado do norte, rezando para que Nophaie surgisse na distncia.
A sua ateno, todavia, foi atrada noutra direco. Outra vez o barulho do motor de um automvel se fazia ouvir. Correu para o porto. Uma nuvem de poeira vinha velozmente pela estrada, aproximando-se do posto. Depois desapareceu. Marian fitou os olhos no ponto onde a estrada fazia uma curva por detrs de uma elevao de terreno. Em breve surgiu um automvel aberto. Pareceu-lhe reconhec-lo. O condutor, aparentemente, desprezava os riscos que o carro ou ele prprio poderiam correr. Rodava como um doido. Marian saiu para o largo espao aberto, em frente do posto comercial.
Instantes depois estava em frente de Withers, que vinha coberto de p.
- Como est, Marian?.... - perguntou ele. - Como esto todos? Vim o mais depressa que me foi possvel. Mas as ms notcias viajam rapidamente neste deserto, e eu queria chegar antes delas...
- Ms... notcias!?... - exclamou a jovem.
- Bem, so realmente ms... - disse ele, com ar sombrio. - Venha, vamos ter com minha mulher.
- Nophaie! Viu-o?... - murmurou Marian.
- Olhe c, menina... Est branca como um papel. E a tremer, ainda por cima. Bem, no admira. Mas precisa de coragem para suportar o pior... Esto a trazer Nophaie para aqui, no carro de Presbrey. Est vivo e, tanto quanto eu sei, no est ferido. Mas vem muito mal...  estranho!... Venha, aqui temos a senhora Withers. Tambm parece assustada...
Enquanto Withers a conduzia, quase a transportava, para a sala-de-estar, Marian lutava desesperadamente para no se deixar invadir pelo desmaio que a ameaava.

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Withers sentou-a numa cadeira e ficou em p diante dela, a limpar a face poeirenta.
- Bem, mulher, ests quase to plida como Marian.. - comeou ele. Depois, acabando de limpar a cara, suspirou profundamente e deixou-se cair numa cadeira. - Escutem... O levantamento organizado por Beeteia foi pior do que se esperava. Estranha coisa! Para mim  a coisa mais estranha de toda a minha experincia do deserto... Quando cheguei a Mesa estava l uma multido, um milhar de "Nophas" e de "Nokis" a falarem uns com os outros... e  espera de Blucher e de Morgan. Felizmente para eles tinham sado de Mesa... para expulsarem da reserva qualquer pobre diabo, segundo ouvi dizer. Os ndios pensaram que eles tinham ido a Washington, buscar soldados. Isso arrefeceu-os. Ento alguns ndios velhos falaram  multido, fazendo ver a tolice do levantamento. Beeteia foi levado para longe, para no ser preso. At aqui a coisa foi bem.
Withers fez uma pausa para tomar flego, ou talvez para escolher as palavras que menos impressionassem as duas mulheres que o fitavam, suspensas.
- A noite passada soubemos que o posto de Presbrey ia ser incendiado... - continuou ele. - No acreditei no boato, porque Presbrey est em boas relaes com os ndios. Mas fiquei preocupado. Sa de Mesa e parti a toda a velocidade para casa de Presbrey... e fiquei tranquilizado ao ver que o posto comercial estava inteiro. Presbrey veio ao meu encontro, e parecia excitado. Contou-me que Blucher, Morgan e Glendon tinham estado escondidos no posto durante toda a noite e se tinham ido embora naquele instante, seguindo pela estrada velha, sobre as colinas. Presbrey disse-me tambm que uma grande quantidade de ndios tinha passado por ali nos trs ltimos dias. Ontem desapareceram, e na mesma noite Blucher e Morgan chegaram l.


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- Ouvi O carro deles. Pensei que era o Senhor que regressava... - disse Marian.
- Bem, enquanto eu falava com Presbrey vieram trs "Nopahs"... - prosseguiu Withers. - Percebemos que qualquer coisa andava mal, e por fim soubemos que Shoie estava na entrada do Nugi, com um bando de "Nopahs". Vinham a caminho do posto de Presbrey, para o incendiar, mas tinham sido detidos por Nophaie. Assim, dizendo a Presbrey para me seguir, encaminhei-me para as terras altas. No Nugi encontrei Shoie com duas centenas de ndios. Nophaie estaVa l tambm, estendido debaixo de um cedro, ao lado do cavalo que, aparentemente, ele tinha forado a galopar at morrer. Shoie estava com ele. A minha primeira impresso foi que Nophaie tinha morrido. Mas estava vivo, embora exausto at o ltimo limite das suas foras. Shoie nada podia dizer. Os ndios estavam sombrios. Levei algum tempo para conseguir compreender o que tudo aquilo significava. Mas tenho a certeza de que entendi. Nophaie deve ter ouvido dizer, nas terras altas, que Shoie se preparava para uma das suas malfeitorias. Bem, pelo aspecto de Nophaie e do cavalo, posso afirmar com absoluta segurana que foi uma rude galopada. De qualquer maneira Nophaie conseguiu desviar Shoie e, finalmente, impediu que deitassem fogo ao posto comercial de Presbrey. No parece uma estranha coisa que isso acontecesse, sabendo que Blucher e Morgan estavam escondidos nesse mesmo posto, a essa mesma hora? Shoie t-los-ia queimado vivos. Nophaie  o nico homem que podia ter impedido Shoie de fazer o que queria.
- Ento, foi Nophaie quem lhes salvou a vida a Morgan, Blucher e Glendon?... - exclamou a senhora Withers.
- Bem, no h dvida que foi... - respondeu o comerciante, com uma expresso amarga. -  uma coisa que excede o meu entendimento...

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Presbrey chegou pouco depois e pusemos Nophaie no carro dele, que tem mais espao. No devem tardar...
Emudecida, hirta, sentindo que no poderia conter as emoes que se agitavam dentro dela, Marian foi para o seu quarto, fechou a porta e baixou os estores das janelas. Queria ficar s escuras. Queria que ningum a visse, queria no ver-se a si prpria.
Ento, na obscuridade do pequeno quarto de paredes de tijolo, sucumbiu ao desespero de uma mulher que, uma vez em toda uma vida, se abandona aos instintos primitivos. - "-Oh! Eu podia mat-los... gostaria de mat-los com estas mos!" - soluou ela. Marian ignorava que em si mesma existissem to negros e fundos impulsos. Havia nela uma ferocidade mais bravia do que a da me que defende as suas crias. Sentia uma nsia de destruir, de matar. Ter-se-ia talvez ferido seriamente a si prpria, se no houvesse desmaiado quase em seguida.
Quando recuperou os sentidos encomtrou-se estendida sobre a cama, exausta, com os cabelos em desalinho. Compreendeu lentamente os destroos que a apaixonada emoo tinha feito na sua alma. Espantava-a a prpria violncia dos seus sentimentos, mas no lhe procurava desculpas, nem a lamentava. Logo, numa reaco da sua sensibilidade, deixou-se escorregar da cama e ajoelhou-se, para dar graas a Deus. Adivinhava, sentia que o gesto de Nophaie havia sido dominado pela ideia crist. Nophaie fora sempre um verdadeiro homem, um homem pronto para as aces rpidas, hericas e generosas, mas o gesto de salvar Morgan, Blucher e Glendon, de salv-los da vingana do povo de Gekin Yashi, de salv-los de uma horrvel morte pelo fogo, podia significar apenas uma coisa, que a peregrinao a Naza tinha em verdade iluminado a alma de Nophaie. Marian sabia-o com segura certeza.

385


Uma pancada na porta interrompeu as suas oraes.
- Marian, venha... - chamou a senhora Withers. -
Nophaie chegou...
Levantando-se de um salto, Marian ficou por instantes
de p, trmula, concentrada.
Depois alisou os cabelos e comps de algum modo o desalinho do vestido, tentando ao mesmo tempo apagar da sua cara os vestgios da emoo violenta que a tinha dominado. Ento abriu a porta e encaminhou-se ao longo do corredor. Quando atravessou a sala-de-estar e alcanou a porta que abria sobre o ptio, parecia recomposta.
Atravs da verdura dos arbustos, Marian viu um automvel parado em frente do porto, cercado por um grupo de gente excitada. A senhora Withers, de p, mantinha o porto aberto. Marian parou, do lado de fora da porta. Viu uns ps calados em mocassins, umas longas pernas vestidas de cordovo amarelo que se estendiam para fora do carro, descendo para o cho. Depois avistou um cinto com ornatos de prata, uma escura camisa de veludilho. Reconheceu-os. Moviam-se, e o corao de Marian parecia querer estalar-lhe no peito. Logo a seguir a face bronzeada de Nophaie e os seus cabelos negros emergiram do carro. Withers e outro homem amparavam-no, ajudavam-no a descer.
O olhar ardente de Marian envolveu-o. O seu vulto alto e delgado, to naturalmente impregnado de fora e de harmonia, parecia o mesmo de sempre. Foi ento que ela viu distintamente a cara dele. Aureolava-a uma espcie de sombria irradiao. Nophaie sorriu. E bruscamente todo o glido terror, toda a paralisante agonia abandonaram Marian. Correu ao encontro dele, fazendo parar o pequeno cortejo.
- Nophaie!... - exclamou ela em voz trmula.
- Tudo est bem... - disse ele.

386


Tudo o que era humanamente possvel fazer-se por Nophaie, foi feito sem demora. Mas era evidente que ele estava moribundo, e que a ltima centelha do seu esprito esperava apenas aquele encontro com Marian, para apagar-se e desaparecer.
Marian ajoelhou junto dele.
- Nophaie, a tua peregrinao no foi v... - disse ela, numa voz entrecortada de lgrimas. - Encontraste finalmente...
- o teu Deus e o meu Deus, "Sob a Roch"... - sussurrou ele, com um negro brilho de mstica adorao nos olhos que a fitavam. - Agora tudo est bem... Agora, tudo est bem!...


Algumas horas mais tarde, de p no limiar da porta, Marian olhava os ndios que se afastavam na luz do poente.
Era um ocaso magnfico, imenso, e todo o oeste parecia arder num grande claro vermelho e doirado que se espalhava pelo cu, at o norte, empalidecendo devagar.
Recortados nesse fundo de luz os cavaleiros ndios afastavam-se, em grupos densos, em filas alongadas, dois a dois. Era um cortejo solene e triste. Os ndios vencidos e os cavalos cansados desapareciam vagarosamente no deserto. Shoie, o guerreiro mutilado, foi o ltimo a afastar-se. Pareceu que se voltava ainda para trs, levantando a cara luzidia e sulcada de cicatrizes, num gesto de acusao. Para a frente, os vultos negros, no contra-luz doirado do horizonte, comearam a desaparecer, como se em verdade aquela estranha cavalgada continuasse atravs do esplendor proftico do cu.
- Uma espcie de smbolo... - murmurou Marian.

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- Vo a desaparecer... a desaparecer... Oh! "Nopahs"!... Tudo se resume nuns instantes do tempo, do tempo que passa to depressa... E o meu Nophaie, o guerreiro que partiu antes deles!... Tudo est bem...
Por fim apenas um ndio se avistava no horizonte que escurecia - o solitrio Shoie - curvado na sela, um vulto melanclico, irreal e estranho na luz do sol que morria - andando, diminuindo, desvanecendo-se, desaparecendo - desaparecendo.


FIM


Coleco Zane Grey


     VOLUMES PUBLICADOS:


     1 - At ao ltimo homem;
     2 - O planalto do cavalo selvagem;
     3 - Nevada;
     4 - Sangue, suor e ferro;
     5 - A lei do Oeste;
     6 - Uma aventura no Oeste;
     7 - O guia da montanha;
     8 - O forasteiro de Tonto;
     9 - O Povoado Perdido;
     10 - A Legio da Fronteira;
     11 - Encontro no oeste;
     12 - Arma branca;
     13 - Ouro do Deserto;
     14 - Rio Perdido;
     15 - A oeste do Pecos;
     16 - Fogo Selvagem;
     17 - O batedor do Texas;
     18 - A luz das Estrelas do Oeste;
     19 - Nophaie.


Data da Digitalizao


Amadora, Abril de 2004




